Título: Cold hands, warm heart
Classificação: K+
Capítulos: 5/5
Completa: [X] Sim [ ] Não
N/a: O capítulo final! Tomei a missão de desenrolar as coisas, e o fiz. Será que fiz à altura do que vocês esperavam?
Queria agradecer muito muito muito a super beta Nina. Sem a sua ajuda ainda estaria batendo a cabeça no teclado com a cena final.
E... há algumas ideias que não consegui transmitir nesse final, por ser cedo demais, e pra fazer um fechamento estava pensando em um epílogo, o que acham?
Como prometido postei um capítulo por dia, como em uma contagem regressiva, e amanhã tem episódio novo! \o/
OhJack, Ms. Pad's, Brennanite, Aline, Angie, mary-gwg, muito obrigada pelos seus reviews incríveis!
5. Uma fuga, um encontro
*Para ler ouvindo: Brendan James – The sun will rise*
I won't dwell, baby, on my failures.
(Não vou me alongar, baby, em meus fracassos)
It won't help, baby, it won't bring changes.
(Não vai ajudar, baby, não vai trazer mudanças)
I won't run, baby, when all I want is to run.
(Eu não vou correr, baby, quando tudo que eu quero é correr)
I won't forget the morning sure to come.
(Eu não vou esquecer da certeza da manhã por vir)
The sun will rise, the sun will save me from the night.
(O sol vai nascer, o sol vai me salvar da noite)
The sun will change me, change the way I feel.
(O sol vai me mudar, mudar a forma como me sinto)
The love I want, the love I need is sure to come,
(O amor que eu quero, o amor que eu preciso com certeza vai vir)
Is sure to lead me, lead me home again.
(Com certeza vai me guiar, me guiar de volta para casa)
Na madrugada fria, uma luz insípida começava a lançar sua força no céu escuro. Brennan estava sentada em sua sacada, quieta. Estivera lá por muito tempo, desde que chegara, tarde, do trabalho. Depois da discussão com Booth, ela havia ido diretamente para o Jeffersonian e trabalhara sem pausa, nem mesmo para conversar com um ou outro de seus amigos que vinham tentar puxar assunto. E quando chegara em casa, sentiu sua mente tão vazia, se sentiu tão solitária no enorme apartamento, que resolvera se sentar ali, com a companhia das estrelas, acompanhando um e outro ruído de veículos ou de pessoas andando na rua, ouvindo o rumor baixo e constante da cidade, da vida.
Pouco depois da meia-noite ela havia ouvido um carro parar na rua, mais embaixo, e uma porta se abrir. Quando se inclinou, viu uma SUV escura estacionada, e um homem alto saindo dela.
Não soube bem o que sentir ou pensar. Booth viera se desculpar? Queria, mais uma vez, tentar conversar? Isso trazia uma sensação quente ao seu peito, mas também... também havia algo mais... ela sentia que ainda estava magoada com ele, e por um ínfimo momento pensou na possibilidade de não atender a porta do apartamento quando ele batesse.
Se inclinando levemente para observá-lo, ela viu o agente trancar o carro, então parar, e mirar a rua vazia. Então deu dois passos na direção da entrada, parou, passou a mão na cabeça. Deu mais dois passos mas, antes que pudesse chegar à portaria, estancou e ficou congelado por alguns segundos.
Brennan inclinou o corpo para trás quando notou que ele erguia a cabeça. Todas as luzes do apartamento dela estavam apagadas e ele iria assumir que, ou ela estava dormindo, ou não estava em casa.
Ela se inclinou na sacada novamente, vendo que ele entrava no carro para ir embora. Respirou aliviada, mas apenas por alguns segundos. Quando viu o carro se pôr em movimento e sumir na rua escura, um aperto se formou em seu peito. O que havia acontecido com ela? O que Booth havia feito a ela?
A luz ia ficando mais amarelada agora, alcançando lugares que não alcançara antes, e Brennan imaginou que devia estar perto da hora de sair para trabalhar. Foi quando se levantou da cadeira onde estivera sentada que ouviu a campainha tocar.
