Capítulo III
Especial de Ano Novo
A festa de ano novo estava quase no final, já eram quase três da manhã. A comemoração acontecia na mansão do diretor d' Os Garotos, o senhor Soujiro. Do lado de fora, apesar do frio, persistiram uns poucos repórteres, aguardando por um furo, talvez. No entanto, do lado de dentro, após a brincadeira de amigo oculto, "os pés de valsas" se arrastaram para o salão, levando quem podia. Seiya, que era fraco pra bebida, depois de dois copos de champanhe estava falando alto no ouvido da atriz que fazia o papel da Aliah, enquanto rodopiava a menina pelo salão inteiro. E ela, mesmo sem ter ingerido uma gota de álcool já se sentia mais tonta que todos. Mesmo assim estava feliz, sabia que ser cortejada por Seiya, era o destaque que precisava para se manter nas capas das revistas, "merchan gratuito", pensou ela, deixando o sorriso cada vez mais convidativo em seu rosto, jogando os braços para cima dos ombros do moreno.
"É uma pena que os repórteres foram proibidos de entrar na festa", continuou pensativa, mas concluiu que daria um jeito de roubar um beijo do amigo ator na saída, ou não se chamava Aliah Konomotto.
O termômetro da parede da sala marcava quatro graus. O Japão era muito frio nessa época do ano. E a bebida mais convidativa servida, com certeza era o vinho. Tinha de vários estilos e fragrâncias, para todos os gostos, dos mais simples aos mais requintados. Ikki estava em seu momento piadista, fazendo o pessoal rir, contando cenas dos bastidores e fazendo imitações - o que era seu forte, afinal, fizera muito teatro -. Era uma grande roda, onde estavam: a sua atual namorada - a atriz que fazia o papel da Sheena; o seu irmão Shun; o próprio senhor Soujiro e Shiryu, que balançava o recém nascido Koan nos braços, ao lado da mulher, a atriz que fizera o papel de Shunrey no início da série Saint Seiya.
Shunrey por sua vez, trazia no colo, a primeira filha do casal, a pequenina Isis de três anos, que dormia feito um anjinho, após gastar todas suas energias correndo por todo salão da festa. Na roda estava também, a atriz que fazia o papel da doutora Kanagawa, ao lado do marido, o cirurgião dentista Shirei Kazato, e a sua pequena filha de cinco anos, Kamihiro, que também estava dormindo em seu colo. O ator que fazia o papel de Spike ajudava Ikki nas piadas. Os demais, estavam espalhados pelo salão em casais, ou já haviam se retirado, como a atriz e cantora que fazia o papel de Flér, a moça tinha chegado acompanhada do namorado, o ator que fizera o papel do guerreiro deus Haguen na fase de Asgard, mas os dois já tinham ido embora.
Shun encheu sua taça de vinho e saiu da roda de fininho. Havia adquirido o péssimo hábito de fumar, por causa da participação que fizera em um filme algum tempo atrás, antes de começar fazer Os Garotos. E agora, de vez em quando à vontade lhe falava mais alto e ele tinha que pelo menos dar uma tragada. Assim, rumou sozinho na direção da saída. Antes de atravessar a porta que levava ao Jardim, olhou seu rosto vermelho no vidro embaçado, era por causa do frio e do vinho. Tinha que parar de beber por àquela noite, memorizou. Já havia perdido a conta de quantos cálices ingerira, e a tontura ao ficar de pé comprovara que não foram poucos. Ajeitou o casaco de lã pesado que vestia e abriu a porta sorrateiramente, saindo rápido, antes que o frio entrasse denunciando sua debandada do grupo de piadas.
Ao chegar do lado de fora encolheu os ombros, sentindo os músculos enrijecerem por causa da rajada de ar frio e condensado. Parecia o inverno mais rigoroso de Tókio. Havia nevado o dia inteiro e o frio na madrugada era arrebatador, devia está pelo menos uns vinte graus abaixo de zero.
