Bonjour, meu nome é Francis Bonnefoy. E acho que devo falar de Arthur Kirkland, certo? Acho que ele não se lembra de mim. Eu sou francês mas lá pelos 6 anos fui morar na Inglaterra e conheci um molequinho baixinho, teimoso e prepotente da minha idade no meu bairro novo. O nome dele era Arthur e ele não era lá muito amigável. Demorou mas eu consegui me aproximar dele, nosso primeiro contato foi marcado pela neve. Eu era criança, avistei um alvo (que também era criança) e decidi que seria legal "fazer amigos". Acertei ele na cara, ele virou bem na hora em que joguei! Aquele pequenino pacote de roupas de frio caiu no chão como se fosse literalmente um... pacote. Fiquei preocupado e fui ajudar.
– Ei, você tá legal? – acho que deixei meu sotaque transparecer demais.
– Malditos franceses, se acham os donos do mundo, Napoleão era um boboca se quer saber!
– Que?
– Não se faça de desentendido, idiota, vocês franceses querem conquistar a Inglaterra né? Que pena que somos muito muito muito mais fortes que vocês. – se levantou, pegou um galho de arvore perdido no chão e segurou como se fosse uma espada. Você consegue imaginar o pequeno Arthur assim? Queria voltar no tempo com uma câmera fotográfica, não, uma filmadora mesmo.
– Relaxa, mon ami, eu não quero dominar a Angleterre, me mudei pra cá e só quero um amigo.
Observando agora, eu era até maduro pra minha idade, ou talvez minhas memórias convenientemente me mostram isso sem ser verdade, vai saber. Apesar disso tudo, brincamos muito juntos na infância, principalmente de guerra e espadas, ele ainda não confiava plenamente em mim. Mas como um bom francês, ao longo do tempo eu fui conquistando-o. Quando eu tinha cerca de 11 e ele 9, estávamos brincando de guerrinha de Idade Média quando eu ganhei e sequestrei ele. Foi bem engraçado, o coloquei nas costas e levei pro meu quarto e fechei a porta.
– Rá, você perdeu, Arthur, agora terá que ser meu prisioneiro. Aqui é meu castelo e você agora é minha rainha!
– Eu? Rainha? – ele não falava com tom de ultraje, mas de confusão mesmo.
– Sim, eu venci a guerra. Posso fazer o que quiser com você agora. E estou te fazendo minha rainha, legal né?
– Mas... não tem que ser mulher?
– Então você será minha mulher também, não só hoje, como pra sempre, onhonhon.
– Mas... eu vou ter que usar vestido?
– Arthur, mon amour, você ficaria fabuloso de vestido. – ele ficou vermelhinho, por deus, eu daria tudo pra ter essas lembranças todas filmadas.
E fizemos nossa cerimoniazinha e tudo mais. Roubei um vestido da mamãe e um par de saltos, o terno de papai e um dinossauro gigante de pelúcia foi o nosso padre. Foi lindo e coisa e tal, e aí que eu queria ter isso registrado mesmo. Sabe, é coisa boba de criança mas... não sei, acho que é minha lembrança preferida e talvez por isso eu tenho resolvido te contar. Eu não menti quando disse no "altar" que o amava, eu não menti que seria para sempre.
Alguns meses depois, papai arranjou uma promoção no trabalho mas teríamos que nos mudar para os EUA. Não queria, é claro, mas nunca fui de fazer birra. Poderia manipular até os resultados serem como eu planejo? Sim, mas seria injusto, foi o que ele sempre quis na vida. E viemos para cá. Anos depois, quase 6, se estou correto, Arthur simplesmente surge na minha sala, de todos os lugares desse país, de todas as escolas nessa cidade. E não sabe quem eu sou.
Eu sei que não foi nada muito épico ou marcante, foi uma amizade de infância (ou um casamento). Mas eu me importo demais, é claro! Sabe por quanto tempo ele foi a pessoa mais preciosa para mim? Não que eu não tivesse a oportunidade de ter outras pessoas bem preciosas mas eu sempre escolhi não porque... Arthur. Sabe, dói. Não que eu esperasse que ele simplesmente chegasse saltitando e me abraçando, só que um "oi, quanto tempo" seria muito reconfortante. Mas ainda assim, ele não parece ter reconhecido nem um pouco, não age estranhamente por perto nem nada. Eu não entendo.
Acho que você já entendeu o que ele mudou na minha vida e já entendeu minha frustração, não é? Temo que tenha ficado curto demais, então vou te contar "como andou minha vida desde então".
Bom, mudei-me para cá na 6ª série e não demorou para que ficasse amigo de Gilbert e Antonio, se quer saber sempre fizemos um trio e tanto. Da nossa sala atual, tinha Alfred, Elizaveta, Kiku, Matthew e Mathias (fora Gil e Antonio, claro). É engraçado como as pessoas entram e saem da nossa vida tão rápido, ninguém que saiu durante esses anos me é memorável. Enfim.
Tinha outro garoto na nossa sala que falava francês, Matthew, conversamos pouco durante esses anos mas nada muito longo. Ele me parece muito tímido, não foi falta de tentativas, antes que me repreenda. Vez ou outra puxava assunto – tanto ele comigo como eu com ele – mas acabava rápido. Ele é canadense, se não me engano. Apesar de não sermos lá os melhores amigos, é sempre bom ouvir falando sua língua. Me lembra de casa, apesar de não ter tido muito tempo lá para recordar. Achei relevante mencioná-lo.
Gilbert, Antonio e eu sempre fomos aquele grupo de amigos que toda sala tem com o único objetivo de tocar o terror na escola. Não que fizéssemos isso abertamente, claro que de forma anônima, mas temos nossa marca. Afinal, que artista não assina seus quadros?
E somos meio que heróis, se você quer saber. Uma vez mudaram o diretor, que sempre foi o Otho (que por acaso também é professor) e a diretora nova era uma megera. Infernizamos ela como nunca infernizamos o Otho. Apesar de que ele sempre foi legal, só que precisávamos de algum alvo, certo? Enfim, mas a pior falta dela foi piorar a comida que serviam na cantina. Com comida não se brinca. Fizemos um tempero especial, continha vários tipos de cocô (desde cachorro e gato até cavalo e Antonio, o que não é muito diferente), vômito de Gilbert e uma pitada de catarrinho de quando fiquei gripado. Ficou uma obra prima. Mas ela não soube diferenciar essa mistura do purê que ela pedia num restaurante que entregava todo dia lá. Quando ela notou o gosto estranho, percebeu nossa cartinha amigável pra ela por debaixo do prato, se demitiu. Honhonhon, só dei a ela a receita!
Pensando assim, nem é tão deprimente assim. Quer dizer, claro que seria muito bom se o Arthur me notasse mas... eu estou contente o suficiente com os amigos que tenho. Até porque, competir com o Alfred seria complicado.
