Demorei com o segundo capítulo, não é? Peço desculpas a quem está lendo. Mas aqui está, finalmente! Vou tentar não demorar tanto com o próximo...

Ah, sim... Fanfic não betada.

Boa leitura!

Segunda Chance

~Um conto de Romeo, Julieta e Zumbis~

Era um dia normal para Kiku, até o momento em que se assustou por ser chamado e um criado trazer um envelope para si. Esperava sim o contato de Arthur, mas não tão rápido! Reconheceu a caligrafia do envelope dizendo que eram as traduções dos contos que desejava ler, agradecendo e dispensando o mensageiro, fechando-se novamente no próprio quarto para abrir o envelope. Sentia as mãos trêmulas, mas desdobrou os papéis. Em meio a várias histórias, havia a mensagem que realmente queria. Respirou fundo antes de ler as palavras:

"Querido Kiku,

Após pesquisar, encontrei uma pessoa disposta a nos ajudar. É um jovem xamã que disse ter a solução para nosso problema.

Ele irá visitá-lo em poucos dias para um chá com Yao, certifique-se de aparecer e também tomar. Não se assuste e não demonstre saber quem ele é, aja normalmente.

Estarei fora da cidade por alguns dias. Seguindo as instruções desse xamã, vou preparar uma moradia longe de todos. Não se preocupe, logo estarei com você.

E não se esqueça: eu te amo.

Arthur Kirkland"

Se não estivesse sentado, provavelmente cairia no chão. Abraçou a folha junto a si, silenciosamente concordando com o que estava escrito. Se era sua única chance, iria seguir minuciosamente as instruções.

Não demorou para que o dia chegasse. Recebeu o aviso de que no final da tarde receberiam um convidado de outra cidade e era para estar pronto, pois ele desejava cumprimentá-lo pela união.

No final da tarde o sacerdote chegou, trajando roupas adequadas e de bom gosto, sendo colocado à presença de Yao, que mandou chamar seu irmão mais novo. Ao ser chamado por um dos empregados, seguiu-o até a sala do chá, atraindo a atenção do irmão ao entrar.

- Oh, Kiku! Já está pronto, aru? Ele veio de fora e ficou sabendo do seu noivado, então resolveu cumprimentá-lo, aru.

O mais velho falava indicando o jovem de pele morena, o qual Kiku observava fixamente, podendo reparar que ele colocava algo dentro do chá, mas não se alarmou. Se era da confiança de Arthur, não poderia fazer nada que prejudicasse o andamento do plano.

- Meus parabéns pelo noivado! Soube que vai se casar. Por favor, tome chá conosco.

- Claro, será um prazer.

Sorriu em resposta, sentando-se e pegando a xícara, aproveitando o chá junto com seu irmão e o convidado. Mesmo sabendo que tinha algo ali dentro, iria confiar em Arthur. Era por ambos.

Chegado a hora de se deitar, recolheu-se. Sentia certo desconforto tomando conta de si, mas não havia de ser nada. Pensando nisso, deitou-se despreocupadamente, sem imaginar que não acordaria mais.

x

O alvoroço foi geral.

Kiku demorou a se levantar, então Yao pediu para que alguém o chamasse, mas não adiantou. Ele não respirava e não tinha sinais no pulso. Rapidamente, foi ordenado que um médico fosse trago de imediato ali – o mais perto fora o escolhido. Deixando o homem que tinha na sala para trás, foi atender o caso urgente que aparecera.

Diagnóstico: Morte. O coração parara de bater e a respiração não era mais realidade. A pele estava sem calor, como se a noite tivesse o roubado. O irmão mais velho ficou em choque e se agarrou ao corpo de Kiku, não deixando que fizessem qualquer tipo de autópsia ou exame mais detalhado. Não permitiriam que profanassem o corpo do seu amado irmão! Os mais novos também ficaram em choque com a notícia. O que não se abalou tanto assim ficou de cuidar dos outros. Mas agora não tinha nada mais para fazer do que preparar o velório e o enterro, embora não tivesse forças para tal – então deixou que Alfred cuidasse dos preparativos.

Como uma família influente, todos queriam mostrar suas condolências mediante o ocorrido, então o velório, realizado naquela mesma noite, foi aberto ao público. Yao estava inconsolável, quase sem conseguir agradecer a todos que compareceram, chegando a um ponto que somente abraçou os irmãos menores que ainda tinha consigo.

- Kiku... Por quê? Volte, por favor, aru! Kiku... por favor...

Doía. E muito. Todos ficaram incomodados ao ouvir o choro alto do oriental em meio a lamentos baixos, tão dolorido quanto o próprio choro. Estava desesperado, como se houvesse perdido tudo ou uma parte de si, ao menos. Do que adiantava toda a riqueza do mundo se quem lhe era precioso não estava consigo? Era seu irmão, carne da sua carne, sangue do seu sangue! Queria abraçá-lo mais uma vez, sentir seu calor...! Quanto tempo não o fazia...?

