Era sexta-feira de manhã. Enquanto bocejava dirigi-me à cozinha e preparei uma taça de cereais com leite. A verdade é que eu não tinha dormido mais de uma hora nessa noite. Tomei o pequeno-almoço com os olhos a pesarem-me e depois fui para o meu quarto arranjar-me para mais um dia de trabalho. Abri o guarda-fatos e pensei ao pormenor na roupa que vestiria nesse dia.
Uma saia extremamente curta? Isso não era de Hermione Granger. Mas era de uma Hermione que queria fazer alguém ficar de queixo caído. Peguei na blusa que melhor combinação fazia com a saia e vesti-me. Coloquei um pouco de maquilhagem para disfarçar a noite mal passada e calcei as botas de cano alto e salto fino que eu tanto gostava. Por fim, olhei-me ao espelho. Eu sabia que quando queria eu sabia ser atraente.
- Uau. Hermione Granger vestida para arrasar. – comentei comigo mesma.
Quando olhei para o relógio quase tive um ataque cardíaco. Decidi que iria desapartar na porta do ministério, já que não dava tempo para ir de metro e muito menos para ir a pé. O dia não podia ter começado melhor quando dei de caras com Ellen Rowland. Conseguia ser pior do que acordar com um galo a cantar às seis da manhã.
- Bom dia, Granger – exclamou com a sua voz cintilante e enervante no mínimo.
- Bom dia, Rowland – respondi com um sorriso amarelo.
Contudo, ela às vezes parecia ser tão pouco inteligente que nem conseguia distinguir um sorriso genuíno de um forçado.
- Viste o Draco? – ela perguntou.
Como é que ela queria que eu o tivesse visto se cheguei exactamente no mesmo momento que ela? Arra, que burra!
- Acabei de chegar, não faço a mínima ideia de onde ele esteja. – respondi mais uma vez forçadamente.
- Obrigada na mesma – agradeceu, fazendo sinal com o braço para me ceder passagem.
Forcei outro sorriso e entrei no corredor principal. Era impressionante o movimento que estava aquela hora. Fui directa para o meu escritório. A meio da manhã já tinha acabado o trabalho que sobrara do dia anterior. Levantei-me com as folhas importantes para enviar na mão e fui para o corredor que dava acesso à torre das corujas.
Mal cheguei lá, vi a cabeça de um loiro. Ele tinha um envelope selado na mão.
- Vens enviar documentos? – perguntou, numa tentativa de meter conversa comigo.
- É, parece que sim. – nunca a minha voz tinha soado tão seca na minha vida. – A tua nova amiga perguntou por ti. – informei-o, sem olhar para ele directamente.
- A Ellen? – Draco fez-se despercebido enquanto amarrava o envelope na pata da coruja que tinha acabado de o morder.
Eu acenei afirmativamente com a cabeça e simplesmente com "Huhun" e ele rapidamente percebeu que era dela que estava a falar. Senti novamente aquela sensação horrível que me dava vontade de arrancar a cabeça tanto a Ellen como a Draco. Tentei recusar, mas inevitavelmente conformei-me com a ideia de que aquela sensação era ciúme.
Quando finalmente tive coragem de olhar para Draco, ele estava a fitar a minha saia minúscula - ou mais propriamente as minhas pernas - desconcertado.
- Espero que te tenhas divertido ontem – disse-lhe, atirando para o ar.
Vi-o comprimir os lábios numa linha recta, contendo um sorriso antes de dizer:
- Com ciúmes, Granger?
Dei duas gargalhadas sarcásticas.
- Apenas te julguei com melhor gosto…
- O que queres dizer com isso? – o rosto de Draco tomou uma expressão séria.
- Nada de especial, apenas pensei que não querias os restos dos outros – insinuei, praticamente chamando Ellen de vadia.
Por Merlin, será que ele era o único que não sabia que Ellen Rowland se fazia a todos os homens que fossem minimamente charmosos?
- Restos?
- És de compreensão lenta, Malfoy – disse-lhe, quase a fazer uma careta. Ele ia mesmo obrigar-me a chamá-la de vadia?
- Eu não quero nada com ela, Granger. Pouco me importa que ela seja restos… - senti a fúria do antigo Draco na voz.
Revirei os olhos, recusando-me a acreditar que ele falava a verdade.
- Pois, tudo bem. Só estava a comentar.
- Tu na verdade querias era saber se eu realmente tive alguma coisa com ela ontem… - ele disse com alguma presunção.
Era assim tão óbvio?
- Deves te achar, Malfoy. Eu não iria querer saber se te atirasses de um precipício quanto mais se tiveste alguma coisa com ela! – acho que o meu rosto estava vermelho de raiva.
- Não tive – Draco disse-me sério.
