Capítulo 10: Look At Me, Look At Me Now, I'm A Fake
Hoje era o dia. O dia que Pierre temia do fundo do coração desde que David falara sobre seus pais. O dia que Pierre nunca tinha vivido em toda sua vida. Talvez fosse por que todos os outros garotos que ele conhecia tinham cortado relações com os pais, não conseguiam encontrá-los, ou não se importavam em visitá-los nas prisões em que foram jogados. E, agora, ele ia 'conhecer os pais'. Ele ia conhecer os pais de David.
Agora, da maneira que David os tinha descrito, eles não pareciam ser terríveis. Ele tinha mencionado, entretanto, que eles eram convencionais e um pouco estritos; sua mãe parecia se adequar a essa descrição do que seu pai. Eles certamente não desejavam que David namorasse garotos que estiveram na cadeia recentemente, mas David tinha lhe assegurado de que eles não iam trazer isso a tona. Por que isso não o confortava totalmente?
Talvez fosse por que ele não tinha absolutamente nenhuma fé de que esse jantar fosse dar certo. Isso era um pouco pessimista, claro. Ele devia ter esperanças em conhecer os pais do seu namorado. Ele realmente se importava com David, mas então ele percebeu que essa era a parte bizarra sobre isso. Ele não queria perder David por não conseguir se dar bem com os pais dele. Ele sabia como David se sentia sobre eles.
"Isso não vai afetar nosso relacionamento de nenhuma maneira." Era como David tinha colocado. Certo, é, claro. Como se ele fosse acreditar nisso. Não ia afetá-los de nenhum modo? É claro que ia. Se Pierre não fosse aceito pela família, essa família iria ganhar uma tensão não desejada, que iria acabar machucando David. Para evitar isso de acontecer, Pierre ia ser o mais comportado.
Ele não achava que ele tinha tal comportamento, mas valia a pena tentar.
Agradecidamente, quando David falara com Pierre durante a semana, ele ressaltou tudo o que deveria ser evitado, e o que Pierre poderia falar. David estava ciente de que Pierre estava muito, muito nervoso sobre esse jantar, então ele se garantiu de ter aquelas conversas de 'confiança' com ele. Por exemplo, ele informou Pierre que sua mãe amava David Bowie, colchas e cozinhar. Seu pai amava pescar no tempo livre, carros italianos caros, e bandas de metal da década de 80.
Se Pierre ficasse nessas áreas, ele ficaria bem. Ele desesperadamente queria evitar silêncios constrangedores usualmente preenchidos pelo som do grilo.
Era quase quatro da tarde da sexta-feira que ele era suposto a jantar com sua família, quando Pierre parou de andar ao redor de seu quarto. Ele tomou um banho de vinte minutos, e então se vestiu nas roupas mais limpas que tinha. Em outras palavras, ele estava usando um jeans escuro, uma blusa de manga comprida branca sob uma malha azul escura. Ele não arrumou o cabelo muito bem, mas ele fez parecer que tinha se esforçado. Ele não queria parecer como quem tinha acabado de sair da cama.
Durante todo o dia – antes de se arrumar, é claro – ele tinha fumado uns sete cigarros, sabendo que ele teria que ir à casa dos Desrosiers. Fora mais do que ele tinha fumado em um dia há algum tempo, então ele não estava indo tão mal em largar.
Parado no banheiro, ele se olhou uma última vez no espelho, se garantindo de que estava perfeito. Eles já sabiam que ele era um ex-condenado. Não tinha que parecer que ele tinha acabado de sair da sala de detenção. E ele estava surpreso consigo mesmo. Ele parecia mais limpo e arrumado do que em toda sua vida. Uau, ele realmente queria se dar bem com os pais de David. Que perdedor patético ele era...
Agora, se ele apenas conseguisse encontrar algo para levar, apenas para ser educado. Talvez eles fossem gostar de uma garrafa de vinho? Pierre tinha cem por cento de certeza de que eles tinham uma em casa. A coleção de álcool era vasta, então não tinha como sua mãe notar, ou sequer se importar. Ele foi até a cabine de bebidas, e pegou a garrafa não tão cara de vinho tinto (a mais cara que sua mãe tinha, desde que ele não se importava que ela não a tivesse).
