Diários

Cap.5

O calor era intenso do lado de fora e vários dos "entrevistados" já haviam sido eliminados. Não que eles tivessem sido retirados do percurso, tivessem falhado na prova escrita ou alguma coisa como aquela. Eles pediram para não continuar.

O Sol alto fazia o suor escorrer pelos músculos Heero. A regata estava grudada no tórax bem definido, mas a expressão em seu rosto e postura de seu corpo mostravam o quanto não estava cansado. O Berro da sirene fez com que todos fossem para o toldo próximo e pegassem um pouco da água oferecida.

"Estamos chegando a mais uma momento de decisão senhores. Essa foi a penúltima etapa do circuito físico e por fim iremos para os testes com modelos." O homem olhou pra todos. "Vocês tem 2 minutos."

Nenhum deles falou, apenas apreciaram a brisa leve que batia em seus corpos. Nas primeiras vezes alguns até tentaram socializar entre si e ocorreram algumas brincadeiras, mas conforme se passaram 5 horas em teste foram se calando enquanto poupavam suas energias. Nenhum deles estava ali só por brincadeira.

"Apresentem-se." O mesmo homem que fizera a entrevista particular com cada um estava parado ao Sol. Usava agora uma calça cargo e uma blusa branca leve junto com um boné e óculos.

Os candidatos se postaram a frente dele em uma linha reta. Nem todos mantinham uma postura ereta mais, o esforço que havia sido exigido durante aquele espaço de tempo tinha sido muito maior do que muitos esperavam ter encontrado.

O homem tirou os óculos e olhou para o primeiro da fila. "Zero Um. Você vai para o vestiário."

Heero sorriu, não de felicidade ou de alegria, simplesmente porque achava engraçado o fato do destino ter o colocado como 'zero um' de novo. Ele acenou com a cabeça e se dirigiu aos chuveiros. Para ele não fora nenhuma surpresa o fato de ter passado, mas ainda assim não conseguia controlar o seu corpo o suficiente para não se sentir aliviado.

Pensou em tudo o que queria quando ouviu a idéia sair da boca do Americano. Não que pensasse que não conseguiria a vaga. Simplesmente tinha em sua cabeça que só servia para uma função em sua vida e que isso nunca iria mudar.

Tirou cada peça de roupa e deixou a água fria bater em seu corpo. Pode ouvir os outros chegando aos poucos e fazendo o mesmo que ele. Alguns eram mais espalhafatosos que outros e berravam ou saltavam pela emoção.

Heero pegou a toalha que lhe fora oferecida e esfregou os cabelos. Amarrou a mesma na cintura e pegou o aparelho celular. 30 ligações não atendidas. Aquilo fez com que seu corpo se tencionasse de novo.

...

Os três estavam sentados na sala quando a porta bateu e o japonês apareceu. Heero sentou e olhou para cada um esperando que algum deles explicasse o que ocorreu.

Nem ao menos tinha comentado nada com o supervisor antes de voltar a casa. Simplesmente pegara suas coisas e entrara no modo piloto voltando para a mansão no automático antes que algo mais pudesse acontecer. Não ligara, pois sabia que o assunto para ser tão urgente não devia esperar.

"Alguém quebrou o sistema das empresas Winner."

Aquilo caiu como um balde de água fria sobre ele. Quem teria a capacidade de fazer algo como aquilo em tão pouco tempo? Sua mente trabalhava rápido tentando raciocinar todos os fatores. Seu semblante porém não deixava transparecer nem metade

"Maxwell ainda não sabe."

Heero encarou o chinês e analisou bem as palavras do outro. Aquilo fazia sentido para sua parte lógica. Duo não estava aqui, informar a ele era sem necessidade e causaria apenas preocupação já que o mesmo não poderia ajudar em muita coisa estando longe. Porém essa constatação fez a outra parte sua perceber que queria o americano ali para ajudá-los.

Ele acenou com a cabeça e voltou seu olhar para a mesa. Precisava de mais dados, claramente algo não se encaixava naquela história toda.

"Há algum rastro."

