Capítulo 3: Say It Ain't So, I Will Not Go

Aquela noite, quando Pierre voltou para casa da escola, ele dormiu mal. Ele deitou em sua cama, de costas, as mãos atrás da cabeça, e ele olhou para o teto. Ele tinha feito bastante isso na prisão. Embora, ele estivesse mais acostumado a olhar para a parte de baixo da beliche que ficava em cima da dele, mas ambos serviam para o mesmo propósito. Ele tinha pensado bastante. Foi como ele chegou a todos esses planos de 'eu quero me limpar'. Horas pensando e não dormindo.

A primeira vez que Pierre teve qualquer envolvimento nas atividades escolares foi bastante... Estranha. E ele sabia que usava essa palavra muito freqüentemente, mas ela sempre parecia se encaixar. Claro, tinha sido um pouco libertador, e ele deu uma chance a isso, como ele tinha sido aconselhado no passado, mas ele não ia fazer isso de novo. Ele só precisava de algo com o que se ocupar. Ele tinha certeza de que a situação não iria acontecer novamente tão cedo.

Mesmo que ele não tivesse falado muito àquela noite, ele certamente absorveu um monte de informações (bem, a informação que ele conseguiu decifrar) daquele garoto David. Aparentemente, ele tinha passado por duas escolas públicas diferentes e dois colégios, por causa dos valentões. Primeiro foi a St Mary's Public School, em Sept-Iles, então ele foi para a Reidman Public School, aqui em Montreal. Quanto aos colégios, ele primeiro tentou o MDHS, mas não conseguiu agüentar, mudou para outro colégio no interior, Holy Cross, e finalmente voltou para o MDHS.

Ele sabia que foram os valentões que fizeram isso, mas Pierre não conseguia entender por que o garoto teria problema com os valentões. Eles não conseguiriam falar uma provocação, e eles certamente não seriam capazes de pegá-lo, se ele fosse fugir. Ele provavelmente era como uma maldita chita. Ele entendia por que eles o perturbavam, entretanto, por que qualquer um podia ficar aborrecido com ele facilmente, mas a coisa toda não fazia sentido.

Em Beaubois, as pessoas achavam que Pierre era um valentão. É, ele tinha surrado algumas pessoas e feito piada de algumas outras, mas ele nunca as aterrorizou a ponto de fazê-las mudar de escola. Isso seria terrível. Pierre se lembrava de ele mesmo ter surrado alguns valentões, só por que isso o irritava; o jeito que eles agiam com as outras pessoas. Esse não era um dos jeitos que Pierre dava vazão à sua raiva com as coisas da sua vida. Ele fazia isso com drogas e álcool.

Nenhum dos dois eram realmente as soluções recomendadas por médicos, mas funcionavam mais rápido, e sem muito pensamento.

Os próximos poucos dias foram bem para Pierre. Ele não foi incomodado por nenhum estudando, os professores estavam se dando bem com ele (eles não eram exatamente amigos, mas ele não os irritava) e ele não encontrou com David. Ele descobriu que David estava na sua sala de matemática. Só por que era difícil não notar. Ele era popular com os professores, mesmo que não fosse popular com mais ninguém. Agradecidamente, David ficava quase na frente, e Pierre ficava no fundo.

Ele não estava certo se ele estava alguma outra de suas aulas. Ele nunca prestou atenção a isso.

Usualmente, Pierre se afundava em sua cadeira, quase até suas costas, e não falava nada. Por quê? Por que ele sabia que não era bom em falar. Ele costumava ser. Mas isso tudo mudou há oito anos. Agora, ele apenas não fazia nenhum som ou falava, absolutamente. Ele o fazia em Beaubois, mas não muito. Palavras sempre estavam passando por sua cabeça, mas quando era para verbalizá-las, era onde ele ficava preso. Ou elas saiam errado, ou ele apenas não tinha confiança o bastante para realmente transmitir o que estava em sua mente.

No almoço da segunda-feira seguinte, depois de comer um péssimo pré-feito lanche de peru da cantina da escola, Pierre percebeu que ele não tinha nenhum lugar para ir. Esse era um momento que ele odiava na escola. Ele não tinha nenhum amigo com quem passar o tempo, então ele geralmente se sentava sozinho. Nos dias bons, ele se sentava em uma mesa de piquenique do lado de fora, com uma revista de carros ou um saco de salgadinho, enquanto desenhava péssimas imagens de carros ou símbolos estranhos em seu caderno.

