Capítulo 5: All I Want Is A Chance To Fall Into You

Quando Pierre tinha oito anos, ele conheceu Chuck Comeau. Eles tinham a mesma idade, estavam na mesma sala e ambos eram garotos socialmente estranhos e sexualmente confusos. Era por casa de Chuck que Pierre chegou a uma conclusão sobre sua sexualidade. Sem ele, Pierre provavelmente ainda estaria fingindo, perto de Johny e seu pai, que garotas eram atraentes aos seus olhos. Elas tinham boa aparência, mas Pierre nunca as beijaria. Especialmente, não dormiria com elas.

Aquele ano em que ele e Chuck se conheceram, Pierre passou por várias mudanças. Quando Chuck disse para Pierre que ele não gostava de garotas, isso fez Pierre pensar. Uma noite, quando eles 'acamparam' na casa da arvore de Chuck, eles tinham se beijado, apenas 'para ver como era'. Mesmo que o beijo não tivesse causado nada, e eles nunca terminaram namorando, eles deram um ao outro uma perspectiva completamente nova.

Em um ato corajoso e bravo, naquele ano seguinte, Pierre se assumiu para toda sua família. Sua mãe aceitou instantaneamente; Johny não demorou a aceitar, talvez uns dois meses. Seu pai é que fora um pouco mais difícil. Ele não o negligenciou por causa disso, mas Pierre podia ver que toda vez que a família conversava sobre relacionamentos à mesa de jantar, Michelle não ficava a vontade com o anuncio de Pierre, mesmo depois de vários meses.

Fora por isso, no último dia de vida de seu pai, que Pierre chorara quando o ouvir dizer que sentia orgulho de si, mesmo de sua sexualidade. Ele estava ciente de que não muitos homens verbalizavam seus sentimentos, mas ele nunca, em um milhão de anos, seria capaz de adivinhar que orgulho era algo que ele tinha por seu filho mais novo. Mas, também, Pierre estava ciente, na época, que ele não era muito bom em ler as pessoas.

É claro, esses últimos anos de quase não falar e apenas observar as pessoas o beneficiaram nessa área. Caso em questão: David Desrosiers.

Agora, Pierre não ia dizer que ele era algum tipo de expert, mas ele sabia como ler alguém. Especialmente alguém tão legível quanto David. Ele viu além do garoto. Ele bancaria o menino inocente e sem idéia, até que ele finalmente trouxesse Pierre o bastante para que ele pudesse agarrá-lo, então ele teria uma mudança 'súbita' de personalidade e viraria o vizinho vagabundo.

Ele podia não estar completamente certo, mas Pierre tinha certeza de que ele estava bem perto. Ele queria fazer uma aposta com alguém, ele estava esse certo.

Mas uma coisa sobre a qual ele não tinha certeza era esta noite. Sexta-feira à noite. A noite que ele estivera (temendo) pensando sobre desde que ele aceitara o convite de David na última terça-feira. Ele não tinha certeza de nada. O que ele iria vestir (embora ele não se importasse de verdade), como ele devia agir, por que ele sequer estava indo com alguém que ele sequer era suposto a gostar, em primeiro lugar.

Certo, não que ele não fosse suposto a gostar de David. Ninguém tinha lhe dado uma lista de regras a serem seguidas quando se tratava de namoros, ou voltar para a escola. Ele não servia mais para namorar esses garotos idiotas de colegial, mesmo que isso fosse sua própria vontade. Ainda assim, a questão era que ir à bailes com garotos não era suposto a ser algo que ele experimentaria enquanto no colégio pelos próximos dois anos.

Quanto mais sexta-feira se aproximava, mais Pierre não conseguia tirar David de sua cabeça, não importa o quanto ele tentava. Ele imaginava seu sorriso, seus olhos, suas fofas (sim, ele era capaz de usar essa palavra) táticas. Ele não conseguia mais negar. Ele estava interessado em David. Ele podia não estar interessado em namorá-lo, ou namorar em geral, mas ele podia admitir (apenas para si mesmo) que ele gostava de David. Pierre previa que ele seria uma boa noitada. Mas ele estava preocupado de quais seriam as conseqüências para David. Ele não se importava com as próprias conseqüências.

