Capítulo 14: When We Both Get Carried Away

Como esperado, a única coisa que acordou Pierre na manhã seguinte, foi a maldosa luz do sol, esgueirando-se por entre as cortinas escuras da janela. Era o horário de inverno, entretanto, então o sol apareceu um pouco mais tarde que o comum, pelo que Pierre era grato. Quando o sol o acordou naquele dia, era quase nove horas.

Embora ele desejasse que fosse bem mais tarde; ele odiava manhãs.

Mas havia uma coisa para fazê-lo perdoar o sol por acordá-lo. Quando ele olhou ao redor do quarto, algo chamou sua atenção. Bem, alguém. Em seus braços, seu namorado ainda estava deitado, os olhos fechados, a cabeça descansando no braço esticado de Pierre. Era um pouco doloroso, mas isso escapou de sua mente quando David fez um barulho parecido com um suspiro, então uma risadinha; ele ainda estava dormindo.

Nunca Pierre tinha sentido a necessidade de observar alguém dormir antes. Eles estavam dormindo – qual o grande mistério? Ele fazia isso também. Mas havia algo sobre como David tinha sua bochecha pressionada contra o braço de Pierre, sua boca entreaberta, a mão repousada em seu peito nu, inquestionavelmente sentindo o bater de seu coração, e sua perna sobre as suas, que manteve os olhos de Pierre no garoto o tempo todo, sem sequer para olhar, quando ele ouviu crianças do lado de fora da janela, brincando de alguma coisa. Provavelmente apenas os filhos do vizinho.

Ele não estava sorrindo, e ele não fez movimento nenhum para tocá-lo. Tudo o que ele fez foi observá-lo, absorvendo cada movimento adormecido, como se o estivesse estudando para algum projeto de ciências sobre os hábitos do sono de um garoto adolescente.

Para Pierre, dormir já não era mais um problema. Ele estava preso a muitos pensamentos. Não era comum ele acordar com um garoto ao seu lado, aconchegado a si, e quase completamente vestido. Ele e David não tinham transado na noite anterior, e nem tinham se embebedado e desmaiado perto um do outro em sua cama, sem qualquer idéia do que tinha acontecido. Eles apenas estavam... Juntos. Namorado e namorado. Acordando na manhã depois de uma noite de natal agradável.

No que ele estava se metendo? Os pensamentos o assustaram e o abalaram profundamente.

Antes que pudesse ser pego (desde que isso seria um pouco embaraçoso e estranho), Pierre olhou para o teto, sabendo que David acordaria logo. Sua expressão facial não tinha mudado; ele ainda não sorriu. Sua mente ainda estava vagando por todos esses pensamentos e medos e previsões e... Coisas com que ele não deveria estar se preocupando no momento. O garoto já estava em sua cama. Não era como se ele fosse, de repente, afastá-lo.

Quase vinte minutos depois – e Pierre estava pronto para se perder em pensamentos – quando David finalmente fez barulhos que sinalizavam que ele estava quase consciente. Ele coçou o nariz, removeu suas pernas das de Pierre, murmurou algumas coisas incoerentes e sem sentido, e finalmente abriu os olhos, lentamente. Pierre olhou para ele, observando suas pálpebras tremularem e sua mente registrou o fato de que ele não estava em seu próprio quarto.

Quando ele notou Pierre deitado ao seu lado, seus olhos abriram completamente, e ele sorriu, erguendo um pouco a cabeça e esticando o braço que estava no peito de Pierre. "Hey." Ele falou calmamente, bocejando, enquanto se erguia no cotovelo e olhou para os olhos de Pierre.

Finalmente, o braço meio adormecido de Pierre estava livre, então ele conseguia movê-lo. Ele usou essa mão para afastar uma mecha de cabelo dos olhos de David, um pequeno sorriso em seus lábios. "Hey." Conseguiu responder. Entre todos os pensamentos e sentimentos o sufocando, era difícil formular até esmo um simples cumprimento matinal.