Dessa vez, entretanto, Pierre decidiu que ele passaria o tempo na biblioteca. Estava um pouco frio lá fora, e ele achou que seria bom se atualizar um pouco nos trabalhos da escola. Ele se esqueceu de fazer a lição de casa de inglês no fim de semana, então ele tinha que terminá-la até amanhã. Ele conseguiu mais da metade da página, antes de seus olhos se fecharem e ele estava quase adormecido, a cabeça apoiada na mão.

Ele não tinha certeza de quanto tempo faltava até o almoço terminar e Pierre ter de ir para sua aula de história, mas ele não estava realmente se importando. Ele estava no mundo dos sonhos. Um mundo dos sonhos onde um Jake Gyllenhaal nu emergia da água com aquele sorriso lindo dele e... Ahem. Foi um sonho maravilhoso.

De sob sua camiseta, ele tirou um colar. Era uma corrente longa de prata, e pendurada nela, quase como a identificação de um cão, estava um símbolo chinês, que significava 'força'. Ele nunca tirava esse colar. Ele o usava há oito anos agora. Quando seu pai estava morrendo, no hospital, Michelle deu esse colar dele para Pierre, aquele que ele sempre usava. Essa foi uma das últimas coisas que ele disse para Pierre, antes de morrer, então Pierre nunca se afastava do calor de jeito nenhum.

Ele o enrolou em seus dedos, enquanto ficava sentado lá, olhos fechados, imagens de Jack Gyllenhaal e Heath Ledger se amassando em sua mente. O que foi interrompido, em sua mente, por David. Por que ele estava lá? Pierre não estava pensando nele antes.

De repente, o som da cadeira ao seu lado se movendo e livros caindo sobre a mesa, o tiraram de seu sonho. Pierre pulou, os olhos abrindo, e olhando para ver quem era. Infelizmente, era o exato garoto em quem ele estava pensando. "Merda." Pierre murmurou, tentando se recuperar do quase ataque do coração que o menor quase tinha lhe dado, enquanto ainda brincava com seu colar. Tudo o que David fez foi sorrir inocentemente, e Pierre achou ainda mais difícil ficar bravo com ele.

David se virou para Pierre, para que pudesse falar. "Certo, você pode ter me dito para não ser seu amigo, mas eu me esqueci de lhe dizer que eu sou um ouvinte seletivo, e bem cabeça dura. Além do mais, seu colar quase me cegou e eu sou quase um guaxinim quando se trata de coisas brilhantes." David disse.

Pierre suspirou e soltou o calor, que foi descansar sobre sua camiseta. "Cara, eu sou sortudo em atrair os mimados." Falou, seus olhos em qualquer lugar, menos em David, que riu levemente e assentiu.

Desde que ele tinha interrompido os pensamentos sobre David, Pierre se sentiu meio que embaraçado, mesmo que ele estivesse completamente ciente de que David não podia, possivelmente, saber no que ele estava pensando. "Você está bem?" David perguntou, e Pierre assentiu, olhando para a mesa. Ele estava quieto, então podia entender a curiosidade do outro. "Eu não sei se você sabe, mas bibliotecas não são para tirar cochilos. É para isso que as aulas do Colburn servem." Pierre não riu, embora ele achou isso meio engraçado. "O que foi?"

Pierre deu de ombros. "Você que veio falar comigo." Disse simplesmente. Era verdade. E David concordou, rindo suavemente. Pierre se sentiu um pouco desconfortável, como seus encontros com David sempre o fazia se sentir. Mas o garoto era tão animado, que era quase malditamente impossível ficar bravo com ele. Ou ignorá-lo, no que diz respeito.

Com um sorriso gentil, David se desculpou. "Foi mal." Ele disse. "Eu sei que você provavelmente está ocupado lendo," ele olhou para a página aberto do livro sobre a mesa. "A Variedade dos Gêneros de Romances..." ele sabia que ele não estava. David tirou um envelope bege da sua mochila e o ofereceu para Pierre. "O Senhor Simpson me pediu para te entregar isso. Eu não sei o que é, não se preocupe. Sou apenas o mensageiro."

