Capítulo 8: I've Been Trying So Hard Just To Keep Away
Pelo próximo dia, Pierre não conseguia se lembrar de algo produtivo sendo feito. Ele nunca realmente fazia algo produtivo, mas dessa vez fora pior. O dia todo, ele ficou deitado em sua cama, ou no sofá, olhando para o nada. Sua mãe passou por si algumas vezes, perguntando que diabos estava errado com ele, mas ele não respondeu. Por que sua mente estava muito ocupada com pensamentos sobre David Desrosiers.
O anel de plástico rosa foi removido de seu dedo e, ao invés, fora colocado no colar que tinha o símbolo de seu pai. Não que ele estivesse pensando sobre isso o tempo todo. Ele estava mais focado em tudo o que tinha acontecido no dia anterior. O flerte, dar comida na boca, os sorrisos e, é claro, o beijo. Espere, ele não podia esquecer-se da confiança de David. Aquela confiança do tipo 'eu estou certo, você está errado', que se fizera conhecida naquela estrutura de madeira.
Ele sabia que David tinha confiança. Ele era, afinal, quem tinha abordado Pierre todas as vezes e os fez dançar, e ir ao encontro. Se não fosse pela sociabilidade do garoto, eles provavelmente sequer se conheceriam. Se Pierre era altamente grato por essa qualidade de David, seu novo (namorado) amigo? Ele não tinha certeza. Ele não tinha realmente considerado o efeito de David em sua vida; se era grande ou pequeno.
Embora o domingo tivesse sido passado em um estado de sonhar acordado, passou rapidamente, chegando segunda-feira. Quando ele acordou aquela manhã, sua mente estava em outras coisas. Como o estranho sonho que ele tivera sobre ser atacado por lagostas e raias gigantes.
É.
De todo modo, enquanto ele andava para a escola aquela manhã, ele estava pensando mais sobre a tarefa de matemática que ele não completou no fim de semana. Havia uma prova rápida sobre as partes do carro e suas funções mais tarde, mas Pierre não se deu ao trabalho de estudar, desde que ele já sabia tudo o que precisava saber. Fora isso, o único trabalho que ele não fizera durante o (melhor) fim de semana (da sua vida), fora o de matemática, que ele precisava para hoje. Mas que seja.
Ele entrou na escola e abaixou seu capuz, mas não ergueu muito sua cabeça. Apenas o necessário para ver onde ele estava indo. Como sempre, suas mãos estavam em seus bolsos, até ele chegar a seu armário. No qual David estava parado, inclinando contra ele, enquanto parecia estar lendo o livro em suas mãos muito atentamente, suas sobrancelhas cerradas. Pierre sabia que não teria que perguntar, por que David provavelmente lhe contaria do mesmo jeito. O que ele fez, basicamente, quando Pierre se aproximou dele.
"O motor é o coração do carro, e é construído diferentemente por customização, para carros de corrida ou obstáculo. Certo?"
Ah, a tagarelice incoerente de David. Estava fadado a aparecer logo. Fazia um tempo. "Uh, olá?" Pierre disse, achando que David não devia ter notado que era ele que estava ao seu lado. David ergueu os olhos de seu livro para olhar para Pierre, inclinando-se para beijá-lo nos lábios e sussurrar um cumprimento. "Então, do que você está falando? Tipos de motor?" ele abriu seu armário e jogou sua mochila lá dentro.
Havia ainda uns vinte minutos antes de o sinal tocar, então Pierre não se importou em pegar seus livros e apenas fechou seu armário. Ele voltou sua atenção para David. "A prova de hoje." Ele explicou para Pierre. "Você sabe dela, né? Embora eu duvide que você precise estudar. Não apenas por que você é bom com carros; você é apenas um gênio em todas as áreas da educação, mesmo que você seja modesto o tempo todo, mas você é brilhante, eu sei disso, e eu preciso da sua ajuda."
Os olhos de Pierre se arregalaram. "Você realmente está se preparando, huh?"
David assentiu e respirou fundo. "Você não tem idéia." Ele disse, então fechou o livro e olhou para Pierre. "Na hora do almoço. Está a fim de ajudar um aluno desesperado e sem a mínima idéia?" Pierre deu de ombros e assentiu. "Você é ótimo. O que eu faria sem você?" um monte de coisas ótimas, provavelmente. David colocou o livro na mochila. "Eu ia te ligar ontem, mas eu percebi que ia te ver hoje."
