Gina
Escutar atrás da porta era feio, mas foi isso que procurei fazer toda vez que Sirius se reunia ao papai. Às vezes eu tinha de sair correndo para não ser pega em flagrante, mas acho que eles nunca desconfiaram. Eu só precisava ter certeza que Sirius tinha deixado suas suspeitas de lado.
Harry achava que sim – achava -, estava confiante de que havia conseguido convencer seu padrinho, mas não custava checar para ter certeza. Eu estava com medo, porém uma parte de mim acreditava que Sirius realmente não contaria nada para ninguém mesmo que tivesse certeza sobre eu e Harry. Ele podia jogar indiretas e dar dicas, mas gostava demais da gente para estragar nossa família tão friamente. Pelo menos eu me esforçava para convencer-me disso.
Me preocupava como seria quando Sirius fosse embora da nossa casa, porque então ele estaria fora de nossas vistas e não poderíamos mais vigiá-lo. Ele encontraria papai todos os dias no trabalho e sabe Deus o que poderia acontecer. Precisávamos nos esforçar naquele momento para tirar qualquer ideia da cabeça dele para que, quando fosse embora, não carregasse suspeitas em sua bagagem e eu a Harry pudéssemos dormir em paz. Caso contrário viveríamos sempre com receio – com ainda mais receio.
Havia, contudo, algumas coisas que me tranquilizavam, como o fato de Harry ir para a faculdade no outono. Sem ele ali, Sirius não poderia estranhar nossa relação. Então, por hora, só tínhamos de vigiar atentamente nossos passos e rezar para tudo dar certo.
Além de Sirius, duas outras pessoas me incomodavam: Draco e Cho. Ele por ficar me mandando mensagens de textos sórdidas e inconvenientes, mas engraçadas; e ela por ficar com Harry. Eu podia até achar Cho uma garota legal, mas isso não me impedia de sentir ciúmes. Na terça-feira, quando os dois saíram juntos, desejei que fosse eu que ele estivesse buscando para ir ao cinema. Imaginei como seria se, em vez de ser filha dos Potter, eu fosse filha dos Weasley e Harry aparecesse para me pegar para sair. Aí Rony, que seria meu irmão, ficaria fazendo perguntas incômodas a Harry enquanto eu acabava de me arrumar. A gente namoraria durante os anos da escola, iríamos para a mesma faculdade, depois dos casaríamos e teríamos três filhos, porque três é o número ideal. Eu gostava de pensar que as coisas seriam assim se eu tivesse nascido numa família diferente. Todavia, podia ser também que eu nem conhecesse Harry se fosse de outra família.
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Cho apareceu lá em casa na sexta-feira à tarde, como tinha combinado com Harry. Foi um total desperdício: Sirius tinha saído, então não era possível esfregar na cara dele a "felicidade do casal". Mas como Harry também não podia dispensar Cho, ela ficou por lá mesmo.
Eu queria que ela não tivesse sido tão legal comigo. Ela podia ter derramado suco em mim ou pisado no meu pé, porque assim eu pelo menos teria um motivo infantil para odiá-la. Só que nada disso aconteceu. Pelo contrário, ela levou os filmes que ficou de me emprestar e foi muito gentil. Quando pensei que nada podia piorar, Cho sugeriu que assistíssemos a um dos filmes. Estava prestes a dizer que era melhor não quando mamãe, que estava por perto, aceitou a sugestão com muito entusiasmo – ela adorava Cho.
Harry não falou muito. Ele nunca sabia como agir quando eu e Cho estávamos no mesmo cômodo. Tentei ignorá-los, o que não era uma tarefa muito fácil. Perdi a primeira parte do filme observando, em vez da tela, Harry e Cho abraçados no outro sofá. A segunda eu perdi tentando tirar da mente a imagem dos dois se beijando.
Assim que o filme acabou me enfiei no meu quarto. Imaginei que era hora de Harry e Cho ficarem sozinhos, e logo confirmei minhas suspeitas: ouvi vozes e em seguida a porta do quarto dele se fechando. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, o que não fazia ser mais fácil.