Assentindo, Pierre pegou a carta dele e olhou para ele. Estava escrito, 'Pierre C Bouvier', e era do Conselho Educacional. Nada que o interessasse nesse momento. "Obrigado." Ele disse para David, enquanto colocava a carta no bolso. Ele leria depois. Sua cabeça voltou para onde estava antes, apoiada em sua mão. Silenciosamente, ele se perguntou por que David ainda não foi embora.

"Então," David quebrou o minuto de dois minutos de silêncio que caiu entre eles. "terceira semana do ano. Bem, quase. Está no começo da semana. Mas o que você acha até agora?" Pierre apenas deu de ombros. "É isso? Nenhuma opinião? Quero dizer, eu ficaria satisfeito com uma opinião negativa, também." Pierre ainda deu de ombros. "Fez algum amigo novo? Qualquer outro, desde que eu não tenho permissão de me associar com você, aparentemente?" ele sorriu afetadamente e Pierre viu o sorriso pelo canto dos olhos.

Esse não era o ponto. Não era o fato de que ele não tinha permissão. Era o fato de que Pierre não queria novos amigos, por que ele apenas acabaria queimado, quebrado e em problemas. Apenas como a última vez. "Eu não estou aqui por amigos, realmente." Pierre disse, balançando a cabeça levemente, enquanto seus olhos ficavam presos na mesa. Ele brincou com as pontas das páginas no livro a sua frente. Ele podia sentir os olhos de David lhe queimando.

Houve um breve (muito breve, de fato) silêncio, antes de David falar. É claro. "Foi realmente legal que você tenha vindo na sexta." Disse, de um jeito menos hiperativo e de um jeito mais sincero. "É sempre bom encontrar alguém que realmente se importa com algo além de si mesmo ou... A internet. Não acontece muito. Especialmente com pessoas como você. Sem ofensas, eu só estou analisando estereotipicamente. Você é uma exceção, é claro. É legal."

Abaixando sua cabeça, Pierre sentiu essa sensação estranha e pesada se formar no fundo do seu estômago. Ele não queria manifestar o fato de que esse não era o motivo de ele ter aparecido àquela noite. Uma voz em sua cabeça lhe disse que essa sensação era culpa, mas ele apenas a ignorou. Iria embora eventualmente, mesmo que apenas um pouco.

"De todo modo," David disse, seu tom ficando mais animado, ao invés de sincero. "Não intencionei ficar todo emocional. Só vim entregar sua carta." É, certo. Ele se levantou e ajeitou sua camiseta. "Eu, uh, sinto muito se te incomodei. Você pode me mandar dar o fora a qualquer hora. Eu não me importo nem um pouco. Não seria a primeira vez. Aliás, o que é esse símbolo no seu colar? Onde você conseguiu? É bem legal."

Pierre balançou sua cabeça. "Eu não quero falar sobre isso." Ele nunca se sentia confortável explicando o que aconteceu ao seu pai. A única fez que ele teve de fazê-lo, foi logo depois que seu pai morreu e sua mãe lhe jogou na terapia. Depois que ele saiu da terapia, ela deixou de se importar, então ele não foi de novo. Se ele quisesse contar a um estranho sobre os problemas da sua vida, ele não iria a alguém tão inútil quanto um terapeuta.

David assentiu. "Certo. Tudo bem. Todos têm direito a sua privacidade, eu entendo. Desculpe. Eu sou curioso por natureza. Pareço intrometido, mas eu realmente não sou. E você, definitivamente, não é a primeira pessoa a se incomodar com isso, confie em mim." Pierre o olhou, como que para protestar, mas nenhuma palavra saiu da sua boca. Eles caíram em um silêncio embaraçoso. Então, David tossiu e olhou brevemente para baixo. "Eu te vejo por aí." Com isso, ele pegou seus livros e saiu da biblioteca.

Um pouco timidamente, Pierre ficou lá, sentado sozinho. Ele voltou a olhar para a mesa e pensou sobre o que tinha acabado de acontecer. Essa era a primeira vez que Pierre tinha ouvido David falar quase seriamente, e não em 300 MPH. Honestamente, isso era meio estranho.