Eles se olharam e David pousou sua mão braço de Pierre. "Eu posso te ligar agora?" ele perguntou, e Pierre não pôde evitar sorrir com o quão brega isso era. David capturou seus lábios com os dele. Mas Pierre mostrou um monte de relutância; ele era bem mais reservado. David notou isso e quebrou o beijo. "Então, o quê? Você não pode me beijar agora? Eu perdi alguma coisa nos dois que ficamos separados?"
Com os olhos baixos, Pierre balançou a cabeça. "Não é isso." Falou. "O fato de que estamos no meio do corredor..."
"Agora, eu acho difícil de acreditar que Pierre Bouvier nunca se amassou com garotos no meio dos corredores lotados da escola." David riu.
Pierre cerrou as sobrancelhas e mordeu o lábio, pensando, e ele assentiu. "Mas..."
"Mas nada." David interrompeu.
Ao invés de se prender nisso, Pierre foi distraído pelo que David estava usando. Ele não tinha notado até agora. "Hey," Pierre disse, olhando para o suéter de David. O mais novo olhou para baixo, também, então novamente para Pierre, curiosamente. "Esse é meu suéter." Ele se lembrou de que David o ficara usando na sexta-feira. Ele certamente não se importava, entretanto, desde que David ficava fofo com ele.
David riu. "Ah, é." Ele disse. "Eu não queria esquecer em casa, então eu o vesti. Você não o pegou de volta na sexta-feira. Então... Segure isso por um segundo?" ele passou sua mochila para Pierre, que a segurou. David tirou o suéter, sua camiseta subindo um pouco, mas voltando para o lugar quando David abaixou os braços. Ele usava uma blusa preta de manga comprida. "Aqui." Disse e pegou sua mochila, entregando o agasalho para Pierre.
"Obrigado." Pierre disse calmamente, olhando para o suéter, antes de erguer os olhos, para encontrar os de David. Ele se inclinou, segurando a cabeça de David, e beijando-o apropriadamente, algo que ele esperou o final de semana todo para fazer. Ambos esqueceram o que quer que eles tinham a dizer, e David repousou suas mãos na lateral do corpo de Pierre, retribuindo o beijo. Pierre correu seus dedos pelo cabelo de David (algo que ele também esperara por muito tempo).
Mas foi essa ação que fez David gemer e quebrar o beijo. "Pierre!" ele choramingou, removendo as mãos de Pierre, então ele podia arrumar seu cabelo novamente. "Não toque meu cabelo na escola. Eu tenho que deixá-lo arrumado aqui." Pierre apenas sorriu e ergueu as mãos em rendição falsa. "Desculpe. Meu cabelo é importante. Para mim, pelo menos. Mas só em público. Em casa, tanto faz. Não importa." Pierre apenas assentou e abriu seu armário, para pendurar seu suéter no cabide de dentro. "Área de descaso dos alunos, para um café?"
Fechando seu armário, Pierre encolheu os ombros. "Claro." Falou. Então, David o segurou pela manga, para puxá-lo para longe do lugar onde eles estavam agora. Pierre o seguiu pelo corredor, na direção da área de descanso dos alunos. Eles não estavam de mãos dadas dessa vez, e isso fez Pierre se perguntar quais eram os limites de demonstração pública de afeto para David. Ele segurara sua mão no cinema e toda aquela noite. Mas não o fazia na escola.
Se os limites dele eram como os de Pierre costumavam ser, eles estariam transando atrás da escola nesse momento, antes das aulas começarem. Mas seus limites tinham mudado nesta escola. Ele não queria mais transar despreocupadamente com meninos inocentes (e meninos não-tão-inocentes) em público. Ele ainda gostava disso, sim, desde que era bastante excitante, mas essa não era a direção que ele queria ir. Ele conseguia lidar com alguns beijos, talvez segurar mão, mas nada mais.
Cada um com seu café, eles se sentaram em um dos sofás da sala de descanso, David à direita de Pierre. Ele segurou a mão de Pierre, mas notou que havia algo faltando. Ele olhou para baixo, confuso. "Você não está usando o anel." Ele disse, então voltou a olhar para Pierre. "Bem, quero dizer, eu não esperava que você usasse. Era um anel idiota, de todo modo. Só um anel idiota de criança, e você não tinha que colocá-lo. Eu só achei que, talvez..."
