Duas semanas se passaram e Alfred estava realizando uma grande festa e havia pedido para Kiku chegar um pouco antes para que conversassem sobre algo importante – não sabia detalhes, mas se arrumava para ir antes do horário do início da festa, quando Yao bateu a porta e adentrou o quarto.

- Kiku... Podemos conversar um pouco, aru?

- Se for rápido... Disse a Alfred que iria mais cedo, ele quer falar sobre algo comigo.

O mais velho suspirou, sentando-se, ficando a observar o menor terminando de se arrumar. Estava feliz que ele estava, bem, mas... Se tinham pouco tempo, era melhor não enrolar.

- Não precisa casar com o Alfred se não quiser, aru.

Kiku voltou-se ao outro, franzindo de leve o cenho.

- Do que está falando?

- Não quero que faça nada contra sua vontade, aru.

- Não... Não se preocupe. Eu quero me casar com ele.

Disse de uma maneira determinada, o que preocupou Yao, mas só restou a este sorrir e assentir. O menor emendou:

- Já é hora de ir... Vemos-nos mais tarde.

- Certo, aru. Cuide-se.

- Sim, obrigado. Até mais.

Despediu-se do irmão, indo até a casa de Alfred. Ainda tinham cerca de meia hora até a festa começar, esperava que fosse o suficiente. Chegando à residência, foi encaminhado até o escritório, onde dois minutos depois Alfred adentrou com um sorriso, sentando-se em frente ao oriental.

- Que bom que veio, Kiku! – desfez o sorriso, diminuindo-o. – Preciso falar com você.

- O que é?

Ficou preocupado, pensando que Alfred estava agindo com mais seriedade do que o normal – o padrão do loiro era sempre muito animado e sorridente. Os olhos azuis se desviaram dos castanhos, mas não podia ficar naquilo. Precisava falar olhando nos olhos do menor, era o mínimo que ele merecia.

- Eu sinto muito, mas... Não vou poder honrar meu compromisso com você. Estou apaixonado por outra pessoa.

Kiku não acreditou – ou melhor, acreditava, mas não queria. Abaixou a cabeça, fitando as próprias mãos trêmulas e respondeu com um sorriso triste.

- Entendo... Se não consegui fazê-lo gostar de mim nesse meio tempo, acho que não tenho chance... Né?

- Sim... – Alfred se levantou, desviando o olhar também. – Desculpe-me! Você realmente é um importante amigo para mim.

Fez uma reverência exagerada – da qual o asiático riu mentalmente, ao pensar que não combinava com os modos do mais alto – logo se endireitando, colocando uma das mãos atrás da cabeça.

- Pode ficar aqui o tempo que precisar... Apareça quando quiser na festa.

O menor somente assentiu, sem ver o outro se retirando do cômodo, ouvindo apenas o barulho da porta fechando. Levantou-se em seguida, começando a caminhar pelo local. Alfred sempre fora um bom amigo, desde que se conheceram quando menores... Através do irmão dele, Arthur. Fazia tempo que não o via, como será que estava? Sabia que ambos brigaram e não se falavam mais. O que restava era aceitar aquela situação... Não podia ficar ali, havia muitas lembranças em casa fotografia. Enxugou as lágrimas, saindo discretamente do escritório, vendo o salão já recebendo alguns dos convidados. No topo da escada, viu Alfred e sua prima, Viet, juntos.

Foi por ela que ele se apaixonara, mas não culpou nenhum dos dois. Somente entendeu: eles sempre conversavam com animação, Alfred sempre sorria perto dela. Aquele ambiente cheio de felicidade estava deixando-o mal... Esgueirou-se pelos convidados, podendo reparar em alguns conhecidos, entre eles Arthur. Quanto tempo não o via! Mas, achando que não era visto, continuou o caminho até a porta, indo até a lateral da casa, onde sabia que tinha um banco de madeira, onde se sentou. Não queria chorar, mas era difícil... Tinha aprendido a amar Alfred – ele era tão gentil consigo! E vivia a sonhar com ele. Mas agora ele estava noivo de outra pessoa... Imaginando-se só, não fazia questão de conter as lágrimas, até ver pela visão periférica um lenço lhe sendo estendido. Ficou surpreso e levantou o olhar, encontrando os olhos verdes de Arthur – que não conseguia ficar parado ao ver o oriental tão triste. Não podia ignorar que ele estava infeliz, embora houvesse prometido para si mesmo que o observaria apenas de longe. Desde o início sabia que Alfred não cuidaria dele direito!