Na hora do almoço, Pierre se viu preso em uma conversa de verdade com David. Ele ainda não falava muito, nem sorria ou ria (ele podia fazer isso quando David não estava olhando, mas sob seu ponto de vista, isso era uma historia completamente diferente). Eles se sentaram juntos do lado de fora, nos lados opostos de uma mesa de piquenique, dando um ao outro olhares diferentes; Pierre tinha um olhar tímido, ainda que um tanto esperto, enquanto David apenas parecia estar se divertindo, como sempre.

David falou a maior parte do tempo, mas sequer ele falava muito sobre si mesmo. Eles foram e voltaram sobre coisas favoritas (bandas, comidas, cores, etc), como se eles fossem amigos de correspondência de curta distância, apenas conhecendo ao outro pela primeira vez. Pierre teve problemas em responder algumas poucas questões, desde uma realmente pessoal ia aparecer de vez em quando, mas David não parecia ter um problema com isso.

Então, Pierre sabia que David amava Blink 182, sushi, a cor azul e o filme Grease. Isso queria dizer que ele realmente o conhecia? Não mesmo. Se Pierre realmente quisesse, ele estaria bombardeando David com perguntas pessoas para realmente conhecê-lo, e David seria o amigo ideal. Mas ele não queria isso, então ele se garantiu de terminar a conversa deles, antes que David começasse a se transformar no namorado ideal. Ele estava preocupado que David tivesse a idéia errada.

Ele passou o resto do horário de almoço na área dos fumantes. Ele estava estressado, certo? As pessoas podiam fumar um de vez em quando. Ele não fumava há dias, então ele já estava indo muito bem. Mas o fato de que o baile era em aproximadamente cinco, seis horas era muito para lidar. Ele não conseguiria passar o resto do dia sem acalmar seus nervos com nicotina.

Pela hora que a aula de mecânica começou, Pierre estava bem mais calmo. Era bom estar trabalhando em carros novamente, mesmo que com David. Pelos últimos dias, quando na aula, David não tinha falado sobre nada além de carros, pelo que Pierre era muito grato. Graças a curiosidade de David, tudo sobre o que eles falavam era sobre carros. David não estava mentindo; ele estava ficando interessado nisso tudo.

Bem, Pierre era outra razão pela qual a conversa deles não sair de carros. Toda vez que David tentava mudar de assunto, Pierre voltava sua atenção para a tarefa em mãos, ao invés de investigar a vida pessoal de Pierre. Ele estava muito mais confortável falando sobre carros do que sobre si mesmo.

David se escorou contra o carro, um trapo em suas mãos, enquanto tirava um pouco de graxa com que ele tinha se sujado, enquanto trabalhava no motor. "Então," ele começou, enquanto Pierre continuava o que David não tinha terminado. "A oficina. Está aberta de novo?" Pierre assentiu, e não disse nada. "Me pergunto por que eu não vi. Meus pais não viram. Mas, também, nós vamos por um caminho diferente. Quem reabriu? Sua mãe?"

Pierre balançou sua cabeça. "Não." Disse. "Ela, uh, ela não gosta de carros. Nunca gostou." Ele olhou brevemente para David, mas não virou sua cabeça. "Meu irmão." Um suave e baixo resmungo escapou por seus lábios, enquanto ele tentava apertar algo com suas mãos, mas percebeu que não conseguiria. "Johnny. Ele reabriu... Há uns três anos." Então ele decidiu mudar de assunto, de volta para os carros. "Venha aqui. Pegue a chave Allen." David assentiu e depositou o trapo no teto do carro. Ele pegou a chave pedida e andou até onde Pierre estava inclinado sob o capô. "Aperte a tampa do óleo."

Com outro assentimento, David juntou a chave à tampa e a virou. Mas algo não estava certo, por que não parecia que algo estivesse acontecendo. "Aqui." Pierre disse para oferecer ajuda. Ele pousou sua mão sobre a de David, também segurando a chave, e começou a virá-la apropriadamente. "É, exatamente assim." Pierre disse.