Eles se sentaram em silêncio por alguns minutos, olhando para o outro, então fechando os olhos brevemente, apenas para abri-los novamente, e encontrá-los. David sorriu cansada e suavemente; o sorriso de Pierre aparecia e sumia.

Então, David se sentou, se esticando para pegar seus óculos na cabeceira de Pierre. Uma vez que já o estava usando, ele se levantou. "Banheiro?" perguntou, passando uma mão pelo cabelo.

Pierre apontou na direção da porta. "Do outro lado do corredor." Respondeu. Com um aceno de cabeça, David murmurou algo sobre 'já voltar' e saiu do quarto. Uma vez que a porta estava fechada, Pierre relaxou no colchão, esfregando os olhos e correndo os dedos pelo rosto, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Seus olhos se fecharam, e ele respirou fundo, tentando apagar a imagem dele e de David, usando ternos, parados lado a lado no altar de uma igreja, trocando votos.

Balançando a cabeça vigorosamente, ele tentou se convencer de que isso nunca aconteceria. O casamento gay sequer era permitido no Canadá? Oh, é, era, mas ainda assim! Nunca ia acontecer! Se acontecesse, seria em uma estranha noite, na qual ambos estariam bêbados e decidiriam que seria uma boa idéia, apenas para anular o casamento em menos de quarenta e oito horas. E havia tal raridade disso acontecer, que até fadas e bruxos ririam loucamente perante a idéia.

Não muito depois, David entrou no quarto novamente, o cabelo e a maquiagem completamente intactos, o que Pierre assumiu que demoraria mais do que dez minutos para acontecer, embora fosse esse o tempo que ele demorou. Pierre abriu os olhos e David sorriu para ele, a porta se fechando, enquanto Davis atravessava o chão coberto de roupas até o lado da cama, onde ele estava deitado antes.

"Eu estava pensando no que poderíamos fazer hoje, desde que eu não estou com vontade de voltar para casa." Começou, cruzando as pernas sob si e olhando para Pierre. "Não cheguei a uma conclusão."

Com um resmungo suave, Pierre se sentou. "Uh, eu não sei." Falou. "Eu estava pensando em dormir, mas não estou cansado." Ele olhou acusatoriamente para David, mas o garoto apenas sorriu da maneira mais inocente. Pierre sorriu, sabendo que ele não estava falando sério, de todo modo. "Uh... Nós poderíamos... Sair? Normalmente, o dia depois do natal é morto em se tratando das ruas, mas as lojas e os shoppings devem estar em promoção. Tem dinheiro?"

O rosto do mais novo se iluminou. "Eu não tinha pensado nisso!" falou animadamente. Pierre sorriu perante isso. "Felizmente, eu não estava planejando voltar para casa noite passada, então eu trouxe o dinheiro que ganhei de natal. Que é uns duzentos dólares. Eu definitivamente não estava planejando voltar para casa hoje também, por que..." suas palavras morreram e ele desviou o olhar. Isso deixou o menino mais velho curioso.

Ele cerrou as sobrancelhas para David. "Por que...?"

David balançou a cabeça. "Não é nada. Nada, de verdade." Falou, e voltou a olhar para Pierre, embora não parecesse estar prestando atenção. "Só a minha mãe. Nós tivemos essa... Briga. Mas foi realmente estúpida e não teve nada a ver com você. Mas é o por que de eu ter vindo noite passada." Ele limpou a garganta e sorriu. "Mas, é claro, eu só estou aqui para ver você."

Pierre assentiu e deu um meio sorriso, embora ainda estivesse curioso sobre o que ele e sua mãe tinham brigado. David disse que não era sobre Pierre, mas ele realmente duvidava disso. Por que não seria sobre ele? "Eu, uh, tenho algumas roupas – menor – que você pode usar se você, uh, quiser se trocar." Pierre deu de ombros.

