Diários

Cap3. Quebra de Rotina

Era tarde da noite quando o barulho do laptop o fez se levantar. Com o movimento em baixa ele não podia se dar ao luxo de perder qualquer cliente que lhe fizesse uma proposta. Ele se levantou e abriu a tela do objeto. A luz repentina fez com que seus olhos ardessem momentaneamente e logo pôde perceber a mensagem de novo e-mail recebido.

Aquilo não era o que esperava. Suspirou, esticou as costas e logo se focou mais detalhadamente ao que estava escrito. Houve um momento de concentração onde era perceptível que ele estava assimilando o que havia acontecido. O garoto sorriu, estalou os dedos e digitou sua resposta. "Obrigada. Acertemos os detalhes em breve."

Fechou novamente a tela e deitou-se. Seu semblante era ao mesmo tempo feliz e preocupado.

"Amanhã vai ser um dia bem difícil."

Foi tudo que disse antes de se virar para o lado e voltar a dormir.

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Era manhã. Não daquelas que se acorda completamente descansado, mas daquelas que não se sabe muito bem porque não consegue voltar a dormir. Mas o moreno já se acostumara com aquilo, afinal, não era a primeira vez que tivera de levantar sem que seu corpo tivesse o devido descanso.

Espreguiçou-se, calçou os chinelos e se dirigiu ao banheiro. Todo dia ele agradecia mentalmente por Quatre ter posto eles em todas as suítes onde cada um podia ter ser próprio espaço. Jogou as roupas em cima do vaso e deixou a água quente bater em seu corpo despido. Pelo menos isso deixaria seus músculos um pouco menos chateados com ele. Escovou os dentes e enquanto amarrava os cadarços ouviu a batida na porta, a rotina nunca o espantava.

"Pode entrar."

Quatre abriu a porta para ver ambos os olhos verdes o encarando. Ele gostava de chamar Trowa para o café toda manhã para que pudesse vislumbrar por um pequeno momento aquela visão tão diferente.

"Pronto?"

"Deixe só eu secar o cabelo."

Trowa pegou a toalha e com poucas passadas seu cabelo já se mantinha armado de novo. Era algo interessante de se ver, mas todo dia o loiro fazia questão de presenciá-lo. Os dois desceram juntos para a sala com a grande mesa e sentaram-se um ao lado do outro.

Eles tinham um relacionamento, era visível a qualquer um que ficasse mais de 1 minuto com os dois. Havia toca de olhares recorrentes como se ocorresse uma conversa mental entre ambos. A verdade é que eles já estavam juntos a algum tempo, nada de compromissos, juras de amor eterno ou casamento instantâneo. Apenas curtiam um ao outro, compreendiam ao outro e se consideravam como amigos com benefícios. Nada sério havia acontecido, no máximo alguns amassos e toques mais ousados. Uma coisa que era cômoda para ambas as partes.

O barulho de passos descendo as escadas fez com que os garotos sorrissem. Depois de certo tempo morando juntos todos já sabiam como cada um se comportava e o exato barulho que vaziam ao passar por determinada área da casa. Eles eram ex-pilotos Gundam, procuravam reconhecer todo tipo de barulho que os rodeava. Certos hábitos nunca morrem.

"Não sei como você não tropeça enquanto desce escadas."

O americano de jogou na cadeira e esticou-se.

"Fui bailarino na minha vida passada e um elástico na anterior. Minha flexibilidade remota de várias reencarnações! Hoje tem pão australiano?"

"Você comprou?"

Duo simplesmente olhou para o novo integrante do ambiente enquanto ele se dirigia para o seu lado. O americano puxou a cadeira para trás dando mais espaço para Heero sentar.

"James, você estava encarregado dos mantimentos! É o mínimo que você pode fazer para nós que lhe damos um teto e um salário!" Duo mostrava sua falsa irritação em quanto gesticulava.

"O teto não é seu e você não me paga salário. Muito menos fui contratado para ser mordomo."

"Ele tem razão, James." A voz grossa foi ouvida da porta. "Assim nós teremos que demitir ele, Winner. Já está chegando no limite nossa paciência contra sua insubordinação."

Heero revirou os olhos e apanhou a xícara para enchê-la de café enquanto Wufei sentava entre Duo e Quatre.

"Eu queria falar sobre isso com você depois se você puder."

O ambiente tinha voltado ao seu normal depois de das brincadeiras. As conversas particulares se encontravam livres para serem começadas, coisas banais sobre o dia anterior e seus respectivos a fazer. Esse era o momento que Heero via para tentar resolver seus problemas.