Então, David olhou para ele e, por instinto, Pierre também virou a cabeça. Seus ombros estavam se tocando, rostos não tão longe, e os olhos presos nos do outro. Suas mãos pararam de virar a chave, mas não perderam o contato. A mão de Pierre ainda segurava a de David. Seu estômago se revirou algumas vezes. Ele devia apenas ter deixado David usar a ferramenta sozinho. Ele não estava indo tão mal assim. Assim que David abriu a boca para falar algo, ele foi interrompido pelo Senhor Williams falando com a sala.

Imediatamente, eles se afastaram, David se virando para olhar o professor, mas Pierre ainda olhava para o motor. Ele pegou a chave de David e apertou a tampa ele mesmo, seu rosto imediatamente obtendo uma expressão raivosa e defensiva. Internamente, ele se amaldiçoou por tocar David daquela maneira, por permiti-los a cair em uma posição embaraçosa.

Pelo resto da aula, eles mal se falaram. Pierre não explicou nada para David. Ele mal o deixou fazer algo. Algumas poucas vezes, David realmente reclamou por Pierre não o estar deixando se envolver. Mas Pierre apenas se desculparia rapidamente, lhe daria a ferramenta que estivesse usando e falar para ele fazer se ele quisesse, mas ele não lhe explicava exatamente o que ele tinha que fazer. Isso incomodou David, mas ele meio que sabia por que Pierre estava agindo desse modo, então não iria se ressentir.

O dia tinha terminado antes que Pierre notasse. Ainda que não pareceu acabar rápido o bastante. Pierre se sentia desconfortável, e queria algum tempo para ir para casa e se recuperar, antes de ir ao baile. Seria difícil agüentar a noite se ele fosse ficar todo defensivo. Então, tão apressadamente quanto ele conseguiu, ele juntou suas coisas, pegou o que precisava de seu armário, e foi direto para casa, sem mesmo entrar em contato com David novamente.

Ele foi capaz de refrear a vontade de fumar, enquanto andava para casa, mesmo que ele se sentisse bastante inquieto. Era sua culpa que ele sempre acabasse nessas situações e nessas posições. A coisa idiota era que, se fosse qualquer outra pessoa (digamos, uma garota), a situação teria sido ignorada e não vista como algo estranho. Mas por que David tinha o feito sorrir pela primeira vez em... Muito tempo... Isso estava fora de proporções, em sua mente.

Quando ele chegou em casa, sua mãe estava, de verdade, cozinhando no fogão, o que era uma grande raridade por si só. Ela cozinhou por um tempo depois que Michelle faleceu, mas parou quando Pierre começou a passar a noite fora, sem voltar para casa para comer. Bem, ela pode ter cozinhado naquela época, mas não era para Pierre, desde que ele não estava lá. Pelo cheiro chegando ao nariz de Pierre, ele achou que a comida escolhida eram sanduíches de queijo grelhados.

"Hey." Pierre disse, só para garantir que sua mãe tomasse ciência de sua presença. Talvez ele conseguisse um pouco de comida antes do baile, se ele fosse legal com ela. Ele deixou sua mochila perto do sofá e tirou o tênis. Ele andou até a cozinha, onde ela estava, se perguntando em que humor ela estaria. Ou ela estava cozinhando por que estava de bom humor, ou ela estava cozinhando por que estava chateada sobre algo. O último acontecia com menos freqüência, mas era uma de suas saídas. Além das drogas.

Ela não sorriu, mas não foi grossa também. "Hey." Ela disse. "Quer queijo grelhado?" Pierre se sentiu um pouco desconfortável, desde que era meio estranho sua mãe perguntar se ele queria que algo lhe fosse preparado. As únicas vezes que ela o alimentava era quando ela ou trouxera comida ou lhe dava dinheiro para comprar algo. Fora isso, usualmente ele mesmo conseguia sua comida.

"Uh, claro. Obrigado..." ele abriu a geladeira para pegar uma lata de cerveja, então se sentou à mesa. Enquanto ele levava a latinha aos lábios, ele observou sua mãe na frente do fogão. Ela usava uma blusa de alcinha branca e calça azul, pantufas azuis em seus pés.