"O desgraçado deixou um bilhete."

A voz que encheu o ambiente era mais fria que o de costume e o olhar assassino em nada era parecido com o comumente visto no loiro.

Ele colocou um papel colocou na mesa.

0 1 0 0 1 1 0 1 0 1 1 0 0 1 0 1 0 1 1 1 0 1 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 1 1 1 0 0 1 1 0 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 0 0 1 1 0 1 1 1 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 1 0 1 1 0 1 1 0 1 0 1 1 0 1 0 0 1 0 1 1 0 0 1 1 1 0 1 1 0 1 1 1 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 1 0 0 0 0 0 1 1 1 0 0 1 0 0 1 1 0 0 1 0 1 0 1 1 0 0 0 1 1 0 1 1 0 1 0 0 1 0 1 1 1 0 0 1 1 0 1 1 0 0 0 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 1 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 1 1 0 0 0 1 1 0 0 1 0 1 0 1 1 0 1 0 0 1 0 1 1 1 0 1 0 0 0 1 1 0 0 1 0 1 0 0 1 0 1 1 1 0

"Filho de uma..."

Os olhos verdes se estreitaram e amassaram o papel. O jovem levantou e socou a porta do armário.

Nenhum deles disse, pois era muito óbvio. Quem quer que fosse sabia do passado de cada um e sabia também do presente. Além de ser um exímio espião.

"Eu não quero falar o que estou pensando." Os olhares se viraram para o chinês que encarava sério os integrantes da sala. "Mas me parece mais lógico do que qualquer outra opção que eu analise."

Aquelas palavras não precisavam ser completadas. Eles sabiam o que era, só não queriam acreditar pois faltava o fato essencial dessa acusação. Motivo. Mesmo com o conhecimento profundo que possuíam não havia sentido naquilo tudo. Mesmo que fosse só uma brincadeira.

"Essa hipótese não deve ser colocada como principal." Heero se pronunciou quebrando o silencio que se instalara no aposento. "Mas infelizmente não temos como descartá-la integralmente."

"Ele virá de novo." Wufei passou a mão no cabelo soltando as mechas de modo a relaxar a cabeça. "Atrás de mim ou do Yui."

"Estamos à mercê de seu próximo passo senhores. E pelo visto isso foi muito bem planejado."

Trowa colocou as mãos no ombro do árabe respirando fundo e pressionando levemente o músculo estressado. Quatre praticamente não falara desde que chegou na casa. Manteve um olha frio e distante, como se planejasse algo.

Ele sabia que o loiro tinha as empresas Winner como sua maior conquista, ainda mais por conseguir fazer com que ela se transformasse numa das maiores na Terra e nas Colônias. Sabia que tudo que fora feito era para honrar a memória e legado do pai dele, entendi o quanto devia doer ver tudo ser atacado bruscamente sem que tivesse percebido. Trowa tinha se sentido da mesma forma.

...

O portão do hangar rangeu quando ele entrou. Sua cabeça doía e forte calor só fazia com que seu mal estar piorasse. Tentava a todo custo colocar a culpa em qualquer coisa que não fosse a si próprio. Podia até mesmo culpar Kushrenada. Bem, na verdade não podia.

Não havia chantagem, obrigação, nem mesmo algo sórdido onde até mesmo seu lado doentio poderia ser o acusado. Dessa vez nem mesmo o Shinigami tinha parte no que stava fazendo.

Balançou a cabeça querendo somente entrar debaixo de uma água fria e tudo poder ir embora. Se sentia sujo sem motivo.

"E então?"

A voz feminina o fez se alegrar um pouco.

"Como foi com o figurão?"

"Bem, eu acho. Os negócios já começaram a fluir e logo estará de acordo com o que deveria ser desde o principio."

"Tem certeza?"

Ela sabia. Sabia porque ele contara tudo para ela. E a mesma não era estúpida de acreditar que ele tivesse largado tudo na Terra para vir ficar naquele muquifo com ela por aquela desculpa esfarrapada.