A primeira chuva de verão caiu naquela tarde. Fiquei observando as gotas grossas e pesadas caírem do céu e se perderem no nosso quintal, formando poças. Acho que perdi uma boa hora assim.
- Toc, toc. Posso entrar?
Desviei os olhos lá de fora e encarei a porta, onde estava Cho.
- Claro.
- Sua mãe pediu para Harry ir ao supermercado por um instante comprar não sei o que para comermos. Posso ficar aqui com você?
Droga.
- Pode. Você não quis ir com ele?
- Ir ao mercado não é um programa muito legal, ainda mais com essa chuva – ela se sentou na ponta da minha cama. – O que você está fazendo?
- Nada, só observando a chuva. Quando eu era pequena, sempre fugia de casa para tomar banho de chuva – sorri, porque aquela era uma lembrança boa. – Eu e Harry arrancávamos nossas roupas, pegávamos xampu e sabonete e...
- Acho que vocês queriam tomar banho na chuva literalmente.
- Exato. Nós ainda éramos pequenos, tínhamos 4 e 5 anos, algo assim.
- Você e Harry são muito amigos. Será que é assim com todos os irmãos?
Dei de ombros.
- Ouvi dizer que os filhos da Molly... A Molly Weasley, sabe quem é?
- Sei – respondeu Cho.
- Então, ouvi dizer que os filhos dela estão sempre brigando, mas deve ser briga de irmão. Lá são 6 homens né, aqui só tem eu e o Harry. Você tem irmãos?
- Não, sou filha única – Cho sorriu e eu também, mais por não ter o que fazer do que por qualquer outro motivo.
Deitei com os pés na cabeceira da cama, observando a chuva cair lá fora. Cho se deitou também, mas em posição contrária à minha. Era uma situação muito estranha nós duas ali.
- O Harry é bem peculiar, não? – ela começou depois de um tempo.
- Peculiar? Como assim?
- Ele é... diferente dos outros caras. É cheio de não-me-toques. Te trata com tanto respeito que às vezes incomoda.
- É? – tentei soar indiferente, mas o assunto me interessava.
- É. Eu sei que deve ser estranho para você ouvir isso, mas ele está sempre me afastando. Quer dizer – ela se sentou, me encarando -, não me afastando propriamente dito, mas sinto uma distância intransponível nele, sabe? Como...
Quão bizarra era aquela conversa! Discutir Harry com Cho!
- ...se só parte dele estivesse ali comigo, porque a outra parte é inalcançável. Ele não me dá tudo que pode, não sei porquê. Desculpa – ela estava com os olhos cheios d'água –, é que... Eu gosto dele de verdade, sabe? Depois que o Cedrico morreu, pensei que não fosse gostar de mais ninguém, mas eu gosto do Harry. Eu o amo.
Simplicidade e verdade. Foi isso que vi naquelas palavras, e foi isso que doeu. Mas não era uma dor minha, era a dor de Cho. Eu lamentei por ela, por pura empatia, porque Harry nunca gostaria dela do jeito que ela estava dele. Nunca. Afinal, a "distância intransponível" que ela sentia em Harry era por minha causa. Cho não podia tê-lo por completo porque ele já era meu.
Eu sempre havia pensado em Cho como a vilã da nossa história, porém ela não era vilã nenhuma. Ela gostava do Harry de verdade, como eu. Era fácil imaginar o que ela sentia, amar alguém sem ser amado de volta.
Tive vontade de chorar por Cho.
- Talvez Harry não te mereça – me sentei também. – Talvez ele seja um cretino. Você sabe... homens.
- Não, Harry é diferente. – e ele era mesmo - É por isso que eu gosto dele, foi por isso que eu gostei dele depois do Cedrico.
O vilão era Harry. A vilã era eu. Nós estávamos enganando Cho. Ela, que perdeu Cedrico não havia muito tempo. Ela, que dizia que amava Harry...
- Eu sinto muito, Cho.
Sinto por tudo. Pelas mentiras, omissões, por te usar para convencer Sirius, por ter te odiado por tanto tempo. Por você não ter o Harry. Mas eu preciso tanto dele...
