Capítulo 2: All Alone, He Turns To Stone
Era por volta das sete da manhã do dia seguinte, que Pierre decidiu que ele, desesperadamente, precisava de um banho quente. A semana tinha sido bastante estressante, e nem estava completamente terminada ainda. Ele ainda tinha o dia todo para se arrastar, até que pudesse se jogar na sua cama o fim de semana todo. Ele sentia falta de fazer isso. (Se ele sentia falta apenas duas semanas tendo que acordar cedo todas as manhãs, uma parte dele acreditava que ele não conseguiria fazer isso pelo resto do ano).
Pierre estava mais ativo essa semana do que em um longo tempo, por isso não arriscaria sua sobriedade. Além disso, sua mente estava um pouco desordenada e ele presumiu que um banho longo e quente poderia limpá-la e, talvez, livrar a confusão que percorria seu sistema.
Ele trancou a porta do banheiro e parou na frente do espelho, apenas olhando para sua própria imagem refletida. Ele não conseguia se lembrar da última vez que fez isso. Pierre nunca tinha sido muito preocupado com sua aparência, mesmo antes do seu pai morrer. Mas ele era sempre capaz de encontrar algum tipo de falha. Ou seu nariz que era muito grande, ou seu abdômen não estava duro o bastante, ou seu... Bem... Pênis não era grande o bastante (embora tivessem lhe dito ao contrário em algumas outras ocasiões).
O resto da sua roupa foi logo tirada e jogada no chão de piso branco. Ele se contorceu um pouco, meio desconfortável por estar nu sozinho. Sempre tinha sido dessa maneira. Ele punha na água quente e fechava a cortina, antes de ligar o chuveiro. Então, ele entrava na banheira, se arrepiando um pouco com a temperatura do seu corpo mudando, com a água correndo por ele.
Sua cabeça agora estava completamente sob a água, rolando por seu rosto e correndo por seu corpo nu. Ele correu os dedos por seu rosto, seus olhos fechados, enquanto ele respirava fundo, cuspindo um pouco de água. Havia muita coisa em sua mente. Incluindo uma pessoa em especial. Uma pessoa que apenas acontecia de ser David, aquele garoto da escola.
Isso era estranho. David era um garoto estranho e tinha sido um encontro estranho. E Pierre tinha estado na detenção várias vezes antes, mas nunca ninguém tinha tentado começar uma conversa com ele. Especialmente depois de o professor mandá-lo ficar quieto três vezes. Mas, então, David não parecia como 'todo mundo'. Ele certamente falava mais que qualquer outro. David podia colocar em duas sentenças o que Pierre conseguia colocar em uma semana do que ele falasse.
O que realmente pegou Pierre, entretanto, e o confundiu, era o fato de que David queria falar com ele, em primeiro lugar. Por quê? Ele não achava nada em si atrativo ou convidativo. Em Beaubois, alguém como David ou teria ficado com medo dele, ou simplesmente zombaria dele e riria dele, enquanto o dispensava. Então, como esse garoto estava falando com ele tão abertamente, apesar do quão rápido?
Responda isso, e você curaria a dor de cabeça de Pierre.
Isso parecia ser tudo no que Pierre conseguia pensar nos últimos poucos dias, desde que ele e David se conheceram, embora tivesse sido altamente inesperado e não convencional. Na verdade, foi por essa mesma razão que o garoto Desrosiers ficava aparecendo em sua cabeça. Ontem à noite, ele até apareceu em seu sonho. Não de um jeito erótico, entretanto. Ele, na verdade, era um centauro ensinando Pierre a combater o mau, junto com as tartarugas ninjas e o Optimus Prime.
Não, seus sonhos não faziam sentido, mas ele vinha tendo sonhos estranhos há oito anos agora.
Uma vez que ele terminou o banho, uns trinta minutos mais tarde, ele enrolou a toalha ao redor da sua cintura e foi para seu quarto se trocar. Ele demorou menos de meia hora para ficar pronto, então foi para a cozinha procurar por um café da manhã rápido, antes de ir para a escola. Até agora, sua procura se provou inútil. Ele teve que esperar sua mãe emergir de seu quarto dez minutos mais tarde para lhe dizer aonde a comida estava.