Shun caminhou até à amurada do jardim, retirou as luvas, deixando o copo de vinho em uma das mesinhas do lugar. Na primavera aquele local deveria servir para um lanche rápido em pé, como tomar suco e comer um sanduíche. A casa do senhor Soujiro era muito bonita, admirou ele, olhando em sua volta. Soprou as mãos, tentando mantê-las aquecidas, procurou o isqueiro em um dos bolsos e a caixa de cigarros no outro, uniu os dois ao encontrá-los, sorrindo com o crepitar da chama azulada do isqueiro que se apagara rapidamente por causa das rajadas inoportunas de vento gelado. Colocou o cigarro na boca e tragou, lembrou-se por um acaso de Alexei e sorriu. Sim, aquela época do ano sempre lembrava o russo. Lembrou-se também de quando viajaram para gravar a série de Asgard, ainda no começo dos Cavaleiros do Zodíaco. Conhecera a mãe do loiro, e suas irmãs, todas tão lindas. Sorriu mais ainda ao lembrar-se da mais jovem, Vivian, parecia muito com o Hyoga, mas tinha um jeito mais meigo, sempre agarrado ao irmão. Sentiu as bochechas corarem, e suspirou mais uma vez, tirando o cigarro da boca. Sim, precisava arrumar uma nova namorada, pensou. Estava começando a enlouquecer, ficar sozinho não era bem da sua natureza, sempre estivera com alguém e agora parecia ser o tempo maior que estava sem ninguém.
Mas arrumar uma namorada comum, era complicado. Primeiro, porque esta, quase nunca compreendia seus horários loucos, por mais que dissesse que tentaria compreender. Já havia tentado umas cinco vezes, com cinco garotas diferentes e todas terminaram dizendo que para ele, Shun, o trabalho era mais importante que o namoro. Depois tentou namorar três do meio artístico, uma modelo, Ayume. Depois a garota que fizera o papel de Misa na série Death Note, sorriu ao lembrar-se. O caso com ela foi drástico. Seu rosto se enrijeceu só de se lembrar das crises de ciúmes histéricas que a garota tinha, e ela mesma acabou trocando-o pelo garoto que faz o papel principal da série Bleach, nem tentou lembrar-se do nome dele no momento. Em seguida, tentou com a atriz que fez o papel da Mutsumi Otohime da série Love Hina. E esta então? Muito temperamental.
O ator coçou a cabeça. Havia fechado a porta de vidro e agora só conseguia ouvir sons abafados de risos e conversas do lado de dentro. Sorriu novamente após dar outra tragada e concluiu, gostava de mulheres do tipo fatal, e não sabia por quê. Por mais que tivesse cara de bonzinho gostava mesmo era de ser dominado. Mas já iria fazer um ano que estava sem ninguém, se não fosse o pequeno rolo que teve com a Kalya bem no início da série, poderia dizer que estava dando jus ao seu signo, virgem. Voltou a tragar, soltando a fumaça no ar.
O trabalho estava ocupando todo seu tempo, não imaginava ser um dos principais nessa nova remodelagem da série, e nem que ela fosse fazer tanto sucesso. Mas o que achava mais engraçado era a torcida que se seguia em torno do seu personagem e do Alexei. Alargou mais o sorriso ao lembrar-se dos comentários que a autora enviou para ele por e-mail, ainda complementando:
"Muitas fãs morrem de pena do Hyoga e se enchem de raiva por Shun não perceber o amor dele..."– sentiu a vontade de rir aumentar.
- Eu sou um bobo mesmo... – sussurrou pra si mesmo. - como consigo pensar em trabalho em plena festa de ano novo?
Por uma acaso avistou Alexei saindo pelo outro extremo da casa, ergueu o braço para chamá-lo e compartilharem das idéias bobas, quando viu o seu acompanhante saindo em seu encalço. Shun abaixou o braço no mesmo instante e ficou sério. Os dois pareciam estar brigando. Shun viu Alexei tentando fechar a porta, pedir que o rapaz abaixasse o tom, fazendo gestos com as mãos. Apesar da distância conseguia ouvir o garoto falando alto, alto não, ele estava gritando. Sentiu algo estranho, o rosto queimar, era vergonha. A discussão estava abrasiva, sabia que o namoro dos dois era recém. Hyoga conhecera Sano em uma premier, o rapaz fizera vários filmes gays.