- Não sinta, eu... Argh, é besteira minha! – ela se esforçou para sorrir – Eu vou lavar o rosto para espantar essas lágrimas. Ninguém quer tristeza por aqui.
Assim que ela desapareceu porta afora, desabei novamente na cama, com a consciência pesada. Harry estava enganando e usando Cho. Ela gostava dele. Eu fazia parte daquilo. Era parcialmente responsável por um coração partido.
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Recusei o lanche me mamãe preparou e passei o resto da tarde no quarto. Soube depois que Sirius chegou com papai quando Harry estava saindo para levar Cho em casa – chovia muito ainda. Estava me sentindo miserável por Cho, por mim e por Harry. Pela vida. Talvez eu devesse sair para me distrair, mas já seria ótimo se eu levantasse da cama.
Nesse momento que meu celular apitou. Mais uma SMS idiota de Draco: sexta à noite preso dentro de casa (castigo). por que vc não passa aqui para fazermos alguma coisa?tenho mais daquela erva.
A mensagem me lembrou que eu tinha de sair com Draco um dia para exibir a Sirius minha suposta felicidade com meu suposto caso. Não tinha marcado aquele encontro ainda porque não estava com humor - não quando estava tão preocupada com que descobrissem sobre eu e Harry. Além do mais, não estava muito a fim de ver Draco.
O celular apitou novamente. Outra SMS: e aí, alguma chance de vir aqui hoje?
Não, Draco, não mesmo.
- Gina? – a porta do meu quarto foi aberta, revelando (surpreendentemente) Sirius – Lily pediu para você descer para jantar.
- Não estou com fome.
- Ok.
Ele já ia fechar a porta de novo, mas no meio do caminho desistiu.
- Você está bem? - dei de ombros - Parece abatida, Gina.
- Estou cansada. Exausta, na verdade.
- Na sua idade isso só pode significar uma coisa: rapazes. Quem é ele?
Harry. Harry, Harry, Harry, Harry, Harry...
- Draco. Ele é um babaca – o que não era mentira.
- Vocês brigaram ou algo assim?
Assenti. O motivo do meu desânimo não tinha nada a ver com Draco, mas aquela era uma boa oportunidade para fazer Sirius pensar que havia alguma coisa entre nós.
- Deveria conversar com ele. E fazer isso antes que outra garota o faça, se é que me entende – Sirius deu uma piscadela.
- Talvez seja melhor não.
O celular avisou o recebimento de outra SMS: acho que não, não é?, dizia a mensagem de Draco, que pena. acho que vou ter de chamar outra pessoa.
– Levante dessa cama e vai lá falar com ele. Eu te cubro com Lily e James, falo para eles que uma amiga sua te ligou e você foi encontrá-la.
- É melhor isso ficar para outro dia. Não estou...
- Gina, deixa de ser covarde. Vai atrás dele.
Sirius saiu do meu quarto e fechou a porta. Eu respirei fundo e pensei por alguns minutos.
Por Harry e por mim, me levantei e fui tomar um banho. Então trocar de roupa, subir no ônibus e aparecer na porta de Draco.
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Eu devia olhar o lado positivo: a) eu me distrairia e b) me livrava logo daquilo. Cedo ou tarde eu teria de encontrar Draco para convencer Sirius, então era melhor fazer isso de uma vez. Como eu jamais levaria Draco na minha casa a fim de mostrar meu "relacionamento feliz", a opção era ir até ele. Eu até podia ir ao cinema e dizer a Sirius que havia encontrado Draco, mas e se ele perguntasse aos Malfoy se apareci na casa deles? Aí eles diriam não, porque eu realmente não teria aparecido, e tudo soaria muito suspeito. Bufei. Teria mesmo de ir lá. Não que estivesse evitando Draco, eu só estava com muitas coisas na cabeça e às vezes ele era tão infantil e imaturo, apesar de conseguir ser agradável quando queria. Que ele queira ser agradável hoje, foi meu pensamento ao descer do táxi.
Chovia torrencialmente e, mesmo com sombrinha, me molhei bem até chegar à porta dos Malfoy. Ao tocar a campainha, desejei que, por favor, por favor, por favor, aquela noite não fosse uma merda total. O dia já havia sido ruim o bastante.
