Diários
Cap.4 Uma Faísca Pode Gerar um Incêndio
Quatre sentiu seu coração falhar. Estivera certo. Que Alá o perdoasse por não ter conseguido avisar seus companheiros a tempo. Um turbilhão de emoções rodava em sua cabeça, imagens que não conseguia definir e rostos familiares. Levantou-se e correu para o banheiro fazendo sair todo o jantar.
Estava zonzo e o gosto do vômito em sua boca o deixava mais enjoado. Sentiu que uma mão acariciava umas costas enquanto outra mantinha para trás sua franja.
"Você está bem?"
A voz calma fez com que seu organismo se acalmasse um pouco. Sentou-se no azulejo marfim e encostou-se à parede vendo Trowa a sua frente e seu três amigos parados na porta. Todos expressavam claramente sua preocupação.
"Obrigado." Disse olhando para o moreno. "Foi um mal estar repentino. Já passou." Sua mente ainda rodava, mas não acreditava que aquilo fosse verdade. Talvez nem fosse aquilo que iria acontecer com eles. Era somente sua mente que lhe pregava peças.
"Calma, loiro. Eu não estou indo à forca, só vou passar um tempo fora. Não significa que você não vai mais me ver."
Quatre sorriu. Duo estava certo, ele só estava saindo dali. Alguma hora isso ia acabar acontecendo. Não podia era esperar que passassem a serem adultos morando na mesma casa.
"Acho que devemos todos descansar agora, Winner principalmente." Wufei olhava para o amigo ainda preocupado com o estado dele. "Barton, leve o loiro para o quarto que nós três acabamos de arrumar mesa."
"Mas o Duo eu..."
"Ele vai ao seu quarto de manhã e se despede. Agora você está precisando de repouso. Barton?"
Trowa pegou o corpo menor nos braços e subiu as escadas.
"Por que não me contou?"
Heero parecia chateado pelo seu tom de voz.
"Eu só confirmei hoje."
"Vou deixar vocês sozinhos e me retirar também. Essa foi uma noite bastante diferente do que eu estava preparado para enfrentar. Boa noite."
O japonês assentiu para logo depois ver Wufei se dirigindo ao próprio quarto. Sua atenção voltou novamente a Duo quando ele começou a falar.
"Vamos para a sala. Ainda temos o seu problema para resolver, Hee. E podemos discutir isso melhor agora sozinhos." O jovem ainda via o olhar questionador nos olhos do outro enquanto se dirigia ao sofá. "Eu só recebi uma proposta que não pude recusar. Desculpe-me se dei a entender que não me importava como voçê iria reagir."
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"Eu estou bem agora, não se preocupe."
Quatre já estava em sua cama, porém Trowa se mantinha sentado ao seu lado olhando atentamente para o loiro próximo a si.
"Relaxa, Tro." O loiro sentou, encostando na cabeceira, "Eu não quebrei, foi só um mal estar." Porém Trowa continuava da mesma forma. "É sério."
"Vou passar a noite aqui."
A frase dita no tom autoritário causou calafrios pelo corpo menor. A menção de que passaria a noite toda ao lado do moreno era tentador mesmo sabendo que não ocorreria nada de mais.
"Não espere que eu vá expulsar você em todo caso." Os olhos verdes se encontram aos azuis. "Jamais perderia a chance de ter você dormindo ao meu lado."
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"Senta ai. Eu tenho alguns planos para você, como tinha falado mais cedo." O americano sentou na poltrona na frente de Heero. "Mas gostaria de saber melhor o que você achou do teste. Afinal foi para isso que eu pedi para você fazer ele."
Heero assentiu.
"E então?"
"Não sei ao certo." O jovem abaixou a cabeça levemente. "Não acredito que os resultados sejam relevantes, mas não posso negar que ele não me impressionei ao ver o resultado mais plausível com a minha personalidade."
O americano ficou calado. Depois de um tempo de convivência com Heero ele passara a perceber que o mesmo se comunicava bastante se deixado a liberdade de falar. Um balanço de cabeça ou um simples concordo era mais que suficiente para que o outro se revelasse.
"Não quero mais ser piloto, Duo." Ele disse depois minutos de silêncio entre ambos. "Não acho que eu fosse aguetar depois disso tudo."
Duo sorriu. Ele compreendia mas do que uma pessoa normal o que o jovem estava querendo dizer, a dor enorme que cada um deles ainda trazia no peito mais nenhum deles chegava a revelar.
"Também não acreditava que você fosse querer." O japonês olhos nos olhos ametistas confuso. "Você realmente acredita que eu fosse querer que voltasse a ser um piloto? Nem eu nem você somos masoquistas Heero! Não sei quanto a você, mas eu estou pretendendo manter minha sanidade."
Foi a vez de Heero sorrir. Era verdade. Sua época de masoquista tinha ficado no passado.