Não conseguia imaginar como Hyoga aceitara o namoro. Afinal o loiro sempre fora muito reservado e zeloso quanto sua imagem. E àquele rapaz parecia não se importar com escândalos. Ouviu um tapa estridente. Shun arregalou os olhos e viu o menino sair correndo em direção ao estacionamento. Hyoga estava com a mão no rosto. E dali de onde assistia tudo, teve a impressão que Hyoga pensara em segui-lo, pois deu um passo a frente, mas logo, se deteve. Talvez as luzes na rua mostrassem que ainda havia repórteres por perto, o que seria um prato cheio para uma manchete de capa. O loiro crispou os punhos, deixou a cabeça pender para o queixo e se manteve no mesmo lugar por algum tempo.
Shun pensou duas vezes. Será que era prudente ir até lá e dar uma palavra de conforto ao amigo? Ou será que ele precisava ficar sozinho? Viu Hyoga voltar seus olhos para o vidro da porta, olhando para dentro da casa, e em seguida, virar-se bruscamente para o lado oposto e andar rapidamente, provavelmente rumando para os fundos da residência. Era certo, não queria entrar de novo no recinto caloroso, e ter que responder possíveis questionamentos, como por exemplo, onde ele havia perdido o namorado?
Hyoga desaparecera rapidamente e enfim piscou. Sentindo a brasa do cigarro queimando sua pele. Soltou o toco no chão, e sentiu uma dor incômoda lhe cutucar a testa. Precisava de mais vinho, pensou, indo até a porta. E por sorte, não precisou entrar, a garrafa que o garçom deixara na mesa do canto da sala, ainda estava lá, quase intacta, pegou outra taça, foi até aonde havia deixado a sua e a entornou garganta abaixo em um único gole. Novamente a tontura. "Ah! Que se danasse!" pensou. Iria fazer companhia para Hyoga e tentar alegrá-lo! Afinal, era ano novo. E os dois estavam sozinhos.
E pensando assim, caminhou com cautela, na mesma direção que o loiro havia tomado. O jardim da casa era denso naquela região, e algumas árvores frondosas formavam paredes que dificultava o acesso. Mas conseguiu chegar ao fundo do terreno. Ali havia uma pequena fonte na parede, de onde jorrava água da cabeça de um leão. Hyoga estava sentado na mureta da fonte, olhando para os próprios joelhos, parecia rodopiar algo entre os dedos. Shun tentou sair da moita sem ser notado, mas um arbusto insistira em agarrar seu pé e acabou tombando no chão cheio de neve.
Hyoga sobressaltou ao ouvir a queda, sentindo o coração disparar. Havia levado um susto, recolocou o relógio no pulso. Apesar da madrugada escura, as luzes que vinham da casa e dos postes altos da rua deixavam aquele lugar bem iluminado. E pelos cabelos claros, e o casaco grosso de pêlos, sabia de quem se tratava, era Shun. Primeiro aproximou-se preocupado. Tentando pegar em seu braço e ajudá-lo a levantar.
- Shun, você está bem? – perguntou realmente preocupado.
- Não, não quebrou nada... – respondeu o amigo, deixando a voz mais mole do que a bebida provocara.
- Certeza?
- Certifique-se você... – disse ele, empurrando as duas taças que estavam em uma das mãos e a garrafa que estava na outra.
- Está se referindo a bebida, Shun? – perguntou Hyoga deixando um tom irritado ganhar sua voz. – Estou perguntando de você... – alteou a voz ele, tirando os vidros da mão dele, e segurando em seu antebraço, forçando-o a se levantar.
Mas sua irritação passou, e acabou rindo, ao ver Shun com o rosto cheio de flocos de neves, terra, e algumas folhas, tudo colado em seu rosto de porcelana.
- Desculpe Shun, mas você está engraçado... – disse o loiro, levando a mão até o rosto dele tentando limpá-lo. – o que veio fazer aqui?
- Estava te procurando pra gente brindar...
O semblante de Hyoga se fechou e ele olhou para Shun seriamente. O que fez o menino de repente se arrepender da aproximação. Será que ele queria mesmo companhia naquele momento? Tremeu, hesitando. Mas um sorriso singelo no rosto ríspido do loiro fez o tremor todo desaparecer. Hyoga o guiou até onde estava sentado, fazendo-o sentar, servindo-lhe o vinho e depois se servindo também, deixando a garrafa no chão.