Às vinte para as cinco, Pierre colocou os tênis e saiu da casa com as chaves do carro, que ele já tinha pedido a sua mãe. Ele batucou ansiosamente os dedos no volante, enquanto dirigia. Ele tentou não pensar sobre isso ou ficar muito obcecado, por que ele acabaria passando mal. Ele queria que isso corresse bem.
Quando ele estacionou na frente as casa, ele pausou por um segundo, antes de sair do carro, andando na direção da porta da frente. A garrafa de vinha na mão, ele parou na varanda, tocando a campainha. Ele mordeu o lábio inferior, enquanto esperava alguém atender. Quando a porta se abriu, era David, agradecidamente. O menino sorriu largamente, forçando Pierre a fazer o mesmo. "Hey, Pierre. Que bom que você está aqui!" ele abraçou Pierre e o beijou.
"Hey." Pierre disse timidamente.
Ele segurou a mão de Pierre. "Entre." Falou, guiando o maior para dentro da casa. Ele fechou a porta atrás de si, e Pierre tirou o tênis. Pierre ofereceu a garrafa de vinho para David. "Obrigado. Você pode ir sentar na sala de estar. Todos estão lá. Exceto Ian e Linda. Eles vão chegar logo." Ele apontou o cômodo no final do corredor, perto do que parecia ser a sala de jantar. Pierre apenas assentiu e andou na direção que David tinha mostrado.
Quando ele apareceu na porta, todos olharam para ele, silêncio caindo no cômodo. É, isso não era embaraçoso. Agradecidamente, não durou, por que o que parecia ser o homem mais velho, sentado em uma poltrona marrom, se levantou. "Olá, você deve ser o Pierre, namorado de David." Falou, esticando a mão. "Eu sou o pai dele. Você pode me chamar de Mike." Pierre assentiu, sorrindo timidamente, enquanto apertava a mão oferecida. "Ah, um aperto firme. Homem de negócios?"
"Não, apenas trabalho com carros." Falou, rindo levemente. "Prazer conhecê-lo... Mike."
Ele indicou um lugar no sofá vermelho, no qual havia uma garota de dezessete anos, cabelos castanhos, levemente a cima do peso, brincando com as pulseiras coloridas que adornavam seu pulso. "Sente-se." O mais velho lhe falou e Pierre obedeceu, sentando-se ao lado da menina.
Ela o olhou quando ele se sentou. "Olá." Ela sorriu, também esticando a mão. "Eu sou a Stephanie, a irmã mais velha de David. Você disse que trabalha com carros?" Pierre assentiu. "Você tem, tipo, sua própria mecânica ou algo assim?"
"Meu irmão tem. Bouvier Body Shop."
De repente, mais alguém se juntou a conversa. O garoto loiro, sentado de lado na poltrona marrom claro do outro lado de Stephanie. "Oh, eu já fui lá!" falou. "Johnny arrumou meu Chrysler algumas vezes. Ele é um cara legal. Bastante tolerante, o que não costuma acontecer com as pessoas que eu encontro quando peço para elas consertarem meu carro algumas vezes."
Stephanie bufou. "Por que você o bate sempre com o Austin!"
O garoto apenas girou os olhos. "Essa não é a questão..." falou, então voltou a olhar para Pierre. "Eu sou o Seth. O gêmeo mais velho e mais inteligente." Ele sorriu afetadamente para Steph, antes de voltar sua atenção para Pierre. "Eu tenho esperado que você viesse honrar nossa humilde moradia. David não parou de falar de você. Quase irritante, na verdade."
"Seja legal!" Stephanie disse, batendo no pé dele.
Foi quando David entrou na sala. Ele se sentou entre Stephanie e Pierre, a mão na coxa de Pierre. Ele e o mais velho conversaram calma e brevemente, antes de outra mulher entrar na sala. Ela era loira, com óculos redondos de aro fino. Pierre engoliu em seco e sentiu seu estômago se revirar algumas vezes. Isso significava apenas uma coisa. "Olá, Pierre." Ela disse gentilmente. "Eu sou a Vanessa. A mãe de David." Ela ofereceu a mão para ele, e ele a apertou, apenas das outras duas vezes.