- Não quero saber! – eu respondi, dando de ombros.
Draco aproximou-se de mim, fazendo com que eu deixasse cair os papéis que tinha na mão. Ele não iria ficar outra vez a dois milímetros de mim, iria? As minhas dúvidas dissiparam-se quando Draco agarrou-me pela cintura e me puxou contra o seu corpo. O sorriso perfeito estampado no rosto dele estava a deixar-me desconcertada.
- Não queres mesmo saber, Granger? Tens a certeza? – a ausência da minha resposta fez com que ele desse uma gargalhada.
Tentei com que o meu rosto ficasse com uma expressão neutra, mas de nada adiantou, pois de imediato tive a sensação que estava com cara de ursa a fitar os lábios convidativos dele.
- Larga-me imediatamente, Malfoy. – ordenei em vão.
- Pára com isso.
- És tu quem tem de parar, idiota! – falei quase a gritar.
- Pára com essa história de que não queres. Vamo-nos divertir um pouco, Granger.
- Eu odeio-te, sabes?
- Óptimo, então logo às oito vou-te buscar. – disse, largando-me de imediato – À hora do almoço combinamos melhor. – acrescentou quando estava a retirar-se da torre.
- Eu não vou ter contigo, Malfoy. – gritei, furiosa.
Ainda o ouvi a rir. Apanhei de imediato as folhas do chão e enviei pelas corujas para os respectivos destinatários. Com tudo isto já era quase hora de almoço. Aquele loiro irritante já me tinha tirado o apetite. Eu podia ir almoçar mais tarde e assim não teria de o ver. Mas surgiu-me uma ideia melhor quando ouvi baterem a porta e entrar uma ruiva cheia de animação.
- Hermione hoje vim almoçar contigo! – disse com o típico exagerado entusiasmo na voz.
- Óptimo, Ginny. Então vais me fazer um grande favor…
- Claro, diz. – eu adorava a Ginny por ela ser tão predisposta a ajudar-me.
- Hoje precisava de almoçar aqui no escritório, então tu podias ir buscar dois menus para nós e almoçávamos por aqui.
- Mas porquê? – a curiosidade era óbvia na sua voz.
- Tem a ver com o Malfoy. Mas eu conto-te tudo durante o almoço.
Ginny deu de ombros e saiu para ir ao bufete buscar os nossos almoços. Dez minutos depois entrou pelo escritório, transportando um tabuleiro com duas sopas e dois pratos com massa à bolonhesa.
- Agora conta, vá! – ordenou num tom de voz semelhante ao de Mrs. Weasley.
Enquanto almoçávamos contei tudo o que ultimamente se tinha passado com o Malfoy.
- Espera… tu estás me a dizer que foste a casa do Malfoy e te puseste em lingerie para ele? Hermione, definitivamente, tu não estás bem!
- Nós não fizemos nada. Nem um beijo ainda demos. Eu só decidi entrar neste jogo absurdo.
- Absurdo mesmo. Mas vá, promete-me que contas logo quando vocês se beijarem.
- Isso não vai acontecer – revirei os olhos.
- Vocês vão sair logo. Eu ouvi ele a dar um fora à Ellen.
- Como assim? – endireitei-me na cadeira, uma vez que o assunto me interessava.
- Então eu acabei de pôr os pontos nos is. – disse com um sorriso travesso no rosto. - Tu disseste-me que ele disse que logo às oito ia-te buscar e ele no bufete estava a ser completamente bombardeado por perguntas da Ellen. Enquanto me vinha embora ainda o ouvi dizer "Desculpa, mas hoje tenho um compromisso importante!". Devias de ver a cara da Ellen quando ele lhe deu com a tampa… - Ginny não escondeu um sorriso de satisfação.
Senti vontade de me rir da situação. Mas controlei-me ao máximo, porque eu não queria que a Ginny percebesse que os sentimentos de desejo que eu sentia por Malfoy passavam disso.
Depois do almoço, Ginny foi embora e eu fiquei pelo escritório a acabar o pouco trabalho que me sobrava. Uma parte de mim queria que Draco fosse ter comigo, mas outra ainda estava furiosa e só queria era distância dele. Fui para casa antes das sete e decidi que não ia estar com ele. Vesti o meu pijama predilecto – a camisa preta de seda – e fiquei no sofá a ler um livro de ficção Muggle. Olhei para as horas e pensei que naquele momento Draco devia estar furioso por eu ter sumido do ministério. Sorri para mim mesma.
Ouvi alguém tocar a campainha. Aquela hora quem seria? Não, não podia ser. Ele era capaz disso, mas eu nem queria acreditar. Abri a porta e fitei Draco Malfoy à minha frente.
Um extrazinho para as que leram e comentaram :D
Espero que gostem tanto deste como dos outros...
