Escreverei isso supondo que Antonio nunca o leia, se isso vier a acontecer, minha vingança será lenta e dolorosa, estou confiando em você. E se você for o mínimo inteligente possível, já sabe quem é o meu "ele".

Eu nunca fui de me apegar, não que agora eu seja, mas as únicas pessoas que sempre me importaram são meus pais, meus irmãos e meu único avô vivo – meu nonno, por assim dizer.

Sobre meus pais, não tenho nada de muito extraordinário para lhe dizer, nossa relação é bem monossilábica e nos comunicamos mais apenas pelo essencial, as pessoas dizem que somos frios e temos problemas de comunicação. Elas não aceitam que nem todos são exagerados. Na verdade eu sou muito feliz com essa "falta de comunicação".

Meus irmãos são Feliciano e Biancheri, os quais você já conhece. Nada muito extraordinário sobre Biancheri, mas Feliciano é meu irmão gêmeo, você pode imaginar o vínculo? Eu o conheço desde antes de conhecer minha mãe. Eu sou o mais velho, que fique claro, e admito aqui – mas só aqui e nunca em voz alta – que sou superprotetor.

Meu nonno você também conhece, o Otho. Ele é um cara bem legal até – e muito mais superprotetor que eu –, e agora estou morando com ele e meus irmãos, prefiro isso a ir para a casa da minha mãe. Não é ela meu problema, é que ela arranja namorados indesejáveis demais. Mas imagina a felicidade do Otho ao saber que de todas as pessoas eu me envolvi logo com o Antonio. Ele sabe que podia ser pior, que podia ser... O Gilbert? Não, não podia mesmo!

Depois que minha nonna morreu, ele ficou muito deprimido e começou a frequentar um psicólogo, o Sr. Erik Beilschmidt. Ele ficou muito melhor e apaixonado pelo cara. É até bonitinha essa história. Hoje eles vivem juntos, brigam bastante mas são muito felizes, e o nonno arrastou ele para trabalhar aqui na escola, dando aula de história. Bom, você também conhece o Erik. Ele também é um cara legal, principalmente quando você precisa de conselhos. Talvez porque ele já foi psicólogo (?).

E agora acho que posso incluir Antonio nessa lista. Sabe, geralmente quando as pessoas veem minha cara de rabugento elas já se afastam e sempre preferem Feliciano, mas Antonio insistiu e isso me deixou muito feliz (não que eu ainda me sinta a vontade para demonstrar o quanto, mas estamos indo bem). Claro que eu acho 95% das pessoas estúpidas e inclusive nunca me importei com isso, mas eu não percebi o quanto eu era solitário até deixar ele "entrar".

Mas isso nunca tinha acontecido, eu nunca tive amigos, eu não sabia como reagir, prosseguir, iniciar nem nada. A única coisa que me dava ideias de como interagir eram meus livros, mas são livros... a situação aqui é realidade. Até por quê, acho que não teria coragem de tentar ter esses diálogos de livro com Antonio, não por ser ele, mas talvez por medo da reação. Apesar de que, pensando agora, não seria de todo ruim, considerando o quanto ele já penou porque ao invés de copiar os livros eu sou chato para caralho. Talvez ele até preferisse. Ou ele é masoquista mesmo.

O primeiro dia em que fui à casa dele, o planejado era chegar, almoçar, ir embora. Não tão secamente assim para que não aches falta de educação, mas o básico era esse.

Ele me buscou em casa, falou com o nonno, me levou até sua casa, no caminho perguntou sobre mim e tudo mais. Falamos sobre romance literário, o "tipo" que eu gosto... Mas ainda assim guardo o segredo de venerar romances comerciais. Não sei explicar, eles trazem um tipo de esperança, como se alguém fosse cair de paraquedas na tua vida e bagunçá-la toda até que fique... perfeita, não importa o quão chato ou feio ou sem sal você é. Mas ainda assim, novamente, diga que gosta de Crepúsculo em público e veja o bullying acontecer – ainda mais sendo homem.

Quando chegamos ele abriu a porta do carro para mim, me apresentou a seus pais e fomos esperar no jardim. Nesse ponto eu só conseguia pensar que no fundo era exatamente isso que eu sempre quis mesmo, tudo parecia tão... perfeito. Retirado de um livro.

Estávamos conversando – eu sentado, ele deitado, lado a lado – quando em meio ao assunto (não, eu não vou transcrever muitos diálogos aqui, não espere) ele me puxou e então caí em cima dele. Eu meio que entrei em pânico e fiz de tudo para sair dali. Eu iria estragar tudo, só queria mais tempo para tentar ficar... encantador. Sim, encantador para ele. Todo mundo diz que Feliciano é, essa seria minha única oportunidade de ser para alguém. E então ele disse que estava se esforçando, para que eu me esforçasse para confiar mais. Eu estava a beira do choro, me esforçando já!

E então... então ele me beijou. Na bochecha. Segurou meu rosto em suas mãos e me virou para encará-lo.

– Posso? – eu genuinamente não entendi o que ele quis dizer e acho que ficou bem evidente pois seu próximo movimento foi passar os dedos delicadamente sobre meus lábios. Oh. "Bosta, é claro que eu quero mas eu não quero ter que dizer sim". Corei fortemente e respirei fundo, tentando criar coragem para dizer mas tudo o que consegui foi menear a cabeça. Ele sorriu e se abaixou, foi se aproximando devagar e meu nervosismo aumentando a cada centímetro que a proximidade diminuía.

– Meninos, está pronto, venham! – o pai dele chamou, de dentro de casa mesmo, pelo menos ele não viu a cena. Logo quando nossos lábios se tocaram, mas só tocaram. Puta merda viu. Ele levantou e me puxou – levantando-me também, duh – e seguimos nosso caminho. Mas pouco antes de entrar, ele se virou para mim, segurou meu rosto novamente e puxou de encontro ao dele. Agora sim isso foi um beijo. Rápido, mas foi. O suficiente para deixar ambos radiante? Bom, Antonio é sempre radiante, imagina agora. Mas eu fiquei muito feliz de verdade também, acredite, é um grande passo, certo? E enfim entramos.

Nesse ponto eu só conseguia pensar que... esse era o começo do meu livro.