Pierre pousou sua mão sobre a boca de David, interrompendo suas palavras. Então, ele a removeu, de modo que pudesse tirar seu colar de sob sua camiseta. Isso mostrou o pingente de seu pai, assim como o anel cor-de-rosa. Um sorriso gigante apareceu no rosto de David. "Não queria perder." Pierre explicou. David lhe deu um beijo apaixonado e longo, o sorriso ainda bastante evidente.
"Você é maravilhoso, Pierre. Você realmente é." Falou, enquanto Pierre colocava o colar sob a camiseta. "Eu tenho que te perguntar algo. Eu não tenho certeza do que nós somos, o que estamos fazendo. Quero dizer, eu sei o que estamos fazendo, mas eu... Nós somos namorados? Er, você quer que sejamos namorados? Meu namorado? Ou, pelo menos, tentar? Se não, tudo bem. Eu sei que você não está pronto e..." Pierre cobriu sua boca com a mão, novamente. Quando ele a removeu, David franziu o cenho. "Pare de fazer isso!"
Pierre apenas sorriu e olhou para baixo. "Eu não sei." Ele disse. "É um pouco... Bem, eu nunca... Eu não sei realmente como... Você e eu..."
Ele foi interrompido, entretanto, pela mão de David em sua boca. O mais novo sorriu afetadamente. "Achei melhor lhe dar um gostinho do seu próprio remédio." Disse. Antes de David tirar sua mão, Pierre a lambeu, esperando que isso fosse fazê-lo tirá-la de lá. David puxou sua mão. "Eww, nojento!" Pierre riu, mas recebeu um tapa no braço. "Você é um idiota doente! Por que você fez isso?" ele secou sua mão na calça de Pierre.
Com um sorriso afetado, Pierre deu de ombros. "Por que sim."
David balançou a cabeça. "Ótimo, eu não vou lhe dar um gostinho do próprio remédio." Falou. "Então, uh, sobre isso? Namorados?"
Pierre olhou para ele, diretamente nos olhos, e subitamente achou impossível querer qualquer outra coisa. Ele se inclinou para frente para beijá-lo. Ele assentiu, olhando para os olhos de David, quando eles se separaram. David sorriu e eles dividiram outro beijo. "Claro..." ele falou. "Namorados." David segurou sua mão e eles se beijaram mais algumas vezes.
Pronto. Pierre tinha um namorado.
[...]
Eles pararam na esquina do final da rua do colégio, próximo a onde David (aparentemente) morava, naquela sexta-feira. A mão de David estava entrelaçada na de Pierre, enquanto eles estavam frente a frente. "Então, por que você está fazendo esse caminho? Você finalmente vai ir para minha casa e conhecer minha família?" David perguntou, uma expressão esperançosa e animada em seu rosto, e isso fez Pierre sorrir.
Ele girou os olhos. "Nós estamos saindo há uma semana." Falou.
"Que seja. Eu ainda gostaria que você fosse lá em casa."
Balançando a cabeça, Pierre franziu o cenho. "Não posso." Explicou. "Meu irmão... Johnny. Vou passar a noite na casa dele." Ele desviou os olhos. "Minha mãe vai estar ocupada com um 'cliente'. Alguém que trabalha na mesma loja que ela. Besteira..." David apertou sua mão, o que forçou Pierre a olhá-lo. "Resumindo... Nós, uh, provavelmente não vamos nos falar até segunda-feira."
David riu. "Nós provavelmente não conseguiríamos nos falar no final de semana, mesmo se eu tivesse o telefone de Johnny. Eu sequer tenho seu número." Pierre encolheu os ombros e David soltou sua mão. "Espera aí..." ele procurou dentro de sua mochila e tirou um marcador azul. "Aqui..." ele o ofereceu a Pierre. "Escreva na minha mão." Pierre assentiu e rabiscou o número do seu telefone na palma da mão de David. O mais novo colocou o marcador de volta na mochila. "Obrigado. Agora nós podemos ser namorados de verdade, que falam com o outro pelo telefone."
Pierre sorriu meio carinhosamente.
Passando seus braços ao redor do torso de Pierre, David se inclinou e lhe deu um beijo longo e suave. "Te vejo na segunda-feira, então?" Pierre assentiu. "Tchau." Ele soltou Pierre e atravessou a rua, para continuar indo para casa. Pierre virou à esquerda e continuou andando pela calçada, na direção do apartamento do seu irmão, que era apenas alguns quarteirões da Bouvier's Shop and Towing.
