Penúltimo capítulo! O próximo é o último... Obrigada a todos que estão acompanhando!

Segunda Chance

Acordou cedo e arrumou-se, tomando o desjejum sozinho. Não estava tudo resolvido: ainda precisava confirmar algumas coisas. Ainda estava confuso demais. Aquele período de sua vida que passara junto com Arthur depois de ser enterrado não estava nítido. Nem isso e nem seus sentimentos por ele. Era incômodo, como se aquele período fosse apenas um sonho... Um sonho do qual não conseguia lembrar.

Por isso, Kiku tomou uma decisão. Andando pela cidade, usando roupas mais simples que de costume para não atrair atenção, buscou se informar sobre onde encontraria o sacerdote que lhe envenenara. Não teve muito trabalho: o xamã era até bem conhecido. Com as informações reunidas, chegou até uma casa simples, um pouco mais afastada das outras. Tomando coragem, bateu à porta que não demorou a ser atendida. O sacerdote, ao ver o menor, abriu um sorriso torto.

- Sabia que viria. Entre.

Apesar da postura intimidante do outro, o oriental não se abalou, adentrando a residência. Uma cadeira foi indicada a Kiku, a qual aceitou, sentando-se nela, de frente para o negro.

- Então, o que deseja?

Os olhos castanhos se abaixaram por um momento, antes de fitarem o maior seriamente.

- Diga-me. Por que fizeram aquilo...?

- Por que quer saber?

- Ah... – suspirou, teria de responder caso quisesse ter alguma chance de obter respostas. – Eu quero me lembrar do que aconteceu. Não consigo me recordar com exatidão do que ocorreu e nem dos sentimentos de Arthur.

- Então você se lembrou um pouco.

O sorriso se alargou, deixando a mostra os dentes brancos. O xamã se levantou, indo até uma cômoda onde o oriental podia ver alguns frascos com conteúdos suspeitos, olhando desconfiado quando o maior retornou com um pequeno vidro, estendendo-lhe.

- Pegue. Se tomar isto, vai se lembrar de tudo. Até de estar enterrado... Por isso alerto: existem riscos. Caso você o faça, há a chance de que sua mente não retorne mais.

Kiku engoliu em seco, estendendo a mão. Hesitou por um instante, mas acabou aceitando a poção que lhe era oferecida.

- Certo. Obrigado e com licença.

O asiático fez uma leve reverência, deixando o sacerdote a pensar o quanto ainda poderia se divertir com aquela situação... Kiku virou-se, saindo do local. Ainda tinha outras coisas para fazer, como visitar Arthur. Quando o viu atendendo a porta, ficou surpreso: ele estava com uma expressão de quem havia chorado há pouco. Um pouco desconfortável, resolveu indagar, embora sem ter certeza se devesse fazê-lo:

- Aconteceu algo com você, Arthur...? – permitiu-se chamá-lo pelo primeiro nome. Lembrava-se de serem amigos.

O loiro estava surpreso, embasbacado por ver o oriental ali. Coçou o nariz, dando espaço para que ele entrasse.

- Ah, estou com uma alergia. Nada demais. Entre, por favor.

- Certo...

Não acreditou muito, mas adentrou o local. Arthur fez o mesmo, fechando a porta e voltando-se para algumas folhas, ficando a rasgá-las.

- Desculpe, estou precisando arrumar algumas coisas... Precisa de algo?

- Ah... Não – olhou em volta, estranhando o vazio da casa... Tinha mais móveis ali, não? – Aconteceu algo por aqui...?

O maior fez uma careta, agradecendo por estar de costas para o outro – assim ele não veria sua expressão.

- Tive de vender algumas coisas para cobrir alguns gastos.

- Entendo...

O menor ficou curioso quanto ao que estava naquela sacola que Arthur parecia querer esconder de si, mas conduziu a conversa como se fosse apenas uma visita casual.