Pierre forçou um sorriso, embora ele sentiu como se seu rosto estivesse congelado. A mãe de David era a única pessoa que ele sabia que teria problemas. "Prazer conhecê-la." Falou. Ele odiou a aparência dela. Tão conservadora e década de cinqüenta. Gah, isso o deixou nauseado. Era à essas pessoas que ele normalmente respondia e girava os olhos. Infelizmente, ele não podia fazer isso nesse caso, e isso meio que o incomodou.
Ela sorriu, mostrando seus dentes brancos quase perfeitamente alinhados. Os cumprimentos, entretanto, foram interrompidos pela campainha. "Eu vou atender. Provavelmente, são Ian e Linda." Ela falou. Ela andou até a porta da frente e, alguns momentos mais tarde, mais duas pessoas entraram na sala de estar.
O homem eram alto e musculoso, com a cabeça raspada e um piercing de brilho no nariz. A mulher tinha o cabelo negro e longo, e olhos azuis vibrantes. "Hey, pessoas." O homem disse.
David se ergueu em um pulo para abraçar o homem. "Já estava na hora de vocês visitarem!" falou. "Faz muito tempo."
Ele sorriu. "Oi, David. É claro que eu ia vir para casa. Uma chance de ver a nova alma gêmea do meu irmãozinho, não é algo que eu iria perder."
Girando os olhos, David sorriu, puxando Pierre para ficar em pé. "Alma gêmea é um pouco intenso, eu acho." Falou, Pierre ao seu lado agora. "Esse é Pierre, meu namorado. Pierre, esse é o Ian." Ele os apresentou.
"É um prazer conhecê-lo, Pierre." Ian disse, apertando sua mão. "Oh, um aperto firme. Homem de negócios?"
Depois de cumprimentar Linda (que era um pouco mais fora das regras do que Pierre achou que seria permitido nessa casa), Vanessa olhou para a família, as mãos juntas em frente de si. "O jantar está pronto, se vocês quiserem se sentar." Ela disse. Seth se ergueu em um pulo primeiro, passando rapidamente por todos, para a sala de jantar, sentando-se em um lado, próximo à cabeceira.
Vanessa seguiu, Stephanie atrás dela, e Ian seguiu, Linda logo atrás. Mike gesticulou para Pierre e David irem na frente dele. Ian se sentou perto de Seth, Linda ao seu lado. Pierre se sentou na frente de Seth, David à sua direita, Stephanie no seu outro lado. Ele estava agradecido por não ter que se sentar próximo à Vanessa. Seria muito mais difícil comer desse modo. David estava certo, Mike era muito mais tranqüilo, então Pierre não tinha problema, realmente, por se sentar perto dele.
Todos os copos tinham um pouco do vinho que Pierre trouxera. Bem, exceto o de David. "Hey!" David reclamou. "Eu não ganho vinho?"
"Você é menor de idade, querido. Não seria certo." Sua mãe disse.
David girou os olhos. "Qual é, faltam só nove meses pra eu ser maior." Falou. "E não é como se eu fosse ficar bêbado e fazer a versão caseira de Risky Business de cueca... de novo." Pierre abafou uma risada. Eventualmente, Vanessa desistiu e deu um copo para David também.
Uma vez que todos tinham comida em seus pratos, eles começaram a comer. Houve silêncio por apenas um momento, antes de alguém começar uma conversa. "Então, Pierre, como você e Davey se conheceram?" Seth perguntando, claramente usando um nome que David não gostava, por que o menor lançou um breve olhar ao irmão.
Mas Pierre notou outra razão pela qual ele olhara para aquela direção em particular. A pergunta era o jeito mais embaraçoso de começar uma conversa à mesa de jantar. "Uh..." Pierre começou, se perguntando como ele poderia colocar, ou se deveria mentir. Ele não achava que David iria gostar disso, entretanto, desde que seria um pouco insensível. "Nós nos conhecemos... Nós nos conhecemos na d-de... ten... cão." A palavra ficara tão quebrada que ninguém conseguiu entender.