- Gina, que surpresa agradável! – Draco falou, com leve ironia, ao abrir a porta - Eu não podia imaginar que você apareceria na minha casa em uma sexta-feira à noite tão terrível, com tanta chuva. Isso só pode ser uma vontade louca de me ver.
- Ha-ha – ri sem humor, entrando e me dirigindo às escadas. – Você é tão engraçado, Draco.
- Que bom que você pode ver minhas qualidades.
Um minuto depois abri a porta do quarto dele e me sentei em sua cama. Então, lá estava eu. E aí?
Um grito seguiu esse pensamento. Um grito agudo que percebi vir da minha própria garganta quando Draco se jogou sobre mim, derrubando-me na cama.
- PORRA! – ele era um babaca, mil vezes um bacaca! – O QUE VOCÊ QUER, ME PARTIR AO MEIO?! – saí de baixo dele com esforço e vi que sim, eu estava inteira. – VOCÊ É ESTÚPIDO E BRUTO!
Então... eu comecei a chorar. Pensei que nunca pararia, porque as lágrimas caíam, caíam e caíam sem que eu pudesse detê-las. Quanto mais tentava me controlar, mais chorava.
O estranho era que eu nem sabia o porquê de chorar. Havia muitas razões – eu, Harry, Cho, Sirius -, mas as lágrimas não pareciam cair por nenhuma delas. Ou talvez caíssem por todas. Eu não sei.
- Ta tudo bem – ouvi a voz de Draco bem perto, só me dando conta daquele momento que ele me abraçava –, você pode chorar.
E foi exatamente isso que fiz: chorei. Só parei não sei quanto tempo depois, mas demorou.
Preciso ser justa aqui: Draco foi gentil. Ele podia ter rido e feito uma de suas piadas idiotas para tentar me distrair, piorando as coisas, porém ele me abraçou e trouxe água com açúcar (que todos sabem que é inútil) para me acalmar. Eu estava com sorte. Aquele era um dos dias que ele queria ser agradável. Ou talvez Draco estivesse sendo agradável só comigo. Mas esse pensamento era muito prepotente.
- Obrigada – lhe entreguei o copo depois de beber um gole mínimo, porque água com açúcar era horrível.
- 'Ta melhor?
- Estou. Não preciso disso – recusei os lenços de papel que ele oferecia -, estou melhor. Na verdade, estou ótima.
- Verdade?
- É – tentei sorrir, mas sei que o que saiu foi algo como uma careta. - Então, como você está?
- Bem, mas acho que você está mudando de assunto.
- O quê?
- Por que você estava chorando?
Dei de ombros, com um sorriso sem graça dos lábios e olhos se desviando para o chão.
- Pela vida – respondi –, pelas pessoas. Pelas verdades e mentiras, pelos segredos. Por quem a gente ajudou a magoar.
Nós estávamos sentados na cama de Draco. Nesse momento ele se remexeu, virando mais de frente para mim.
- Quem você ajudou a magoar?
Pensei em Cho, mas respondi ninguém. Ninguém?, ele duvidou, e eu garanti que não, ninguém. Então Draco disse:
- Você é estranha, Gina Lily Potter.
Eu sabia que aquilo era um elogio, porque para Draco ser normal era um tédio. Eu, todavia, teria apreciado ser normal - com uma vida normal, família normal, relacionamento normal, felicidades banais e cotidianas. Mas isso não era, nunca foi para mim.
- Não chore de novo – a voz de Draco estava dividida em um tom de diversão e súplica -, não lido bem com pessoas chorando. A menos que o motivo das lágrimas seja eu.
- Posso ficar aqui por um tempo? Não vou demorar.
- Não foi pra isso que você veio, para ficar aqui e me ver? – ele deu seu sorriso mais devastador, mas eu era vacinada contra o charme barato de Draco. A não ser que, bem, eu decidisse o contrário.
- Obrigada.