- Use isso.

Constrangido, Kiku desviou o olhar, usando os fios negros para esconderem os olhos molhados. Não queria ser visto daquela maneira! A voz saiu embargada, embora tentasse se controlar:

- Não precisa... Obrigado.

Arthur sentiu-se mal com aquela rejeição, mas insistiu, colocando o lenço sobre o colo do asiático, sentando-se ao lado dele. Tentando deixá-lo mais a vontade, manteve o olhar fixo à frente.

- Não precisa se envergonhar, pois são lágrimas sinceras. Eu posso entender como você se sente, já chorei na frente da pessoa que amava, pensando que não viveria sem ela. Mas nem mesmo o amor que você sente pode superar a chance de vê-la sorrindo. Dói mais vê-la triste do que não tê-la.

Com aquelas palavras, Kiku fitou o outro surpreso. Ainda sentindo os olhos arderem, pegou o lenço, escondendo a face parcialmente com as mãos, enquanto usava o objeto para tentar conter as lágrimas.

- T-talvez... Você tenha razão.

Arthur não conseguiu deixar de reparar que o asiático continuava a chorar... Mas, apesar de tudo, não conseguiu evitar um sorriso fraco: era bom vê-lo demonstrando sentimentos. Estava aliviado.

- Desculpe-me por essas coisas, mas fico até feliz de vê-lo assim... – reparando no que disse, tratou de arrumar uma desculpa. – Você amava meu irmão de verdade, isso prova que você será muito feliz, pois ainda pode se apaixonar muitas vezes...

De início, não entendeu o que o loiro queria dizer. Estava feliz por vê-lo triste? Não, Arthur não era assim... Tanto que logo veio a explicação. Sentiu-se um pouco mais calmo com aquelas palavras, esfregando os olhos.

- Você acha...? Parece tão impossível, para mim...

- Tenho certeza! Existem dois tipos de pessoas: as que conseguem superar os obstáculos e as que ficam presas neles.

Arthur voltou o corpo para o outro, atrevendo-se e tocando-lhe a face, ajeitando os fios macios atrás da orelha do oriental – vendo-o corar violentamente e demonstrar surpresa, finalmente fitando-o diretamente - e prosseguindo com a fala:

- Eu sei que você é do primeiro tipo. Sempre estive o observando, Kiku...

- Ah... Eu... – desviou novamente o olhar, constrangido. – Obrigado...

Aquela cena era tão irônica para Arthur! Era como um flashback: Kiku frágil (embora a outra vez fosse por causa da comida) e ambos sentados na varanda de uma casa. Casas diferentes, mas a situação era familiar. Não conseguiu não rir, mas de maneira abafada e contida.

- É engraçado, há um tempo, em uma situação parecida, contei um poema sobre um amor não correspondido a uma pessoa. Eu sinto como se revivesse essa cena.

Após enxugar as lágrimas que finalmente pareciam ter secado, abaixou as mãos e pousou-as sobre o próprio colo, segurando o lenço levemente.

- E como era...? Esse poema...

Arthur voltou o olhar para frente, ficando em silêncio por um instante, tentando puxar da memória cada palavra exata.

- "Nunca lhe disse nada/Só agora estou falando/Pois o que sinto por ti/Vai aos poucos me matando (...) É triste o meu viver/Você talvez não saiba/Quando vier a saber/Talvez já seja tarde/É tão grande o meu amor/Que no coração não cabe". É sobre alguém que não se declara a seu amor por não superar os obstáculos... Mesmo estando ao lado dela, não diz como se sente. E... – fez uma pausa, voltando o olhar para o menor, abalado. – Vai acabar morrendo por ficar longe de quem ama, segurando este sentimento...

Kiku sorriu triste ao ouvir o poema.

- Conheço esse poema. Acho que o entendo um pouco melhor agora.

Sem perceber, pressionou o tecido do lenço com certa força.

Arthur sorriu, de maneira decepcionada, mas sorriu. Tinha perdido o oriental – pelo modo que ele falava, dava a entender que gostava de Alfred... Mas ele iria se recuperar e ser feliz. Levantou-se, desviando o olhar. Também entendia muito bem aquela poesia.

