Os Bastidores da fic (Os Garotos)
Capítulo 8 – Quem não dança, dança! - Parte I
Alexei adentrou sem bater, a saleta onde estava acontecendo a reunião do elenco. Tentando assim, não chamar atenção do diretor para o seu atraso. Contudo, ao puxar a cadeira aonde iria se sentar, o pé desta enganchou-se em um dos vários fios que transpassavam o chão, fazendo-a tombar.
Evidentemente, um baque ensurdecedor se fez.
O ator loiro quis praguejar, mas diante de todos os olhares que se voltaram para si, apenas sorriu amarelo e coçou a cabeleira espessa, para em seguida, pronunciar um pedido de desculpas quase inaudível.
Após consultar o relógio de pulso e constatar o quão o loiro estava atrasado, o diretor Soujiro suspirou, concluindo que Alexei já era mesmo um caso perdido e, por isso, não deveria aumentar seu nível de estresse com ele.
- Bem, por hoje é isso, obrigado a todos pela atenção. Quem não tem cenas para gravar hoje está dispensado; quem tem, já sabem... – informou o homem, sem ânimo de prosseguir.
O loiro acabou deixando a cadeira de lado, e passou a cumprimentar os colegas que saíam. Realmente havia se atrasado mais do que o costume. Mas não era seu intento chegar para o término da reunião. Tinha certeza que não fizera o cálculo do tempo errado, provavelmente, o falatório incessante do diretor durara bem menos do que cronometrara das últimas vezes.
E, aproveitando o gancho dos cumprimentos, o loiro jogou o braço sobre o ombro de Juashi que estava passando – puxando um assunto qualquer – e tentou seguir com ele para fora, antes que o homem disposto de frente ao History Board (1), lhe chamasse para, -literalmente - "comer o seu fígado".
Contudo, não imaginava que seria fácil escapar da bronca, e antes de conseguir se unir ao aglomerado que tentava passar pela porta de uma única vez, ouviu o chamado:
Alexei, venha aqui, por favor. – o diretor lhe fez um gesto de "vem cá" com a mão.
O loiro revirou os olhos. Foi como imaginara, não conseguira mesmo escapar. E, ouvindo os buchichos dos colegas aumentando, despediu-se do amigo Juashino com um "Te encontro depois pra conversarmos" e seguiu para o lado contrário.
Caminhou até o chefe, e antes de estancar, percebeu Shun ainda ali. E pelo jeito, - bem acomodado na primeira cadeira diante ao diretor – este, não tinha a mínima intenção de se levantar. "Para o meu azar ele não vai seguir com os outros?" indagou-se Hyoga, enervado. "Já não basta eu levar bronca? Será que preciso ser humilhado na frente dele? Logo ele! O Ator perfeição! E o pior... a pessoa que eu...". Hyoga se refreou, ao sentir o olhar fuzilador do diretor sobre si.
- Senhor?
- Alexei, eu não vou falar sobre seu atraso, porque você é um bom ator.
"É assim, que ele começa, e logo ele concluiu com aquele bendito 'mas'"
- Mas... – o homem prosseguiu conforme Hyoga deduzira. – todos os bons atores participam das reuniões e não há porque você se diferenciar dos seus colegas.
- Soujiro-san...
- Por favor! – o homem o interrompeu, arqueando uma das mãos fazendo sinal de "pare", dando a entender que não havia lhe dado permissão para falar. Assim, prosseguiu: - Hoje temos muito trabalho, Alexei. Estamos entrando na segunda temporada propriamente dita. Acabaram aquelas gravações do exterior e você sabe o quanto estas viagens foram cansativas... Quer dizer... Talvez não saiba, afinal, não precisou viajar para gravar externamente, já que suas cenas no vilarejo foram tão pequenas que acabou sendo reproduzida em estúdios, não é mesmo? Então, leve em consideração a exaustão dos seus demais colegas, por favor, e tente não criar pretextos pra ficarmos mais tempo dentro do estúdio.
Hyoga inspirou, abaixou os olhos e meneou a cabeça concordando. Era culpado. Não tinha direito de argumentar.
- Bem, mas não é só por isso que te chamei aqui. – o homem prosseguiu, fazendo os olhos azuis claro do ator, recaírem sobre sua pessoa mais uma vez. – Shun precisa de sua ajuda para ensaiar. Portanto, gostaria de saber se está disponível hoje à noite?
Demorou alguns segundos para o loiro processar aquela informação de forma correta. Ele reproduzira mentalmente, - pelo menos umas três vezes - a pergunta do diretor. Tinha que ter certeza que não entendera errado, e ao constatar que não; franziu o cenho, incrédulo. Procurou fitar a figura de cabeça baixa e feição emburrada; que folheava o roteiro atentamente, querendo demonstrar que estava estudando e não prestando atenção na bronca alheia.