Tirei o tênis e deitei na cama, de costas para ele. Pouco depois senti sua mão na minha cintura e seu peito se colar às minhas costas. Draco começou a falar, mas eu não ouvia nada, deixa as sílabas, palavras e frases se esvaírem no ar. Apertei os olhos o máximo que pude e, pensando em Harry, fingi que era ele ali. Quase que deu para acreditar.
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Meu celular tocou por volta das 23h. Era mamãe perguntando se eu ia demorar. Disse que não, que logo ia embora da casa de Luna.
- Venha direto para casa – ela me aconselhou. – Pegue um táxi, ainda está chovendo muito.
- Pode deixar, mamãe – abaixei a voz quase sem perceber. – Harry já chegou?
- Já. E você, mocinha, cuidado para não se resfriar. Toda essa chuva!
- Tchau, mamãe - desliguei.
- Você já vai? – Draco ainda estava deitado às minhas costas, abraçado a mim. Até um instante antes do meu telefone tocar ele dormia, eu podia ouvir sua respiração tranquila atrás de mim, mas havia acordado.
- Está tarde.
- Dorme aqui – ele pediu enquanto eu procurava meus tênis.
- Não.
- Por quê?
- Achei! – enfiei os tênis sem dificuldade - Não vou transar com você, Draco.
- Não precisamos transar. Podemos apenas nos divertir.
- Não quero me "divertir" com você. Não estou com cabeça para essas coisas. Boa noite e obrigada por tudo - passei a mão em minha bolsa e saí do quarto, torcendo para não encontrar Narcisa ou Lúcio; seria muito embaraçoso.
- Ei, espera! – Draco me alcançou em poucos passos – Fica mais.
- Não posso, mamãe me mandou voltar.
- Ah, vamos lá, Gina, não nos vemos há séculos – suas mãos se enroscaram na minha cintura.
- Draco – afastei suas mãos de mim, séria -, o que você quer de mim pode ter muito mais facilmente de qualquer outra garota.
- Mas a graça está no desafio.
Tive de sorrir.
- Você me ignora – ele continuou – e isso é um desafio. Você nunca mais voltou em nenhuma das minhas festas na piscina desde aquele dia.
Eu e Harry havíamos resolvido dar um tempo das festas de Draco.
- Não tive vontade. Agora preciso mesmo ir, ainda tenho que achar um táxi...
- Você não veio de carro? – ele continuava em meu encalço.
- O carro está com Harry.
- Eu te levo em casa.
- Não precisa, de verdade – já na porta, parei de frente a ele –, você já fez o suficiente por mim hoje.
Eu ia abraçá-lo, mas, em vez de aceitar meu abraço, ele me beijou. Eu realmente não queria seus lábios em mim naquela noite, por isso o beijo não durou muito.
- Boa noite, Draco.
Saí para a chuva e abri minha sombrinha. Draco não foi atrás de mim. Andei até o portão, o abri e segui rua afora.
Chovia terrivelmente. Eu podia ter ligado para um táxi ter ido me pegar, mas queria andar e pensar para encontrar as respostas para as perguntas que eu mal sabia quais eram. Talvez Harry estivesse certo e devêssemos fugir, simplesmente desaparecer.
- Ei, Gina! – um grito e um farol de carro. Me virei e Draco estava ali na rua, paralelo a mim, em seu carro – Entra aqui, não seja orgulhosa.
Olhei de um lado para o outro. Tudo que havia por ali eram mansões enormes e bem iluminadas, nenhum movimento. Realmente era mais sensato pegar uma carona...
- Ok – dei a volta e entrei no carro –, mas você vai me deixar na esquina da minha rua, porque ninguém sabe que eu vim aqui hoje.
- Oh, a doce Gina Potter está mentindo para os seus pais? Que feio!
- Dirija, Draco.
- Sabe – ele falou um minuto depois com sua melhor voz de sacana -, é melhor você tirar esse vestido molhado. Vai pegar um resfriado.
- E você, muito gentil, vai se oferecer para me esquentar?
- Bem, essa ideia foi sua, mas admito que é muito tentadora.
- Não acho que papai vai gostar muito disso.
- Ele não precisa saber.