Se sentiu paranóica por isso, mas lançou um olhar à rua lá embaixo. Nenhuma SUV estacionada.
Chegando à porta, ela estranhou o que viu pelo olho mágico. Um entregador.
-Temperance Brennan? – perguntou o rapaz quando ela abriu a porta.
-Sim, sou eu.
-Esta entrega é para você.
Ela recebeu a cesta das mãos do homem, e ela era pesada.
-Quem enviou?
-Ele não deixou nome, senhora. Mas parecia bem ansioso em lhe mandar isso, mal tínhamos aberto a loja, e pediu para entregarmos com urgência.
Ela agradeceu e fechou a porta, levando a cesta até a mesa. Soltando o papel colorido que a envolvia, ela pôde observar o conteúdo dela.
Frutas, pão integral, um pacote de café da melhor qualidade, biscoitos com fibras, uma caixa de chá verde. Ela puxou uma xícara de porcelana delicadamente trabalhada, para vê-la melhor, quando viu uma nota que repousava no pires.
Mãos frias, coração quente
Você conhece essa expressão, Bones? Pra mim, ela é sua tradução.
Mesmo que ninguém veja, você tem sentimentos muito profundos e um grande coração. Você não precisa de situações extremas para forçá-la a sentir.
Me desculpe se eu esqueci isso nos últimos meses, se eu esqueci quanto tudo isso poderia te afetar. Me dê uma chance de me redimir.
Ps. Se estiver se perguntando sobre a cesta, fiquei sabendo que você anda trabalhando demais, sem parar para comer. É um lembrete. Se cuide.
Um sorriso se formou nos lábios da antropóloga. Era algo involuntário, que não poderia deixar de se manifestar quando ela pensou em Booth recomendando que ela desse uma pausa e comesse. Algo que ele havia feito tantas vezes antes e que ela, apesar de fingir irritação, apreciava.
E de repente, Brennan sabia para onde ir e o que fazer. E nada de sua determinação mudou enquanto trocava de roupas, ou enquanto chegava ao Edifício Edgar Hoover pelo eixo principal, que o ligava à Casa Branca.
Ela o viu de longe. Sentado na escadaria, o terno dobrado sobre sua perna, a cabeça baixa, entre as mãos.
Como ela sabia que o encontraria ali? Ele não dera pista alguma no bilhete, mas ela... sabia. Quase que como seu instinto tivesse dito. Não, isso não era possível. Ele tinha esse instinto, ela não.
Quando ela estava na ponta da escadaria, ele esfregou o rosto com as mãos, erguendo a cabeça. Então a viu.
Os dois ficaram a se encarar por alguns segundos, sem se mexer, sem esboçar reações. Ela percebeu que ele não devia ter dormido, e vice-versa.
-Eu menti.
Brennan sentiu o vento soprar, bagunçando seu cabelo, enquanto tomava compreensão das palavras.
-Eu menti para você e para a Hannah. Eu menti para mim mesmo.
Ela ficou no mesmo lugar, esperando ele continuar a falar.
-Sei que nada justifica o que eu fiz, mas eu fui cego, Bones. Eu devia ter percebido que você ainda não estava pronta para o que eu pedia, eu devia ter visto que você precisava de tempo. Eu devia ter visto quanto te machuquei, ao me enganar em um relacionamento sem fundamento. Há tantas coisas que eu devia ter visto...
-Você me magoou, Booth. – disse Brennan, as expressões tocadas por uma aura de tristeza. – Eu me esforcei tanto em aceitar tudo da melhor forma possível, em aceitar que você havia seguido em frente e estava feliz. Mas você me afastou, eu...
Ela parou, sem saber se estava pronta para dizer aquilo em voz alta, contar aquilo a ele.
-Eu precisei de você. Eu passei por um momento difícil, e precisei do meu amigo. Mas ele não estava lá para mim.
O senso protetor de Booth chacoalhou seu peito e ele se pôs de pé, a face contorcida com angústia.
-Bones, eu sinto tanto...
