A princípio eu não queria que ele nos tivesse visto antes de eu contar a todos. Muito menos esperava uma reacção daquelas vindo dele. Harry, que anteriormente estava a cerca de três metros de mim, aproximou-se com passos pesados e violentos e puxou-me pelo braço para perto de si. A minha mão que estava agarrada à de Draco, soltou-se e ficou estendida no ar. O que julgava Harry que estava a fazer? A proteger-me de um monstro? Confusa, naquele instante, soltei-me bruscamente dos braços de Harry e tomei o meu lugar ao lado de Draco que agora exibia um sorriso vitorioso para o meu melhor amigo.
- Harry! O que pensas que estás a fazer? – perguntei, quase cuspindo as palavras.
Por momentos quase me tinha esquecido que há minutos atrás eu estava a beijar o meu inimigo de longa data. Para mim já eram águas passadas que quase me tinha esquecido que para Harry ele continuava a ser o Malfoy.
- Tu… tu estás com o Malfoy? – a fúria que Harry tinha no rosto foi substituída pela confusão. Vi-o descontrair levemente o corpo, abrindo as mãos que outrora estavam fechadas e brancas de fazer tanta força.
- Queria te ter explicado lá dentro isso quando estivessem todos presentes. – respondi tranquila novamente. – Por favor, Harry, deixa-me explicar tudo antes de começares com os teus julgamentos.
- Julgamentos, Hermione? Estás com o inimigo!
- É disso que eu falo. Não há lado bom nem lado mau. Esquece isso, já passou. O Draco mudou. – disse, apontando para Draco sem perder aquele olhar crítico de Harry. - Eu mudei! – frisei - Consegues entender isso?
Harry abanou a cabeça negativamente.
- Não, não consigo.
Senti Draco mexer-se, incomodado, ao contemplar a cena.
- Porquê? – perguntei irritada. E sem pensar, acrescentei - Eu nunca te julguei quando andaste atrás da Cho. Eu nunca te julguei quando finalmente te apercebeste que amavas a Ginny. E tu estás agora a julgar-me por eu estar com o Draco. – Draco colocou-me a mão sobre o ombro quando viu que eu começava a soluçar.
Custava muito ser julgada pelo Harry. Sempre achara que Harry seria mais compreensivo do que Ron quando soubesse da verdade. Infelizmente, Hermione Granger estava redondamente enganada.
- Eu não vou deixar que ele te magoe. – Harry respondeu por entre os dentes cerrados, não me fitando directamente. O lado protector de Harry estaria sempre com ele. Ele era incapaz de não tentar proteger todos os que amava. De certa forma, eu não o podia julgar por isso.
- Eu não vou magoá-la, Potter. – Draco falou pela primeira vez, lançando um olhar de fúria a Harry. Nesse momento tive a certeza de que Harry estava mais próximo de me magoar do que Draco.
- Podes ter a certeza que se o fizeres vais desejar nunca teres nascido. – Harry atirou as palavras a Draco como se fossem lanças afiadas. Contudo, em vez de magoarem Draco magoaram-me a mim. Eu já não era uma criança frágil. Não precisava de ser protegida constantemente por ele.
- Pára, Harry. – ordenei quase num grito. – Eu sei tomar conta de mim! – virei costas a ambos e limpei as lágrimas com a manga da camisola.
Ouvi Harry sussurrar algo para Draco mas que não consegui compreender plenamente. O certo é que Draco virou costas e afastou-se o suficiente para não ouvir a nossa conversa. Quando me virei de frente para Harry senti medo de perdê-lo e não tive coragem de fitá-lo nos olhos. Harry fez-me encará-lo, colocando três dedos no meu queixo para o levantar. Tive a certeza de que tudo o que aconteceu não passou de genuína preocupação vinda do meu melhor amigo.
- Eii… - ele exclamou de forma meiga, limpando-me uma das teimosas lágrimas que caía. – Eu não te queria ver a chorar. Desculpa se me preocupo demasiado contigo e se te magoo por fazê-lo. – Senti vontade de abraçá-lo e dizer-lhe que estava perdoado, mas contive-me. – Eu preocupo-me contigo porque te adoro. Não te quero ver magoada por aquele… pelo Malfoy. – Harry fez um esforço para se controlar.
- Eu sei, Harry. Mas tens de compreender que ele mudou assim como os tempos mudaram. Não somos mais crianças… - alertei-o assim que me senti mais calma.
- Prometo que me vou esforçar para compreender isso. – um sorriso estendeu-se no seu rosto, produzindo em mim uma felicidade gigantesca pela sua aceitação. – Mas acredita que é mesmo por ti. – acrescentou.
- Obrigada, Harry. – agradeci-lhe e de seguida abracei-o com força.