"Não, na verdade, eu tenho a solução." Falou e se levantou. "Eu trouxe minha própria mochila de roupa. Eu a deixei na sala de estar, então eu vou buscá-la." Pierre assentiu novamente, enquanto ele saia do quarto. Ele ainda estava bastante curioso, mas não conseguia juntar coragem o bastante para perguntar a David qual era o problema com sua mãe.

Talvez ele teria que apenas esperar e ver.

[...]

David chutou a neve com seu pé, enquanto eles andavam através do estacionamento lotado do shopping de Montreal. Pierre teve que dar alguns passos para o lado algumas vezes para não ficar no caminho. Eles tinham partido depois de apenas meia hora, por que David estava ansioso para comer. Ele mal tinha colocado sua calça quando David o arrastou pela porta, choramingando que estava faminto!

"Não é grande coisa, de verdade. Minha mãe e eu nunca nos demos bem. Eu lembro dessa vez que ela não me deixou brincar com o kit de maquiagem da minha irmã, por que ela estava com medo de que isso fosse me transformar em um gay. O que não adiantou, por que eu sou gay do mesmo jeito. Ela é muito tradicional." Suas mãos escorregaram para dentro dos bolsos do seu agasalho e ele deu de ombros.

Ah, aí estava: o cenho franzido de David. Como isso incomodava Pierre. Ele gostava do sorriso de David, e queria vê-lo tanto quanto possível. "Hey" Pierre falou, cutucando David no braço. Isso atraiu a atenção do mais novo para si, o franzir ainda aparente em seu rosto. Quando ele olhou, Pierre mostrou a língua para ele.

Ele sorriu e balançou a cabeça, divertidamente empurrando Pierre com o outro. "Você é um idiota." Falou.

"Olha quem está falando." Pierre provocou, enquanto eles finalmente alcançaram a entrada principal do shopping. Pierre abriu a porta para David, para que ele pudesse entrar primeiro. Ele fez o mesmo com todas as outras portas, e o ar aquecido de dentro acertou seus rostos como uma parede. David tirou o gorro, não vendo um motivo para continuar a usá-lo dentro do shopping aquecido. Ele esticou e arrumou seu cabelo com a mão, antes de que eles pudessem ir a qualquer lugar.

Pierre tirou seu capuz e observou David brigando para as mechas de cabelo ficarem no lugar certo sobre sua testa. O fez sorrir o quanto David se preocupava com sua aparência. Em sua opinião, isso era malditamente fofo. Ele agia como uma garota, às vezes. Pierre estava prestes a interrompê-lo, mas achou que seria melhor deixá-lo. David tinha esses momentos de diva, e o maior aprendeu a deixar essa qualidade aflorar.

Quando ele terminou, David olhou para Pierre e notou seu sorriso. "O quê?" perguntou, inclinando um pouco sua cabeça para o lado. Pierre apenas balançou a cabeça e olhou para baixo. Então, se esticou para depositar um suave beijo em seus lábios. "Você é maravilhoso, sabia?" Pierre apenas deu de ombros, sem querer responder. David sempre pensava que ele era modesto, mas Pierre sabia que isso era sua falta de confiança. Ele estava no processo de aumentar sua confiança, mas o primeiro passo era sempre o mais difícil.

Sorrindo timidamente, Pierre desviou os olhos, esperando que David não conseguisse sentir a emoção que Pierre estava envergonhado de mostrar nesse momento. Ele o enterrou, antes de voltar a olhar para o menor. "Então" David começou. "Você quer comer primeiro, ou vamos direto gastar dinheiro?" Pierre sabia que o dinheiro devia estar queimando dolorosamente no bolso do garoto. Deu de ombros. "Você falou comigo a noite toda. Qual é a desse silêncio repentino?"

