Não me apetecia passar o almoço a levar com Draco. Eu sabia que tinha sido eu a aceder ao jogo, mas a persistência dele por vezes tirava-me do sério. Havia alturas em que ele me fitava com os olhos acinzentados que me dava vontade de esquecer que era apenas um jogo e lançar-me ao pescoço dele para beijá-lo. Mas eu tinha de me controlar, porque tinha de ser ele a rastejar aos meus pés e não eu.

Por várias vezes durante a manhã veio-me à mente aquele sorriso perfeito que ele punha na face. Encantador e perturbante. Não tinha dúvidas de que Draco sabia o quão sedutor conseguia ser. Mas ele ainda não conhecia os meus limites e eu ia provar-lhe que eram bem grandes. Não era um sorriso angelical e uns olhos felinos que me iam deitar a baixo na primeira jogada.

Enquanto percorri o corredor até ao bufete, fiz fisgas para que Ginny tivesse decidido ir almoçar ao ministério. Mas era quase certo que não. Quando ela vinha almoçar comigo, dirigia-se ao meu escritório. Ajeitei a camisa, desapertando os dois primeiros botões.

- Qual é o menu do dia? – perguntei a Durston.

- Puré com carne assada. – respondeu-me e eu acenei com a cabeça para confirmar o menu.

Senti-me rapidamente observada por aqueles olhos cinzentos. Não demorei a encontrá-lo na mesa do dia anterior. Lá estava Draco com o sorriso e a acenar para me sentar à sua beira. Revirei os olhos. Decidi ignorá-lo e fui me sentar na mesa livre do outro lado do bufete. Não foi preciso muito tempo para Draco pegar no seu tabuleiro e sentar-se sem qualquer pedido de autorização na minha mesa.

- Alguém te convidou para te sentares? – perguntei exasperada.

Draco não respondeu à minha pergunta.

- Como está a correr o teu primeiro dia de trabalho? – perguntei, tentando não me mostrar minimamente interessada.

- Normal – respondeu com um abanar de ombros – O que é? – perguntou ao ver o meu olhar desaprovador.

- Nada, só achei que fosses contar alguma coisa em especial. - respondi, fixando o olhar na minha refeição.

- A secretária de entidades mágicas é o máximo! – exclamou, chamando de imediato a minha atenção.

A secretária de entidades mágicas se eu bem me lembrava era uma rapariga pouco mais nova do que eu e tinha pertencido aos Ravenclaw.

- Ellen Rowland. – relembrou-me Draco.

- Sei. – respondi simplesmente.

A imagem de Ellen veio facilmente à minha memória. Elegante e extremamente sedutora. Cabelos claros e lisos que faziam lembrar de imediato Fleur, mas os olhos verdes eram semelhantes aos de Harry. Ron Weasley suspirava ao ver Ellen passar nos corredores de Hogwarts. Rapidamente me veio à memória uma cena que envolvia Ellen. Não havia um rapaz bonito que lhe escapasse. Com certeza não largava o Draco desde ontem.

Tentei ignorar o facto de Draco falar de Ellen constantemente durante o almoço. Eu sabia que ele estava a tentar ver uma reacção da minha parte. Mas eu nada fiz apenas ouvi com bastante atenção tudo o que ele dizia entusiasticamente da rapariga.

- Foi a Ellen que me fez a entrevista.

- Pois, eu logo vi por que cá estavas. – respondi secamente.

Será que ele não iria parar de falar da rapariga?

- Porquê? – perguntou entre o curioso e o divertido.

- Esquece. – eu não lhe ia dizer para ele ficar a pensar que estava com ciúmes.

Draco revirou os olhos e enfiou-se pelo corredor. Eu continuei o meu caminho até à minha sala. Hoje ia receber algumas pessoas que estavam interessadas em fazerem parte da minha Associação de defesa dos direitos dos elfos.

Durante a tarde apareceu a Ginny para falar comigo.

- Hermione, desculpa se estás muito ocupada. Mas apeteceu-me vir até aqui e saber como estás. – desculpou-se Ginny.

- Estou bem, não te preocupes. Hoje tenho umas entrevistas.

- Tens falado com o Malfoy? Eu vi-o por aí. Nem quis acreditar quando soube pela Ellen que ele estava a trabalhar cá. – Eu ouvi Ellen? Mas será que essa rapariga agora me perseguia?

- Pela Ellen? Desde quando é que tens conversas com ela?

- Desde nunca. Apenas a vi por aí e perguntei-lhe por curiosidade… - respondeu Ginny descontraída. – Deves estar furiosa, não? – perguntou assim que viu que eu não respondia.

- Um bocado.

Ginny estranhou a minha resposta mas não disse mais nada. Levantou-se da cadeira à minha frente e despediu-se com um beijo na bochecha.

- Amanhã vejo-te.

- Até amanhã, Ginny.

Passei a tarde toda a fazer entrevistas e ajuntar papéis. Com o ministro por fora o meu trabalho triplicava. Era óbvio que jamais conseguiria sair à minha hora. Sempre que ele metia fim-de-semana prolongado eu ficava uma ou duas horas após o ministério fechar.

Das cinco entrevistas que fiz para sócios só três decidiram continuar comigo no projecto. Já me tinha cansado de angariar pessoas para a associação, até mesmo Ginny não queria fazer parte.

Já passava das sete horas da tarde e eu continuava no escritório a separar os papéis que tinham de ser enviados por coruja com urgência e os menos urgentes. Ouvi baterem à porta.

- Entre. – ordenei, ainda entretida com a papelada.

- Ainda estás por aqui? – perguntou aquela voz que eu reconheceria em qualquer lugar.

- Parece que sim. E tu já não devias ter saído? – perguntei, desviando pela primeira vez o olhar dos papéis.

- Decidi vir até aqui. – foi a resposta que ele me deu.

Draco avançou até à cadeira e sentou-se. Voltei a separar o monte de papéis, contudo sentia-me observada pelos olhos cinzentos. Estava a deixar-me desconcentrada.

- Importaste de desviar o olhar de mim? Queria sair cedo.

- Incomoda-te o meu olhar? – perguntou presunçoso.

- Muito.

Draco levantou-se da cadeira, fazendo-me fitá-lo e aproximou-se de mim.

- Deixa isso para amanhã. – disse-me num sussurro.

Estávamos a poucos milímetros um do outro, os nossos narizes tocavam-se e eu conseguia sentir a respiração dele. Assim como ele poderia sentir a minha respiração perturbada pela presença tão próxima dele. Como é que ele conseguia mexer tanto comigo? Como é que eu podia ficar de pernas a tremer quando estava tão perto daquela pessoa que eu supostamente ainda deveria odiar?

Aproximou a boca da minha orelha, fazendo um calafrio percorrer todo o meu corpo. Ele sabia que eu entrava em transe quando ele fazia jogo sujo comigo. Ele adorava ver-me desejosa de puxá-lo para mim e mesmo assim não o fazer.

Coloquei a minha mão no peito dele, afastando-o com alguma dificuldade.

Eu sabia perfeitamente o que ele queria. Mas o jogo ainda agora tinha começado e eu não iria ter tão cedo um "game over". Havia ainda muito para jogar…


Estou a adorar as reviews *-*