Em algum dia das primeiras semanas eu fui falar com ele, dar "dicas", esperar que ele recorde ao menos a minha voz.
– Bonjour, Francis Bonnefoy a seu dispor.
– Arthur Kirkland. – não que ele estivesse parecendo a pessoa mais doce desse mundo quando fui puxar assunto em sua mesa, mas ele não respondeu tão secamente quanto seu comum, o que já sugere um melhor avanço. Rabugento? Óbvio. Mau educado? Ele é inglês.
– E então, o que está achando da escola?
– Faz jus à fama.
– Sério? Eu não acho que sejamos tão ruins assim.
– Pois é, nada pessoal. – hmm, estou retirando minhas colocações anteriores.
– Entendo. Mas saiba que agora você faz parte do somos, Arthur Kirkland. Você é o que as pessoas dizem sobre nós? – levantei antes que pudesse responder. Queria fazer o misterioso, honhonhon. Fui lá atrás falar com Gil e Antonio.
– Cara, aquela é a presa do Alfred, afaste-se. – Gilbert disse.
– Como assim? Presa? Alfred, o Virgem quer entrar nas calças do inglesinho?
– Parece que ele finalmente quer dar uma roçadinha na calabresa com alguém, não estrague. Você já sai pegando todo mundo e ele quer só um.
– Oh, mona mi... Não poderei fazer esse favor a Alfred. Aquele é um prato especial para mim.
– Por que tudo pra você é sexo? Ele gosta do guri, não quer só ralar a paçoca como você! – Tonhão guerreiro do amor lutando contra as mazelas dos pervertidos.
– Ah, por favor. Ele nem o conhece direito!
– E você conhece, Fran? – aaah o sorriso cínico do Gilbert atinge mais que uma chuva de canivetes.
Os dois me encaravam esperando a resposta. Merde.
– Eu vejo tudo o que preciso nos olhos dele.
– Eita porra, ó lá, Antonio, o Francis já tá confundindo olhos com bunda.
– Francis, não precisa se fazer de santo, somos seus amigos – que me zoariam até a morte se soubessem o porquê –, te conhecemos, mas enfim... Cê que sabe, vou lá pro meu lugar, Lovi já chegou.
– Ai que merda, não dá nem pra chamar vocês de escravos de buceta!
– Não to querendo o Lovi assim... Não agora... Talvez um pouco... Mas... Ok, tchau.
– Também, o tempo que te levaria pra conseguir...
Ele me deu dedo e seguiu seu caminho. Engraçado como até dando dedo ele faz da forma mais sorridente e simpática o possível. É até reconfortante, o ar que Antonio exala. Enfim, me virei para Gilbert e perguntei:
– E você, coelho?
– Eu o que?
– Ninguém?
– Claro que não, eu sou muito foda pra me apaixonar e meu Gilbird muito livre pra voar por uma pessoa só.
– Elizaveta?
– É.
– Quem diria que logo você de nós três é o hetero, ohonhon.
– Cala a boca.
A professora chegou e começou a aula. No intervalo, decidi que era mais do que necessário ir implicar com Arthur. Na fila do lanche, cheguei bem pertinho do seu ouvido – claro que eu não me importei em furar fila – por trás – e claro que Jones estava olhando, claro – e disse no meu mais sedutor tom de sussurro:
– Então, conte-me, novato... Como é fazer parte da horda agora?
Pude notar que Alfred estava visivelmente alterado com a cena. Ótimo. Teria sido, se Arthur não tivesse me respondido com uma cotovelada nas costelas. Bom, agora Jones estava visivelmente alegre! Está decidido que não se pode ter uma grande conquista sem levar o adversário a sério. Mas nesse caso, nessa situação em especial, eu deixaria passar.
Nesse mesmo dia, mais tarde, aproveita uma troca de professores e me sentei ao lado dele enquanto Kiku... Aonde Kiku foi? Sei lá.
– Bom, Kirkland, acho que começamos com o pé esquerdo. Eu não pretendia ser rude nem nada.
– Ok.
É como os americanos dizem... "that lil shit". Mas isso não me faria desistir, é claro, já passei por piores.
– Escuta, para me redimir, quero te levar ao lançamento do livro de um amigo meu. Eu notei que você gosta de livros e tudo mais.
– Um bom livro não faz de todos os ruins aceitáveis.
– Não tem como você sabe se esse é ruim sem conhecer.
– Não estou julgando o livro. É uma metáfora, seu amigo e você, respectivamente. Reflita.
– É sério, Arthur. Dê uma chance. Eu te busco em casa e te levo de volta assim que você quiser, se não gostar... Prometo.
Passou um tempo calado, analisando as alternativas. Finalmente se virou para me encarar, abriu a boca, fechou, olhou ao redor pela sala como se procurasse algo, voltou a mim e disse:
– Tudo bem. Eu vou contigo. Mas, não tente fazer avanços. E se eu quiser sair de lá, vamos sair de lá.
– Você que manda. – mas eu tive que fazer um movimento ousado, claro que eu tive. Dei um beijo no rosto dele antes de sair. É algo extremamente normal para os seres humanos, mas para Arthur é proximidade demais um "estranho" como eu fazer isso. Mas saí dali antes de qualquer reação. Fui me juntar ao resto da "gangue".
– Puta merda, Francis, sério. Cê não quer furar o olho do Antonio também não?
– Mona mi, não é furar o olho quando ele não tem nada físico.
– Na verdade...
– Na verdade o que, Antonio? Vai me dizer que já deu uns pega no tesouro do diretor? Kesesese.
– Bom, foi só um beijo. Mas já está em andamento.
– Esse é meu garoto! E tem mais, se Arthur preferisse o Alfred, não sairia comigo hoje a noite.
– Francis, olha, você quer mesmo o Arthur tanto assim ou é só pra implicar com Alfred?
– Eu prometo a vocês que é algo além, ok? Mas é muito importante para mim.