Johnny morava em um apartamento de um quarto, no quinto andar do prédio, que lhe permitia ver a loja. Ele vivia com Jessica, sua namorada há três anos. Ela era uma das garotas mais legais que Pierre já tinha conhecido. Ela trabalhava como uma enfermeira pediátrica, então talvez fosse por isso, mas ela sempre sabia como fazer uma pessoa sentir como se pertencesse ao lugar. Ela tinha cabelo longo e castanho, olhos azuis e tinha aproximadamente 1m60cm de altura.
Quanto mais ele andava, ele colocou o capuz. Suas mãos estavam nos bolsos e seus olhos focados na calçada. A última vez que ele checara, o céu estava escuro, o que fazia parecer que ia chover. Pierre tinha que prever isso, já que ele estava indo para a casa de seu irmão. Tempestades sempre caiam quando ele estava visitando o único membro da família com quem ele tinha a habilidade única de brigar cada vez que eles interagiam.
Pelos quatro anos que Johnny estivera naquele apartamento, Pierre ficara lá, talvez, duas vezes. Antes de ser sentenciado à prisão, ele ficava na casa de amigos, enquanto sua mãe tinha clientes em casa. Agora que ele não se associava a esses 'amigos', ele sabia que sua única opção era Johnny. Ele provavelmente ficaria na garagem até tarde, trabalhando em algo, de todo modo, e Pierre se dava bem com Jessica. Mas, sério, quem não ser dava bem com ela?
Quando ele estava no meio do caminho até o apartamento de Johnny, Pierre foi parado por uma voz conhecida, à sua direita. "Hey, Pierre Bouvier!" ele não parou de andar, apenas no caso de ser alguém com quem ele não queria conversar, mas virou sua cabeça para ver quem era. Quando ele viu o cara (os caras), ele diminuiu até parar no final da saída de carros de uma casa, onde os três caras estavam.
Ele balançou a cabeça. Ele o reconhecera no momento em que o vira. O meio indiano, meio americano e sujo traficante que Pierre conhecia, antes de ir para a cadeia. Ele era seu traficante principal em algum momento, mas eles nunca se deram realmente bem de outras formas. "Travis Cohen." Ele cumprimentou desanimadamente, enquanto tentava passar pela saída de carros. "Não pense que eles deixam vira-latas rondarem essas ruas."
O homem de vinte anos, usando um suéter dos Lakers, coberto por uma jaqueta marrom, e um jeans folgado, e um tênis novo da Reebok, sempre tivera uma 'pose'. Por isso os dois outros homens (um afro-americano e o outro caucasiano) parados atrás dele. O que estava a sua esquerda era o caucasiano, tatuado, de dezenove anos, calças largas e um chapéu, Ben McCoy. Ele era, de verdade, tão estúpido quanto uma maçaneta. Pierre tinha que se perguntar como ele conseguiu se formar.
A sua direita estava Vince Randall. Ele era o verdadeiro cérebro por trás da operação. Travis lidava com as drogas, e mantinha o preço das coisas, mas ele nunca teria conseguido fazer isso sem Vince para contar seu dinheiro e procurar por outras oportunidades de 'negócio'. Ele era meio quieto, usualmente optando por ficar parado atrás de Travis, do invés de participar do confronto, mas se fosse necessário, ele era como um cão raivoso. Ele usava um jeans justo (não tão justos quanto os de David, é claro) e algum tipo de camiseta de banda. Ele usava óculos quadrados, de aro fino, e dread que iam até um pouco à baixo de seus ombros.
Pierre sabia que Vince seria capaz de fazer isso sem Travis. Ben não conseguiria. Ele era brega, uma imitação de gangster, que se apoiava em Travis para... Tudo. Sua popularidade, seu estilo e sua moradia (ele dividia um apartamento de um quarto com ele, pelo que Pierre ouvira, pelo menos).
"Ah, Bouvier. Ainda um sabichão." Travis disse, sorrindo afetadamente como o completo idiota que ele era. "O que tem feito nesse último ano? As cadeias são tão bonitas quanto dizem que são?"
Pierre se aproximou do grupo, tirando as mãos do bolso, caso ele precisasse se defender ou algo assim. Não seria a primeira vez. "O que você está fazendo aqui, Cohen?" perguntou, o rosto inexpressivo.