A família pareceu confusa. "Como?" Stephanie perguntou.
Pierre pigarreou, mas não teve a chance de responder. "Na detenção." David respondeu, em um volume normal. "Quando o Senhor Ritman me deu detenção no começo do ano. Pierre estava lá, e nós começamos a conversar. Uma coisa levou a outra, sabe..." Pierre apenas assentiu, confirmando o que David tinha dito, embora ele soubesse que não era algo bom.
Detenção = menos 100 pontos.
O resto da família também assentiu, sem saber como responder. "Então, Pierre," Mike começou, quebrando a tensão. "David me disse que você começou na MDSH esse ano, e que você costumava freqüentar a Beaubois. O que te fez pedir transferência? Se você ver o sistema como eu vejo, eu entendo completamente. A educação do Beaubois não é tão boa quanto a da pequena e convidativa MDHS."
"Oh, sim, a educação é muito melhor na MDSH. Classes melhores, o que é sempre uma boa coisa." Pierre disse, agradecido que ele tivesse isso para falar. "Eu... Decidi pedir transferência. Bem, eu não decidi sozinho realmente." Sob a mesa, o pé de David chutou levemente o seu, e ele soube que o menor queria que ele apenas falasse ao invés de balbuciar e ficar parecendo um completo idiota. Por que, você sabe, isso já não tinha acontecido. "Eu fui expulso. Eu fui... Expulso do Colégio Beaubois."
Expulsão = menos 200 pontos.
Outro silêncio embaraçoso.
"Por quê?" Seth perguntou, e David o olhou feio. Seth deu de ombros, inocentemente.
Antes que Pierre pudesse responder, David soltou seu garfo, esticando as costas. "Certo, vamos só pôr isso para fora, para que possamos comer em paz." David começou. "Pierre foi expulso da Beaubois, por que ele foi condenado a um ano de prisão." O coração de Pierre foi para o fundo de seu estômago e ele olhou para seu prato. "Nós todos sabemos que esse é um assunto que está passando pela cabeça de todos. Agora que já foi esclarecido, vamos apenas continuar a comer sem trazer isso a tona.'
Cadeia = desista, seu perdedor, você nunca vai se dar bem com os pais de David.
Ian assentiu e soltou seu garfo também. "Tudo bem." Falou, pegando seu copo de vinho e o erguendo. "Para Pierre e David. Nós todos estamos felizes que o nosso bebê encontrou alguém com quem se importa." David sorriu timidamente e seus ombros relaxaram.
A tensão passou e todos ergueram seus copos, também, concordando com Ian, enquanto o cômodo se enchia com o som dos copos. Pierre sorriu, aliviado que eles todos aceitaram isso tão bem. Mas quando ele tomou um gole de seu vinho, seus olhos foram até Vanessa, que não parecia tão sorridente quanto todos os outros. Ela estava olhando Pierre, mesmo que tenha tentado esconder ao desviar os olhos imediatamente. Que inferno era o problema dela?
Que seja. Apesar da maneira que Pierre sabia que Vanessa se sentia em relação a si, ele foi capaz de agüentar o resto do jantar sem muitos problemas. Não houve mais silêncios embaraçosos, e ele não ouviu nenhum grilo, o que era um sinal excelente. Talvez não estivesse indo tão mal quanto ele achou que ia.
Depois do jantar, enquanto Vanessa, Linda e David estavam ocupados limpando a mesa (Pierre foi dispensando de ajudar, mesmo que tenha oferecido), Seth, Stephanie e Pierre se sentaram no sofá, Seth de um lado de Pierre e Steph do outro. Ian também estava na sala, na poltrona marrom, e Mike estava na mesma poltrona que Pierre o tinha visto antes.
"Ele certamente está feliz que você está aqui." Stephanie continuou a conversa que eles estavam tendo, apenas os três. "Nós todos estamos. David não tem um amigo na casa há muito tempo. Ele não tem um amigo há muito tempo."
Pierre olhou brevemente para David, que estava tirando os pratos da mesa. "Eu não entendo por que." Falou, voltando a olhar para os gêmeos. "Quero dizer, bem, ele é um cara tão... Amigável. É difícil de acreditar que ele teria problemas, você sabe, fazendo amigos."