- Melhor deixá-lo sozinho agora. Perdão por interromper seus pensamentos, eu vou voltar para dentro. Com licença.

Kiku estava apreciando a companhia, mas não iria forçá-lo a ficar ali. Só que se lembrou de algo, soltando uma exclamação:

- Ah! O seu lenço.

- Pode ficar com ele.

Arthur distanciou-se sem dizer mais nada, sob o olhar pensativo do asiático. Este ficou apenas parado, os olhos fixos do nada, mas quando se deu conta do que fazia, bateu de leve na própria cabeça. Não podia ficar daquele jeito! Levantou-se, também voltando à festa, vendo Alfred e sua prima cumprimentando os convidados. E não conseguiu evitar um sorriso – estava feliz pelos dois. Agora não tinha mais o que fazer ali... Após desejar felicidades aos noivos, voltou para a própria casa, aproveitando o silêncio para ir para o mundo dos sonhos.

Acordou sobressaltado. Aquele sonho fora real demais para ser um sonho! Sentia na pele como se estivesse saindo de um caixão! Levantou-se, devia ter algo por ali. Tinha que ter. Foi até a cômoda, mexendo em alguns contos antigos que recebera. Nada. Acabou deixando-os cair no chão, voltando a revirar as gavetas, jogando todos os objetos no chão. Aquilo foi real! De algum jeito sabia disso.

Yao, ouvindo os barulhos, apressou-se a entrar no quarto do irmão, encontrando-o em meio ao caos, balançando alguns livros como se esperasse que algo caísse de dentro deles. Mas nada. Nada. Nenhuma confirmação.

- K-Kiku! O que houve aqui, aru?

- Não era só um sonho! Foi real! Tem de ter Sido real!

"Então ele se lembrou", pensou tristemente o mais velho. Suspirou, não podia deixar seu irmãozinho daquele jeito.

- Venha comigo, aru. Tenho algo para você.

O mais novo não entendeu, mas seguiu o outro até o quarto dele, observando-o abrir uma gaveta, retirar o fundo falso e, de dentro de uma caixinha fechada a chave, pegar um papel dobrado cuidadosamente, o qual estendeu para ele.

- O que é isso?

- É para você, aru.

Estranhou, mas pegou o bilhete, desdobrando-o e passando os olhos pelas palavras. Aquela caligrafia era familiar...

"Querido Kiku,

Após pesquisar, encontrei uma pessoa disposta a nos ajudar. É um jovem xamã que disse ter a solução para nosso problema.

Ele irá visitá-lo em poucos dias para um chá com Yao, certifique-se de aparecer e também tomar. Não se assuste e não demonstre saber quem ele é, aja normalmente.

Estarei fora da cidade por alguns dias. Seguindo as instruções desse xamã, vou preparar uma moradia longe de todos. Não se preocupe, logo estarei com você.

E não se esqueça: eu te amo.

Arthur Kirkland"

Ficou em choque. Arthur! O irmão de Alfred! Sem conseguir desviar os olhos das palavras, indagou:

- Há quanto tempo eu o amo...?

- Não sei, aru – suspirou. – Provavelmente faz muito tempo. Sempre que ele estava por perto, para meu desgosto, você se mostrava mais feliz que o normal, sempre sorria, aru. Acho que você só esperava que ele manifestasse algum interesse por você.

Os olhos castanhos demonstraram surpresa, fitando o mais velho. Sentia as pernas trêmulas, mas manteve-se erguido.

- E há quanto tempo... ele me ama?

- Talvez desde que o viu pela primeira vez.

Sim... Yao se lembrava. Para sua infelicidade, quando ambos se encontraram e começaram a brincar juntos, via como Arthur era apegado ao seu querido irmãozinho... Fechou os olhos, nostálgico. Kiku realmente sempre fora uma criança muito fofa. Passado os devaneios, voltou-se para o outro.

- O que vai fazer agora? Quer ir atrás dele, aru?

Kiku ponderou por um instante, suspirando baixo.

- Não.

O mais velho estranhou, mas nada falaria. Era somente Kiku quem poderia decidir aquilo.

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O mesmo poema do capítulo 3. A fanfic ainda vai continuar por algum tempo, haha! Espero que tenham gostado.

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