Quando ela tirou dois pratos do armário sobre a pia, ela realmente falou com ele. "Você vai sair hoje à noite?" ela perguntou. Pierre não sabia se ele realmente queria contar a ela que ele ia ao baile da escola. Ele nunca falou com ela sobre esse tipo de coisa. "Por que Johnny vai passar aqui para pegar o carro. O freio quase não está funcionando e ele vai arrumar."

"E, o quê? Eu não sei arrumar?" ele disse, um pouco grosseiro.

"A questão não é essa, sabichão." Ela disse, um tom similar, mas mais defensivo. "Ele ofereceu trazer o carro para a garagem, por que ele sabia que você estaria muito ocupado com a escola ou qualquer coisa assim. Mas se você quiser, a todo custo. Ligue para ele e diga que ele não precisa mais vir."

Ele balançou a cabeça. "Eu tenho um lugar para ir." Falou, a cabeça abaixando. "Mas eu acho que eu posso ir andando." Ele tomou outro gole, então apoiou a cabeça na mão. Seus olhos se fecharam e ele respirou fundo. Ainda havia algumas horas até que ele sequer tivesse que se arrumar para o baile. Ele podia relaxar por agora.

Ela colocou o prato com o sanduíche de queijo grelhado na frente de Pierre, que abriu seus olhos. Ele murmurou um breve agradecimento, antes de começar a comer. Ela se sentou na frente dele, na mesa circular. O tempo todo em que eles comeram, entretanto, foi em silêncio. Eles sequer trocaram olhares. Além do assunto 'Johnny', ninguém tinha algo a dizer. As únicas vezes em que eles falavam era quando algo realmente importante estava acontecendo, que pudesse interferir com o dia a dia de todo mundo.

Uns quinze minutos depois, Pierre tinha terminado, então ele se garantiu de não ficar ao redor muito mais. Ele não queria prolongar o desconforto que ele estava sentindo naquele cômodo. Ele colocou o prato na pia e andou até seu quarto. Ele fechou a porta atrás de si e olhou para o relógio digital em seu criado mudo. Ótimo. Ele ainda tinha horas até que ele tivesse que sair. O que ele era suposto a fazer até lá? Deitar-se e se perder em pensamentos sobre David e o que tinha acontecido entre eles mais cedo naquele dia.

Ao invés disso, ele colocou o último CD do Paramore para tocar e tirou seu suéter, jogando-o na cadeira em frente à sua escrivaninha. Ele tirou a camiseta que usava por baixo, também, então ele não estava vestindo nada na parte de cima do corpo. Ele parou na frente do espelho de corpo para se olhar. Cara, ele precisava começar a usar aquela sala de pesos na escola. Talvez, então, ele realmente aumentasse e finalmente fosse capa da Men's Health, ou alguma revista desse tipo.

Hey, isso poderia acontecer.

Seu dedo correu por seu tórax, até o piercing no seu mamilo direito; ele geralmente tirava, desde que ele sentia vergonha do piercing a maior parte do tempo. Fora um completo acidente, que ele não teria cometido se estivesse sóbrio. Fora há dois anos, quando esse cara de dezoito anos (com quem Pierre tinha dormido algumas vezes) o embebedou e o levou até esse salão de piercing. Onde fora também que ele conseguira a tatuagem de um coração com as iniciais 'DD' (de David Donnelly) atrás de seu quadril direito. As idiotices que ele fazia quando estava bêbado...

Com um suspiro, ele balançou a cabeça, e parou de prestar atenção no espelho. Ele não queria ficar muito obcecado sobre sua aparência, ou ele acabaria dando o bolo em David esta noite, graças a sua atitude de se repudiar.

Depreciando-se, menosprezando-se, se constrangendo e, ainda assim, de algum modo, egocêntrico.

Usando uma camiseta preta, um jeans azul e limpo, e tênis escuros e sujos da Converse, Pierre chegou ao baile. Antes de sair do carro, ele até mesmo considerou ir embora e esquecer isso. Mas ele sabia que não conseguiria, por que isso seria apenas totalmente cruel.