Mas este calor não existia mais.

O choro de Yao fez seus irmãos também se desesperarem, mas preocuparam-se em impedi-lo de chegar mais perto. Ele se livrou, aproximando-se do caixão, visualizando a face pálida e gélida do menor. Parecia até um anjo... Um pequeno anjo que não abriria mais os olhos. O branco da vestimenta tradicional se misturava às flores de aroma agradável, como se assim fosse trazer paz ao jovem. Pensando nisso, os joelhos de Yao cederam ao peso.

O ambiente estava carregado de tristeza e dor e não era por menos: a morte era um evento irreversível e isso assustava as pessoas quando postas frente a frente com ela.

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O dia seguinte amanheceu nublado, as nuvens carregadas como chumbo. O caixão foi levado até o cemitério no alto de uma colina e muitos acompanharam com o olhar, visto que o sepultamento seria fechado ao público.

- Conseguiu falar com o Arthur, aru?

- Não. Parece que ele viajou para tratar de alguns negócios.

O asiático se calou com a resposta de Alfred. Ninguém ali estava nos seus melhores ânimos, nem mesmo o loiro. Não que ele se preocupasse com Arthur - não gostava dele – mas sabia que ele e Kiku se estimavam bastante, então queria que ele estivesse presente, embora não fizesse questão. Com o olhar baixo, tomou a frente, olhando para o caixão fechado suspenso sobre a cova. Nunca mais veria o rosto de Kiku. Nunca mais. Suspirou como se isso fosse aliviar a dor de seu coração incompleto, pegando um papel das mangas longas e o desdobrando. Yao tinha a expressão abatida e não era por menos: não conseguiu dormir à noite...

- Fico feliz que todos estejam aqui, aru. Eu preparei algumas palavras... Se não se incomodarem, vou lê-las, aru – engoliu o choro, tentando manter a visão limpa para fazê-lo. – Despedidas sempre tiram algo, aru... A despedida do dia, sendo trocado pela escuridão da noite. A chuva que tira o lugar do sol... Despedidas acompanham perdas, aru. E isso assusta. E machuca... Alguém sempre é deixado para trás, aru... - não conseguia continuar, o choro estava vencendo-lhe novamente, começando a correr sem aviso prévio pelo rosto. – Desculpem-me, aru...

A voz falhou, morrendo na garganta antes que as novas palavras se formassem. Alfred, percebendo o estado que o outro mostrava, aproximou-se, recebendo o pequeno papel em que o texto estava escrito com caligrafia trêmula. Respirando fundo, continuou:

- Quem é deixado para trás sofre. Mas tem algo que não pode ser levado: nossas lembranças. As lembranças boas de quem amamos e por ventura partiram antes de nós, o sorriso, um gesto de gentileza. E hoje nós nos despedimos de alguém que nos trouxe vários momentos bons. E esses momentos nunca vamos perder, pois estão gravados em nossa memória... Se estão aqui é porque foram cativados por Kiku. E sofrem com sua perda. Mas estando aqui por amá-lo... Não vamos deixá-lo morrer completamente. Em nossa vida, sempre existem anjos. E, apesar da saudade, pode-se ter a certeza: eles sempre estarão conosco.

Terminado o discurso, o loiro abaixou a cabeça, deixando que uma lágrima solitária escorresse pela face. O caixão foi abaixado lentamente e um a um as pessoas foram jogando suas rosas brancas sobre ele. A cerimônia não contava com muitas pessoas: alguns estavam ali por Yao e estes se mostravam impassíveis, apesar de complacentes; outros por Kiku, estes chorando ou ao menos se mostrando tristes.

- Kiku...

Alfred chamou uma última vez ao jogar sua, sabendo que nunca mais obteria resposta. E a rosa dele se destacava das demais: era azul. Mas, para ele, não podia ser diferente. Aquela cor lembrava o oriental: tranquilo, reservado, apesar de afetuoso. Ao jogar a sua, sentiu um pingo cair sobre si. Levantando o olhar, sorriu tristemente ao ver que começava a chover.

Era apenas o céu chorando a perda da terra.

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Dois dias depois...

Três da madrugada, as ruas estavam desertas. Um jovem encoberto por um capuz adentrou o cemitério da cidade, deixando sua carroça de lado, caminhando até o túmulo com uma pá. Lentamente foi retirando a terra, até sentir algo o impedindo. Pela luz da lamparina viu que alcançara o caixão. Com um sorriso torto, abriu a tampa do mesmo, tocando com a mão suja de terra a face do menino.

- De agora em diante, vai fazer tudo que ordenarem...

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