Ela lhe deu o saco de pão de forma, do armário, junto com um pote de manteiga de amendoim. Ele pegou uma faca e começou a espalhar um pouco em uma fatia de pão para si. "Eu vou ficar na loja o dia todo, então eu provavelmente vou passar a noite na casa do Stan." Sarah avisou Pierre, pegando sua bolsa e chave de cima da mesa da cozinha. "Então, você vai se virar para comer essa noite. O dinheiro está no balcão, se você precisar."
Escorando-se contra o balcão, Pierre assentiu e comeu seu pedaço de pão. Ele a observou sair da cozinha e andar até a porta da frente, colocando seus sapatos e jaqueta, antes de deixar completamente a casa. Pierre ficou lá na casa silenciosa, balançando sua cabeça. Ela sempre fazia isso. Ele não conseguia contar o número de vezes que ela tinha deixado-o sozinho à noite. Era até surpreendente que ela tivesse lhe dito dessa vez. Usualmente, ela ficava fora em dar sinal de vida.
Uma vez que ele terminou sua fatia de pão, ele pegou sua mochila e saiu da casa. Enquanto andava, ele tirou o maço de cigarros do bolso. Toda vez que sua mãe falava consigo, seu nível de estresse aumentava. Ela só falava com ele quando estava descartando ou tentando afastá-lo. Então, bastante obviamente, esses confrontos não eram tão prazerosos quando deveriam ser.
Ele acendeu um e o segurou entre seus lábios, enquanto puxava o capuz por sobre sua cabeça. Estava ventando um pouco, deixando o ar mais frio do que o usual. Era apenas a segunda semana de setembro, então a temperatura não era suposto a cair até o mês que vem, mas o clima estava frio a semana toda. Pierre esperava que começasse a chover em qualquer dia, agora.
Quando ele chegou na propriedade da escola, que estava cheia de adolescentes e ônibus, Pierre tinha terminado seu cigarro. Ele morava mais perto do que ele tinha pensado antes. Ele jogou o toco do cigarro no asfalto, enquanto passava pelo estacionamento. Seria tão mais fácil se ele tivesse seu próprio carro... Ele estava guardando dinheiro, antes de ser jogado na prisão.
Pierre abaixou o capuz, enquanto abria as portas da frente e entrava no prédio. Estava bem mais quente do lado de dentro da estava no clima nublado e cheio de vento. O clima no começo de setembro usualmente era bom no Canadá. O que tinha acontecido? Pierre culpava seu humor. Nuvens escuras pareciam circular Pierre quando ele não estava no humor certo.
Os corredores não estavam muito cheio, desde que ainda cedo e os ônibus tinham começado a chegar agora. Pierre andou direto para seu armário, então ele podia jogar sua mochila lá dentro. Mesmo que a aula não fosse começar pelos próximos vinte minutos, no mínimo, ele podia sempre apenas passar o tempo na sala de estudos. Possivelmente, ele podia se atualizar na leitura maçante que lhe fora passada na aula de inglês.
Com o livro em mãos, ele fechou seu armário e caminhou na direção da sala de estudos. Mas, no caminho, ele foi parado por um garoto em cima de uma cadeira, tentando e lutando bastante para pendurar algum tipo de faixa na parede. "Hey, cara." O garoto disse, a cabeça meio que virada na direção de Pierre, mas ele achou difícil fazer isso, enquanto segurava a faixa. "Pode me ajudar por um minuto?" Pierre parou. "Me passa o grampeador, por favor?" sem muitas opções, e sem querer deixá-lo esperando, Pierre passou o grampeador.
O garoto prendeu a faixa, onde estava escrito "BAILE DE BOAS VINDAS, PRÓXIMA SEXTA-FEIRA!". Quando o garoto se virou, entretanto, ele notou quem era o garoto. Era aquele tal de David, da detenção. Aquele com a boca hiperativa e óbvia diarréia verbal. Pierre teria corrido, se ele não soubesse que isso era uma coisa cruel a se fazer.
Ele desceu da cadeira e ajeitou sua camiseta, colocando uma mecha de cabelo de volta para o lugar. "Obrigado." Ele disse. "Eles sempre me obrigam a fazer isso, mesmo sabendo que eu não sou muito alto. 'Eles' sendo o comitê de baile, onde eu me inscrevi apenas por falta de coisa melhor para fazer. De todo modo," ele coloco as mãos nos quadris. "Você é aquele cara que eu conheci na detenção. Pierre, certo?" Pierre assentiu. "Se não fosse por aquele professor chato, nós poderíamos ter conversado propriamente. Eu não tinha sido informado que tínhamos um aluno novo."
