Ron estava tão nervoso que nem reparou no estado em que me estava a deixar. Encolhi-me na cama dele com as pernas encolhidas e o queixo encostado aos joelhos. Tentei segurar o choro, eu não queria que ele percebesse que me estava a assustar, embora a minha posição me traísse. Ron aproximou-se de mim, sentando-se na cama.

- Vais me explicar o que aquele imbecil tem que eu não tenha? – Ron falou num tom baixo mas severo.

- Não se trata do que ele tem a mais ou a menos do que tu. – a minha voz não saiu tão convincente como eu desejava.

Ron abanou-me os ombros com força a mais.

- Porquê que me estás a fazer isto, Hermione?

- Desculpa – murmurei como se realmente achasse que tinha culpa.

- Eu gosto de ti! – ele disse o que sentia, fazendo um estranho contraste com a forma como o dizia.

- E eu gosto dele… - respondi, temendo olhá-lo nos olhos. Eu não queria magoá-lo e por isso é que temia olhá-lo e ver tristeza, desilusão, melancolia. Não me podia permitir magoá-lo mais. Levantei-me e suspirei. Ron não abriu a boca mais nenhuma vez. Eu sabia que já o tinha magoado o suficiente.

- Espero que um dia me perdoes. – disse-lhe, sabendo no fundo que eu não tinha culpa nenhuma por me ter apaixonado por Draco. Contudo, dizer-lhe isso iria magoá-lo e eu preferi acartar com as culpas.

- Como pudeste? Hermione, ele sempre te fez a vida num oito!

Suspirei, cansada de repetir o mesmo. Será que era assim tão difícil aceitar que tinha mudado muita coisa?

- Eu não me apaixonei de propósito. Ron, tu pensas mesmo que eu acordei de manhã e disse que me queria apaixonar pelo Draco? Se eu pudesse escolher, se eu tivesse tido essa oportunidade, eu não escolheria amá-lo. Ao menos evitaria todos estes problemas! – falei de forma tão rápida e irritada que Ron se levantou e me encarou.

- Se tu pudesses escolher… - falou, cauteloso mas sem desviar o olhar. – Ter-me-ias escolhido a mim?

Olhei-o confusa. Ele estava me a perguntar se eu preferia amá-lo a ele em vez de amar Draco?

- Diz-me, por favor. - suplicou - Preferias amar-me a mim? – Ron segurou firmemente o meu queixo. O olhar desesperado dele fez-me recuar um passo. No entanto, foi em vão, pois ele acompanhou-me dando um para a frente.

- Sim. Eu teria escolhido amar-te a ti. – admiti, embora um pouco hesitante.

Pude ver um brilho de esperança no olhar de Ron, o que me fez imediatamente me arrepender da minha resposta. Mas a verdade é que se pudesse ter escolhido, eu teria escolhido Ron. Mas agora nada me faria voltar atrás, pois era com Draco que eu gostava de estar.

- Beija-me. - Ron pediu com as suas mãos grandes, pousadas sobre o meu rosto, a tremerem. – Prometo que te deixo em paz, mas beija-me.

- Ron? Por favor, não me faças isso. Não seria correcto… eu… estou com o Draco.

- C'os diabos, Hermione! Porquê que o idiota do Malfoy agora tem de estar sempre presente em tudo o que fazes ou dizes? – Ron soltou-me, profundamente irritado. Sentou-se na beira da cama, esfregando as mãos no rosto. Na verdade ele não esperava uma resposta minha.

- Acho melhor acabarmos esta conversa por aqui.

- Claro que sim. – Ron disse, começando a rir-se sarcasticamente – Vai logo ter com o teu namoradinho… Vai, Hermione, deves estar a morrer de saudades! – a voz dele estava repleta de profundo sarcasmo.

Ron estava agora de pé, apontando com o braço para a porta. Ele queria que eu saísse, era uma ordem, não um pedido.

- Sai, agora! – a voz rouca de Ron fez com que novas lágrimas invadissem os meus olhos. E mais uma vez eu tentei segurar o choro. Mas várias memórias passaram na minha mente e eu não fui forte o suficiente para aguentar. Fraquejei e chorei em frente do meu melhor amigo. Ele não mexeu um músculo, não iria amparar o meu choro como já fizera diversas vezes no passado.

Olhei uma última vez para ele e hesitei ir até à porta. Mas o silêncio que Ron estava a provocar estava a enlouquecer-me por completo. Saí, sendo o único barulho emitido o do meu choro incontrolado. Soluços deslizaram-me pela garganta e tive vontade de me esconder. Doía-me tudo: o meu corpo tremia desde os pés até à cabeça, a garganta e os lábios estavam secos, os olhos ardiam-me e mais do que tudo doía me o coração. Batia incontrolavelmente.

As minhas pernas que estavam bambas desceram as escadas que iam dar à sala. Se houvesse outro caminho para ir para o jardim sem ter de enfrentar todos os que estavam na sala, eu não teria pensado duas vezes. Mas não havia, eu sabia disso porque conhecia a Toca como a palma da minha mão. Além disso, também não estava em condições de Aparecer directamente lá fora, mesmo que fosse um distância tão curta…

Harry dirigiu-se directamente a mim. Ignorei os olhares preocupados dos outros. Era vergonhoso estar naquele estado em frente a todos, principalmente dos meus pais. Vi-os levantarem-se e precipitarem-se na minha direcção quando foram impedidos por Mrs Weasley. Pude sentir o olhar de Ginny preso em mim para de seguida subir as escadas, enfurecida, com certeza para tirar a história a limpo com Ron. Harry envolveu-me num abraço reconfortante. Mas eu só queria Draco. Só os braços de Draco me fariam sentir segura novamente.

