Aqui está a continuação. Boa leitura!
Segunda Chance ~
Abriu os olhos lentamente, mas só se deparou com uma escuridão opressora. Tentou se mexer, mas era como se estivesse paralisado por uma força maior, a respiração fraca garantindo-lhe a vida. Desesperador. A voz não saía, a garganta arranhava e não tinha sequer noção de onde estava... Até que aconteceu. Ouviu alguns sons que pareciam longínquos e quando menos esperava visualizou um vulto. Não enxergou bem sua face, mas pode entender as palavras que lhe eram direcionadas:
- De agora em diante, vai fazer tudo que ordenarem. Isto é, se não quiser voltar para esse lugar.
O jovem disse, querendo acabar com qualquer vestígio de sanidade que o menor poderia ter. Assustado, o asiático somente conseguiu assentir de leve com a cabeça, sentindo uma dor aguda como se os músculos houvessem atrofiado pela falta de uso. Sabendo disso, o rapaz misterioso levantou-lhe o corpo nos braços como se fosse nada, deixando-o deitado para voltar a tapar o túmulo. Quando terminado, cobriu o outro com uma coberta grossa, levando-o até a carroça previamente separada e indo rumo ao seu destino.
A carroça balançava um pouco, mas nada que pudesse machucar a Kiku – ele era importante para si, estava sob seus cuidados. Já longe o suficiente da cidade e do cemitério, parou próximo a um riacho, deixando que os cavalos bebessem água e indo até o asiático. Já em um local seguro, retirou o sobretudo preto, deixando-o de lado e revelando as roupas rasgadas e deixando os músculos à mostra, o tecido branco em contraste com a pele negra. E ele parecia familiar... Mas a mente do oriental estava nublada, sendo forçado a se sentar.
- Logo vamos chegar. Aqui.
Retirou de uma bolsa uma garrafa com uma forte bebida alcoólica, segurando o queixo do menor e forçando que ele bebesse o conteúdo para que recuperasse os movimentos mais rapidamente. Kiku sentia a bebida descer rasgando a garganta, mas conseguindo engolir a maior parte, apenas um pouco escorrendo pelo canto dos lábios.
- Isso... – afastou a bebida e retirou um pedaço de pão, fazendo o mesmo processo de forçá-lo. – Coma isso.
Com dificuldade, conseguia obedecer ao moreno que estava surpreso como um corpo tão pequeno reagiu tão bem à droga – não demonstrava qualquer resistência – e ele tinha até ficado com medo de matá-lo por se tratar de alguém tão aparentemente frágil, mas tinha boas condições financeiras, então não lhe faltava saúde.
- Bom garoto. Sorria quando chegarmos.
Deu dois tapas leves nas faces do asiático para deixá-las com cor, sorrindo como se para mostrá-lo como deveria ser feito. O sacerdote prosseguiu com a viagem que não durou por muito mais tempo: após alguns minutos chegaram a uma casa pequena e rústica. Quando a carroça parou, o moreno ajudou o oriental a caminhar, duvidando que ele fosse capaz de se manter de pé sozinho. E realmente não era capaz disso, apesar de se esforçar. Chegando à porta, o mais alto bateu na madeira e logo foi atendido por Arthur – este já estando mais do que ansioso pela chegada de ambos.
- Finalmente chegaram!
Adiantou-se, aproximando-se dos dois e abraçando Kiku com certa força, mas ao não obter resposta afastou-o de si pelos ombros, fitando-o com preocupação.
- Você está bem?
O menor assentiu de leve, achando que não tinha voz para responder.
- Ele está bem cansado. Deixe-o descansar e tente não salgar a comida demais e nem deixá-lo comer de forma exagerada... Ele pode ficar confuso – explicou o xamã, estendendo a mão em seguida. – O restante do pagamento?
- Ah... Aqui está.
Arthur sentiu-se desconfortável pela maneira como ele falou do oriental – parecia que ele explicava como cuidar de um cãozinho – mas retirou o restante do dinheiro do bolso, já previamente separado, e pagou devidamente o sacerdote. Se Kiku concordava, não tinha muito que fazer. Após contar o dinheiro e ver que estava tudo acertado, o sacerdote se retirou. Vendo-se a sós com Kiku, levou-o com cuidado até um banco na varanda, agachando-se em frente a ele, pousando as mãos sobre as que o outro tinha sobre o colo. Não conseguia evitar sorrir, fitando-o com gentileza. Agora poderiam ficar juntos para sempre.