- Eu... ouvi corretamente? – ainda quis ter certeza.
Mas, foi Shun que se levantou e, - largando o texto de lado - se pôs entre Hyoga e o diretor.
O loiro forçou para engolir a saliva, ao vislumbrar aqueles olhos verdes tão tempestivos diante de si. Era algo meio sádico, mas aquele ar de fúria de Shun lhe causava um aperto nas entranhas. Sabia que não era o lugar, o momento e nem a hora apropriada, mesmo assim, não conseguiu conter o ouriçar discreto da sua parte íntima, que se apertou na calça jeans.
- Você leu todo o texto do capítulo sete? – o colega ator quis saber.
"Ah, Deus! Quando ele fala nesse tom tenho vontade de avançar encima dele e mordê-lo inteiro... Porque fez algo tão belo, Deus?! Se nem posso... acariciá-lo. Mas... Ele me fez uma pergunta, não fez? Ah, Hyoga, seu idiota! Preste atenção!", o loiro se auto-recriminou, para depois, pensar em que resposta daria.
Shun percebera que Hyoga ficara bem embaralhado, o que deduzira que, mais uma vez, ele não estava prestando atenção no que saía da sua boca e sim, na própria. Suspirou chateado, mas achou melhor esperar antes de repetir a pergunta.
Já Hyoga, pensou consigo: na verdade, não importava qual era a pergunta, qualquer que fosse esta, sua resposta era sempre a mesma: "não". Foi o que respondeu:
- Não.
Shun revirou os olhos por não ter constatado o óbvio antes. Então, tentou explanar o motivo do pedido do diretor:
- Existe uma cena, quase no final do capítulo sete que está exigindo de mim um treino extra. – Shun expôs e deu uma pausa.
O de olhos verdes notou o diretor sair detrás de si e se reposicionar ao seu lado para ter a visão dos dois, e então, tomar para si o direto da explicação, dando continuidade a sua fala:
- Eu passei o texto para o Shun bem antes de todos, porque achei que ele precisaria mesmo de um tempo a mais para se preparar.
- E que cena é essa? – perguntou o loiro, muito curioso. Afinal, para Shun precisar de treinamento extra, deveria ser algo que este não estava habituado a fazer. Ainda mais, se exigia a sua ajuda, era algo que talvez ele, Hyoga, tivesse um bom entendimento.
- A cena será entre Ken e você Hyoga. – Shun foi direto, e, após engolir em seco, concluiu aquilo que não queria, mas precisava dizer: - É uma cena em que o Ken dançará se insinuando para você...
Os olhos de Hyoga salientaram-se e sua boca se entreabriu, demonstrando ao diretor e ao seu colega aquilo que estes já esperavam: sua evidente surpresa.
Até mesmo Soujiro tinha ciência da forte atração que Hyoga sentia por Shun. Era clara. Afinal, o próprio ator não fazia questão nenhuma de ser discreto quanto ao assunto. E quando lera o roteiro, imaginou que o mestiço de olhos verdes estaria em apuros.
Contudo, era só um diretor e não conselheiro amoroso. Seu trabalho era fazer com que o texto escrito pela a autora da série ganhasse vida. Sabia muito bem que, de agora em diante, as cenas entre aqueles dois tendiam a se tornar mais difíceis de trabalhar. Exatamente por Alexei ter aquele tipo de sentimento pelo colega e ainda, por tê-lo confessado. O que fazia de Shun – que era um ótimo ator – tenso e apreensivo nas cenas que exigiam deles contatos físicos.
Após alguns minutos de mais explicações, e do diretor expor o rascunho do capítulo no History Board para Hyoga, este entendera perfeitamente qual era a ajuda que o colega precisava de si. Shun só queria passar a cena consigo e a coreógrafa, antes de fazerem o ensaio oficial diante das câmeras. Não viu nada demais. Já haviam ensaiado cenas mais tensas juntos: como a do primeiro beijo entre seus personagens.
- Não tenho nada para fazer a noite, e... – informou Hyoga, tirando os olhos do rascunho e, voltando a olhar Shun; concluiu: - Mesmo que tivesse, eu cancelaria pra te ajudar, Shun. Você sabe disso.
O mais novo inspirou fundo ao ouvir a resposta demasiadamente prestativa do amigo. E apesar de ser ignorância de sua parte, era esse tom de "estar sempre de prontidão para tudo que precisasse" que o fazia ter raiva do loiro.