"Eu realmente tenho uma idéia para você Hee." O japonês deu mais um sorriso ao ouvir o apelido. Só de lembrar a primeira vez que ele foi dito e as confusões que ocorreram para que ele conseguisse aceitar o mesmo daria uma bela história cômica. "Porém teria que confessar que não sei como será a sua recepção a ela."
Duo aguardou esperando algum comentário vindo do jovem a sua frente. E este não veio.
"Bom... Já pensou em professor Heero?"
O americano viu os olhos azuis se arregalarem. Devia ser a primeira vez que ele via Heero surpreso. E para ser bem sincero com as suas opniões ele achara aquilo uma coisa encantadora.
"Se você não quiser tudo bem eu tinha separado algumas outras coisas que teriam mais a sua cara e não esperava que você fosse..."
"O que eu poderia passar a alguém, Duo? Eu sou incapaz de direcionar a mim mesmo. Precisei de você para isso imagina dar futuros a crianças?"
"Crianças? Acha mesmo que eu ia deixar você direcionar crianças? Você ia formar uma legião de psicopatas suicidas, isso sim!" A expressão marota desmentia toda a frase. Duo não conseguia acreditar que Heero chegara a cogitar a possibilidade. "Mas não Hee, você não daria aula para crianças, nem adolescentes – esses você mataria na primeira oportunidade – mas, creio que você tenha razão. Eu decidi tentar o mais longe de você antes para ver mais a sua reação."
"Hun."
"Relaxa, Hee, tenho outras coisas preparadas para você."O garoto trançado coçou a nuca enquanto falava. "Vou te falar a verdade, não foi nada fácil encontrar algo que conseguisse suprir a sua vontade e que ao mesmo tempo fosse algo que você gostasse e conseguisse fazer."
O jovem de olhos azuis olhava atentamente para Duo parecia que aquele ia ser um momento decisivo.
"Claro que você nunca poderia ser algo como um cantor, cozinheiro, psicólogo, massagista e essas coisas. Essas são típicas profissões totalmente fora do cardápio para você."
"Duo..." A voz de Heero soou baixa e fria.
"Tudo bem, eu paro de enrolar, Hee. Você não tem o menor espírito esportivo, sabia?" Heero se manteve calado. Os braços agora estavam cruzados sobre o peito e as costas encostadas no sofá. "Bombeiro."
Aquilo fez a pose de Heero quebrar. Como assim bombeiro ele não... De repente uma luz acendeu em sua cabeça. Aquilo fazia mais sentido do que o aparente. Ele precisava da adrenalina, da necessidade de atuar como alguém importante. Mas não queria a guerra, não queria mais ser o causador das mortes. Poderia salvar ao invés de destruir. Parecia estúpido que sua mente pensasse assim, mas aquilo era totalmente lógico.
Duo assistiu toda a reação de Heero a sua idéia e na sua opnião não poderia ter sido melhor a coisa toda. O japonês parecia ter entendido seu raciocínio e para ele isso seria o bastante, mas perceber que ele também gostara isso sim era uma coisa louvável.
"Arigato." Foi tudo que o jovem disse antes de se levantar e ir em direção aos quartos.
Duo ficou mais um tempo sentado olhando para o nada até ouvir seu nome sendo chamado. Ele virou para escadas encontrando Heero parado a frente dos degraus.
"Boa noite, Duo. E não esqueça de ligar quando chegar em L2."
O americano assentiu para depois ver o jovem voltar a direção dos quartos. Ele levantou, bateu o pouco de poeira que estava em suas calças e foi para seu próprio quarto. Aquela não havia sido uma noite comum naquela casa, mas ao que tudo indicava pelo caminho que rumavam, as coisas tendiam ainda mais a sair do caminho seguro de antes.
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O dia não estava tão fresco como costumava ser. O cheiro não era o mesmo no ar, nem mesmo o céu era igual. Tudo novo e ao mesmo tempo a mesma coisa de sempre.
Ele gostava de estar e volta, gostava até mesmo dos calafrios que lhe subiam a espinha toda vez que passava por determinadas ruas. Que o chamassem de masoquista, ele não estava nem ai. Na verdade, talvez até chegasse a ser.
Chutou um pouco da terra seca e ouviu o estrondo que ela fez ao bater no grande portão de ferro. Pelo visto não chovia a bastante tempo como sempre acontecia naquela colônia, não que ele já não estivesse vindo preparado para isso.
A calça jeans era leve e clara, estava com algumas manchas de barro da caminhada, a regata preta deixa a pouca brisa que corria bater em seu corpo e os ósculos escuros em conjunto com o boné protegiam seu rosto.
"Você está atrasado sabia?"