- E o que iremos brindar? – perguntou o loiro, com um olhar brilhante, como se estivesse forçando para manter-se ameno.
- Ao... – Shun quis oscilar, mas suspirou profundamente e prosseguiu. – ao ano novo, claro! – disse, tentando fazer sua melhor voz de bêbado. - Ao sucesso da fic! Aos fãs de Shun e Hyoga! Principalmente a eles, os fãs! Afinal são eles... quem nos fazem ganhar melhor...
Hyoga sorriu com mais vontade, um sorriso mais espontâneo. O que encorajou Shun a prosseguir.
- Calma tem mais! A Dréinha, que ela continue enrolando essa história e assim permaneceremos por mais tempo na fic... A... ao... ao... a minha cachorrinha a Charlene, que vai ter filhotinhos...
- Shun o nome do seu cachorro é Kito! E ele não pode ter filhotes.
- É verdade?
- Você está bêbado. – riu ele.
- Mas pelo menos você está rindo... – sorriu sincero.
Hyoga suspirou, ainda mantendo o sorriso no rosto. E levou a mão que não estava ocupada com a taça até o ombro de Shun, puxando-o para um abraço.
Shun, ao ser abraçado, viu o vinho da sua taça balançar e tingir o carpete branco da neve, de gotas vermelhas, tão parecida com gotas de sangue. Aumentou o sorriso frente àquela assimilação estranha e sentiu mais uma vez, aquela confusão perturbadora voltar a sua cabeça, ao pensar em Hyoga. Era bom sentir o calor dos braços dele. Mas não era gay, tinha certeza disso. Seu ouvido estava encostado no peito dele, e conseguia ouvir claramente o coração do loiro, bater mais ritmado, ouviu também Hyoga fungar, como se quisesse segurar a vontade de chorar. Suspirou.
- Se quiser chorar, eu não vou contar a ninguém... – disse abafado, com o rosto tampado no casaco de couro que o loiro usava.
Shun sentiu Hyoga rir, tanto que o peito dele agora sacolejava.
- Meu vinho está transbordando...
- Desculpe... – ele o desvencilhou do abraço e tocou sua taça com a de Shun. – Tim! Tim!
- Tim! Tim! – respondeu Shun sorrindo também. Sem deixar de perceber que os olhos dele estavam marejados. - Não se preocupe Hyoga, ele volta...
Hyoga encarou Shun. Agora suas palavras pareciam sóbrias. Sorriu novamente.
- Estou bem, é sério. Você ouviu nossa briga? – perguntou, em um tom mais constrangido.
- Na verdade, só vi, porque estava tentando fumar ali fora. Mas, eu não ouvi muito bem.
- Desculpe?
- E por quê?
- Ah, não sei... – Shun percebeu que Hyoga parecia um pouco confuso.
- Eu já falei, não se preocupe! – Shun colocou as mãos no ombro de Hyoga, após dar um gole no vinho. – discussões, são sempre discussões. Mas depois os dois se acertam...
- Eu acho que não.
- Não me diga que o relacionamento já esfriou?
- Talvez.
- Por quê?
- Ciúmes... Sempre os ciúmes. – suspirou o loiro, mais uma vez.
- Da sua parte ou da dele?
- Da nossa. Eu com o trabalho dele, ele com o meu. – sorriu debochado. – Irônico não? Não consigo entender por que não conseguimos aceitar tão bem, que nossos trabalhos são apenas trabalhos.
Shun sentiu algo estranho, doer no seu peito.
- Eu não tive haver com essa discussão não é? Digo, por você falar trabalho, e eu relaciono...
- Ele tem ciúmes de você sim Shun. Meu outro namorado também tinha. Acho que todos eles sempre vão ter. E se o Sano voltasse agora... eu estaria ferrado!
- Você acha que corre esse risco dele voltar? Quer que eu saia? – perguntou Shun, com uma voz verdadeiramente preocupada.
Novamente Hyoga riu, meneando a cabeça negativamente.