Não teria nenhuma dificuldade de desenvolver a cena se fosse com outro. Mas o russo fazia questão de sempre deixar claro seu interesse sobre si, e até, o prazer que sentia em contracenar momentos mais intensos entre seus personagens. Ele mesmo fez questão de deixar aquilo claro quando aconteceu o primeiro beijo:
- Para você pode até ter sido uma encenação, Shun... – Ele lhe chamou em um canto naquela ocasião para conversarem em particular.
Haviam terminado de gravar a última cena, do último capítulo da primeira temporada. Por isso, estavam comemorando. E, Hyoga havia bebido só alguns goles de champanhe, mas fora o suficiente para ele vir mais uma vez com "aquela conversa".
- Não começa, Alexei. Por favor? – pediu, batendo as mãos ao longo do corpo.
- Não! "Por favor", peço eu! Meu ouve, Shun.
Shun estagnou sério, ao senti-lo segurar seu braço, quando fizera menção de retornar ao restante do grupo que continuava brindando.
Mas, percebendo que não havia jeito e que, teria de ouvir aquilo de qualquer forma, o japonês o encarou, puxando o braço de volta para si.
- Fale. – Shun permitiu que prosseguisse.
- Mesmo que eu repita para mim mesmo, um milhão de vezes: "é só um beijo fingido, merda!". Shun, eu só consigo convencer o meu consciente. Mas aqui... – ele apontou o próprio peito. – Aqui, Shun! O coração... Eu não sou capaz de persuadi-lo. E... mesmo sabendo que é só uma mentira, ele lateja e grita loucamente... Desculpe? – o loiro concluiu, diminuindo a voz no pedido de desculpa.
- Acabou?
- Sim.
- Então, tá. – Shun forçou para deixar o semblante duro esvaecer da face e abriu um sorriso; apanhou a mão dele gentilmente, apertando-a entre as suas e o chamou: – Então, vamos voltar? Você sabe que o grupo quer comemorar com a gente.
- Sei. – ele concordou, meneando a cabeça e forçando o mesmo sorriso, desta vez, um sorriso carregado de melancolia. Afinal, sua declaração, acabara de ser ignorada, pele milionésima vez. – Vamos voltar. – concluiu, deixando-se ser puxado pela mão quente de Shun.
Mas naquele instante, enquanto retornavam juntos para o calor das comemorações de uma temporada de sucesso, o coração do oriental latejou em ter visto as pálpebras do loiro se avermelharem. E teve que apertar os lábios e inspirar mais uma vez, para conter a mesma ânsia que ele sentiu: a de chorar.
Para Shun, era torturante também, sempre passar por aquilo. Tinha raiva de Alexei exatamente por esse motivo: por ele amá-lo e se prender a droga daquele amor. Fazendo-o passar por aqueles momentos de martírio. Parecia até que ele gostava de sofrer ao ouvi-lo rejeitá-lo e dizer não.
Ou, senão, queria vencê-lo pelo cansaço.
A mente do japonês despertou ao ouvir o diretor atender o rádio comunicador que carregava na cintura. Depois de conversar com um dos contra-regras através deste, pediu licença, pois pediam sua presença em um dos cenários.
Então, mais uma vez, os dois ficaram sozinhos frente a frente. Shun, após sorrir incomodado, agradeceu ao amigo por sua prontidão. Em seguida, pediu licença para se retirar também, dizendo que não tinha cena para gravar e não iria atrapalhar quem estava a trabalho.
- Tudo bem, então. Que hora nos encontramos?
- As dezenove, no salão de dança, aquele no prédio cinco, no terceiro andar.
- Eu sei onde é.
- Obrigado, mais uma vez, Alexei.
- Sabe que...
- Eu sei. – Shun o interrompeu. – É que você sempre diz "você sabe..." – o mais novo riu abertamente, fazendo o loiro sorrir também. – Então eu sei. Desculpe-me? Licença?
- Toda. – Hyoga sussurrou.
E permaneceu ali por mais um tempo, fitando a saída por onde o amigo desaparecera afobado. Crispou suas sobrancelhas. Havia achado estranho. Shun estava muito nervoso, mais, do que o habitual.
"Será que todo esse nervosismo é mesmo por causa de uma mera cena de dança, que não vai demorar nem três minutos?" – O loiro se indagou, incrédulo. Observando o roteiro que o diretor lhe entregara. – "Bem, de qualquer forma, só saberei a noite. Mas acho bom me preparar..."
Continua...
Notas:
1 History Board – eu não encontrei uma definição que explicasse de maneira mais literária o seu significado, então darei minha própria definição. History Board são desenhos que servem para rascunhar as cenas que serão trabalhadas. É a forma de o diretor fazer com que seu elenco visualize como ele quer que a cena transcorra.