Ele estava terminando um cigarro, e jogou a batuca no chão, soprando o resto de fumaça de sua boca. "As grades foram uma desculpa antes, mas agora que você está fora, você não pode se esconder disso." Travis disse, os braços se cruzando sobre o peito. "Eu estava marcando minhas vendas. Eu estava esperando você aparecer de novo. Queria ver o novo estudante exemplar." Pierre girou os olhos. "É hora de você pagar, Bouvier."
Sabendo exatamente do que ele estava falando, Pierre respirou fundo e correu uma mão pelo cabelo. Ele desviou os olhos e balançou a cabeça. Ele odiava se meter nesse tipo de coisa. Ele achou que tinha se livrado disso tudo e que não ia ser perseguido pelo seu passado, mas isso era estupidez. Quem estava totalmente livre de seu passado? Ninguém, e Pierre finalmente percebeu isso. "Quanto era?" perguntou, voltando a olhar para Travis.
"Dez gramas." Travis respondeu. "Cento e oitenta dólares, redondos. Sem mais desculpas."
Pierre balançou a cabeça e tirou o capuz do suéter de sua cabeça. "Não tenho o dinheiro." Falou. "Desculpe."
Travis olhou ao redor, para ver se as pessoas estavam olhando, e quando ele não viu ninguém, além de Vince e Ben, ele pegou Pierre pela camiseta e o jogou contra a lateral da casa. "Fazem quinze meses." Ele disse por entre dentes cerrados, raivosamente. "Me dê a porra do meu dinheiro agora, ou você vai ter que prestar ainda mais atenção no seu Menininho Bonito. Sabe, aquele com quem você tem saído bastante, ultimamente?" Vince e Ben estavam parado ao lado deles, se garantindo que mais ninguém percebesse o que estava acontecendo.
As sobrancelhas de Pierre se cerraram, o coração se acelerou perante o pensamento de algo acontecendo com David por sua causa. "Não o ponha no meio disso." Disse, tentando esconder o terror de sua voz e mantê-la em um tom firme.
"Eu preciso do dinheiro."
"Bem, eu não tenho!" Pierre disse um pouco mais alto.
"É melhor arranjar!" gritou, então olhou ao redor, se garantindo de que não tinha atraindo atenção. Seus olhos verdes voltaram para Pierre. "Foram duas vezes que você usou minha mercadoria e não pagou." Ele sibilou dessa vez. "Eu não vou mais deixar você se safar."
Pierre olhou para ele, se lembrando da última vez que isso aconteceu. Fora há três anos, quando ele comprou cinco gramas e não conseguiu pagá-lo. "Eu não tenho dinheiro!" falou. "Quantas vezes eu tenho que falar, porra?" ele sabia que sequer conseguiria juntar essa quantia, mesmo se tentasse.
"Quantas vezes eu tenho que dizer isso?" falou, apertando a camiseta de Pierre com mais força. "Me dê meu dinheiro ou o Menino Bonito vai precisar da porra de uma plástica para colocar o rosto no lugar."
Aí estava de novo. Se o Menino Bonito – er, David fosse se machucar por causa da estúpida decisão de Pierre, ele nunca se perdoaria. Ele estava tentando não envolver David na vida que tivera antes. "Não o ponha no meio disso." Falou, com menos raiva, mas mais como uma suplica. Ele não se importava se soava patético. Ele não queria que nada acontecesse com David. "Ele não tem nada a ver com isso. Me machuque, não ele."
Travis riu. "Oh, se você não me der meu dinheiro, você vai se machucar também. Confie em mim." As sobrancelhas pretas se estreitaram quando ele terminou a sentença.
Pierre desviou os olhos. "Eu não posso pagar. Todo meu dinheiro é gasto naquelas taxas para a escola." Travis se afastou de Pierre um pouco, de modo que pudesse dar mais impulso no seu pulso, acertando em cheio na bochecha esquerda de Pierre. Ele não reagiu ou disse algo. Ele sentia que merecia isso, de todo modo. Ele respirou fundo e voltou a olhar para Travis e os outros caras. "Eu vou conseguir. Só me dê algum tempo. Só não... Não faça nada com David. Não o machuque. Por favor. Ele não é parte disso. Eu prometo que vou conseguir o dinheiro."