Pierre mordeu seu lábio inferior de um modo nervoso. Embora ele não estivesse nervoso. Ele estava apenas desconfortável. Ele não tinha uma conversa de verdade com alguém há muito tempo. "Bem, eu duvido que alguém teria a chance." Provocou.
David riu, afastando o cabelo dos olhos pela, tipo, décima quinta vez desde que eles começaram a conversar. Por que ele mantinha a franja se ele só ia, constantemente, colocá-la para o lado? Pelo menos ficava bom. Pierre imaginou quantos produtos de cabelo ele tinha que usar apenas para penteá-lo dessa maneira. Ele imaginou que fosse um monte, e como o ambiente no planeta estaria triste com o garoto.
"Desculpe. É um péssimo hábito." Falou. "Tagarelice corre na família da minha mãe. Eles são franceses, acho que isso é típico. Ou são os italianos? Que seja." David falou. "Bem vindo ao MDSH. Basicamente, eu sou obrigado a dizer isso. Os professores pensam que é por que eu sou legal, mas eu acho que é só por que eu sou o único que quer dizer isso, mesmo que eu pareça um completo idiota." Pierre assentiu e houve um breve silêncio embaraçoso, antes de David apontar para a faixa que Pierre tinha o ajudado a pendurar. "Baile na próxima sexta-feira. Interessado?"
Pierre colocou as mãos nos bolsos do seu moletom. "Eu não gosto desse tipo de coisa." O informou.
David assentiu, como se ele entendesse perfeitamente, as esquinas dos seus lábios se erguendo em um sorriso tímido. "Oh, certo." Ele disse. "Você é um desses alunos que não podiam se importar menos com envolvimento escolar ou atividades extracurriculares, não é?"
"Bingo."
"Bem, então eu acho que seria sem sentindo te pedir para me ajudar com a decoração do baile, né?" David perguntou. Pierre assentiu e David juntou as coisas que estava usando para pendurar a faixa. "Tudo bem. Há várias outras pessoas ajudando, de todo modo. Só achei que seria algo a fazer. Não que eu esteja assumindo que não tem nada para fazer. Quero dizer, você provavelmente tem amigos e tudo o mais e..." Pierre apenas olhou embaraçosamente para baixo. "Enfim, a aula começa em dez minutos. Se você decidir ajudar com a decoração, nós nos encontramos no ginásio, depois das aulas de segundas e sextas."
Tudo o que Pierre pôde fazer foi assentir. Não era como se ele tivesse muito a dizer. Ele não ia ajudar alguns veados a decorar o ginásio para um evento social careta, que ele sabia que não era nada especial. Era apenas outro lugar para os alunos serem divididos em panelinhas e ficar conversando nessas panelinhas, enquanto ignoravam os outros. Era tudo igual.
Os pensamentos de Pierre foram interrompidos pelo sinal. Ele decidiu que seria o primeiro a ir embora. Mas quando ele ia fazê-lo, ele foi parado. "Hey, Pierre," David disse e ele se virou para olhá-lo. "O que você vai fazer no almoço? Quero dizer, se você não for fazer nada, talvez você gostaria de ir pegar algo para comer. Comigo. Não na cantina, entretanto. Logo você vai descobrir quão ruim é a comida daqui. Tem uma lanchonete realmente boa no final da rua, se você quiser. Bem, se você não estiver ocupado."
"Eu tenho a detenção." Pierre respondeu, agradecido por ter uma desculpa de verdade para negar.
David o olhou estranhamente. "De novo? Você esteve lá na segunda. O que você fez desde então?"
"Eu peguei detenção a semana toda, uh, pela coisa que eu fiz na segunda."
"Oh." David assentiu. "Certo, talvez outra hora. Até depois." Com isso, ele se afastou de Pierre, o que, no seu ponto de vista, era um grande alívio. Como Pierre tinha explicado para si mesmo várias vezes antes, ele não tinha voltado para a escola para melhorar sua vida social. Ele tinha uma vida social antes, e foi isso que o colocou em todos os tipos de problemas. Mínima vida social era igual a influências mínimas, que era igual a maiores chances de terminar a escola e dar o fora de lá. A equação não era realmente complicada, e Pierre estava determinado a se manter à ela.
Balançando sua cabeça, Pierre continuou seu caminho para a sala de estudos. Ele tinha tempo o bastante para pegar um café, antes de o sinal tocar. Ele desesperadamente não queria sair do sofá e ir para a aula, mas ele decidiu que ele precisava. O Pierre que adiava tudo estava morto. O Pierre focado tinha chegado para ficar.