"Desculpe." Pierre falou. "Nós ainda não comemos, mas, de verdade, você que decide. É sempre você que está com fome." David fez bico, como se o comentário de Pierre o tivesse magoado. "Vamos, rainha do drama, vamos comer." David sorriu largamente e o beijou nos lábios, um pouco mais longamente do que Pierre tinha esperado. Então, ele segurou a mão de Pierre, entrelaçando seus dedos e os guiando para longe da entrada.

David apertou a mão de Pierre. "Tim Horton?" perguntou, enquanto andavam na direção central do shopping, onde a praça de alimentação ficava. "Eu não vou conseguir fazer compras sem um café com três camadas de chocolate e um croissant amanteigado." Pierre riu levemente. Como se ele precisava de três camadas de chocolate.

Eles pararam na fila, que não estava muito longa. "Hey, David." Pierre falou, e David olhou para ele. "Você pode achar um lugar pra gente. Eu compro as coisas."

"Mesmo?" perguntou. Pierre assentiu, então David se afastou. Ele atravessou a multidão e achou uma mesa vazia para dois. Enquanto ele fazia isso, Pierre finalmente chegou na frente da fila. Ele pediu dois cafés grandes com três camadas de chocolate, e um croissant amanteigado. Ele não queria nada; ele não estava com muita fome. Mas ele não sabia realmente se a sensação em seu estômago era um mal estar, fome ou as contrações que ele experimentava sempre que estava perto de David.

Uma vez que comprou as coisas, tudo em copos e sacos de viagem, ele andou até onde ele tinha visto David se sentar. David estava cutucando suas unhas pintadas de preto, cantarolando algum tipo de tom que Pierre reconheceu. Ele olhou estranhamente para David. "Justin Timberlake?" Pierre perguntou sobre a música que ele estava cantarolando.

David notou sua presença, enquanto Pierre se sentava de frente para ele, e sorria inocentemente. "Foi a última música que eu ouvi antes de sair de casa. Agora está presa na minha cabeça." Explicou. Pierre ofereceu o café e o croissant dele. "Minha mãe gosta de tocar músicas novas, por que ela não quer estar 'por fora' quando se trata do que nós estamos escutando. Ridículo, eu sei, mas ao menos ela não canta. Isso seria horrível."

Isso lembrou Pierre de algo. Ele engoliu sua mordida e tomou um gole de seu café, antes de perguntar. "Falando da sua mãe, você não acha que você deveria... Você sabe... Ligar pra ela? Faz uma noite toda e tal. Ela não vai estar, uh, preocupada?" David abaixou a cabeça, mas não falou nada. "Qual é, David, eu nem gosto d..." suas palavras morreram quando ele percebeu o que estava falando. "Eu sei que ela está, uh, preocupada."

David coçou o nariz e voltou a olhar para ele. "Eu sei o que ela vai falar. Vai ser só um longo sermão sobre quão má influência você é. Que diabos ela sabe? Ela está de fora." Falou, as sobrancelhas cerradas como se estivesse fazendo um discurso. Então sua expressão suavizou e ele suspirou. "Mas suponho que você está certo. Eu realmente não tenho que falar muito com ela. Apenas deixá-la saber que eu, provavelmente, vou ficar com você essa noite. De novo. Se isso não te incomodar."

Pierre encolheu os ombros em resposta.

Com um sorriso fofo e matreiro, David deixou sua bebida sobre a mesa e se levantou. "Vamos até o orelhão, então." Falou. Ele colocou seu copo vazio, a embalagem de papel vazia, guardanapo sujo e o lixo de Pierre na badeja de plástico e a carregou até o lixo.

De mãos dadas, os dois andaram até a entrada do shopping, onde os orelhões estavam. David soltou, entretanto, quando eles chegaram aos telefones. "Certo, o primeiro a achar uma moeda, vai usar." Falou, vasculhando seus bolsos. Pierre sorriu e procurou no próprio bolso, encontrando uma moeda logo de cara.