Os flashs da brilhante luz encontraram os olhos de Pierre, uma vez que ele abriu a porta. Fora essa luz, o ginásio estava bastante escuro. Pierre teve que dar a seus olhos uma chance de se acostumarem, antes de entrar ainda mais, passando por alguns adolescentes que estavam perto da porta. Vários outros estavam juntos no meio do cômodo, o que era fora do comum, pelo que Pierre sabia. De acordo com, bem, um monte de gente, adolescentes usualmente se juntavam em grupos em diferentes partes do cômodo, não todos juntos.

Enquanto ele dava passos curtos e languidos para longe da porta, sua cabeça se virava em várias direções, procurando por David. Se não fosse pelo fato de esses adolescentes já estarem barulhentos, ele tinha certeza de que seria capaz de ouvi-lo alto e claro. Ele provavelmente só estava socializando com os vários amigos que ele tinha nessa escola. Talvez se ele prestasse bastante atenção, ele ouviria a risada adorável de David, da qual Pierre gostava muito.

Ao invés de encontrar David socializando, entretanto, Pierre encontrou o menino mais novo sentado em uma cadeira contra a parede, as mãos em seu colo e a cabeça baixa. Ele estava torcendo os dedos, as pernas cruzadas sob a cadeira, as pontas tocando o chão. Ele estava usando uma camiseta legal e rosa, e um jeans preto, tão formalmente informal quanto possível. Mas Pierre não se importava. Ele achou que o menor estava realmente bonito.

Ele se perguntou por que David estava sentado sozinho, quando havia tantas pessoas com que se misturar. Até mesmo aquele cara com quem Pierre viu David rindo mais cedo naquela semana. Mas, alas, ninguém estava fazendo um movimento sequer de ir falar com ele, nem mesmo se misturar com ele. Pierre se deu essa tarefa. Ele ia fazer um movimento, mesmo que fosse em um sentido mais literal. Ele estava andando até ele, então isso se classificava como 'movimento'.

Uma vez que Pierre parou na frente de David, seus tênis chamaram a atenção do menino distraído. David olhou para cima, e no instante em que seus olhos se encontraram, um sorriso gigante apareceu no rosto de David, iluminando toda a área onde eles estavam. "Pierre," ele disse em seu tom usualmente alto. Ele indicou a cadeira ao seu lado. "Sente-se." Ele indicou e Pierre obedeceu, sentando-se à esquerda de David. "Estou impressionado. Eu não achei que você realmente fosse vir. Não importa, deve ser por que eu nunca realmente tive um par em uma dessas coisas e... Eu não sei por que eu te contei isso. De todo modo, como você está?"

Pierre assentiu. "Bem." Ele disse, sem saber realmente o que falar.

O sorriso no rosto de David não desapareceu, enquanto eles se sentaram em um silêncio curto. "Bem, isso é ótimo." Ele disse. "Esse lugar está ótimo, né? Realmente fiz um trabalho ótimo. É claro, você pode pegar um pouco do crédito, desde que você ajudou." Tudo o que Pierre pensou em fazer foi assentir de novo. O que ele era suposto a dizer? Exatamente. "Quer uma bebida? Antes de alguém batizar o ponche?" Ele riu e Pierre assentiu mais uma vez, a esquina de seus lábios se ergueram apenas levemente, mal sendo notável. "Certo." David disse e se levantou, afastando-se.

Pierre o observou, secando suas palmas meio molhadas nas calças. Ele tinha que admitir, ele estava um pouco nervoso. Ele não tinha decidido, ainda, como essa noite ia terminar. Ele planejava apenas comer, beber, fazer David falar um bocado, e Pierre apenas falar algumas coisas de vez em quando, até que desse a hora de ir embora. Ele não tinha certeza de como pessoas normais agiam nesses casos.

Apenas alguns momentos mais tarde, David voltou com dois copos contendo um liquido vermelho, um de Pierre. O maior o agradeceu quietamente, enquanto ele se sentava novamente. "Esse provavelmente não é um baile como os de Beaubois, né?" David perguntou e Pierre deu de ombros. "Como era ir lá? Quero dizer, é uma escola bastante rica; definitivamente não é como esse lixo. As coisas são diferentes lá?"