Uma vitória já tinha. A aceitação de Harry deixou-me o coração aos pulos. A felicidade era tanta que eu sentia o meu coração quase a saltar do peito. Chegou a doer fisicamente. Quando o soltei Harry ainda estava a sorrir genuinamente.
- Não sei se o Ron vai aceitar da mesma forma. – um meio sorriso cheio de dúvidas alastrou-se no rosto de Harry.
- Terá de aceitar. Tal como tu o fizeste. – disse sem qualquer vestígio de esperança na voz. Eu sabia que Ron seria difícil de convencer, ainda para mais depois do que se tinha passado.
- Ele saiu e deve estar aí a chegar.
- Já tenho um discurso preparado mentalmente. Toca nas minhas mãos, Harry. – pedi-lhe, verificando que as minhas mãos estavam geladas dos nervos. – Estão geladas. – Harry soltou uma risada. – O que foi?
- Tu sempre ficaste assim antes dos exames finais. Vai correr tudo bem. – garantiu-me - O máximo que ele pode fazer é partir a cara ao Malfoy – disse divertido.
Lancei-lhe um olhar de desaprovação. Daqueles olhares que eu costumava fazer quando ele e Ron se esqueciam de fazer os trabalhos da escola. Eu sabia que se ele tivesse dito isso há dois ou três anos atrás eu teria juntado gargalhadas às dele.
Subitamente lembrei-me de Draco. Fiz-lhe sinal para que se juntasse a nós. Aproximou-se em passos lentos, colocando-se ao meu lado. Sorri-lhe e ele correspondeu com o tal meio sorriso que me deixava fora de mim. Nunca tivera tantas certezas na minha vida. Eu queria estar com Draco. Eu precisava de estar com ele. Era algo imperativo e incondicional.
- Eu vou entrando. A Ginny deve estar à minha espera, prometi-lhe que chegava cedo. – desculpou-se assim que verificou que tanto eu como Draco estávamos demasiado absorvidos um no outro para notarmos a presença dele.
- Até já. – disse-lhe, desviando o olhar de Draco.
- Então? – Draco perguntou com curiosidade. – O que é que o Potter te disse?
- Ele é um cabeça casmurra mas acabou por aceitar. Só tem medo que me magoes. – respondi, esboçando um sorriso.
- Ele que não se preocupe. Se eu te magoar, sou o primeiro a castigar-me: corto os pulsos. – ele disse com um ar bastante dramático, o que me fez deixar escapar umas risadas e ele acabou por me acompanhar com aquele riso contagiante e divinal. Se ver Draco sorrir era o suficiente para eu ficar com o dia ganho, então quando ouvia o riso dele sentia um turbilhão de emoções. Esquecia o mundo à minha volta.
- Vou lá dentro enfrentar as feras. – disse-lhe ironicamente. Uma parte de mim sentia que já tinha ganho. Ginny aceitaria com facilidade, era mulher e sabia que amávamos sem escolher. A grande fera seria Ron.
Já tinha virado costas quando senti Draco segurar firmemente a minha cintura. Ele queria mais. Ele não queria que eu fosse. Mas eu mantive-me no mesmo local, sendo segurada por ele. Fechei os olhos e senti a segurança. Nunca teria medo com Draco por perto. Mas uma luz verde invadiu os meus pensamentos, projectando Draco para o chão.
- Stupefy! – o feitiço foi lançado exactamente no mesmo momento em que eu vi a luz verde.
Horrorizada virei-me para trás e fitei o vulto ruivo à minha frente. Ron estava de pé aproximadamente a dois metros de Draco com a varinha apontada na sua direcção.
- O que pensas que estás a fazer, seu imbecil? – Ron estava completamente fora de si. A última vez que eu o tinha visto assim tinha sido na batalha final.
- Não! – gritei, baixando-me ao lado de Draco. Draco levantou ligeiramente a cabeça e preparava-se para atacar Ron quando eu o segurei pelo braço. – Não faças nada, por favor. – pedi, quase gemendo.
- Juro que dou cabo de ti. – Ron continuava vermelho de raiva. Draco parecia que tinha levado choques eléctricos uma vez que o seu corpo tremia de raiva.
- Ron, o Draco não me estava a fazer mal. – justifiquei-me nervosa com toda a situação.
- Ele estava a agarrar-te! – Ron disse, tentando conter a raiva, finalmente desviando o olhar de Draco para me contemplar.
- Ouve, há uma coisa que tens de perceber: o Draco não é nosso inimigo.
Draco soltou-se do meu braço e ajeitou a gola da camisa, já controlado. Eu sabia que noutra altura qualquer, Draco não se teria deixado ficar. Teria pegado na varinha e atacado Ron sem piedade. Mas ele não o fez por mim. Não quis deitar tudo pela água abaixo.
- Então? – Ron perguntou uma oitava acima ainda com a varinha apontada para Draco.