- Não faz diferença mais Shun. Eu também tenho ciúmes do trabalho do Sano, jogo na cara dele que é pior que o meu porque ele se deita com outro, transa com outro, e... – Hyoga suspirou. – Acho que vou ficar sozinho por um tempo. Afinal, e e você uma hora chegaremos nesse ponto na estória também e ele já me jogou isso na cara. Então... – Hyoga suspirou novamente.
Shun engoliu em seco, agora com uma expressão assustada no rosto.
"Chegaremos a esse ponto?", pensou assustado. "Transar? Ele está falando que iremos transar?". Achou àquilo estranho, ou ele havia bebido de mais, ou Hyoga estava ficando louco?! Eles iriam fingir que transavam e não... – sacudiu a cabeça violentamente. – não era o momento para pensar naquilo.
- Shun? Daijoubu? (1) – perguntou o loiro, preocupado com a expressão séria que Shun fazia.
- Sim, estou bem. Eu também estou sozinho, mas não posso me manter assim, afinal preciso daquilo sabe? Fazer o nheco nheco !
Hyoga desencadeou a rir.
- Ah Shun! Só você mesmo pra me fazer rir agora...
O menino ficou vermelho e esfregou o nariz.
- Mas eu estou falando sério.
De repente, Hyoga segurou a mão de Shun e a puxou para si.
- Casa comigo?
- De novo? – perguntou instantaneamente, deixando o rubor tingir sua face de um vermelho escarlate.
- Shun, porque "de novo"? Não nos casamos ainda... – perguntou, aderindo a brincadeira.
- Não?
Novamente Hyoga sorriu e balançou a cabeça negativamente.
- Não. – sussurrou, confirmando.
- Ah, então eu caso. – assentiu ele, sorrindo. .
Hyoga novamente o puxou pelo punho, para um abraço. O loiro era bem mais forte. Shun sempre se sentia o bonequinho nos braços dele. Lembrou-se que ele já lhe pegara no colo uma vez. Brincavam muito pouco, mais brincavam. Shun correspondeu seu abraço.
- Mas...
Hyoga parou, após ouvir o "mas" de Shun. Mas sua mente vagou. Ainda mantendo-se abraçado a ele. Adorava sentir o odor bom que ele tinha. Shun era assim, sempre muito cheiroso. Sua pele exalava aquele aroma gostoso e infantil, de bebê acabado de tomar banho e passado no talco.
E de repente, lembrou-se da vez que se declarara para ele, quando a série Saint Seiya original fora cancelada. Após o término da filmagem da batalha de Posseidon. Ainda havia uma fase a ser gravada, mas um problema entre autor e produtora, fizera parar a produção.
Não havia escolhido um bom momento para fazer àquela declaração. Shun estava deprimido, pois a fase que haviam cancelado, seria justamente, a mais importante da sua carreira. Afinal, seria a fase de Hades, onde ele receberia destaque, pois interpretaria o deus do mundo inferior, o antagonista principal. Mas graças, àquelas brigas entre as produtoras foi tudo encerrado. Naquele momento, o loiro realmente achou que jamais se veriam de novo, e então pensou que àquela era à hora certa. Mas como fora tolo. Sentiu seu rosto arder, só de se lembrar do momento. Shun, apesar da aparência frágil, fora suficientemente maduro, para entender àquela declaração, e renegar convictamente seus sentimentos.
Naquele dia dissera tudo que sentia em relação a ele. Que o queria muito mais que amigo. E que sentia por ele um amor de verdade. Fora sincero em cada palavra. E sofrera muito, com àquela recusa, pois ostentara a idéia de que Shun também sentia o mesmo por ele. Pura ilusão. O ingênuo havia sido ele, em confundir a amizade que tinham. E até hoje se sentia envergonhado por ter se declarado, mas no fundo, aliviado.
Shun, apesar da recusa de seus sentimentos e do pedido de se tornarem algo mais que amigos, não o repudiará. Ao contrário, o tratara com muita doçura. Na verdade Hyoga nunca havia levado um fora tão delicadamente como levou de Shun. E depois do menino ter lhe afirmado que não tinha intenção nenhuma de "nadar" contra correnteza, os dois fizeram um trato de manter a amizade. Shun ainda prometeu respeitar o que ele sentia.