"Não realmente." Ele disse. "É diferente do que parece."

"Oh." David assentiu.

Pierre tomou um gole de seu copo e decidiu virar toda a atenção para David, ao invés do que ter David lhe perguntando todos os tipos de perguntas sobre si. "Então," Pierre começou. "Tem alguma família aqui?" David não tinha mencionado nada sobre uma família, e Pierre tinha se perguntado se David falava de sua família da mesma maneira que Pierre. O queria dizer que ele nunca falava, desde que eles eram embaraçosos e não valiam a pena.

David balançou a cabeça. "Não. Eles todos já se formaram. Eu sou o mais novo da família." Ele respondeu. "Seth e Stephanie são gêmeos, e eles têm dezenove anos. Eles ainda moram lá em casa, mas eu não me surpreenderia se eles se mudassem ano que vem. Eles falam em se mudar desde os treze anos." Ele tomou um gole de sua bebida, antes de continuar. "Meu irmão mais velho, Ian, tem vinte e quatro. Mas ele não é um Desrosiers. Ele é um Hayes. Minha mãe, Vanessa, o teve antes de conhecer meu pai, Mike. Ian mora em Quebec com sua esposa, Linda."

Tudo o que Pierre fez foi assentir de novo. Ele devia parecer um daquele bonecos de cabeça de mola, com o tanto que ele estava apenas assentindo. Antes que David tivesse a chance de perguntar sobre a família de Pierre, este fez outra pergunta. "O que seus pais fazem?" perguntou.

"Minha mãe é uma das moças da Avon. Ela vendo os produtos. Na maior parte do tempo, trabalha em casa, para poder tomar conta da gente ao mesmo tempo." David explicou. "Meu pai é um advogado de crianças. Ele trabalha apenas com menores. Eu, na verdade, gosto do que ele faz. Ele ajuda crianças problemáticas por toda Montreal, e isso é ótimo." Pierre assentiu.

Maldição, se ele houvesse conhecido David um ano antes. Então, ele poderia realmente ter tido um advogado, e talvez por um bom preço. A única razão pela qual Richard o era, era por que ele tinha trabalhado por quase nada, e permitiu que Pierre pagasse depois, quando ele tivesse a chance de conseguir dinheiro com sua mãe. Ela fazia um monte de dinheiro vendendo drogas; mesmo que ela escondesse tão bem, que Pierre não saberia disso, se ele não tivesse, acidentalmente, se deparado com todas as plantas no porão, quando ele estava procurando por sua bola de futebol.

Eles ficaram sentados lá por mais uns dez minutos, apenas falando sobre as coisas ao seu redor. O baile, os adolescentes, a escola, etc. Nada muito pessoal, ou interessante, de fato. Eles bebiam de seus copos de ponche, trocando olhares roubados, e David sorriu bastante. Como sempre.

Depois de um tempo, David finalmente falou de outra coisa. "Quer dançar?" ele perguntou e Pierre jurava que seu coração tinha falhado alguns batimentos.

Pierre balançou a cabeça. "Eu não danço." Falou.

"Qual é, todo mundo dança. Dançar não é apenas coreografado." David disse e se levantou. Ele pousou o seu copo e o de Pierre numa mesa próxima, então segurou o pulso de Pierre, fazendo-o se erguer. Sem dar a Pierre qualquer chance de falar, David o escoltou através da multidão até um lugar vazio na pista de dança. Eles se viraram para olhar para o outro e a maneira como a luz da Bola refletia nos olhos marrons de David não deixou Pierre olhar para qualquer outro lugar.

"Certo." David disse e pegou as mãos de Pierre, pousando-as nos seus quadris. Pierre engoliu em seco e agradeceu a Deus que David não conseguiu ouvir por causa da música, que passou a ser uma música legal, suave e de dança lenta. "Ponha suas mãos dessa maneira." Ele instruiu e Pierre manteve suas mãos no quadril de David, os braços se curvando, então ele estava ainda mais perto dele. David posicionou seus braços ao redor do ombros de Pierre. "E aí, só... Deixe a música fazer o resto. Nós não estamos em uma competição ou algo assim."