Duo sorriu dando um beijo na testa da amiga. Ele sabia de tudo antes de chegar a L2. Desde o primeiro contato ele percebera toda a situação e o esquema que estava sendo formado. Mas ele não estava sendo altruísta, teria seu intento realizado no processo, mesmo que tivesse que machucar aqueles que mais amava.

"O que é a vida sem um pouco de aventura, minha cara?"

Ele passou a mão pela cintura de Hilde e começaram caminhar em direção a casa.

"Sua vida nunca foi e nunca será sem aventura, querido."

"Obrigado."

"Por nada."

Ambos entraram. Hilde seguiu para a sala selecionando algo antigo e diferente para assistirem, enquanto o americano retirava de uma pequena porta duas caixas de comida. Ele não era a favor do uso métodos rápidos de alimentação, preferia mais alguma coisa entregue do que aquilo, mas concordava que a maior parte das vezes a tecnologia era assustadoramente indispensável.

"Qual a surpresa da noite?"

Ela pressionou o botão no apoio do sofá e sorriu a imagem que apresentava.

"Fazia um bom tempo que eu não assistia esse." Se recostou no corpo do jovem. "Boa escolha?"

"Sempre boa."

Parecia absurdo que por causa do fim da guerra as pessoas tenham retornando aos filmes, seriados e qualquer outro programa de uma época tão distante daquela. Mas quando tudo acabou as pessoas não sabiam mais como agir num mundo em constante estado de alarme e foi por meio dessas histórias que eles perceberam como a mente dos seres humanos e ainda como eles chegaram naquele ponto.

"É inteligentíssimo o fato desse plano ter dado certo." Duo sorriu ao perceber os dois sentidos que a frase ganhara.

"Com certeza." A garota puxou levemente a trança do outro. "Agora me deixa ver o Slevin."

...

Já era madrugada quando o japonês colocou o caderno de volta no criado mudo. Ele recostou a cabeça no travesseiro olhando para o teto, suspirou.

"Baka."

Ele fechou os olhos e dormiu.

...

Eu não quero pensar muito hoje. Na verdade desde que ele foi embora eu não tenho vontade pensar em praticamente mais nada. Até porque até no quer eu preciso analisar está me levando em direção a ele.

Acredito que nenhum de nós quer mesmo pensar muito nele porque ele sempre foi um elo muito forte entre nós e com tudo que tem acontecido não queremos ver a verdade por trás de todos os fatos. Somos soldados muito bem treinados.

Pode ser que não atuemos mais como soldados. Nenhum de nós, mas seremos sempre soldados, em todos os momentos, fomos feitos disso e para isso.

E fatos não são escondidos de soldados, eles martelaram em nossas cabeças e nunca teremos a chance de fazer como pessoas normais que simplesmente os ignoram.

E por mais que possa parecer idiota e não encontrarmos ainda o motivo, sabemos que é verdade. Estava espelhado na face de cada um naquela mesa. Duo está envolvido em tudo que está acontecendo.

Parece ridículo, contudo me dá um pouco de prazer enfrentar ele de novo. Ele é ótimo no que faz e apesar de saber que ele está presente não sabemos como vai agir e onde está. Esse é o poder do piloto Shinigami que conhecemos e é por isso que ele era um de nós os 5 melhores, cada um com sua particular especialidade.

Que ele venha.

TBC

Nota da Autora:

Sinto muitíssimo pela ausência e demora na atualização dessa história. Espero que mais esse capítulo tenha dado um pouco mais do gostinho da história que estou querendo criar.

Não sei se já reparam, mas nossos meninos/homens/garotos gundans para mim se tornaram viciados em filmes/séries vintage para época deles. Nesse capítulo temos Duo e Hilde vendo "Lucky Number Slevin"(Xeque Mate).

A parte do código binário, bem... Dêem um pouco de pesquisada e sei que vão conseguir traduzir sozinhos, não tem muita graça quando não tem um pouco de suspense e busca por si próprio, não é mesmo?

Obrigada mais um mês por lerem e rezem para que eu consiga acabar logo o próximo capítulo. ;)