- Desculpe-me agora, Kiku... Tenho que colocar isso lá fora e depois voltar para terminar isso.

- Tudo bem, acho que já fiquei tempo demais, também. Vou deixar que você termine suas tarefas em paz.

Arthur acompanhou o outro até o lado de fora, aproveitando para deixar a sacola. Despediram-se e o asiático ficou acenando enquanto Arthur voltava à própria casa. Quando ele entrou, virou-se para ir embora, mas aquela sacola... Sentia que tinha algo ali! E isso era mais que evidente, visto que Arthur tentou escondê-la de si enquanto descartava as folhas. Aproximou-se, tendo certeza de que ninguém observava, abrindo-a e remexendo em meio aos pedaços de papéis. A única coisa que achou foi uma espécie de livro com um cadeado, o qual pegou. O que deveria ter ali...? Estava curioso, mas não podia abrir e ler ali. Abraçando o objeto, rumou até a própria casa, tomando o cuidado de que os outros não vissem o que trazia consigo.

Já seguro em seu quarto, Kiku pegou um grampo, colocando no cadeado. Após forçar um pouco, teve sucesso em abri-lo, retirando-o e deixando de lado. Sentou-se no chão, abrindo em uma das páginas. Era um diário.

"... Me descubro completamente apaixonado por Kiku. Não o vi hoje, sinto que faltou algo em meu dia. Quero ver aquele sorriso gentil... E gostaria também de saber se ele retribui meus sentimentos. Ele trata todos com gentileza! Como saber se a direcionada à mim é especial? Gosto tanto de estar com ele...!"

Passou mais algumas folhas, com certo desespero.

"Continua sem reação. Se eu soubesse que seria assim, não teria sido tão egoísta."

O quê?

"... Ele chorava. O mais triste era não poder fazer nada por ele. Não poder abraçá-lo e falar que estava ali. Só por ele. Mas eu realmente quero que ele seja feliz, apesar de ainda desejá-lo."

Olhou para a data do relato. Coincidia com o dia da festa! O que era aquilo...? O quanto Arthur amava-lhe? Sentiu a cabeça começar a latejar, fechando o diário e guardando bem, para evitar que alguém o encontrasse. Levantou-se, rumando pelos corredores da casa, vendo que tudo estava bem calmo. Provavelmente Yao saíra para resolver alguns assuntos e seus irmãos e primos provavelmente estavam brincando por aí, visto que cada um almoçou em seu canto.

Tomando mais uma vez a rua, caminhou até o consultório daquele médico... Jan Brunswichk – leu no papel. Tinha recebido o endereço dele para caso não se sentisse bem. Talvez não devesse procurá-lo por aqueles motivos, mas não sabia a quem recorrer. Adentrando a clínica, foi até a mesa da aparentemente secretária.

- Posso ajudá-lo?

- Ah, sim... Gostaria de falar com o Dr. Jan – não, não se arriscava a falar aquele sobrenome.

- Tem horário marcado?

- Bem... Não.

- Emergência?

- Não exatamente...

- Espero que não se incomode de esperar um pouco. Há alguns pacientes para serem atendidos antes de você.

- Certo, vou esperar então. Obrigado.

Fez uma leve menção, rumando até uma das cadeiras, sentando-se ali. Realmente, ele deveria ser um ótimo médico... Havia um número considerável de pessoas ali. Mas não se importaria de esperar. Nem viu o tempo passar, tão absorto estava em seus pensamentos, assustando-se com a voz da mulher mandando-o entrar, pois o doutor iria atendê-lo. Levantou-se e agradeceu, adentrando no local onde estava o holandês.

- Ah... Você. Sente-se.

- Obrigado.

Aproximou-se, sentando-se de frente ao outro. Ele era tão intimidador... Engoliu secamente, o que fez o maior arquear uma das sobrancelhas.

- E então? O que está sentindo?