"Sobre o que?" Duo passava geléia por cima da torrada que acabara de pegar.

"Algo para fazer. Preciso de uma missão."

Duo sorriu e mordeu seu café da manhã. Já fazia tempo que ele esperava por essa pergunta. Não acreditava que o japonês fosse conseguir ficar mais muito tempo dentro daquela mansão sem um emprego ou algo parecido.

"Eu separei umas opções para você. A gente pode conversar sobre isso a noite quando eu voltar, ai você pode analisar as opções e decide. Tenta pensar hoje por si mesmo, um teste vocacional desses na internet pode te ajudar a ver seus pontos fortes pelo menos."

O garoto de olhos azuis acentiu e voltou sua atenção para o café. Poderia ser uma boa idéia afinal.

Conforme o tempo foi passando cada um foi saindo para seus afazeres. Quatre sendo o primeiro a se levantar, e em poucos minutos saindo da mansão já composto de seu terno e gravata. Wufei foi o segundo a sair com seu kimono dentro da mochila a caminho das colinas. Duo saiu se despedindo dos dois restantes na mesa.

O espanhol começou a pegar os pratos e levar para cozinha seguido por Heero.

"E então, decidiu o que vai fazer?" Trowa olhava para Heero enquanto secava uma xícara.

"Não. Mas acredito que as coisas estejam melhorando."

O moreno não podia concordar mais. Já fazia mais de 3 meses desde o dia em que recebera a ligação de Quatre em seu escritório dizendo sobre a tentativa de suicídio de Heero. Aos poucos todos virão que o japonês estava definhando, mas nenhum deles achava que ele estava nesse ponto. Todos haviam estado naquele estágio por um momento, mas superaram. Eles acreditavam que por causa do treinamento de Heero ter sido mais rígido, era lógico que o mesmo demoraria mais para conseguir se estabilizar. Foi um choque geral saber que ele havia pego uma arama e atirado no próprio peito. Trowa soube que Heero deu sorte de Duo ter esquecido uns papéis na mansão e chegou bem no momento do tiro.

Ele nunca vira o americano tão desesperado ao chegar ao hospital, nem mesmo tão irritado no momento em que Heero saiu do mesmo. E o que quer tenha acontecido entre os berros e o soco e após com certeza ajudou. Heero agora era mais calmo, e não passava mais os dias em seu quarto pesquisando sobre batalhas passadas e números de civis abatidos na época.

"Com certeza, amigo." Trowa colocou a toalha no gancho e sentou na mesa da cozinha. Trabalhar no zoológico tinha a vantagem do horário flexível.

"Obrigada."

"Não precisa." Trowa olhava para expressão séria de Heero, mais bem mais accessível do que na época de guerra. "Agora é um novo mundo. Diferente do que a gente tinha de passar. Além do que você só agiu conforme lhe foi ensinado, nós entendemos e já dissemos algumas vezes que não tem porque se desculpar. Nós somos os únicos que vamos conseguir entender o porque de você ter feito o que fez."

O barulho do vibra call interrompeu a conversa de ambos.

"Barton." O espanhol franziu o cenho ao escutar o problema do outro lado da linha. "Estou a caminho, não o alimentem e nem entrem na jaula." Ele desligou o aparelho. "Tenho de enfrentar um leão. Até mais tarde Heero."

"Uma vez garoto do circo, sempre garoto do circo."

O garoto sorriu e partiu deixando Heero com seus pensamentos.

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O escritório podia não ser o lugar mais aconchegante que ele podia imaginar, mas o jovem gostava dali, tinha o seu ar nele. Não que fosse diferente dos outros escritórios, tinha a mesa, o computador, a cadeira, uma planta e a janela, mas algo ali o fazia se sentir confortável. Colocou a maleta em cima de do móvel e esperou o computador ligar estalando o pescoço.

Era visível que estava excitado com alguma coisa. O sorriso no rosto logo se aumentou ao ver que um e-mail novo chegara com um número apenas. Ligou o videofone e aguardou.

O rosto do outro lado era de um homem robusto e másculo. A barba mal-feita, as rugas e o cabelo grisalho indicavam que ele devia possuir no mínimo uns 47 anos.

"Agradeço que tenha me contatado tão rápido." A voz era firme e forte, tala qual se esperaria de alguém como ele. "Já tem uma resposta para mim?"

"Eu aceito sua proposta."

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Talvez Duo tivesse razão, não custava nada ele tentar fazer um desses testes na internet, podia funcionar a lhe dar uma guia pelo menos. Era assustador perceber o quanto da sua capacidade de raciocínio lógico ele perdera só por ficar sem a guerra.