Travis sorriu afetadamente e se afastou, empurrando Pierre contra a parede mais uma vez. "É melhor que consiga." Falou, então foi embora. Ben também o empurrou contra a parede, mas Vince não fez nada, enquanto eles seguiam Travis, como os pequenos robôs que eles, claramente, eram.
Pierre tocou sua bochecha e estremeceu um pouco. Então, ele voltou a andar para a casa de seu irmão, puxando o capuz para cima de sua cabeça. Ele olhou para o cimento, enquanto andava, chutando pequenas pedras e se amaldiçoando internamente. Se ele não se sentia estúpido antes, ele certamente se sentia assim agora.
Até onde Pierre conseguia se lembrar, ele já tinha pagado Travis. Mas quando ele fora levado sob custódia pela policia, todas as merdas legais pelas quais Pierre tivera que passar, bem, deixara difícil se focar em outra coisa. Ele não conseguia realmente se lembrar de algo que acontecera antes. Além de alguns outros caras e garotas (incluindo os três que ele acabara de encontrar), mas fora isso... Nada. Talvez as drogas tivessem apagado essas partes, também. Vai saber.
Ao sair do campo de visão dos três idiotas de Beaubois, Pierre acendeu um cigarro. Beaubois era a escola que mais dava uma impressão errada de toda Montreal. Era uma escola rica, e as pessoas ricas costumavam freqüentá-la (Pierre e Johnny conseguiram ir nessa escola, por causa de um fundo que o tio deles lhes dera antes de morrer). Todos achavam que, por que eles eram todos ricos, eles deviam ser boas pessoas. Mas metade das crianças eram drogadas e 'más crianças'. Pierre era apenas um que se fizera conhecido. Todos os outros estavam fora do radar.
Enquanto andava, Pierre percebeu que largar esse hábito de fumar ia ser bem mais difícil do que ele pensou. De um modo ingênuo, ele achou que tudo iria sumir uma vez que ele saísse da prisão e mudasse de escola. Ele devia saber mais. Havia tanto estresse em sua vida nesse momento, quanto antes, e ele precisava dos cigarros para se acalmar. Ia ser difícil. Muito difícil.
Uns quinze minutos mais tarde, Pierre chegou ao prédio de apartamentos no qual seu irmão morava. Ele foi de escada (desde que, aparentemente, o elevador estava quebrado) até o quinto andar. Ele bateu na porta de número '515', desde que ele não tinha uma chave. Quando a porta se abriu, Jessica estava lá, usando uma mini saia preta e uma blusinha azul claro. Ela sorriu quando o viu. "Hey, Pierre. Johnny me disse que você ia passar a noite. Entre." Ela deixou a porta aberta para ele, enquanto voltava para dentro.
Pierre seguiu, fechando a porta atrás de si. "Hey, Jessica." Falou, tirando o tênis. "Como você está?"
"Estou bem." Ela disse da cozinha, onde ela aparentemente estava cozinhando algo. Pelo cheiro, frango. "E você?"
Ele assentiu, enquanto deixava sua mochila perto do sofá, na sala de estar. "Bem." Ele respondeu. Ele se sentou no sofá bege, tentando se interessar pelo que estivesse passando na televisão. Era CSI: NY. "O... Uh, Johnny está na garagem?" perguntou, tentando puxar assunto, antes que as coisas ficassem estranhas. Ela respondeu positivamente e começou uma conversa sobre o que ela estava cozinhando. Ela era bastante tagarela, também.
Demorou, talvez, outra hora (bem, Pierre não sabia a hora, ele apenas sabia que demorou um episódio inteiro de Heroes) para Johnny chegar em casa. Ele entrou na casa, cumprimentando Jessica, desde que ele não sabia que Pierre estava lá. Ele ergueu os olhos para vê-los dividindo um beijo, antes de Johnny entrar na sala de estar, onde ele finalmente percebeu Pierre, sentado no sofá com um Red Bull em sua mão.
Seu rosto se abateu um pouco, mas não com raiva. Era inexpressivo. "Hey, Pierre." Falou. Ele se sentou na poltrona do outro lado do cômodo, alguns assentos longe de Pierre. O mais novo não respondeu verbalmente e apenas assentiu para ele. Johnny pegou o controle da televisão e começou a mudar de canal, sem falar mais nada para seu irmão mais novo.