Apenas cinco minutos depois, o sinal tocou sinalizando o final do almoço. Pierre pegou seus livros, colocou seu colar sob sua camiseta (ele nunca deixava para fora, em caso de algo acontecer) e se levantou. Ele colocou a cadeira para o lugar, a mente ainda trabalhando no que tinha acontecido há dez, quinze minutos. Balançando sua cabeça, ele saiu da biblioteca.

[...]

O dia seguinte era o dia em que a aula de mecânica de Pierre ia, finalmente, permitir que eles fizessem algo nos carros. Pierre julgou essa aula como um 10 fácil, mas não tinha tido a chance de fazer o que ele fazia de melhor: trabalhar nos veículos. Sim, ele sabia todas as coisas do livro, e até mesmo os termos técnicos de lá, mas isso era realmente necessário que ele tivesse que passar vários dias só falando sobre precauções e perigos de trabalhar inapropriadamente em um carro?

Pierre tinha estado perto de carros sua vida toda. Ele conseguia trocar uma ventoinha, antes de conseguir somar dois mais dois. Certamente, ele já tinha recebido o sermão de 'sempre seja cuidadoso', e o discurso de 'espere o motor esfriar antes de tocar nele'.

Ele sabia disso tudo. Entretanto, algumas vezes ele foi forçado a aprender do jeito difícil. Antes que o pai de Pierre sequer tivesse a chance de lhe explicar os perigos de trocar um pneu inapropriadamente, Pierre derrubou a roda em seu pé. E um osso quebrado. Meh, ele tinha aprendido de algum modo. Ao menos ele não tinha entrado na casa com o carro ainda. Ainda?

"Se há algo que você deve saber sobre carros, filhos, é que eles são como bebês. Eles são barulhentos, cheiram a gasolina, e custam caro." Ele podia se lembrar de seu pai lhe dizendo uma vez, quando ele tinha uns oito anos. É claro, esse conselho foi um pouco mais satírico que os outros, mas ainda assim era verdade e estava em sua memória até esse dia. Seu pai era assim. Soltando uma piada de vez em quando, apenas para fazer Pierre rir. Ele nunca gostava de infelicidade.

"Certo." O professo, senhor Williams, disse, enquanto estava parado na frente do cômodo. "Eu sei que vocês todos estão excitados sobre isso. Desde que está um dia bom, há uns seis carros estacionados lá fora. Desde que somos uma turma pequena, vamos nos dividir em pares. Alguns serão trios." Todos na sala começaram a comemorar, animados que eles iam trabalhar num carro. "Acalmem-se, eu ainda tenho que anunciar os pares." As pequenas conversas morreram, enquanto ele listava os nomes e os carros pelos quais os alunos estavam responsáveis.

Pierre não gostou da idéia de uma dupla. Ele preferia muito mais trabalhar sozinho no carro, receber o crédito por isso, ser aprovado facilmente na matéria, e, então, dar o fora. As únicas pessoas com quem ele já tinha trabalhado fora seu pai e Johnny. E apenas por que eles trabalhavam em carros desde sempre, e estavam acostumados com isso. Fora isso, ele usualmente trabalhava sozinho nos carros. Embora ele não tivesse trabalhado em carros recentemente.

Ele traçou designs estranhos com o lado do lápis, prestando apenas um pouco de atenção. Ele re-desenhou as linhas de uma versão péssima do '67 Chevy Impala'. Qualquer que fosse a dupla que ele conseguisse, ou qualquer que fosse o carro, não importava realmente. Ele podia terminar qualquer trabalho sozinho, sem se envolver com uma dupla.

"Pierre e David, Buick Le Sabre..." senhor Williams listou e a cabeça de Pierre se ergueu. Por favor, me diga que há outro David nessa aula, Pierre pensou. Merda. Depois de que o professor terminou de listar os nomes e mandou os alunos encontrarem suas duplas, Pierre viu David andando em sua direção, e ele soube que seu pensamento anterior havia sido negado. Ele era o único David dessa aula. O que era uma surpresa, por que ele sequer sabia que o garoto estava nessa aula. Ele achou que esse seria o último lugar para se encontrar David Desrosiers.