Paramos em um sinal, numa rua vazia. Senti a mão de Draco em meu pescoço. Sua pele quente na minha fria. Eu não queria que ele me tocasse. Aquela era uma sexta-feira e, no domingo, faria uma semana que eu nem chegava perto de Harry. Queria que Harry me tocasse.
- O sinal abriu – disse eu.
Ouvi um suspiro pesado e logo o carro voltou a andar. Me enchi de pânico; voltava para casa e Sirius estava lá. E se todo meu esforço e de Harry tivesse sido em vão? Se Sirius não tirasse suas ideias da cabeça? Mas nós fomos convincentes, não fomos? Saímos com outras pessoas e tudo. Harry havia feito um trabalho tão bom que Cho estava apaixonada por ele. Ela - não como eu, nunca como eu - o amava.
- Chegamos.
Draco, negligenciando meu pedido, estacionou em frente à minha casa. Merda, pensei, que papai não veja. Papai não acha Draco um bom rapaz, e ele realmente não é.
- Obrigada – já havia lhe dito aquilo tantas vezes naquela noite que me tornava repetitiva -, boa noite.
- Só isso? Tudo que eu ganho é um "obrigada, boa noite"?
- O que mais você quer? Oh! – levantei minha mão, sorrindo – Não responda, vai ser melhor assim.
Ficamos apenas nos olhando por um tempo. Foi mais por agradecimento do que por vontade que, por fim, me aproximei de Draco e lhe beijei. Bem ou mal a gente tinha uma história - ou algo do tipo -, e ele havia sido gentil comigo, me emprestando seu ombro e tudo. Ele merecia...
- Não – afastei seus lábios do meu pescoço e sua mão de baixo do meu vestido. - Esse não é o momento nem o lugar.
- Quando então? – havia um tom faminto na voz de Draco.
Dei de ombros. Amanhã, depois, talvez nunca.
- Quando não estiver chovendo. Tchau, Draco
Saí do carro para a chuva antes que ele pudesse dizer algo mais. Bati a porta e, pelo vidro, encarei Draco protegido dentro do carro. Ele partiu um momento depois.
Fiquei parada segurando a sombrinha por mais algum tempo. A chuva caía sem parar e, por algum motivo, me fazia sentir viva, presente. Eu era parte de algo muito maior, que era a natureza. Bem, provavelmente eu só estava um pouco sentimental.
Não podia ficar ali para sempre e logo me forcei a voltar à realidade. Notei meu carro estacionado não muito longe de mim, o que provava que Harry realmente já estava em casa.
Destranquei a porta da frente e entrei. Joguei a sombrinha em um canto e tirei os tênis, observando a sala escura, com velas aqui e ali. A energia obviamente tinha acabado.
- Oi.
Pulei de susto com aquela voz, vinda da minha direita. Era Harry, encostado na janela e olhando para fora, para a rua escura e vazia. Sua expressão era de poucos amigos.
- Oi.
Aos leitores:
Esse capítulo pode não ter sido de grandes acontecimentos, mas ele abriu espaço para certas coisas importantes acontecerem na fic. Espero que tenham gostado, assim como espero a review de vocês.
Ando sentindo falta de alguns leitores. Por onde vocês andam, hein?
Abraços,
Lanni.
PS: Não sei se viram, mas coloquei "Perdidos na Rotação" em hiatus. Sinto muito, mas terei de lidar com uma fic de cada vez.
Respostas as reviews:
ooo Grace Black: Sirius é um cara esperto, tem os olhos bem abertos, o que realmente pode ser ruim para o Harry e a Gina, mas vamos ver onde isso acaba. Sobre PnR, acho que infelizmente você terá de esperar E4P terminar para continuar lendo aquela história. Beijo!
ooo G. Granja : Obrigada, rs. Espero que você continue lendo, se divertindo e apreciando a fic. Beijo!
ooo Bruxinha Potter Weasley: É, a chegada do Sirius foi um tanto tensa. Sabe Deus o que a volta dele pode desencadear! As coisas podem se complicar... ou não. Beijo!
ooo Aurons: Melhor capítulo? Sério? Puxa, que bom que você gostou. Aliás, acho que nunca te "vi" por aqui. Essa é a primeira vez que você comenta ou eu estou viajando? Beijo!
ooo Anna Weasley Potter: Claro, é natural que o Harry e a Gina tentem esconder a relação deles, afinal ela não seria julgada como normal ou correta, não é?