"Ele nem sempre foi assim." Seth disse. "Mudou um ano depois..."
Stephanie o interrompeu ao bater em sue braço e sibilar. "Nem sequer comece com isso! Se David te ouve falando sobre ele, nós dois vamos morrer..."
"Falando sobre quem?"
Stephanie ia se opor, mas Seth colocou uma mão sobre a boca dela, então suas palavras saíram abafadas e incoerentes. "O nome dele era Daniel Fienes," ele começou, baixo o bastante para que apenas Pierre e Stephanie pudessem ouvir, e abaixou a mão antes que sua irmã pudesse mordê-la. "Ele era o melhor amigo de David. Eles se olharam quando tinham sete anos, e eles eram realmente próximos. Ele foi o motivo de David se assumir, aparentemente. Ele era gay, também. Isso era... Tudo o que sabíamos dele. Ele e David raramente passavam o tempo com a gente. Só um com o outro."
Perto dele, Stephanie estava observando David, se garantindo de que ele não se aproximasse e ouvisse o que eles estavam falando. Ela claramente desaprovava essa conversa. "De todo modo," Seth continuou. "Quando eles tinham catorze anos, ambos decidiram que seria uma idéia brilhante ficar doidões e brincar na ponte perto do rio. Nós não sabíamos que eles usavam drogas. Mas, é claro, Daniel caiu na água – o que foi uma queda bem alta e era abril; primavera. Levaram ele rapidamente para o hospital, mas ele só sobreviveu por mais oito horas."
Steph se juntou a conversa, o volume baixo, também. "Nós perguntamos ao David se ele e Daniel tinham usado drogas outras vezes, mas ele não respondeu. Absolutamente. Falar com ele pelo ano seguinte era como falar com uma parede. Sem respostas. Nós sequer sabemos se a droga era de David ou de Daniel." Então ela voltou a observar o redor.
"Daniel tinha escrito bilhetes suicidas. Então, todos acharam que a ponte era uma tentativa de suicídio. Mas, aí, David disse para todos que os dois estavam doidões e brincando na ponte, e Daniel caiu por acidente. Foi a última vez que ele falou de Daniel."Seth explicou. "De todo modo, um bilhete era para os pais, a outra para David. Ele não nos deixa sequer olhar para o envelope."
Stephanie se juntou novamente a conversa. "E se você sequer falar o nome dele na frente de David, as chances de você escapar sem um olho roxo são bem remotas. Seth mencionou o nome dele uns seis meses depois, e ficou com o olho roxo por uma semana." Foi tudo o que ela disse, antes de se levantar e se afastar.
Pierre pareceu confuso, enquanto olhava de volta para Seth. "Mas... Eu não entendo. David é tão..."
"Animado? Hiperativo? Surpreendentemente otimista sobre tudo?" Seth terminou sua frase. Pierre assentiu. "Eu sei. É estranho. Foi mais ou menos em Maio, um ano depois, quando a personalidade dele mudou. Ele acordou com um sorriso, cumprimentou todo mundo, mostrou interesse na escola de novo. Ninguém sabe que diabos aconteceu, e, como Steph disse, ninguém pode falar sobre ele. As chances de conseguir uma resposta são uma em um bilhão. Eu não se você conseguiria, desde que você é o namorado dele, mas nós não conseguimos."
Agradecidamente, assim que as silabas deixaram sua boca e ele parou de falar, David entrou na sala. "Hey," ele disse no seu tom normalmente animado. Graças a Deus, ele não tinha ouvido a conversa. "Do que vocês estão falando?" Pierre não sabia como responder, não querendo deixar óbvio que estavam falando dele.
Seth respondeu por Pierre. "Coisas de homens." Falou, se levantando.
"Eu sou um cara, também. Não posso participar?" David perguntou, se sentando no lugar de Seth.
"Você não é homem o bastante." Seth provocou, então saiu da sala.