Todos começaram a andar ao redor, mudando de lugar. Pierre ficou onde estava. O garoto mais novo se sentou na mesa livre ao lado de Pierre, sorrindo um idiota. O que estava em sua mente? Embora não fosse incomum ver David sorrindo, Pierre sabia que dessa vez era por um motivo especifico. Ele não tinha visto um sorriso tão largo no rosto de David desde que eles se conheceram. Ele afastou o olhar, balançando a cabeça, então olhou novamente para David. "Por que você está sorrindo, hm?" perguntou.

David apenas deu de ombros. "Nenhum motivo." Respondeu, embora fosse impossível acreditar. "Eu só acho malditamente hilário que sejamos parceiros agora." Pierre girou os olhos e olhou para baixo. "Um Buick Le Sabre? Nunca tive um. É um bom?" Pierre deu de ombros, fazendo uma careta. Ele queria falar de carros com o menor, mas não ia pular na primeira oportunidade. "Maravilha." David disse, se recostando em seu assento e esperando pelas próximas instruções do professor.

O senhor Williams os mandou ir para o lado de fora com suas duplas. David se levantou animadamente, dando um tapinha no braço de Pierre, encorajando-o a seguir. Levemente divertido pelo comportamento excessivamente entusiasmado de David, Pierre se levantou. Eles foram instruídos a deixarem seus livros na sala, desde que eles não seriam necessários lá fora. Guiado por um animado David, Pierre andou até onde seis péssimos carros (eles provavelmente estavam jogados algum ferro velho) estavam estacionados.

Desde que David não tinha certeza de qual era o carro deles, Pierre apontou para o Buick vermelho e sujo, estacionado perto da grade. Enquanto eles se aproximavam do semi destruído veiculo, Pierre tomou consciência da condição do carro, e riu internamente. Essa não era a primeira vez que ele via um carro em um estado tão deplorável. Ele tinha visto quase todos os carros que tinham sido levados para a oficina do seu pai. "Wow," Pierre disse monotonamente, enquanto corria um dedo pelo capô amassado, coberto de lama e com a pintura desgastada. "Esse pedaço de metal definitivamente precisa de um pouco de óleo."

David parou na frente do carro, as mãos no quadril. "Claramente." Falou. "Quero dizer, eu já vi péssimos carros antes, mas esse parece que alguém deu marretadas." Pierre assentiu e olhou dentro do carro através da janela do motorista, fazendo uma careta quando viu o material mofado, quebrado e levemente verde no interior. "Você acha que vamos ter de consertá-lo? Por que eu acho que algo tão quebrado vai demorar um tempo para ficar pronto, não é?"

Dando de ombros, Pierre continuou a inspecionar o lado de fora do carro, indo para o final do veiculo. "Meh, não realmente." Falou, sem notar que ele estava, de fato, falando com alguém que não ele mesmo. "Só há algumas coisas quebradas dentro, provavelmente algum animal; amassos regulares, provavelmente por estar no lixão; uma janela precisa ser substituída, do lado do passageiro; e provavelmente há algumas poucas coisas quebradas sob o capô." Ele olhou para a janela quebrada. "Talvez uma semana. Eu me preocuparia mais com os custos."

"Estou impressionado, Bouvier. Você realmente sabe sobre carros." David disse. "Você trabalha em carros regularmente?"

Pierre tentou abrir a porta do passageiro, mas ela estava emperrada. "As dobradiças da porta precisam de um pouco de óleo, estão todas enferrujadas." Falou mais calmamente e mais para si mesmo. Então, ele falou mais alto, embora ele não estivesse completamente ciente de que estava falando tanto com David. As vezes ele se deixava levar, quando se tratava de coisas de seu interesse, e carros eram, certamente, um de seus interesses. "Meu pai tinha uma oficina própria. Eu amo carros."

O rosto de David adotou uma expressão de entendimento. "Oh, Bouvier. A Bouvier Body Shop. Era do seu pai?" ele perguntou. Pierre assentiu, agora escolhendo ficar em silêncio, enquanto sua analise do veiculo terminava e ele notava com quem ele estava falando. "Isso é maravilhoso. Meus pais costumavam ir lá, antes de fechar. O que foi bem súbito, não esperávamos isso. E não teve explicações, também. Uma pena, por que ele era realmente ótimo nisso."