"Aqui está." Falou, oferecendo a moeda para David. Ele o agradeceu, então tirou o telefone do gancho. Levando-o até a orelha, colocou a moeda em seu lugar, discando os números do telefone de casa.

Pierre se inclinou contra a lateral do telefone, as mãos no bolso, enquanto ouvia parcialmente a conversa. Ele não queria deixar claro que estava entreouvindo. Outras coisas chamavam sua atenção e o distraiam, então ele ouviu apenas um pouco do que David disse. Pelo que ele tinha escutado até agora, entretanto, não parecia bom. Ele começou a se sentir mal por ser o motivo dessas brigas entre David e sua mãe.

David colocou a mão no quadril. "Não, você não pode. Você não pode me falar o que fazer. Eu vou ter dezoito anos em oito meses, o que significa que eu sou praticamente um adulto, então acredito que eu posso tomar minhas próprias decisões. Especialmente sobre meu namorado. Você não vai me convencer do contrário..." isso chamou a atenção de Pierre e ele olhou. "Bem, eu sei, de fato, e até você aprender a... O quê?... Eu não me importo com o que você tem a dizer. Tchau." Com isso, ele desligou o telefone, bastante violentamente. E então ele o fez de novo. E de novo. E de novo, bravo.

Os olhos arregalados, Pierre estava surpreso com a súbita raiva de seu namorado. Ele não o tinha visto fora de controle desse modo. David respirou fundo e se inclinou contra o telefone, o braço sob a testa. "Eu não acredito nisso." Falou e respirou fundo. "Toda essa merda por causa de um namorado? Ela é tão... Isso é tão... Eu estou tão... UGH!" de repente, ele se jogou contra Pierre, os braços apertados ao redor de seu torso e seu rosto se escondeu em seu pescoço. "Eu queria que você apenas você e eu. Em algum outro lugar."

Pierre se sentia estranho agora. David estava lhe escolhendo ao invés de sua família. Ele não podia evitar se preocupar um pouco. Não era inteligente um garoto como David querer escolher um garoto como Pierre. Era perigoso e estúpido, e Pierre começou a se arrepender por sequer permitir que isso continuasse. Ambos estavam se deixando levar com esse relacionamento agora, mas Pierre não podia simplesmente se afastar.

Ele passou os braços ao redor dos ombros de David, acariciando seu cabelo. Ele sentia que era sua responsabilidade consolar o garoto. "Nós podemos continuar fazendo compras, se você ainda tem dinheiro." David balançou a cabeça, o nariz ainda no pescoço de Pierre. "Vai tirar sua cabeça da sua mãe." Ainda David não respondeu. Os dedos de Pierre acariciaram a nuca dele e Pierre tentou pensar em algo. "E eu até vou à cabine de fotos com você."

David ergueu a cabeça e sorriu para Pierre. "Bem, é difícil recusar isso." Falou e o beijou nos lábios. "Você é maravilhoso." Ele o beijou novamente. Pierre deu um meio sorriso, sentindo uma onda de culpa o assolar.

[...]

David estava adormecido ao seu lado, em sua cama, e Pierre passou a maior parte dos últimos dez minutos apenas o observando, como fizera naquela manhã. Ele queria dormir, mas ele não conseguia fechar os olhos, por algum motivo. Ele tentou dormir várias vezes por agora, mas quando ele olhava para o relógio, este mostrava que ainda era 11:55, o que significava que fazia uns quinze minutos desde que David tinha dormido, e Pierre fora deixado para seus pensamentos.

Ele percebeu que devia ser isso que o estava mantendo acordado. Ele não sabia por que ele não conseguia limpar sua mente, entretanto.

Durante o dia todo, ele estivera pensando sobre sua situação com David e sua mãe. Ele odiava o fato de que ele estava causando conflito em suas vidas. David não merecia isso. Desde que Pierre descobriu sobre Daniel, ele começou a facilitar para David. A última coisa que ele precisava depois de perder um amigo seria perder sua mãe também, por causa de alguma briga estúpida, que sequer deveria ter começado.