E foi assim, até quando voltaram a se ver, depois de algum tempo, quando decidiram retomar a série e a batalha de Hades. Shun o cumprimentara como se nada daquilo tivesse acontecido. Mesmo assim, sabia que ele se lembrava de tudo muito bem. Assim, como ele mesmo, nunca conseguiu apagar tal episódio da cabeça.
E apesar de tentar e esforçar-se, para esmigalhar dentro de si o que sentia por Shun, não teve sucesso. Mas não deixava de tentá-lo, o que o irritava é claro. Na verdade, a paixão dele por Shun acendera-se novamente, no momento em que foram chamados para fazerem juntos, essa nova série... Os Garotos. E o loiro tinha consciência, que só interpretava tão bem, porque no fundo, o que expunha ali, para todos verem, como se fosse sua melhor interpretação, se tratava na verdade, da mais pura realidade. E acreditava também que no fundo, Shun estava ciente que sua paixão por ele apenas amenizara, mas não desaparecera.
Afinal, quem consegue passar uma borracha em cima de um amor assim tão transcendente e verdadeiro? Amar Shun era um sentimento doce, bom, arrebatador e incontrolável. E se ele era feliz ao lado daquelas mulheres, Hyoga também se sentia feliz. E não culpava Sano, por sentir tanto ciúmes. Porque ele mesmo, não conseguia apagar Shun de dentro de si.
- "Mas" o quê Shun? – sussurrou, apertando o menino em seus braços e afagando seus cabelos. Inspirando brevemente aquele perfume delicioso que o entorpecia em cena e fora dela.
Shun havia se perdido no abraço, piscou. Na verdade a bebedeira o fizera lembrar do dia em que Hyoga se declarara para ele. Ainda eram tão crianças. Levou aquilo até como uma brincadeira. Mas o coração dele palpitando fervoroso daquele jeito naquele instante o fizera oscilar. "Esse Alexei! Ainda sente algo por mim?"
- Eu ia dizer que quero uma cerimônia de casamento simples, sem vestido de noi- noiva... hic! – soluçou, voltando a falar com a voz mole.
Hyoga gargalhou gostosamente e soltou-se dele. Agora mantendo apenas as mãos em concha segurando o rosto de Shun. O menino sentiu um frio aturdido invadir o estômago e apesar da temperatura fora do normal do lado de fora, sentia o rosto queimando.
- Vai ser como você quiser...
Shun riu. Por algum motivo lembrou-se dos beijos falsos que trocaram, quando ele interpretara o Ken. Naquele momento não era ele, sentiu-se tão à vontade em se fazer tão escrachado naquele papel debochado do Ken. Até sentiu prazer em dar àqueles beijos. Àqueles beijos, ralos... foram tão... Sem sentido, sem graça, cinematográficos, quis enganar sua cabeça. Suspirou, porque estava pensando naquilo?
- Hyoga... - Shun paralisou seus olhos no olhar azul-céu do loiro, o que fez Hyoga se sobressaltar e prender a respiração.
- Hai? (2)
- Se eu te pedir uma coisa, você não vai me... me... me chamar de louco?
- Se pedir para eu dançar pelado nesse frio, eu vou chamar sim.
Novamente eles riram.
- Não... – Shun agora falava com o olhar disperso. - Eu nunca passei a virada do ano sozinho, dizem que dá má sorte. Você passa o ano inteiro sem ninguém. E eu sempre estou com alguém e a gente se beija na vira... virada... Sabe... lance de sorte... superstição, essas coisas.
- Sei. – respondeu Hyoga, automático.
- Então você quer?
Hyoga arregalou os olhos. Não, não podia estar entendendo o que estava entendendo.
- Shun, está me pedindo um beijo?
- É.... Mas... – exasperou-se. – A gente já fez isso em cena, então acho que não é nada fora do comum assim e...
Hyoga já estava com o rosto muito próximo do dele.
- Achei que esse dia chegaria apenas quando fossemos encenar o primeiro beijo na fic.
- Mas a fic, é a fic, e o que estou te pedindo agora é... pra ser de verdade. Vai ser um beijo... gay, de verdade.
Hyoga riu ao ouvir a palavra "gay", e não conseguiu mais parar.