Uma vez que ele saiu da sala, David olhou para Pierre, um braço se passando ao redor do pescoço dele. Sua testa descansou contra a dele, os narizes se tocando. "Eu estou tão feliz que você tenha vindo. Eu estava quase esperando que você me desse o bolo, mas eu deveria saber melhor, certo?" disse suavemente, ignorando o fato de que Ian e Mike estavam no cômodo, também. Pierre sorriu. "Hey, nós ainda temos um tempo antes da sobremesa. Talvez pudéssemos ir lá em cima e lhe oferecer um tour exclusivo, privado e único." Pierre deu de ombros. "Vamos, vamos lá para cima."
Ele se levantou e puxou Pierre, segurando sua mão, enquanto o guiava para o andar de cima, que estava coberto por um carpete rosa claro. Eles pararam no topo da escada, que levava para o meio do corredor. Ele começou virando à direita. Ele manteve sua mão na de Pierre, enquanto apontava para cada quarto, parando brevemente na frente de cada um deles. "Nós moramos nessa casa desde sempre. Eu não me lembro de viver em outra, a não ser que eu fosse muito novo." David explicou.
Do lado direito estava o escritório do pai dele, depois o quarto de seus pais. Enquanto eles voltavam pelo corredor, do lado oposto estava o quarto de Ian (que, agora, era o de hospedes), o banheiro, então o quarto de Stephanie bem de frente para a escada. Mais para frente, do mesmo lado, tinha um armário (que David disse, brincando, que era o quarto de Seth), depois o verdadeiro quarto de Seth. Do outro lado do corredor estava, finalmente, o quarto de David.
Eles entraram no quarto e David fechou a porta. As paredes eram de um bege escuro, não muito diferente das poltronas da sala de estar. "Finalmente, o cômodo mais importante da casa." David disse enquanto se jogava na cama verde escura, cruzando as pernas e olhando para Pierre. Ele bateu no colchão ao seu lado. "Sente-se." Pierre obedeceu e se sentou no lugar indicado. "Então, a coisa boa sobre essa distribuição de quartos, é que meus pais não conseguem ouvir todas as coisas que são ditas e feitas no meu quarto. Eu gosto da minha privacidade."
Pierre assentiu. "Seus pais são legais..." falou, sabendo que a pergunta estava na mente do menor, em algum lugar.
David sorriu. "Eu amo quando você faz isso." Falou.
Confuso, Pierre perguntou: "Faço o quê?"
O mais novo olhou nos seus olhos. "Fica todo sem graça e desajeitado, sem saber o que falar. É... Fofo." Falou. Oh, Deus. Pierre desviou os olhos, tentando evitar de corar. "Hey, eu quero que você conheça alguém. Eu não sei se você vai surtar. Ele assusta a maioria das pessoas. Mas você é durão, né?" Pierre deu de ombros, enquanto David se levantava e andava até seu armário, que tinha uma gaiola grande em cima. Pierre se perguntou como ele não tinha percebido antes.
Quando ele voltou, David estava segurando um rato. Um rato marrom. Os olhos de Pierre se arregalaram levemente, mas voltaram ao normal. Ele não tinha medo de ratos. "Esse" David começou, erguendo-o para que Pierre pudesse vê-lo melhor. "É o Spinter."
Pierre riu. "Como o sensei das Tartarugas Ninjas, certo?" perguntou.
David assentiu. "Pode apostar." Respondeu. "Dei esse nome por que eles são parecidos. Você não acha? Foi o que Seth disse quando eu o trouxe pra casa, há dois anos." O rabo se enroscou no braço de David, e Pierre não conseguia afastar seus olhos do animal. "Quer segurá-lo? Ele não morde. A não ser que você realmente o provoque, ou ele apenas não goste de você, o que eu duvido, porque ele nunca desgosta de alguém que eu gosto. E você já sabe que eu gosto de você."
Sorrindo suavemente, Pierre pegou o rato das mãos de David, segurando-o perto de seu peito. O animal se esfregou contra sua camiseta e sua mão, o rabo se enroscando ao redor do seu braço como tinha feito com David. "Ele é maravilhoso, cara. Eu queria ter um animal assim." Falou.