O japonês sacudiu a cabeça. Não tinha mais com o que se preocupar, a vida agora era outra, a paz estava mantida e deveria seguir em frente.

Olhou para a tela branca do laptop e iniciou o teste após 10 minutos as opções que aparecerão foram muitas. Piloto, Engenheiro Mecânico, Controle de Qualidade, Cinegrafista, analista Financeiro, Dentista, Fiscal de impostos, Controlador Financeiro, Físico. Heero olhava para a tela sem saber o que pensar. Aparentemente aquilo o havia deixado mais confuso do que certo sobre o que queria.

Fechou o computador e segurou a cabeça. Aquela não havia sido nem um pouco uma boa idéia. Ele levantou e seguiu em direção a área da academia, treinar um pouco poderia aliviar a sua mente e ele poderia tentar pensar com clareza mais tarde.

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Heero estava sentado á frente da televisão vendo séries antigas. Era absurdo o que as pessoas acreditavam naquela época. Os efeitos gráficos de baixa qualidade, a história totalmente sem um foco e situações absurdas e os alienígenas, supostamente superiores aos humanos, pareciam mais perdidos do que os exploradores. Sem falar que a única diferença visível entre o Vulcano e os seres humanos era a orelha pontuda.

Ele se questionava ainda mais sobre o fascínio do homem naquela época pelos extraterrestres. Particularmente nunca havia visto um desses e estivera boa parte de sua vida no espaço lutando pela guerra. Ele era um extraterrestre e com certeza não possuía olhos grandes, pele verde ou nada do gênero.

"Esse é o da Alice?"

A voz de Duo o desconcentrou de sua análise sobre o seriado. O jovem assentiu.

"Já passou a criança vestida de coelho gigante."

"Merda! Sabia que não ia chegar a tempo de ver todo o episódio!"

O garoto trançado se jogou ao lado de Heero colocando os pés em cima da mesa de centro. Sua aparência estava cansada. Fios de cabelo saiam da trança antes perfeita, a posição do corpo mostrava a tensão nas costas e a roupa impecável agora estava amassada em diversos pontos. O japonês sorriu pela situação do jovem ao seu lado.

"Queria te pedir para me ajudar a achar algo para fazer." A voz ao lado tirou a atenção de Duo da tela a sua frente. "Eu olhei o teste vocacional."

"Você fez o teste?" O americano estava incrédulo. Não acreditava que Heero fosse efetivamente fazê-lo. Acreditava que o outro ignorasse esse pedido simplesmente por achar estúpido. "E o que saiu?"

"Fazendeiro." [1]

A resposta foi rápida e séria, mas isso não impediu Duo soltasse uma alta gargalhada.

"Fui para academia depois disso."

Duo ainda recuperava o fôlego e tentava acalmar a respiração.

"Quem sabe esse não é o seu futuro não é? Opa!" O garoto voltou a sua atenção a tela. "Momento do samurai."

"Foi uma péssima idéia Duo." Mais uma vez a voz de Heero o fez se desviar.

"Minha intenção não era que fizesse o teste em si, mas que visse os seus pontos fortes. Onde você mesmo seria obrigado a visualizá-los e aceita-los."

Heero parou por um momento. Aquilo fazia sentido. Ele tinha mesmo tido que colocar os seus pontos fortes e admiti-los no teste.

"Mas isso ainda não tira o fato de que você foi destinado a passar os dias gerando os suprimentos para a sociendade."

Dois olhos azuis duros se fixaram em Duo, gerando mais uma gargalhada do jovem.

"Relaxa Hee. De noite eu te mostro o que eu separei, até lá procura uns acres para criar seu pasto." O americano com um sorriso sarcástico no rosto conseguiu retirar apenas um grunido do garoto ao lado.

A música de final começava a tocar quando a porta de entrada bateu na parede e uma cabeça loira aparecia na entrada da sala.

"Eu perdi?"

"Yep, era o da Alice."

"Mas que droga!" O loiro olhou para trás furioso. "Era o da Alice, Wufei!"

Um xingamento alto foi ouvido do lado de fora da casa. Fazia parte da rotina assistirem juntos a série. Sabiam todos os episódios e se divertiam vendo a visão do futuro tida antigamente.

"O que eu poderia fazer Winner? O Carter não me deixava fechar o dojo!"

"Não interessa, é a terceira vez esse mês! Você faz a janta hoje!"

Mais uma vez o chinês xingou enquanto se dirigia a cozinha. Não era sua culpa se o único ajudante que conseguira fosse um incapaz sem honra que não conseguia acabar seus afazeres no horário.