-E agora eu não consigo mais trancar tudo isso e não mais me importar, eu não consigo! Eu tentei me fechar como sempre faço, mas eu não consigo mais Booth... – uma lágrima escorreu pelo rosto claro, deixando um rastro brilhante na face – O que você fez comigo?
Booth desceu dois degraus, cauteloso.
-Você está sentindo, Bones. Não é o que queria?
-Eu não quero me sentir magoada, da mesma forma que me senti quando meus pais foram embora! – disse ela, mais duas lágrimas rolando pelo rosto.
E foi o suficiente para Booth, que desceu os degraus que faltavam e se pôs à frente dela.
-Por favor... – disse, sem encostar em Brennan – Me deixe ser seu amigo de novo?
Ela o mirou nos olhos. Um olhar penetrante sim, mas também um olhar despido. Ela estava brava e com medo, mas queria muito dar aquela chance a ele.
-Que garantia eu tenho de que você não vai me magoar novamente?
-Nenhuma. Eu não posso lhe dar garantia nenhuma, Bones, assim como você não pode me garantir que nunca mais irá me magoar novamente. A única coisa que posso lhe oferecer são minhas palavras, a promessa de que vou me esforçar ao extremo em reconstruir nossa antiga confidência, e de que vou fazer de tudo para que você nunca mais tenha motivos pra deixar de confiar em mim.
Brennan meneou a cabeça devagar, finalmente deixando que ele a abraçasse, a confortasse, como já havia feito antes. E naquele momento Booth não teve pressa, a deixou chorar, a deixou sentir o aperto na garganta se desfazer e as mágoas serem lavadas. Vários minutos se passaram até que a respiração dela se normalizasse, e ele se afastou a mirando nos olhos.
-Bones... desde a vez em que nos encontramos aqui, naquela noite, eu fiz tanta coisa errada. Eu te assustei, indo rápido demais, e então desisti rápido demais. Mas o que tínhamos faz muita falta para mim, e quero pedir para que... possamos reavivar nossa amizade. Eu vou lhe provar que você pode restaurar sua confiança em mim.
-Eu sempre confiei em você, Booth. Mesmo em nossa pior fase essa confiança não foi quebrada. Talvez abalada, mas nunca quebrada.
Ele sorriu.
-Obrigado, Bones.
Os dois sustentaram o olhar por vários segundos, sentindo-se extasiados em saber que aquela ligação ainda existia, que o tempo ou o afastamento não a haviam modificado.
-Então lhe proponho algo. – disse Booth baixinho - Hoje fechamos um ciclo. O ciclo que começou naquela noite em que fiz minha aposta. Vamos trancar a sua negação, que me magoou, e a minha negação que lhe magoou. Vamos começar do zero agora, está bem?
Brennan concordou minimamente, mas não respondeu.
-No que está pensando, Bones?
-Que você podia fazer sua aposta novamente.
-Do que está falando?
-A mesma aposta que você fez aquela noite, Booth. Agora é o momento certo.
Ele começou a sorrir, se interrompeu, fez uma expressão surpresa, e sorriu de volta.
-Você quer dar uma chance a isso, a nós?
-Você não quer?
-Eu estou dentro se você estiver dentro.
-Mas não é essa a definição de aposta, Booth! Você tem que arriscar!
-Deixei meus tempos de jogatina para trás, está bem? Perdi muito da última vez que arrisquei.
Brennan o mirou, sua expressão triste, seus olhos castanhos úmidos e desfocados. Ele a havia magoado, mas ela o magoara antes. E, uma das coisas que aprendera com ele era que a evolução existia. Os dois passariam por aquilo, e sairiam melhores de tudo que acontecera. Mais fortes, e mais experientes para o que ainda estaria por vir.
E encarando Booth, Brennan percebeu que dessa vez não era ele quem faria o papel de jogador. Era a vez dela de arriscar. Se aproximando devagar, ela o encarou até que seus narizes estivessem a míseros milímetros de distância. Então fechou os olhos, sentindo o sabor doce que tanto desejara. O sabor de estar em casa, nos braços de seu amigo. Antes que tudo, seu amigo.