"Bem, eu sempre tive animais diferentes. Quando eu tinha seis anos, eu tive uma tartaruga chamada Homer. Quando eu tinha nove anos, eu tinha uma tarântula chamada Harry. E eu tive esse sapo que eu achei no lago uma vez, mas eu sei se posso considerá-lo um animal de estimação, por que eu nunca dei um nome para ele, e minha mãe me forçou a soltá-lo depois de três semanas." Ele pausou. "E agora eu tenho o Splinter. Eu espero ter algum tipo de lagarto depois dele. Talvez um camaleão. Seria maneiro!"
Uma risada fraca escapou da boca de Pierre, mas antes que ele pudesse falar algo, eles ouviram um chamado vindo do andar de baixo. "Meninos! A sobremesa está pronta!" Vanessa anunciou aos dois.
Os dois se levantaram e Pierre colocou Splinter na sua gaiola, e David fechou a pequena porta. "Você tem comer a sobremesa. Minha mãe faz o melhor parfait de morango com banana.¹" David falou animadamente enquanto eles saiam do quarto.
Pierre assentiu. Ele parou no começo da escada, entretanto. "Hey, eu preciso usar o banheiro." Falou.
"Certo." David respondeu. "Eu vou estar lá embaixo."
Assentindo novamente, eles se separaram, David descendo e Pierre andando na direção do banheiro. Mas ele parou do lado de fora da porta. Ele prestou atenção em David, para se garantir de que ele tinha terminado de descer as escadas. Ele olhou por sobre os ombros, se garantindo de que ninguém estava no andar de cima, antes de se mover para longe do banheiro para o quarto dos pais no final do corredor. Muito, muito discretamente, ele entrou no quarto, tomando o cuidado de não tocar em nada ou tirar as coisas do lugar, no caso de os pais dele serem do tipo que notam coisas do tipo, o que Pierre assumiu que eles eram.
Ele parou no meio do quarto, olhando ao redor. Durante o tour que David tinha feito, um pensamento passou por sua cabeça. David e sua família eram ricos, ainda que não fossem insanamente ricos, eles ainda tinham muito mais do que Pierre iria ter em toda sua vida, ele presumiu. Certamente não seria uma grande coisa se ele pegasse cento e oitenta dólares emprestados. Mesmo que 'emprestado' significasse 'pegar e me convencer de que pedi'. Que seja. Ele precisava mais do dinheiro do que eles.
Agora, onde uma família como essa manteria o dinheiro? Ele se lembrava de David ter mencionado que seus pais estavam guardando dinheiro para ir para Miami nas férias de primavera. Isso fora há três, quatro meses. Eles conseguiriam repor o dinheiro, é claro. Não era como se fosse impossível para qualquer um deles conseguir um emprego, como era para Pierre. Bem, David disse que era impossível para ele, mas Pierre assumiu que era pode causa de sua [surpreendente] história de drogas e melhores amigos mortos.
Sua mãe guardava o dinheiro na gaveta, então ele decidiu checar lá primeiro. Ele abriu a primeira gaveta, muito cuidadosamente, como que para não fazer nenhum barulho que pudesse ser ouvido pelos donos da casa, no andar de baixo. Quando ele abriu, ele notou que era a gaveta de roupas intimas. Ew, ele não precisava ver as calcinhas de Vanessa! Ele se arrepiou, enquanto pegava o pente de cima da penteadeira para mexer na gaveta, apenas para ter certeza. Não.
Ele colocou o pente de volta cuidadosamente, na mesma posição onde estava melhor. Ele era ótimo disso. Muito ótimo, provavelmente.
Em seguida, ele concluiu que ele checaria a... Caixa de jóias em cima da penteadeira. Maldição! E ele fuçou nas calcinhas da Senhora Desrosiers quando poderia, facilmente, ter assumido que o dinheiro estaria na caixa de jóias de madeira com detalhes floridos? Ele bateu na própria testa por ter deixado isso passar. Talvez ele não fosse tão bom assim nisso. Ele abriu a pequena caixa. Bingo! Um rolo de dinheiro estava lá, junto com alguns colares de ouro e prata, braceletes e anéis.
A maioria dos outros criminosos teria levado a caixa toda e vendido tudo para comprar drogas e merdas do tipo, mas Pierre não era mais um criminoso. Ele era um homem desesperado tentando salvar seu namorado de ter os dentes arrancados.