- Preciso do Draco. – solucei fracamente ao ouvido de Harry.

O meu amigo fez os possíveis para demorar pouco tempo até me levar a Draco. Praticamente ele arrastou-me até ao jardim, ignorando os comentários de quem estava presente que dizia que o melhor era eu ficar ali sentada e beber um copo de água. Eu não queria sentar-me e tão pouco eu queria um copo de água. Queria o Draco. Queria o calor dos braços dele, queria ser abraçada e envolvida por ele. Apenas por ele.

- Hermione? – Draco estava visivelmente preocupado. Ao tempo que eu tinha demorado ele já deveria ter criado raízes.

Caminhei desajeitadamente até Draco. Ele não demorou a perceber que eu precisava de um abraço. Assim que sentiu que o meu choro cessara, soltou-me. Fez-me encará-lo ainda preocupado.

- O que aconteceu?

- O Ron estragou tudo! – exclamei, lançando um olhar criminoso em direcção à janela do quarto dele. E pude ver que ele ainda estava no quarto. O sentimento forçado de culpa que sentira à minutos atrás desaparecera por completo. Nesse momento senti raiva de Ron, por ele estar a fazer-me isso.

- O que é que aquele… o que é que ele fez?

- Simplesmente não aceita que estejamos juntos, Draco.

- Tem calma, Hermione. O que esperavas? Eu disse-te que não era uma boa ideia ter vindo hoje.

Harry aproximou-se lentamente de nós. Apesar do silêncio vindo da parte dele, senti que ele concordava com Draco.

- Ele vai compreender. Dá-lhe tempo. – Harry disse-me, colocando uma mão no meu ombro para me reconfortar.

- Dói muito, Harry. Dói saber que ele não aceita. Dói saber que ele me odeia por isso.

- Ele não te odeia. E o Potter tem razão, dá-lhe tempo. – Draco disse, deixando formar-se um sorriso no canto dos lábios.

Harry abanou a cabeça afirmativamente como que concordando com ele.

- Hermione, o Ron foi um imbecil contigo! Merlin dê-lhe alguma sensibilidade. – disse uma certa ruiva que vinha a grande velocidade em minha direcção, fazendo-lhe a voz tremer. – Dá-lhe um desconto, é um Weasley. E os Weasley têm as suas pancas, amiga. – Ginny disse quando já estava perto de mim, exibindo o seu melhor sorriso.

Sorri-lhe mais calma. No fundo eu queria acreditar que Ron seria capaz de compreender. Talvez eles tivessem razão, ele precisava de tempo.

- Agora vamos para dentro. – Ginny estendeu-me a mão. Harry apressou-se em ir à nossa frente. – Todos. – frisou a minha amiga, olhando directamente para Draco que estava exactamente no mesmo sítio.

- Eu… não sei. Talvez amanhã apareça aqui. – Draco fez uma expressão de dúvida. Voltei para trás. Eu não ficaria sem ele.

- Venham os dois. E despachem-se porque a minha mãe quer ajuda para colocar o peru a assar. – Draco já estava a acompanhar os meus passos em direcção à entrada. – Não quer usar magia em frente aos teus pais, Hermione, diz que tem de mostrar os seus dotes culinários. E se não formos já, acredito que lá se vai o peru… - Ginny disse, tentando me animar e deixar Draco mais à vontade.

Quando entramos na cozinha já só estavam as mulheres e a pequena Caroline. Draco estava abismado com a beleza da criança. Caroline tinha dois anos. Apesar de ser bela como a mãe eram belezas de grande contraste. Tinha olhos grandes e verdes, cabelos de perfeitos caracóis ruivos. O rosto era redondo e de lábios cheios. Era uma delícia observar a Caroline.

- Hermione, esperro que estejas mais calma. – o sotaque de Fleur tinha melhorado ligeiramente assim como a sua simpatia. – A Caroline não parou de perguntar por ti.

- Tia! – Caroline exclamou, lançando-se imediatamente nos meus braços. Dei-lhe dois beijos ruidosos em cada bochecha e peguei nela ao colo.

- Caroline! Este é o Draco. – Draco sorriu-lhe abertamente.

- Olá, Caroline. – disse, não deixando escapar aquele sorriso.

- Quem é, tia? É teu amigo? – perguntou curiosa, enrolando com os dedos roliços uma pequena madeixa do meu cabelo.

- É o namorado da tia, Carol. – disse Fleur, assim que viu que eu fiquei um pouco atrapalhada com a pergunta.

- Então… então… - Caroline havia constatado algum facto, pois sempre que isso acontecia ela gaguejava entusiasmada com a ideia. – És meu tio, também? – perguntou, observando Draco.

Draco e eu rimo-nos da observação da Caroline.

- Parece que sim. – disse Draco, meio atrapalhado mas ainda a rir.

Estávamos os três, eu, Draco e Fleur, entretidos com a Caroline quando Ron entrou na cozinha. Tinha os olhos vermelhos, eu não tive dúvidas que ele estivera a chorar. Durante segundos os nossos olhares cruzaram-se. Ron encarou-me com um olhar neutro, mas assim que deu pela presença de Draco, ele tinha os olhos a faiscarem de raiva.

- Tio Ron! – Caroline saltou praticamente dos meus braços para ir em direcção a Ron. Mas o ruivo não mexeu um músculo nem deixou de encarar Draco.


Com esperança que gostem tanto da Caroline como eu!