Duo olhou para a garota de cabelos escuros que agora estava parada na frente do portão meio aberto. Usava uma bermuda cargo que algum dia deve ter sido em um tom de bege, uma regata branca e um top azul por baixo. As mãos sujas de graxa e o grande cinto de ferramentas pendendo em seu quadril deixavam claro sua função numas das áreas mais masculinas de L2.
"Um Shinigami nunca se atrasa, bela senhora."
O sorriso maroto que o jovem lançou por baixo da aba do boné fez todo o clima de primeiro contato acabar. Hilde se lançou em cima do americano rindo e beijando sua bochecha.
"Você não tem jeito moleque!"
Duo sorriu e tirou os óculos.
"Me mostre o toque feminino que você deu nesse lugar." Disse depois de bagunçar o cabelo da garota.
"Certo, chefe!"
Ambos riram e seguiram em direção ao ferro-velho.
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"Você já sabe o que vai fazer?"
Os quatro integrantes da casa estavam sentados. Todos sabiam que o que tinham em mãos não era nada normal.
Sim, já tinham tentado invadir a casa de Quatre antes, assim como outras coisas. Ladrões eram normais até mesmo em épocas onde a paz era mais presente, mas todos sempre foram pegos por seus sensores. O que havia ali era alguém que conhecia a tecnologia e habilidade que os ex-pilotos gundam possuíam.
"Não vai adiantar colocar mais armadilhas, Barton. Quem quer que seja sabe como agimos." Wufei olhava atentamente para os outros. Todos buscavam algum modo de resolver o problema.
O moreno concordou com a cabeça. Não tinham como usar de métodos antigos, muito menos suas capacidades. Parecia que tudo que pensavam dava em uma armadilha.
"Talvez devêssemos nos focar mais no motivo."
Todos estavam agora com o olhar em Heero.
"Qual seria o motivo para alguém que nos conhece e com a habilidade que possui roubar bem o nosso leão? Em qualquer outro lugar ele com certeza sairia muito bem se ser notado, sem pistas. Um roubou perfeito." O japonês segurou a foto que possuíam e olhou atentamente mais uma vez. "Existe a grande possibilidade de que ele tenha planejado aparecer nessa foto."
Aquilo parecia óbvio a todos. Não haveria outra explicação para apenas essa foto. Sorte era algo que não podia ser cogitado quando se tratava deles.
"Meu medo é de levarem mais um dos animais."
A expressão de Trowa não era das melhores, passaram a sua noite em claro velando o sono do loiro e sua mente agora, ainda exausta da pressão que tivera no dia anterior, pedia o devido descanso.
"Não acho que algo aconteça a mais um de seus animais. Pelo menos não por enquanto." Quatre tinha o olhar agora fixo no rosto de Trowa. "Ele está nos testando, se divertindo a nossas custas e quer ver se iremos descobrir seus planos. Não tem motivos para nos preocuparmos com isso agora. O quanto mais rápido descobrimos com quem estamos lidando, o mais rápido teremos seu leão de volta e não nos preocuparemos mais com isso."
Os outros dois participantes da mesa concordaram com o loiro. Aquilo era a única coisa que podiam fazer momentaneamente.
"Eu tenho que ir ao dojo." Wufei se levantava da cadeira enquanto pegava seu prato. "Podemos continuar isso mais tarde. À noite buscamos alguma solução um pouco mais ativa para fazermos, mas por enquanto acho que não vamos conseguir descobrir mais nada que possamos fazer."
Todos levantaram e partiram para o que iriam fazer naquela manhã. Trowa seguiu para porta ainda com a expressão exausta seguido de perto por Quatre.
"Fica tranqüilo, Bello. Vai tudo dar certo." E saíram.
Wufei pegava a mochila já colocada anteriormente ao lado da porta e antes de sair se virou para o japonês que começava a seguir para as escadas.
"Boa sorte, Yui. Bem vindo ao mundo." E com isso seguiu seu caminho para o carro.
Heero sorriu. Não estava nervoso, muito menos preocupado com o que poderia vir a acontecer. Ele tinha certeza de que conseguiria o que estava indo procurar, mas mesmo assim se sentia bem ao perceber que havia alguém que estava apoiando. Isso fazia com que sentisse um pouco de saudade de Duo.
Entrou no quarto indo direto ao chuveiro. Jogou as roupas do corpo em cima do vaso e entrou debaixo da água quente permitindo que seus músculos relaxassem. Lavou o corpo e os cabelos deixando por fim a espuma escorrer. Enxugou-se e amarrou a toalha na cintura. Pegou uma calça jeans clara e a regata verde. Colocou a arma presa nas costas e um coturno, por fim uma jaqueta de couro. Era agora.
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"Senhor! Temos um problema no banco de dados!"