- Estou tão feliz, Kiku... Está muito cansado?
O asiático sorriu como lhe foi dito, concordando com a cabeça em um gesto leve, arriscando murmurar:
- Sim...
Ficou sem graça, achando que o outro não desejava falar, erguendo-se e tomando-lhe a face entre as mãos. Fechando os próprios olhos, beijou-lhe a testa, encostando-as em seguida.
- Vou te levar para se deitar, está bem?
O menor assentiu, logo tendo o corpo erguido e sendo levado para a parte de dentro da casa. Esta tinha poucas coisas, apenas o suficiente para que vivessem sem problemas. Arthur levou o asiático até a cama, deixando-o deitado ali. Vencido pelo cansaço, embarcou em uma noite sem sonhos.
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Após deixar Kiku dormindo a parte do dia, ao anoitecer Arthur preparou um jantar que julgou delicioso, resolvendo ir chamar o menor. Sentou-se no colchão, balançando-lhe de leve o corpo, chamando com voz suave:
- Kiku, está na hora do jantar. Vamos comer? Você precisa se alimentar.
O menor sentiu o corpo ser balançado, mas inicialmente não esboçou nenhuma reação. O gesto de se voltar para o loiro foi lento, fitando-o de maneira vazia como se ainda não tivesse assimilado o que era para fazer no momento.
- Quer que traga a comida aqui?
Indagou com carinho, levando uma das mãos a face alheia, tocando-a e acariciando-a de leve, mas ainda sim, mesmo já de frente para Arthur, Kiku não demonstrou algo mais além. Vendo que o asiático ainda demonstrava dificuldade, o loiro levou um prato com a sopa que preparara até ele, ajudando-o a se sentar para alimentá-lo. Pelo visto, as coisas iam demorar a voltar ao normal.
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Uma semana e Kiku mantinha-se naquele estado, mas Arthur fazia de tudo para que ele ficasse bem. Já estavam jantando, quando o loiro lembrou-se de algo, soltando uma exclamação.
- Recebi alguns poemas interessantes! Vou pegá-los para ler para você, pode continuar comendo.
Kiku concordou, continuando a comer. O gosto estava diferente... tinha mais sabor, aparentemente. A verdade é que Arthur, por falta de atenção, acabou colocando mais sal do que fora recomendado na comida, por isso o menor estranhava um pouco o sabor.
Ao retornar, Arthur se deparou com a mão do outro trêmula, pousando uma das mãos no ombro dele com preocupação.
- Você está bem, Kiku? Aconteceu algo?
Estava angustiado, sem saber o motivo. Afastou a mão de si, correndo para o lado de fora de casa, deixando o loiro atônito. Dois segundos depois se recuperou, não podia deixar o oriental daquele jeito! Deixando os papéis sobre a mesa, saiu atrás do asiático.
- Kiku! Espere! – conseguiu alcançá-lo, segurando-o pelo pulso. – O que houve?
O moreno tentou se soltar, forçando o braço, mas ficou tonto. Caiu de joelhos no chão, sentindo o estômago revirar e náuseas, não conseguindo segurar a vontade de vomitar, eliminando tudo que tinha no estômago. Arthur ficou segurando os cabelos negros, acariciando-os para tentar fazê-lo se sentir melhor. Quando viu que o menor se acalmara, ajudou-o a voltar para casa, sentando-o no banco da varanda.
Aquela noite estava fresca, então faria bem ao menor, a luz alta no céu, brilhando junto às estrelas cintilantes. O loiro pegou um copo de água e os poemas que deixara de lado, oferecendo o líquido ao oriental.
- Aqui está, beba um pouco. Vai se sentir melhor.
Viu o menor assentir, tomando lentamente o conteúdo do copo oferecido. Arthur também se sentou, sorrindo com as folhas em mãos.
- Não se preocupe, certo? Você devia estar confuso... Quer continuar o que fazíamos? Estou com os poemas aqui.
Quem sabe assim ele não se animava? Mesmo sem resposta, os olhos verdes se fixaram nos papéis.
- Ouça esse, Kiku... Nunca lhe disse nada/Só agora estou falando/Pois o que sinto por ti/Vai aos poucos me matando
No decorrer dos anos/Cada vez mais ele cresce/Meu coração não suporta/O meu corpo é quem padece/Faço tudo para te esquecer/Mas o meu coração não esquece
É triste o meu viver/Você talvez não saiba/Quando vier a saber/Talvez já seja tarde/É tão grande o meu amor/Que no coração não cabe (*)
Fez uma pequena pausa, voltando o olhar para o oriental que, ao menos, o observava – já tendo terminado com a água do copo, deixando-o de lado. Não conseguiu evitar sorrir serenamente, passando um dos braços em torno dos ombros dele, fechando os olhos ao encostar os lábios na testa do outro.