Finalmente ele desviou os olhos de David, e olhou ao redor do quarto escuro. Parecia muito mais cheio com David lá, mesmo que ele ocupasse apenas metade do colchão. Usualmente era tão frio e vazio no quarto, mas a presença de David o deixava aquecido e cheio, e Pierre conseguia sentir isso. Seu quarto nunca ficara assim quando Chuck passava a noite lá e dormia ou no chão ou em uma cama de armar.

Mas enquanto ele olhava ao redor, algo chamou sua atenção. A luz da lua se esgueirava pela fresta da cortina, sobre o presente que David tinha encontrado do lado de fora na noite anterior. O presente que não estava marcado e ninguém sabia quem podia ter enviado. Talvez fora a pessoa que aprontara com Pierre, tocando a campainha e saindo correndo?

Ele olhou brevemente para David, para se garantir de que ele ainda estava dormindo, então saiu da cama. Desde que estava deitado do lado mais próximo da porta, ele deu a volta na cama para onde tinha deixado a caixa na noite anterior. Ele se inclinou para pegá-la do chão, e andou até sua mesa, longe o bastante para que não acordasse David acidentalmente.

Enquanto ele puxava o papel quietamente, ele notou que a caixa tinha um 'West 49' sobre ela, com um logo. Ele tirou o papel e encontrou um pequeno papel dobrado dentro. Ele o abriu. Estava escrito:

Feliz natal, Pierre.

Espero que seja bom.

-Vince

Certo. Estranho. Ele leu as palavras mais uma vez, perplexo com o nome de quem enviou. Vince? Por que diabos Vince Randall iria mandar um presente de natal para Pierre? Claro, Vince nunca tinha agido verdadeiramente como uma idiota perto de Pierre; ele sempre ficava ao fundo quando Travis ou Bem agiam assim. Mas Pierre nunca pensou que ele se importaria o bastante para enviar um presente.

Deixando o cartão de lado, ele abriu a caixa, para revelar uma camiseta azul marinho da Hurley, um boné preto de baseball com um crânio nele, e um bracelete de couro, prata. Ele se perguntou se esse presente lhe conhecia melhor que o de David. O presente de David continha coisas que Pierre não era muito fã: ele não gostava da loucura de Harry Potter, e (mesmo que fosse fofo), ursinhos não eram sua praia. O de Vince eram coisas que Pierre de fato usava.

Era verdade que Vince lhe conhecia há mais tempo, e provavelmente melhor do que David. Mas quando ele pensava sobre isso, o motivo de David não saber muito era por causa dos segredos ao invés da duração do relacionamento, ou falta de duração.

Ele temia que, talvez, estivesse deixando Vince entrar. Ele nunca teve sentimentos por esse cara, e provavelmente nunca teria. Ele era esperto, tinha um ótimo gosto musical, e era tão misterioso quanto Pierre era, mas não o via como mais do que 'esse cara que ele conhecia'. Seu coração estava atraído por um único cara de seu passado. E ele tinha ido embora, então agora Pierre tinha que se convencer que estava esperando por outra pessoa.

Pierre ficou lá por uns bons dez minutos, pensamentos correndo por sua cabeça, antes de ele finalmente soltar o presente, fechá-lo e o cobrir com uma camiseta suja (para que David, acidentalmente, não o visse), e voltou para a cama. Ele se deitou ao lado de David novamente, e tirou esses pensamentos de sua cabeça. Ele estava cansado, afinal, apesar do quanto sua mente queria que ele ficasse acordado e perambulando pelo quarto.

Ele olhou para David, ainda adormecido ao seu lado, e percebeu que ele tinha tomado a decisão certa. Associar-se à Vince iria, apenas, gerar mais problemas, e Pierre estava tentando lavar suas mãos de seu passado.

Infelizmente, ele estava apenar a lavando em água contaminada.