Quatre tirou lentamente os olhos da pilha de papeis a sua frente levantando uma das sobrancelhas. Nunca tinha visto seu empregado daquela forma. O geralmente controlado Rashid estava ofegante e adentrara sua sala com tamanho desespero que a porta batera contra parede.
Estendeu a mão e os documentos logo lhe foram entregues. Franziu o cenho para os números que ali se encontravam. Eles haviam sido hackeados e se não estavam quebrados agora era simplesmente porque a pessoa não o quisera fazer.
"Encontramos isso também senhor." Rashid colocou a frente de Quatre uma folha de papel.
Os olhos antes claros do loiro agora estavam quase negros, ele esmagou a folha que lhe fora entregue e segurou o pescoço do homem contra a parede com uma velocidade que o mesmo nada pode fazer para impedir.
"Quem encontrou esses processos?"
A voz não era a mesma calma de sempre, possuía um tom assassino que o homem nunca tinha ouvido de seu supeirior.
"Eu mesmo, senhor..." A voz de Rashid estava fraca pela força com que seu chefe lhe apertava a garganta.
Quatre soltou o homem da parede, pegou o terno, a mala que estava em cima da mesa e olhou mais uma vez para a folha amassada em suas mãos. "Volto mais tarde." E saiu.
Rashid estava no chão a respiração pesada e o pescoço vermelho. Ele também se preocupara com o problema da invasão, nunca tinham sofrido uma antes, mas o que mais o assustara foi o fato do jovem mestre ter ficado tão irritado pela foto de um filhote de leão.
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Heero caminhou lentamente até a cadeira a frente da sala. Havia um quadro branco com uma escrivaninha a frente e mais cadeiras as suas costas. Não fora o primeiro a chegar, na verdade chegara no horário exato. Dez minutos se passaram e mais alguns jovens ocuparam as cadeiras quando um senhor nos seus 50 e poucos anos entrou na sala.
O pouco barulho que existia cessou no momento em que ele parou virado a todos. Os ombros eram largos e as mãos grandes, possuía a pele bronzeada e o cabelo preto e ondulado estava um tanto comprido. Os olhos sérios rodaram pela sala antes que ele começasse a falar.
"Bom dia. Meu nome é Roberto e a partir de agora começará a entrevista de vocês. Não esperem algo fácil, vocês, se conseguirem entrar para o meu batalhão, não irão encontrar nem um pouco de moleza."
Heero sorriu. Isso ia ser divertido.
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O jovem de óculos escuros parou na frente do prédio no centro de L2. Nunca ficava a vontade naquele lugar, afinal, nunca tinha sido um lugar onde ele tinha conseguido boas lembranças.
Entrou pela grande porta de vidro e seguiu até a grande mesa onde estava uma mulher sorrindo para si.
"Boa tarde, em que posso ajudá-lo?"
"Por favor, informe ao Sr. Koster que Maxwell está aqui para vê-lo."
A mulher apertou um botão liberando a entrada de Duo e pediu para que se dirigisse aos elevadores.
As portas abriram ao atingir seu destino e logo o americano estava dentro da grande sala com uma mesa de mogno ao centro e as paredes feitas de vidro davam a impressão de que a sala seguia ao horizonte. Na grande poltrona atrás da mesa estava um senhor já de idade que pediu para ele entrasse.
"Senhores."
A palavra foi dita de forma silenciosa, porém séria e precisa. E no mesmo momento dois seguranças seguraram o ex-piloto na tentativa de prendê-lo. Duo chutou o joelho de um deles com seu calcanhar e ao ter uma das mãos livres foi em direção ao segundo homem, girando a cabeça com uma força maior para que sua trança batesse no rosto do primeiro.
Deu um soco e uma chave de braço no que ainda se mantinha de pé enquanto pegava a arma deste e apontava esta agora para a cabeça do velho ainda sentado. Pisou na parte de trás das pernas do segurança fazendo com que o mesmo caísse e lançou um olhar para o primeiro. Que ele não ousasse se mexer.
"Bravo, Sr. Maxwell. Pelo visto eu menosprezei suas habilidades."
"Paremos com as formalidades sim?" Duo tirou os óculos os colocando presos na camisa branca. Os olhos violetas estavam mais fortes graças a adrenalina que corria em seu corpo. "O que quer de mim, Kusherenada?"
O velho sorriu malicioso, o que faz com que ficasse visível o brilho emborrachado das bochechas.
"Tenho uma proposta para você."
TBC
Nota da Autora:
Gostaria de pedir desculpas pela demora desse capítulo. Eu tive uns problemas e depois meu emprego e estudos não conseguiram se entender, o que não me permitiu tempo para escrever.
De qualquer forma gostaria de agradecer principalmente a Silvia, Ren-san e Domi. Obrigada pelas reviews, queridas.
E acrescentar que o próximo capítulo, se tudo der certo, vai vir mais rápido.
Obrigada por lerem ;)