Johnny Bouvier era... Diferente de Pierre. Ele não tinha ido para a cadeia ou usado drogas, mas Pierre sim, então ele desaprovava todas as péssimas decisões de Pierre. Ele tinha 1m85cm, magro, mas musculoso, e tinha olhos castanhos claros. Ele usualmente usava jeans e alguma camiseta, com dizeres engraçados ou sem nada, dependendo se ele ia trabalhar nos carros ou não. Seu braço direito estava coberto de tatuagens e ele tinha um piercing na sobrancelha direita. Seu cabelo costumava ser raspado, mas agora estava arrumado em um moicano.
Jessica os chamou para jantar, e eles sentaram-se à mesa da sala de jantar, comendo o frango que Jessica cozinhara. Ele e Johnny se não falaram, mas Jessica se garantiu de mantê-los falando ou ela e Pierre, ou ela e Johnny. "Oh, Pierre..." falou, soando preocupada. "O que aconteceu? Na sua bochecha. Está machucada!"
Pierre balançou a cabeça e olhou para sua comida. "Não foi nada." Falou. "Só um pequeno acidente."
"Bem, ainda assim, eu vou limpar depois do jantar. Não queremos que infeccione." Pierre apenas sorriu timidamente para ela.
Foi quando Johnny falou. "Como aconteceu?" perguntou, os olhos raramente fixando Pierre. "Se meteu em outra briga com aqueles idiotas da Beaubois?"
"Johnny..." Jessica tentou impor.
As sobrancelhas de Pierre se cerraram para seu irmão. Ele não estava planejando começar nada dessa vez, mas, claramente, Johnny tinha outras intenções. "Para sua informação," falou, um pouco defensivamente. "Eu cai durante educação física hoje. E eu sei que você não presta atenção na minha vida, mas eu não vou mais ao Beaubois. Eu estou na MDHS." Johnny olhou para ele, bravo pela maneira que Pierre tinha respondido.
Jessica suspirou. "Podemos, por favor, comer em paz? Vocês não precisam começar algo toda vez que se vêem." Os dois irmãos dividiram um último olhar irritado, antes de se voltarem à sua comida, obedecendo o pedido de Jessica.
Quando eles acabaram de jantar, Pierre aproveitou a chance e perguntou a Johnny – em particular – se ele podia emprestar algum dinheiro, para pagar Travis. Tudo o que ele recebeu foi um olhar sujo, 'idiota', e um balançar de cabeça desaprovador. Valia a pena tentar...
Aquela noite, deitado no sofá, coberto por um edredom velho e branco, e sua cabeça apoiada em um travesseiro, ele não conseguia dormir, por mais que tentasse. Ele fixava o teto branco, ocasionalmente olhando para o relógio digital na prateleira em cima da televisão. Quando ele cansou de olhar para o teto, era meia noite. Ele não conseguia dormir, e ele precisava de algo. Qualquer coisa. Havia muitos pensamentos passando por sua mente e ele precisava de algo (ou alguém) para distraí-lo.
Ele saiu do sofá e andou até a cozinha, onde ele pegou o telefone sem fio. Ele se deitou novamente, coberto pelo cobertor, e discou um número familiar, levando o telefone ao ouvido. "Alô?" David atendeu do outro lado.
"Hey," Pierre disse, não muito alto, mas apenas o bastante. "Você tem sua própria linha?"
Demorou um momento para ele responder. Claramente, Pierre o tinha acordado. "Uh, sim. Sim, eu tenho. Ganhei uma há uns dois anos. É nela que você tem me ligado." ele respondeu. "Pierre, por que você está me ligando? São... É meia noite. Você não dorme? Por que eu tenho uma rotina estrita de sono, e eu não quero quebrá-la, por que senão eu vou terminar com bolsas sob os olhos. Você quer um namorado com bolsas sob os olhos? Eu acho que não."
Pierre sorriu. Mesmo quando estava sonolento, David tagarelava. "Eu realmente não me importo, na verdade." Falou. "Desculpe por, uh, ter te acordado. Só queria... Conversar."
Houve outra pausa do outro lado da linha. "É realmente necessário? Quero dizer, está no meio da noite." Pierre deu de ombros, mas não sabia o que falar. Então, David falou. "Ótimo. É sexta-feira, então não tem aula amanhã." Pierre se sentou um pouco. "Como está seu irmão?"
A conversa – para a qual David estava disposto, e participou a maior parte do tempo – durou até as duas horas da manhã.