Agora as coisas estavam ficando desconfortáveis. Não por que Pierre tinha falando mais do que uma sentença completa sobre carros para David, mas por que seu pai tinha sido trazido para a conversa. Tinha uma razão para a oficina ser fechada sem explicações. Você não podia esperar que a família ficasse confortável contando para a cidade toda sobre o falecimento de seu pai, quando eles sabiam que iam receber muitos 'Oh, meus pêsames' de todo mundo, e isso deixaria pior.

Então, Pierre manteve seus olhos longe de David, olhando para o professor, que estava indo de carro em carro, e distribuindo as chaves para as duplas de alunos. "Você sabe por que fechou? Nós nunca descobrimos." David disse, coçando sua cabeça. Pierre abriu sua boca, como que para dizer algo, mas a fechou, percebendo que ele não queria trazer o assunto a tona. "Está tudo bem se você não quiser me contar. Como eu disse, todos têm direito a sua privacidade. Eu não posso te culpar."

Com um suspiro, Pierre se inclinou contra o carro, cruzando os braços sobre o peito. "Ele morreu." Murmurou em um tom quase inaudível. David o olhou interrogativamente, e Pierre abaixou sua cabeça. "Meu pai. Ele, uh, ele morreu. É por isso que... Fechou." David abriu sua boca, mas, pra variar, não disse nada do tipo de 'eu sinto muito'. Seu coração acelerou levemente quando essas palavras deixaram sua boca, e ele podia ter vomitado naquele momento.

"Então," David decidiu mudar de assunto. "Eu não tenho nem idéia sobre carros. Eu estou esse perto de dirigir um, mas fora isso, eu realmente não sei muito. Desde que você é um expert, eu estou esperando que você mostre o caminho. Certo?" Pierre assentiu, enquanto o Senhor Williams abordava os dois.

"Certo, garotos," ele disse. "O último. O Le Sabre. Acreditem ou não, é o melhor que nós temos aqui." Pierre concordou silenciosamente. "Aqui está sua chave." Ele a ofereceu para Pierre. "Se eu ver o motor sair do ponto morto, vocês não vão mais trabalhar nele. Hoje nós vamos apenas examinar o carro, conhecer sob o capô, sabe. Amanhã, vocês vão receber a lista com os problemas do carro, e vocês serão cobrados pelo carro completamente terminado no final do semestre, o que não deve ser muito difícil. Especialmente para você, Pierre."

David estalou os dedos. "Oh, agora eu sei porque somos um par. Boa, senhor W. Você é sempre rápido nessas coisas."

Senhor Williams riu. "Você me pegou, David." Ele disse. "Então, vocês estão bem com isso?" os dois assentiram, então o senhor Williams se afastou.

Pierre abriu a posta do motorista e pressionou o botão para abrir o capô. Ele saiu, fechou a porta, então andou até a frente do carro para erguer o capô, apoiando-o na haste de metal para que não caísse. "Desde que nós temos menos de uma hora por dia para trabalhar nele, provavelmente vamos demorar mais do que eu pensei." Pierre disse. "Eu me pergunto se nós temos que pintá-lo, também."

Os ouvidos de David se aguçaram. "Pintar? Demais. Eu posso fazer isso. Uma das poucas coisas que posso, quando se trata de carros. Ooh, eu espero que possamos. Essa é uma cor realmente feia." Ele disse animadamente. Pierre apenas o olhou estranhamente. "O quê?"

"E você está nessa aula... Por quê...?" Pierre perguntou.

"Todos precisam tentar algo novo. Eu tinha uma eletiva sobrando, e desde que eu não gosto muito do professor de teatro, eu decidi fazer as aulas do Senhor W." David respondeu simplesmente. "Mas não se preocupe. Não é como se eu estivesse te seguindo ou algo assim. Eu nem sabia que você trabalhava em carros. Eu não sou psicótico ou maluco desse jeito. Claro, algumas pessoas podem pensar que eu sou louco, mas louco de uma maneira que não é realmente perigoso para mim mesmo ou quem estiver por perto. O bom tipo de louco. Há um bom tipo de louco? Eu não sei. Então, o que vamos fazer?"