Eram quase oito horas quando a janta ficou pronta. Os ex-pilotos mantinham a mesma posição á mesa de antes. Quatre tinha sua cadeira colocada mais próxima a do moreno ao seu lado e a cabeça apoiada em seu ombro enquanto todos ouviam ao que Trowa dizia.

"Não sei ao certo como foi que aconteceu, mas alguém invadiu e levou o filhote de Guepardo ontem à noite. As câmeras de vigilância foram sabotadas, mas nenhum do vigias viu nada. Trabalho de profissional."

"E o seu sistema?" Heero estava intrigado. Todos eles tinham seus sistemas escondidos tanto pela propriedade de Quatre quanto em seus empregos.

O semblante do espanhol se tornou mais sério.

"Só tenho a imagem de um borrão. Ele não conseguiu desligar, mas viu meu sistema e teve capacidade para desviar dele."

Os cinco integrantes da mesa estavam mais quietos do que o de costume. Trowa havia chegado mais tarde que os demais com uma feição tão séria que imediatamente retirou o clima de brincadeira que estava no ar. O fato era que haviam pegado um animal de dentro do zoológico e parecia não haver nenhuma forma de identificar o suspeito a não ser a foto que o garoto trouxera com ele na pasta. Uma mancha marrom no breu da noite.

"Desonroso retirar um filhote de sua mãe."

O garoto de olhos verdes suspirou com o comentário do amigo e passou a mão pelo rosto do loiro apoiado em si, silenciosamente pedindo para que ele levantasse. Pegou a imagem que estava ao centro da mesa e olhou pela milésima vez.

"O que mais me irrita é que ele pode fazer isso de novo. Ele estava armado com um tranqüilizante extremamente forte. Coisa que o deveria fazer carregar uma arma também de grande porte. Não é fácil retirar um filhote de guepardo de sua família."

"Ele tinha que conhecer você."

A voz do japonês fez com que todos olhassem para ele. Sua expressão estava tão concentrada quanto a de quando pilotava seu gundam.

"Ele conhecia seu sistema." Disse por fim.

"Ele teria de conhecer todos nós." Duo seguia a linha de pensamento do garoto ao seu lado. "Esse tipo de tecnologia que usamos apenas nós conhecíamos. Nós e quem conviveu conosco na guerra."

"Mas não podemos considerar isso." Foi a vez de Quatre de pronunciar. "Não há quem possa fazer isso. Milliardo trabalha comigo e esteve ontem numa reunião com os acionistas."

"Relena está em L3 e Hilde ainda esta se recuperando da operação de retina."

"Os Doutores se mataram ao final da guerra junto com seus laboratórios." A voz de Trowa falhou um pouco. "E Treize..."

"Foi morto." Wufei abaixou a cabeça momentaneamente e pôde ser ouvido um baixo pedido de desculpas antes de levantar o olhar novamente. "Winner tem razão."

"Não há outra explicação." Heero anunciou por fim. "Podemos decidir isso amanhã quando tivermos descansado."

O japonês levantou e começou a pegar os pratos para levar a cozinha.

"Eu não vou estar aqui amanhã. Na verdade, eu estou me mudando."

Heero parou e olhou para trás. Quatro pares de olhos estavam focados no dono da voz.

O americano coçou a cabeça e deu um sorriso amarelo.

"Sinto que não seja uma boa hora Tro." Sua voz parecia um pouco fria, não lembrava o tom de alegria que sempre vinha quando ele falava. "Mas eu estou indo embora."

TBC

Nota da Autora: Esse foi um capítulo extremamente difícil de sair. Demorou mais por um bloqueio meu mesmo. O final dele já estava pronto, mas o recheio é que eu não fiquei muito feliz com.

Bom, eu tenho algumas explicações que quero fazer nessa nota.
[1] Eu fiz o teste vocacional do Heero e sim, deu que ele seria um ótimo fazendeiro e todas as outras coisas que eu mencionei na fic. Quem quiser pode me pedir o site e mando para vocês.
Eu estou chamando os nosso queridos pilotos de garotos porque esse é o termo que eu acho melhor que adolescente para defini-los. Eles estão com 18 anos nessa fic. Basicamente é assim: Série gundam durou 1 ano, Endless waltz mais 1 e eles tiveram mais 1 para se estabelecer.
A fic não vai ser todas escrita em forma de diários (como podem ter percebido), mas alguns capítulos vão sim ser algumas páginas escritas pelos pilotos para que eu possa mostrar a visão deles também.

Obrigada por lerem e grata também as Reviews já mandadas. domidinis, Blanxe e zilettssousa.
=)