- O que foi?
- Não precisava enfatizar que é um beijo gay.
- Mas não é? Somos dois sacu... sacudos hic! Se beijando...
- Shun, esqueça. Você está bêbado. Não sabe o que está pedindo.
- E desde quando você se tornou tão certinho? Vive me azucrinando com a porcaria desse sentimento! Me esfregando na cara o que sente! Me incomodando! Agora que estou lhe dando uma chance, você vai se fantasiar de bom moço, que nunca se aproveitou da bebedeira de alguém, pra beijar na boca?! Não seja bundão... hic! – disse ele, ainda com sua voz bêbada soluçante.
O loiro ficou sério. Então era isso. Era o momento. Juntou as duas mãos na nuca de Shun e o puxou bruscamente aproximando seus lábios do dele, arfou e parou a alguns centímetros dos lábios rosados. Shun havia fechado os olhos e esperava com a boca entregue. O rosto vermelho, as pálpebras trêmulas, esperando, abriu um olho, depois outro. O que tinha feito ele parar afinal?
- Repórteres. - Hyoga teve a certeza de ter visto um flash.
- O que foi?
- Eu acho que vi um flash, pode ter repórteres nos filmando.
- Ah... isso? – decepcionou-se. – Conseguiram entrar?
- Não sei.
Shun abriu os olhos totalmente, novamente parecia sóbrio. Levantou-se.
-Vamos entrar então, você está melhor não está?
- Melhor... Mas e o...
- Brochei.
- E a superstição?
- Ah! Acho que eu preciso ficar um ano sozinho mesmo, pra pensar... – sussurrou as duas últimas palavras. Levantando-se meio manco indo em direção a parte densa do jardim novamente.
Hyoga sorriu. Então se os dois se beijassem. A coisa poderia ser diferente, quem sabe ao invés dele passar o ano com uma garota. Quem sabe não perceberia que é mais atrativo, passar com... O Garoto...
- Shun, espere!
O menino já estava enroscando-se novamente em um arbusto quando sentiu a mão do loiro segurar a sua e o puxar para si abraçando-o pela cintura. Arregalou seus lindos olhos verdes e prendeu a respiração, ouvindo Hyoga pronunciar:
- Feliz 2009!
Alexei inflou o peito e colou seus lábios de forma frenética aos lábios de Shun. Sentindo uma louca euforia invadir seu corpo, ao se deliciar com a maciez daqueles lábios. Mesmo de olhos fechados, pôde sentir os flashes disparando em todos os lados. Havia mesmo algum repórter escondido, esperando a manchete inicial do ano. Mas já não se importava. Que se explodisse sua imagem! O que ele queria mesmo, era provar daquela boca, saciar aquela sede de muitos anos.
E estava satisfeito, pois, os lábios de Shun eram doces... Sua saliva invadia a boca dele, forçou sua língua e sentiu a permissão, estavam entrelaçando as línguas, arfando pelo nariz. Sentiu as mãos de Shun subirem para o seu pescoço. Sim, ele estava correspondendo. Pelo menos, naquele momento estava.
Shun fora pego de surpresa, não acreditava que estava nos braços de um homem, beijando-o após a passagem do ano. Sentiu o coração frenético, será que a história da ficção estava se repetindo na vida real? Seria muita coincidência... Fechou os olhos firmemente e abraçou o pescoço de Hyoga, entregando-se, e deixando-se envolver por seus lábios. No fim, era um beijo. E a boca dele era incrivelmente deliciosa...
-...
Fim?
Vocês é que pensam! Continua...
XXX
Feliz 2009! \o/
Owwwwwwwwwww God!
Queria ter feito esse especial para o ano novo, mas enfim. Minha vida corrida não me permite regalias e nem divertimento extra. Então consegui só agora. E enquanto, o esperado momento entre esses dois não chega na fic. Antecipei aqui um pouco nos bastidores. Acho que a maioria que acompanha. Já imaginava que rolava algo de estranho aí entre os atores. Esta aí a conclusão.
Espero que gostem.
Meu beijo coletivo!
See you next!
XXX
Vocabulário
1 Daijoubu ou Daijoubu ka? – Você está bem?
2 Hai – sim;