- Bem... – abaixou o olhar. – Eu sinto uma espécie de vazio. Não consigo me lembrar o que eu sentia... Talvez seja um pouco de egoísmo, mas descobrindo algumas coisas, fico pensando como seria bom retornar àqueles tempos... – sorriu tristonho. – Deve ser muito bom ser amado por alguém daquele jeito...

Então o asiático se lembrara de algo.

- Você sabe que foi ele quem provocou aquilo, não?

- Sei, sim... Mas eu gostaria de me lembrar. Preciso confessar que cheguei a ir até aquele sacerdote.

- E então? – arqueou uma das sobrancelhas, desconfiado.

- Ele me deu uma espécie de poção. Disse que me faria lembrar, mas poderia voltar a ficar daquele jeito para sempre... – suspirou. – Não sei o que fazer.

- Entendo. Precisa escolher entre viver com esse "vazio" ou correr o risco de lembrar-se de tudo. Só você pode escolher.

- Verdade. No fundo, já sabia disso... Mas precisava conversar com alguém. Desculpe-me por tê-lo feito perder seu tempo.

O holandês fez um gesto vago com a mão, como se não fosse nada. Agora ele não parecia tão assustador. Só um pouco, mas ainda sim arrancou do menor um sorriso agradecido. Sentia que não precisava falar mais nada, inclinando o corpo em uma reverência antes de se retirar.

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Durante a noite, Kiku não conseguira pegar no sono. Acabou por se levantar e, com o auxílio de uma lamparina, ficar lendo o diário de Arthur. Isso era antiético, mas... Talvez lendo algumas páginas pudesse descobrir mais. O loiro relatava inclusive o quanto ficara feliz quando ouviu da boca do oriental que também o amava... Então não estava enganado quanto a isso. Mas não conseguia se lembrar como era aquele sentimento, agora tendo certeza de que o que sentia por Alfred era apenas um encantamento passageiro – já não se sentia mal. Esquecera rapidamente a dor, mas aquele buraco deixava-o infinitamente pior. Talvez pudesse se acostumar com ele. Poderia tentar.

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Já se passara uma semana e ainda se incomodava com aquele sentimento. Várias vezes teve ímpetos de tomar aquela bebida do frasco que o sacerdote lhe dera, mas acabou parando antes de completar o gesto.

- Kiku, tudo bem? Está muito quieto, aru.

- Ah? Estou bem, Yao. Não se preocupe – sorriu para o irmão mais velho. - Já terminei de jantar, posso voltar aos meus aposentos? Quero terminar de ler um livro.

- Ah... Se é assim, tudo bem, aru! – sorriu o mais velho, orgulhoso do seu irmão tão estudioso!

Kiku levantou-se, fazendo uma reverência antes de rumar pelos corredores até o quarto. Fechando a porta, aproximou-se da cômoda, retirando o fundo falso de uma das gavetas e retirando o frasco de dentro de uma caixa. Guardou tudo no devido lugar, estremecendo ao pensar na decisão que tomara. Queria se lembrar! Recuperar ao menos algo.

O coração estava acelerado, fazendo com que respirasse fundo várias vezes, tremendo ao retirar a rolha que impedia que o líquido escapasse. E se não acordasse mais...? Engoliu secamente, fazendo uma expressão determinada. Não podia ter medo! Era um risco que teria de correr.

Fechando os olhos, encostou o vidro frio nos lábios secos, bebendo de uma vez o conteúdo. Afastando-o da boca, parou. Olhou para o chão, achando que tinha falhado. Talvez tivesse sido enganado por não ter pagado por aquilo, mas... Antes que sequer cogitasse voltar ao xamã, exigindo pela poção certa, sentiu como se tudo girasse. A vista embaçou e tentou se apoiar na cômoda, mas falhou. O corpo, agora pesado, foi ao chão.

Era uma sensação estranha. Sentia-se feliz e em seguida foi jogado na escuridão. Quando acordou, ela era opressora; não podia se mexer, não podia falar nada. Era como se não pertencesse mais a si.

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