Ele pegou o rolo de dinheiro, se garantindo de que mais nada saísse do lugar, e pegou quatro notas de cinqüenta dólares. Então, e daí se ele estava pegando vinte dólares a mais do que ele realmente precisava? Ele estava tentando ser rápido e discreto. Ele não queria que ninguém viesse procurar por ele, afinal. Apenas mulheres demoravam tanto no banheiro.
Uma vez que ele tinha o dinheiro, ele colocou a caixa de volta onde estava. Depois ele saiu rapidamente do quarto, o dinheiro no bolso, e desceu as escadas para encontrar a família. O sorriso em seu rosto mostrava uma sensação diferente da que ele sentia dentro de si. Desde quando ele aprendeu a se sentir culpado? Essa palavra sequer existia em seu vocabulário antes.
Quando ele entrou na cozinha, David já tinha feito seu prato. Dessa vez, quando eles se sentaram à mesa, entretanto, Pierre sorriu e riu mais. Ele não queria parar suspeito. Seria muito óbvio se ele ficasse quieto o tempo todo. Isso faria parecer que ele tinha algo a esconder. Ainda que ele tivesse algo a esconder, ele não queria que eles soubessem. David provavelmente seria o único capaz de perceber que ele estava escondendo algo, e isso era ainda pior.
Uma hora depois, Pierre decidiu que era hora de ir para casa. Ele se despediu de todos os membros da família, e David o acompanhou até a porta. Ele colocou os tênis e saiu para a varanda. David o seguiu, apenas de meia, e Pierre se perguntou se estava frio, mas não havia neve, de todo modo. Ele apertou seu agasalho contra seu corpo, enquanto eles viravam para encarar o outro.
"Eu não sei por que você sempre fala que as pessoas e autoridades não gostam de você. Você se deu bem com meus pais. E com meus irmãos." David falou.
Pierre deu de ombros. "Foi a primeira vez." Ele falou. "Normalmente, eu nunca teria um jantar desse. Eu não consigo lembrar a última vez que eu tive um jantar em família, onde todos tenham sorrido e amaldiçoado como marinheiros." David franziu o cenho, parecendo compreensível. Então, Pierre mudou de assunto. "Seth é um maluco, não é?" riu.
David também riu. "Ele é. Eu tenho que puxar de alguém." Falou. Ele passou os braços ao redor do torso de Pierre, o corpo próximo ao dele. "Obrigado por ter vindo hoje." Falou suavemente e o beijou nos lábios. "Isso realmente significa muito pra mim. Eu sei que eu disse isso antes, mas agora que a pressão acabou, por que o pior já passou, certo?" Pierre deu um meio sorriso, enquanto passava os braços ao redor dos ombros de David. O mais novo o beijou novamente, mais demoradamente dessa vez.
Quando o beijo terminou, David não permitiu muito espaço entre seus rosto, dando-lhe um beijo esquimó afetuoso. Seus lábios se encontraram mais uma vez, antes de Pierre se afastar. "Eu te vejo na segunda-feira. Ou qualquer dia que você decidir me tirar de casa." Falou, sorrindo um pouco.
"Bem, eu nunca fui do tipo que fica em casa." David falou. "Te vejo logo." eles sorriram um para o outro e Pierre desceu os primeiros degraus, caminhando até seu carro. Enquanto ele saia da entrada de carros, David acenou para ele da varanda. Uma vez que ele sumiu do campo de visão, David entrou.
Por todo o caminho, uma vez ficou ecoando em sua cabeça. Falava: Você não vai escapar dessa! Você não vai escapar dessa!, repetindo esse mantra de novo e de novo. Ele teve que ligar o rádio bem alto apenas para abafar essa voz, mesmo que não completamente. Mas, assim que ele parou o carro em sua garagem e desligou o motor, a voz estava repetindo essas cinco palavras.
Você não vai escapar dessa! Você não vai escapar dessa!
¹ No original, "strawberry-banana parfait"; não sei o nome de algum doce que corresponda em português, mas parfait, em geral, pode ser uma sobremesa gelada, preparada com creme, ovos e calda ou um sorvete com frutas picadas e calda.