- Não é bonito...? Eu fico feliz que não há mais um abismo entre nós.
Puxou o menor de leve para si, encostando as testas. Arthur entreabriu os olhos, fitando a face do outro, acariciando-a. Trouxe-a para perto, encostando os lábios com leveza, logo os entreabrindo, tocando com a língua os do outro, tentando criar uma brecha para aprofundar o beijo... Mas Kiku não retribuía, fazendo com que se afastasse, voltando o olhar para as palavras impressas. Será mesmo que não havia nenhum abismo? "Cada dia eu sofro mais, Estando perto e distante". De algum jeito, aquelas palavras faziam sentido.
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Já se passara um mês e nada. Kiku permanecia sem reação, executando apenas algumas tarefas simples – como varrer a casa – depois de ter visto Arthur fazê-las. E sempre que era deixado sozinho, ficava quieto em algum canto com o olhar vazio, exatamente como agora. E isso machucava Arthur, além de fazê-lo se perguntar se aquela situação era ou não permanente. Aproximou-se por trás do menor silenciosamente, abraçando-o com força e murmurando contra a curva do pescoço dele:
- Eu te amo, Kiku... Você consegue entender isso? Volte para mim.
Apesar da fala e saber o que aquela palavra significava, não sabia se conseguia entender perfeitamente. E voltar como? Já estava ali. O asiático apenas deixou-se ser abraçado, mantendo os olhos presos no vazio.
Não recebendo resposta alguma, uma reação que fosse, sentiu algo queimar dentro de si. Empurrou-o, obrigando o menor a se deitar, colocando-se por cima com as pernas intercaladas e os braços ao lado do corpo dele. Suspirou pesadamente, beijando a pele exposta do pescoço de Kiku com voracidade, subindo os lábios até a orelha dele, mordiscando-a e sussurrando de maneira provocativa:
- E então? Agora você consegue sentir meu amor...?
Queria apenas uma reação. Qualquer uma! Mas nada veio. O menor apenas fechou os olhos com o baque contra o chão, sentindo como se um arrepio percorresse-lhe as costas, mas levantou o olhar para fitar Arthur, como se imaginando como deveria responder para satisfazê-lo.
Nada.
Não importava o que fizesse, ele não fazia nada. Afastou-se um pouco, apoiando-se nas mãos, sem se dar conta de que lágrimas escorriam por sua face. Arthur ficara tão preocupado em tê-lo para si que se esqueceu que o que mais gostava era a gentileza de Kiku... Esqueceu-se de que ficava feliz ao ver seu sorriso, mesmo de longe. E agora não tinha mais nada: o que restou foi apenas um boneco vazio.
O oriental fechou um dos olhos ao sentir algo quente caindo-lhe na face, erguendo o olhar em seguida para fitar o loiro, deparando-se com lágrimas escorrendo constantemente daqueles olhos verdes. Não entendeu ao certo o motivo, estendendo uma das mãos e tocando as lágrimas, como se assim fosse entender o que era aquilo e o motivo por trás delas.
Piscando os olhos várias vezes, percebendo que estava deixando Kiku confuso, levantou-se e limpou o rastro do choro na manga da blusa.
- Vou sair um pouco, certo? Me espere aqui.
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Arthur já sabia bem aonde ir. Foi até a casa do sacerdote que ofereceu ajuda para que ele e Kiku ficassem juntos, batendo violentamente na porta. Não demorou muito para que o jovem atendesse, sendo surpreendido, segurado pela gola da blusa.
- Devolva! O que você fez com ele?
O moreno franziu o cenho, fazendo com que o menor soltasse-lhe as roupas, limpando-as e respondendo com descaso:
- Fiz o que pediu – sorriu. – Ele está ao seu lado. Deveria estar satisfeito.
Foi como se levasse uma flechada e não suportou. Acabou o peso cedendo sobre os próprios joelhos, cobrindo a face com as mãos de maneira forte, como se assim as lágrimas fossem parar de correr. Tinha lutado tanto...! Mas no final acabou perdendo.
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* - poema retirado dewww (ponto) overmundo (ponto) com (ponto) br/ banco/ amor-perto-e-distante
Espero que tenham gostado! :3