Jornalismo é legal, mas provavelmente é totalmente diferente do que você pensa que é. Quer dizer, depois que entrei faculdade vi que jornalismo era muito diferente do que eu imaginei que era. É um trabalho duro e, se você quer mudar o mundo, não te aconselho a escolher essa profissão. Não é o que eu quero fazer para o resto da vida, de qualquer forma. Beijo!
ooo Debora Souza: Sirius é esperto, atento, e é por isso que ele está desconfiado, não porque "conhece o Harry tão bem quanto a Gina conhece". De qualquer forma, nossos protagonistas precisam manter os olhos abertos. Beijo!
ooo Patty Carvalho: "Cada vez melhor?" Puxa, assim espero. Quero mesmo que a fic agrade cada vez mais. Beijo!
ooo Srta. Monica Black: Oh, adoro novos leitores! Eles sempre têm algo novo e interessante a acrescentar.
Agradeço pelas suas palavras gentis. Achei-as interessante também e espero que você continue acompanhando a fic e goste do rumo que ela terá. Para isso, entretanto, é preciso ficar de olho no que virá por aí. Beijo!
ooo fairy malfoy: Ah, a Gina pode ser um tanto inconstante de vez em quando, mas quem não é? E a gente muda de opinião também, é algo que simplesmente acontece de acordo com que vivemos.
Bem, para você que gosta do Draco, ele apareceu mais um pouquinho nesse capítulo e foi bem legal, não? Logo ele aparece de novo para "fazer acontecer" um pouco mais.
"Harry coitado, (...) agora ele tá sofrendo um pouquinho". É verdade. Beijo!
ooo gisllaine farias: Hahaha, fico feliz que tenha gostado tanto assim da fic. De certa forma, há muito para acontecer ainda.
Essa coisa de amor que você disse, um amor "igual ao da Gina e do Harry". Eu não acredito nesse amor, nesse amor de livros e canções, esse amor romântico perfeito e idílico. E foi por isso que escrevi E4P: para um amor assim existir, teria de ser proibido, intolerável. Ou seja, um pouco sujo também. Um tanto humano.
Minha intenção na fic não foi conciliar o desejo e a repulsa, o "fruto proibido", como você disse - mas esse é um ponto interessante sobre o qual vou pensar -, apenas quis contar uma história de um amor puro, intenso e sincero que só existiria realmente em histórias. Um amor que não se vê na vida real, sabe? Algo para as pessoas pensarem, para elas abrirem os olhos para determinadas coisas que podem acontecer (mesmo sem elas saberem) na casa vizinha ou até mesmo na sua própria casa. Queria que as pessoas pensassem, e só.
Provalmente a primeira vez deles terá NC sim, ou pelo menos o melhor que eu puder fazer sobre isso. Beijo!
ooo RaFa Lilla: O Sirius nessa história só poderia atrabalhar (ou esquentar) as coisas, não? Mudando de assunto, acho que realmente não demorei para atualizar - duas semanas exatas. Espero que tenha gostado do novo capítulo. Beijo!
ooo Thamires: "Falta muito pra alguém descobrir sobre os dois?" Será que alguém vai descobrir sobre esses dois? Bem, é claro que não posso responder essa pergunta, a única forma de obter a resposta é continuar lendo a fic. Mas as coisas, creio, ficarão interessantes e, de certa forma, cada vez mais extremas daqui para a frente. Continue acompanhando e verá. Beijo!
ooo sophie caine: Ah, mas é claro que eles são irmãos - feliz ou infelizmente, depende do ponto de vista. Se eles não fossem irmãos, não haveria história, pois E4P é muito sobre os conflitos internos de cada um deles e dos problemas que os laços do Harry e a Gina causam. Beijo!
ooo Claire Adamson: Obrigada! Se você gostou de E4P, recomendo que leia "Perdidos na Rotação", outra fic minha onde também tentei fazer algo diferente. Espero continuar te "vendo" por aqui. Beijo!