Pierre piscou, as palavras de David ainda se registrando em sua cabeça. Ele nunca tinha visto alguém falar sua metade de uma conversa em dez segundos e sem respirar. "Uh," disse. Ele se inclinou contra a frente do carro, olhando para as partes quebradas e sujas. "Você quer tentar algo novo? Venha aqui." Disse. Ele sempre estava disposto a ajudar alguém quando se tratava de carros. David andou até ele e se inclinou como Pierre.

Pelos próximos vinte minutos, que era o tempo que a turma tinha para examinar o carro do seu jeito, Pierre explicou para David as partes do carro e suas funções. O pequeno garoto estava tão interessado, e parecia uma esponja, absorvendo tudo. Pierre não tinha falando com ninguém, além do seu irmão, sobre carros há muito tempo. Era legal se sentir o líder; ele se sentia um homem maior do que ele usualmente se sentia.

O professor os parou e começou a explicar basicamente o que Pierre tinha explicado, mas mais profundamente e sobre mais coisas que Pierre poderia no tempo em que eles ficaram conversando. Não demorou para a aula terminar e eles ouvirem o sinal tocar.

Todos entraram para pegar suas mochilas, limpar suas mãos, e pegar seus livros. Pierre ficou com a chave do carro, desde que David estava certo de que ele tomaria mais cuidado. Aparentemente, David era do tipo de perder as coisas. Vai entender. Pierre colocou a chave em seu bolso, enquanto pegava seus livros e papeis. David reconheceu os desenhos de carro, e deu a Pierre créditos por eles. O que Pierre não soube como responder, então ele não disse nada absolutamente. Se ele não estava falando sobre consertar um carro, ele não falava nada.

Antes que eles pudessem ir embora, entretanto, David parou Pierre. "Hey, Bouvier." Ele disse e Pierre se virou para olhar para o menor, que tinha sua mochila pendurada em um ombro. "Desde que vamos trabalhar juntos nisso, e eu realmente preciso da sua ajuda com um monte de coisas, eu estava pensando que nós poderíamos trocar nossos números. Sabe, só no caso de precisamos nos falar. Err, só no caso de eu precisar falar. Por que eu não faço isso o bastante, certo? Ha."

Pierre balançou a cabeça. "Nós vamos apenas trabalhar na aula. Me pergunte nela." Falou.

David pareceu desapontado, mas escondeu muito bem com uma expressão feliz. "Certo." Ele disse. "Bem, só no caso, pega o meu. Você nunca sabe o que pode acontecer." Ele deu de ombros e ofereceu a Pierre um pedaço de papel com seu nome e número de telefone. "Te vejo amanhã, Pierre."

Depois que Pierre aceitou o pedaço de papel, David sorriu para ele e saiu da sala de aula. O estômago de Pierre se apertou algumas vezes, enquanto ele olhava para o pedaço de papel. Ele não tinha recebido o número de telefone de um cara há muito tempo. Ele colocou o papel no mesmo bolso que a chave estava, e também saiu da sala de aula

Era meio que divertido como David estava tentando deixar aparente que ele não estava 'seguindo' Pierre, ou tinha um interesse nele, quando ele tinha acabado de dar seu telefone. Não era divertido para Pierre, era mais aborrecedor e um pouco bizarro, mas tudo se resumia a uma única coisa. David era uma garotinha do fundamental, só que sem as risadinhas e os gritinhos agudos.

Pierre tinha certeza, entretanto, que se ele passasse mais tempo perto de David, esses sons iriam, certamente, ser emitidos da boca do garoto mais novo, eventualmente.

Mesmo que suas ações fossem um pouco hipócritas, Pierre não queria passar o tempo com David. Ele queria se focar nos trabalhos da escola, e ignorar amigos. Ou até namorados, o que era o que ele estava assumindo que David queria. Foi essa a impressão que ele teve. Mas Pierre não estava passando essa impressão. Pelo menos, ele não achava que estava. Ele estava tentando parecer 'eu não quero interagir com outras pessoas até eu estar fora daqui'. Mesmo que ele passasse essa impressão, ele achou que ela seria mal interpretada por David, de todo modo. Essa era sua sorte.

E, ainda assim, enquanto ele deixava os corredores da escola, a voz de David estava ecoando em sua cabeça e seu nome estava sendo carimbado no seu crânio. Maldito garoto.