Tudo o que Pierre pôde fazer, foi assentir levemente com sua cabeça, os olhos fixos nos de David, enquanto eles dois começavam a se balançar levemente, pés mal se movendo. Desde que David tinha parado de falar, tudo o que eles fizeram foi olhar para o outro. E Pierre tentou desesperadamente desviar sua atenção, mas logo descobriu que fazer isso era uma impossibilidade. Ele estava temeroso que David olhar dentro de seus olhos fosse permitir que algo fosse dividido entre eles, que Pierre não queria. Mas tudo estava fora de seu controle a esse ponto.

David era apenas... Ele tinha... Ele era lindo. Pierre não tinha percebido isso antes. Sobre ninguém. Claro, ele olhava para outros caras e os achava gostosos. Pierre podia, certamente, olhar para alguém e falar que ele tinha uma bunda legal ou braços musculosos. Mas ele nunca realmente achou alguém lindo antes. Essa era uma palavra tão sentimental, e ele não a tinha usado com ninguém antes, exceto sua mãe. David tinha um rosto que Pierre não se importaria de passar horas olhando. Se estivesse em uma foto. Com a pessoa, isso era meio estranho.

Um sorriso reapareceu no rosto de David. "Você sempre olha para as pessoas como se você estivesse perdido nos próprios pensamentos?" ele perguntou.

Pierre voltou ao momento presente e se focou nele novamente. "Uh... Uh, o quê?" perguntou, sem ter certeza de o que o garoto havia perguntado.

David riu levemente. "Eu sei que não nos conhecemos há muito tempo, e provavelmente já é um grande passo para você apenas vir a esse baile, mas eu gostaria de passar mais o tempo com você." Ele disse, soando como naquele momento em que ele abordou Pierre na biblioteca e o agradeceu por ajudá-lo com a decoração do baile. "Eu realmente iria gostar se você aceitasse aquela oferta de vitamina, que ainda está de pé. Ninguém mais está aceitando."

Com isso, Pierre apenas teve que perguntar algo. "Por que não?" perguntou. "Quero dizer... Uh, eu te vi, no outro dia. Passando o tempo com todo aquele pessoal. Eles não... Uh... Iriam? Com você?"

Com um encolher de ombros, David abaixou brevemente sua cabeça, mas não muito depois voltou a juntar seus olhos. Ele não estava mais sorrindo, e Pierre subitamente se sentiu estúpido por perguntar isso. Ele não queria apagar o sorriso de seu rosto. Ele gostava do sorriso! "Eles não são meus amigos." David disse. "Eu não menti quando disse que não tinha nenhum. Eles são apenas pessoas dos grupos e clubes que eu participo. Eu tenho que me relacionar com eles para estar no grupo ou clube. Mas eles nunca realmente quiseram passar o tempo de outro modo."

Agora Pierre se sentia extremamente mal por ter falado qualquer coisa. Se ele não houvesse tocado no assunto, talvez David ainda estivesse sorrindo e rindo. E ele não estaria se sentindo culpado por assumir que o garoto estava mentindo quando disse não ter amigos. Pierre achou que esse era apenas um jogo que ele estava jogando, para fazer Pierre dizer sim. Ele tinha se encontrado com algumas dessas pessoas antes. Mas ele descobriu que David realmente não tinha amigos, e isso fez Pierre se sentir um merda.

"Mas que seja." David disse, dando de ombros e sorrindo. "Nunca foi um problema. Menos tempo gasto com pessoas, mais tempo eu tenho para fazer minhas lições. Eu estou tentando manter uma média de, pelo menos, noventa, para que eu consiga entrar na Osgoode Hall, em Toronto. É a que meu pai freqüentou, e eu realmente gostaria de entrar na área dele. Acredite se quiser, eu não sei nada de leis, mas eu já fui trabalhar com ele, e é tão fascinante. Eu acho que é. Nem todo mundo acha, entretanto. As pessoas acham tedioso. Meh, cada um na sua."