[...]
"Não se esqueçam de refrescarem suas memórias na tabela periódica! Nós vamos ter uma prova na próxima quarta-feira." O professor de ciências de Pierre disse, antes de o sinal tocar. "Tenham um bom final de semana!" todos estavam ocupados se levantando, pegando seus livros e rapidamente saindo da sala. Pierre não estava com pressa, entretanto. Não era como se tivesse para o que se apressar. Ele não tinha amigos o esperando, ou uma conexão da internet em casa para conversar com amigos que não eram reais.
Era o final do dia, finalmente. Pierre tinha assistido às aulas de inglês, matemática, história e mecânica sem desanimar. Ele nem conhecia alguém da sua sala. Ele estava lá há duas semanas, mas nunca realmente conheceu alguém. Principalmente por que a maioria dos trabalhos que tinham feito até agora eram sozinhos. Sem duplas, nem nada.
Mas ele não se importava em não conhecer ninguém da sua sala. Ele não tinha amigos, e não os queria. Não mais. Ele costumava ter amigos. Ele poderia, certamente, se lembrar do tempo em que ele tinha seu próprio circulo de amigos, com quem ele jogava vídeo game ou com quem iria jogar futebol no parque. Isso foi antes, quando as coisas eram normais. Mas mesmo quando ele se envolveu com as 'coisas ruins', ele ainda tinha amigos leais. Garotos, e algumas garotas, que ficavam por perto dele todos os dias.
Infelizmente, isso tudo mudou assim que Pierre foi levado sob custodia pela QPP¹ Desde que eles sabiam que não teria contato com ele por, no máximo, um ano, eles seguiram em frente, deixando Pierre para se questionar se eles realmente gostavam dele em primeiro lugar. Ele chegou a triste conclusão que, não, eles não gostavam.
Perder alguns dos seus amigos, entretanto, não foi o pior golpe que a prisão lhe deu. Foi um garoto em particular que o fez. Um garoto de olhos castanhos, cabelos da mesma cor arrepiados, que usava óculos, chamado Chuck Comeau. Ele poderia ter jurado que a amizade deles era forte. Mas, a última vez que eles se falaram, foi através de um vidro a prova de balas, e Chuck anunciou que estava saindo da cidade com o pai. Eles nunca mais se falaram.
A parte triste era, Pierre tinha realmente desenvolvido sentimentos pelo garoto. Naquela época, entretanto, ele ainda estava se recuperando de um péssimo rompimento com o ex-namorado, Dylan "Stix" Stickman. Então, quando Pierre teve uma chance de trazer esses sentimentos por Chuck a tona, seu amigo estava morando em Portland, Maine, com seu pai divorciado.
Então, o que ele fez? Jogou esses sentimentos fora completamente, como ele tinha feito por qualquer outro garoto que ele conhecia. Amor não era nada. Ele nem tinha certeza de que existia. Ele certamente não o tinha visto ainda.
De todo modo, amigos não eram mais um incômodo. Eles não eram a maior preocupação. A escola era. Então, com seus livros, ele caminhou até seu armário, de onde tirou sua mochila e colocou os livros que precisava para a lição de casa dentro. Ele pendurou a mochila nos ombros e fechou o armário. Então, ele começou a caminhar por entre a multidão de adolescentes, todos apressados em sair o mais rápido possível do prédio.
Pierre saiu da escola e puxou o capuz por sobre sua cabeça, como ele sempre fazia. Suas mãos estavam no bolso, enquanto ele andava. Ele planejava acender um cigarro, mas estava tentando diminuir. Ele não planejava parar, apenas não fumar tanto. E ele tinha fumado um no intervalo, há quarenta e cinco minutos. Ele podia durar um tempo sem o cigarro. Ele esperava. Era difícil diminuir quando ele vinha fazendo isso há quatro anos.
Apenas como alguns dias antes, Pierre andou para casa com apenas uma coisa em sua mente. O garoto que ele vivia encontrando. Sério, isso era como um daqueles filmes, onde duas pessoas experimentavam todos os tipos de encontros estranhos e improváveis, aí no final se beijam e são supostas a ficar juntas pelo 'destino'? Psh, é, certo. Como se Pierre alguma vez fosse ter uma dessas experiências. Elas não eram reais. Era por isso que estavam nos filmes, por que os filmes não eram reais.