- Baixa isso. – ordenei, impaciente. Ron fê-lo com dúvidas. Se ele não aceitava que Draco não era o inimigo, seria ainda mais difícil de aceitar que era meu namorado.
- Queres me explicar o que se passa? – Ron estava com todos os músculos do corpo contraídos e mantinha uma expressão séria e severa no rosto.
- Há uma coisa que preciso de contar. Vamos lá para dentro e eu conto a todos. Não me apetece ter de repetir mais dez vezes o que tenho a dizer. – Eu já estava controlada e fiz sinal a Draco para que esperasse um pouco. Dirigi-me para a porta da Toca, decidida. Ron estava mesmo atrás de mim, seguindo-me. Não precisei de olhar para trás para saber que antes de me seguir, Ron tinha olhado para Draco com fúria.
Assim que cheguei a Toca com Ron a resmungar atrás de mim, deparei-me com todos reunidos, inclusive os meus pais. Antes de comunicar que tinha algo importante a dizer, troquei olhar com todos. Não faltava uma única pessoa. Harry e Ginny estavam de mãos dadas na entrada da sala, o que me permitiu trocar um olhar cúmplice e discreto com Ginny. Aquela rapariga até com um simples olhar me transmitia coragem, talvez mesmo sem saber o que eu ia dizer, pois acredito que o Harry não lhe tivesse contado nada. Os gémeos estavam sentados no sofá e os pais Weasley de pé juntamente com os meus pais. A Fleur segurava a pequena Caroline nos braços que tinha uma boneca de trapos tipicamente muggle. Supus que fosse um presente de Mr. Weasley.
- Vá lá, Hermione, deixa-te de mistérios e conta logo. – disse um dos gémeos que eu identifiquei como George.
- Mais um sócio para a Associação dos elfos? – perguntou sarcasticamente Fred.
- Calem-se e deixem a Hermione falar! – ordenou Ginny irritada com os irmãos.
- Bem, deixem-na falar! – foi a vez de Mrs Weasley falar. Depois de lançar um olhar de fúria aos filhos, olhou para mim de forma meiga para que eu prosseguisse.
Eu sentia todo o meu corpo a tremer, a minha voz a falhar, o meu coração pulava no peito e senti as minhas mãos transpiradas. Respirei fundo, pronta para falar.
- Eu hoje vou trazer uma pessoa aqui. É alguém que se tornou especial. – comecei, ignorando o olhar incrédulo de Ron.
- Finalmente arranjaste um namorado? – um dos gémeos perguntou numa gargalhada acompanhado imediatamente pelo irmão.
- Essa pessoa é alguém que vocês conhecem e não pelas melhores razões.
- Nós conhecemos? – Mr Weasley perguntou, verdadeiramente curioso.
- Draco Malfoy. – murmurei, sem forças para continuar com o mistério. Durante o minuto seguinte consegui aperceber-me de diversas reacções. Ron levou as mãos à cabeça, negando o que tinha acabado de ouvir. Magoou-me saber que ele estava magoado. Harry e Ginny sorriram-me. Os gémeos trocaram um olhar cúmplice e riram-se da situação. Tudo o que fosse estranho e diferente iria sempre agradar a Fred e George. Os meus pais verificaram a reacção de todos os presentes como eu estava a fazer, pois não percebiam a verdadeira razão dos burburinhos que ouviam. Quem era afinal Draco Malfoy?, perguntavam-se com certeza mentalmente. Mr e Mrs Weasley trocaram um olhar que eu classifiquei como um olhar de desilusão. Creio que desde sempre julgavam que eu ficaria com o filho.
- Se foi essa a escolha que fizeste… - disse finalmente Fred, terminando com aquele silêncio que me estava a enlouquecer.
- Não se trata de uma escolha, Fred. Eu não pude fugir disso.
- Vai ter com ele. – Ron disse-me de forma severa. – Ele está lá fora à tua espera.
- Desculpem se vos desiludi a todos. Mas a verdade é que já não há volta a dar. Eu quero estar com ele.
Ron puxou-me pelo braço, fazendo-me sair disparada da sala para o seu quarto. Estava nervoso, qualquer movimento denunciava-o. Por mais calmo que ele tentasse se mostrar, a voz traiu-o, saindo de forma arrogante:
- O que é que ele tem que eu não tenho? – Ron apontou pela janela do quarto, por onde eu podia ver Draco sentado numa pedra a lançar pedras para longe. Se não estivesse prestes a discutir com Ron, teria com certeza apreciado observá-lo. – Diz-me, Hermione! – Ron berrou e eu tive a certeza que todos lá em baixo ouviram.
Por momentos senti medo daquele lado do meu amigo que eu nunca tinha visto. Encolhi-me num canto do quarto, ouvindo as palavras ferozes saírem da boca dele e atingindo-me. E sobretudo magoando-me. Eu não queria ouvir o que ele teria para me dizer a seguir.