Como sempre, Pierre não sabia o que falar, então não o fez. Agradecidamente, ele não teve que, por que David continuou falando. "De todo modo, o que eu ia falar antes..." ele disse. "Eu não vou fazer nada amanhã. É suposto a ser um dia legal, desde que o aquecimento global quer dizer que teremos sorte em ter neve no natal, então, talvez, você queria comprar uma vitamina, e depois ir para o parque? Eles têm uma balança de pneu." Ele disse a última frase como se estivesse tentando fazer soar mais tentador, e isso fez Pierre sorrir.

Merda.

Um sorriso gigante, de orelha a orelha, apareceu no rosto de David, mas Pierre imediatamente escondeu o seu e quebrou o contato ocular, olhando para baixo, notando o quão limpos os tênis de David pareciam, comparados aos seus. "Uau." David disse. "Eu nunca tinha te visto sorrir. E eu te conheço por quase um mês." Pierre não disse nada e se recusou a fazer contato ocular. Quando ele olhou para cima (brevemente), ele viu David sorrir suavemente. "Eu acho bonito. Seu sorriso, quero dizer."

Pierre finalmente olhou para cima, esperando que suas bochechas não estivessem vermelhas demais com o quão embaraçado ele estava. Ele mordeu seu lábio nervosamente. Ele percebeu suas palmas acumulando suor, mas não podia secá-las, por que suas mãos estavam incapazes de se moverem. Elas estavam coladas no quadril de David como colas, ou como se algum tipo de força as estivesse segurando lá. "Eu não posso." Ele disse, finalmente respondendo a pergunta de David. "Uh, eu não quero parecer um... Arrogante, ou algo do tipo, mas e-eu não estou realmente pronto para ter um namorado. Nesse momento."

Seus olhos se encontraram, e Pierre jurou que ele viu uma porção de esperança sumir daquelas íris levemente coloridas. Veja, era por isso que ele nunca falava. Por que era sempre um despejar de palavras. Nada de bom saía da sua estúpida boca. Ele sabia que ele podia apenas usá-la para beijar e... Orais. O que era a termologia apropriada para um de seus passatempos favoritos. Mas ele sabia que tinha que falar isso. Ele tinha que deixar David saber que ele não queria um namorado nesse momento.

David assentiu. "Tudo bem." Ele disse, o sorriso ainda em seu rosto. Como ele sempre podia estar sorrindo? "Eu só estava perguntando. Nada de mais. Eu estou completamente bem em ser amigo. Isso é, se eu sequer tenho permissão para ser. Eu tenho? Eu posso ser seu amigo, por favor?" ele projetou seu lábio inferior em um grande bico e piscou os olhos.

Pierre rolou os olhos. "Você é louco." Ele conseguiu dizer, as esquinas dos seus lábios se erguendo no menor dos sorrisos.

O pequeno sorriso recebeu um gigante em resposta. "É o que dizem." David disse. Mas depois disso, nenhum dos dois realmente sorriu. David tinha um, mas muito pequeno, e era mais uma expressão de descuido do que um sorriso induzido por qualquer coisa. Pierre não sorriu, absolutamente, mas gostou de olhar dentro dos olhos de David. Agradecidamente, os olhares não ficaram juntos por muito tempo, e Pierre foi capaz de se afastar, antes que ele se derretesse completamente.

Uma vez que a música terminou, os dois decidiram se sentar, ao invés de se encostar contra uma parede. Pelo resto da noite, eles ficaram sentados lá, continuando seu jogo de 'favoritos'. Esse era o mais pessoal que suas conversas iam. E Pierre sorriu só mais uma vez. E foi isso. Ele não queria sorrir demais, por que cada um deles o fazia se sentir desajeitado, e ele não queria trazer essa sensação à tona a cada oportunidade. Era não uma sensação ótima, mas Pierre rapidamente descobriu que era inevitável. David o fazia se sentir desse modo.

Ninguém podia mudar sua decisão, entretanto. Ele fez a escolha certa ao recusar o pedido de David. Ele não estava pronto para um namorado, e era assim que as coisas eram.