A não ser que fossem documentários, mas Pierre não ia falar desses.
David tinha o convidado para se juntar ao comitê de baile. Honestamente? Mesmo que Pierre gostasse de atividades extracurriculares, ou se voluntariasse apenas para fazer algo bom pelas pessoas, o comitê de baile seria o mais careta de todos. Ele preferia se juntar ao clube de xadrez, mesmo que ele não soubesse jogar. Ele não sabia fazer muita coisa, realmente, além de alguns esportes e alguns acordes em seu violão (o que ele não conseguia mais encontrar).
E, então, ele basicamente convidou Pierre para o baile. Primeiro, eles acabaram de se conhecer, então quem faz isso? Segundo, baile não era algo que Pierre gostava. Eles eram uma chance para os alunos ouvirem música, se dividirem em grupos e conversar de um jeito que eles iram em um ambiente normal, só que dessa vez eles teriam que falar algumas oitavas mais alto, para se fazer ouvir na música alta, animada e ritmada que soava pelos auto falantes atrás deles.
Que perda de tempo.
Porém, Pierre não podia negar que ele gostava de festas. Mas festas eram diferentes. As pessoas não ficavam apenas paradas ao redor, se perguntando se elas deveriam chamar aquele garoto bonito para dançar. Nas festas, Pierre usualmente passava o tempo ou em competições para explodir as coisas ou ficando com alguém que ele tinha acabado de conhecer. Álcool nem era permitido nesses bailes escolares. E Pierre era maior de idade! Que seja, ele podia sempre beber em casa quando quisesse. Os químicos estavam sempre disponíveis para ele.
A casa estava vazia, como Pierre se lembrou do anuncio de sua mãe essa manhã, então ele não teve problemas para entrar direto. Ele andou até a cozinha e deixou sua mochila perto da mesa. Ele abriu a geladeira e encontrou uma lata de cerveja Barg's Root. Ele a pegou e se sentou à mesa, olhando para a toalha verde que a cobria. Seus olhos estavam desfocados, a mente em outras coisas, enquanto ele abria a lata para tomar um gole.
Ele apenas ficou sentando lá por alguns momentos, nada além de um borrão verde em seus olhos. Ele estava pensando no fato de que ele estaria fazendo coisas assim por um tempo, até que pudesse se formar, sair da cidade, e arrumar um trabalho. Então, ele não teria que se sentar sozinho a noite toda em uma casa suja, se perguntando como as coisas teriam sido se seu pai nunca tivesse morrido, ou seu irmão nunca tivesse ido embora, ou se sua mãe não usasse.
Eventualmente, ele voltou ao momento presente e pegou sua mochila do chão. Ele pegou seu livro de matemática e o de história, nos quais ele tinha lição de casa para fazer. Ele preferia não fazer, mas ele não tinha mais nada para fazer, e tinha que se ocupar de alguma forma. Mesmo que estudar os Primeiros Ministros passados não fosse exatamente algo que ele faria normalmente para se ocupar.
Ele tinha acabado de estudar Lithium quando ouviu a porta da frente abrir. O que o assustou levemente, desde que ele não esperava que alguém entrasse, e sua cabeça se levantou na direção da porta. E, ao contrário de suas palavras, lá estava Sarah, entrando na casa com alguém (um homem) e rindo como uma bêbada idiota, enquanto ele passava a mão pelo corpo dela e... Isso era demais para Pierre ver. Ele odiava ver pessoas tocando sua mãe. Mesmo com todas as merdas, ele ainda a amava e o machucava vê-la fazendo isso.
Machucava-o ainda mais, por que ele sabia que não havia uma maldita coisa que ele pudesse fazer.
Então, não querendo vê-los juntos, Pierre se levantou e fechou seus livros. Ele terminou sua lata de cerveja de raiz, e o som da cadeira contra o chão finalmente forçou Sarah e o cara sujo e tatuado a notarem sua presença. "Oh, querido, sinto muito. Eu ia te ligar para avisar que Sam ia vir para cá hoje à noite, mas eu esqueci completamente." Ela disse. Ele deu a ela um olhar enojado, enquanto colocava seu suéter novamente.
"Não se preocupem. Eu vou sair." Murmurou em aborrecimento, enquanto passava por eles para ir à porta da frente e para fora da casa. Ele ouviu sua mãe chamar uma vez, mas quando ele não respondeu, ela se esqueceu dele. Ele não se importou. Continuou andando. Isso não o teria incomodado tanto se ela o houvesse avisado que estaria levando outro brinquedinho para casa. Aí ele poderia ter saído antes. Mas isso era desrespeitoso e ele odiava isso.
Por causa desse ódio e raiva crescendo dentro dele, Pierre tirou o maço de cigarros do bolso. Ele pegou um e o segurou entre seus lábios, enquanto colocava o maço de volta no bolso e tirava seu isqueiro para acender o cigarro. Estava claro do lado de fora, por que ainda era quatro e meia da tarde, então Pierre andou até metade da rua.
Ele não tinha idéia de para onde ele estava indo. Ele estava apenas andando. Não mesmo que ele ia ficar na casa. Para onde quer que ele fosse, seria melhor.
Demorou quinze minutos para Pierre passar por um lugar com o qual ele não achou que iria voltar até segunda. Ele olhou para a escola, que tinha apenas alguns poucos carros no estacionamento e até alguns poucos adolescentes perto do muro. Parecia bem mais vazio à essa hora, mesmo que a escola só tivesse terminado há um pouco mais de uma hora.
Foi onde Pierre parou. Ele tirou o cigarro dos seus lábios e o jogou no asfalto, amassando-o com seu pé. Ele ficou parado lá por um segundo, as mãos nos bolsos, apenas olhando para a escola, se perguntando se esse era um bom jeito de passar o tempo até que sua mãe tivesse terminado com o quer que seja que ela estivesse fazendo. Bem, ele sabia o que ela estava fazendo, é só... Deixa pra lá, ele não queria pensar nisso.
Ele pegou uma bola de hortelã de seu bolso e andou pelo caminho de cimento até as portas da frente. E, como previsto, os corredores estavam completamente vazios quando ele entrou. Seus Chuck Taylor's faziam um chiado de vez em quando, enquanto ele andava pelo corredor, em direção ao ginásio. Quando ele abriu a porta, ele foi recebido pelos rostos de (talvez sete pessoas, no total) pessoas paradas ao redor com serpentinas de papel, coisas brilhantes e até mesmo um globo.
E um desses rostos era o de David. "Oh, Pierre, é você. Oi." Ele disse em um tom animado, uma vez que percebeu que era Pierre. A porta fechou atrás si, enquanto David se aproximava. "Eu não achei que você fosse vir. Isso é excelente." Pierre mordeu seu lábio superior nervosamente. David se virou para as outras pessoas. "Pessoal, esse é o Pierre Bouvier." Ele disse, então se virou para Pierre. Eles todos falaram 'oi', e Pierre apenas deu a todos eles um pequeno aceno. "Então, você está aqui para ajudar?"
Pierre assentiu, sem saber realmente como responder. Ele não queria ajudar, mas ele precisava de algo para fazer. Mas ele não queria deixar isso aparente, no caso de ele parecer um idiota. "Bem, só para você saber, eu sou a cabeça, o supervisor, direto, do que você quiser chamar." David disse, então apontou para diferentes pessoas. "Mackenzie e Alex estão com as luzes. Chad e Jess estão encarregados das coisas de DJ. Carrie e Stacy estão encarregadas do globo, e um pouco da decoração. Se você quiser, você pode me ajudar com as serpentinas e tal."
De novo, Pierre pôde apenas assentir. Ele mal tinha entendido tudo o que garoto tinha acabado de falar, mas pegou a essência. Ele foi guiado até uma mesa, onde múltiplos rolos de serpentinas azuis e roxas estavam. Enquanto o garoto falava (algo sobre o qual Pierre não tinha certeza, desde que ele estava falando tão malditamente rápido), Pierre o ajudou a pendurar as serpentinas nas paredes e várias outras coisas. Pierre não falou, entretanto. Agradecidamente, ele não precisava.
Outra se passou até que eles tivessem terminado a decoração. Pierre tinha certeza de que a casa estaria quieta por agora. Ele estava certo de que qualquer idiota que sua mãe pegou não era capaz de durar muito mais que isso. Ele provavelmente estaria seguro se tivesse ido para casa há meia hora.
Enquanto ele saia da escola, foi quando isso tudo atingiu Pierre. Ele estava seriamente fazendo essa coisa de escola novamente. De verdade.
¹ Quebec Provincial Police, que numa tradução literal seria Policia Provincial de Quebec.
