Pude observar que Draco também não desviou um só segundo o olhar de Ron. Eu não queria que se desenrolasse uma discussão. Eu sabia que se Ron provocasse Draco, ele não iria deixar-se ficar mais uma vez. Toquei no braço do meu namorado e vi Ron baixar, pela primeira vez desde que entrara na cozinha, o olhar de Draco para a minha mão pousada no braço dele.
- Como conseguiste, Hermione? – Ron perguntou, ainda sem me encarar. – Agora deixas que ela te toque, Malfoy? Já não é sangue de lama? Já não tens medo que ela te passe os germes? – Ron voltou a encarar Draco com um sorriso cínico e na minha opinião um tanto infantil.
- Não. – Draco disse de forma firme. – São águas passadas, Weasley. Parece-me que só tu é que não queres aceitar isso.
Eu assisti, imóvel e em silêncio, a toda a conversa que se desenrolava.
- Como posso aceitar que a minha melhor amiga ande com um imbecil como tu?
- Ronald! – exclamei irritada.
Caroline estava ainda agarrada às pernas de Ron, tentando em vão chamar a sua atenção. Graças a Merlin que ela não percebia o que se estava a passar. Fleur, que já tinha saído juntamente com a minha mãe e com Mrs Weasley, voltou para trás para levar a Caroline para a sala.
- Vem, querrida. O peru já está na mesa. – Fleur disse, lançando um olhar fulminante a Ron.
- Nós também já vamos. – eu apressei-me a confirmar, puxando pelo braço de Draco.
Todo o restante do dia correu com mais normalidade. Ron assim que pôde retirou-se do convívio e foi directamente para o seu quarto. Algo que me deixou com sentimento de culpa. Não queria que ele tivesse um Natal assim. A minha mãe lançava-me de vez em quando olhares confusos, quase exigindo uma explicação. O meu pai divertia-se com as curiosidades de Mr Weasley. Draco era constantemente bombardeado por questões vindas da Caroline.
- Vamos brincar. – disse Caroline, puxando pela mão de Draco.
- Caroline, não chateies o Drraco. – repreendeu Fleur.
- Sabes voar? – Caroline perguntou, suscitando a minha curiosidade.
- Sei. – Draco respondeu com um sorriso. – Já queres aprender a voar? – perguntou admirado com a pergunta da pequena.
- Eu… eu queria. Mas a mamã não deixa. – disse, fazendo beicinho e cruzando os braços. A expressão fez Draco soltar uma gargalhada e eu acompanhei-o.
- Faz a mamã muito bem, Caroline. É perigoso. – disse-lhe depois de trocar um olhar com Draco.
- O tio Ron e o tio Harry queriam me ensinar. Mas a mamã apanhou-os e não deixou. – disse, entusiasmada. Caroline falava muito bem para a idade que tinha.
Draco e eu rimos em conjunto. Sem dúvida, Caroline tinha uma veia da Ginny. Aventureira com a idade que tinha.
Quando finalmente anoiteceu, o que para mim foi um alívio, despedi-me dos meus pais, prometendo que escreveria em breve. Ginny tinha-nos concedido o quarto para passarmos lá as duas noites, pois ela e Harry iriam passar as noites no apartamento dele. Assim que cheguei ao quarto atirei-me para a cama, espreguiçando-me. Draco despiu-se e deitou-se ao meu lado, agarrando-me.
- Estás cansada? – perguntou num tom convidativo. E eu respondi-lhe com uma gargalhada. Ele não estava a pensar que iríamos fazer aquilo ali.
- Muito. Foi um dia exausto. – respondi-lhe, virando-me de frente para ele e beijando-o suavemente.
- Que pena! – disse ainda a sorrir.
- Nem penses, Draco Malfoy. Aqui não. – disse com firmeza.
Eu não era capaz de chegar ao ponto de fazer o que ele queria debaixo do tecto do meu melhor amigo. Ainda o pude ver a fazer beicinho, mas eu fui mais forte e resisti. Por mais que me quisesse entregar a ele… eu não poderia descer a essa ponto, seria uma falta de consideração pelo Ron.
Depois de vestir a minha camisa rosada de cetim, beijei-lhe suavemente os lábios e desejei-lhe boa noite.
- Boa noite! – respondeu com alguma desilusão fingida na voz. Sorri interiormente e virei-me de costas para ele.
Quinze minutos mais tarde, Draco já estava a dormir profundamente. Por causa de todos os acontecimentos eu não conseguia adormecer. E tinha a certeza de que Ron do outro lado passava pela mesma dificuldade. Não tinha noção de que horas seriam, mas pareceu-me que já estava a ouvir Draco ressonar há bastantes horas. Desesperadamente, levantei-me da cama e peguei na varinha que estava na mesinha de cabeceira.
- Lumus! – murmurei baixinho e um fio de luz saiu pela ponta da varinha.
A pouca luz iluminou a face de Draco. Os cabelos desalinhados assentavam-lhe tão bem. Sorri para mim mesma e beijei-lhe a testa. Draco remexeu-se, mas não acordou. Dirigi-me até à minha mala e retirei o meu roupão florido. O tecido macio fez-me arrepiar quando o vesti. Guiada apenas pela luz da varinha dirige-me até à porta do quarto de Ron. Durante vários minutos, que me pareceram na verdade horas, deixei-me ficar à porta, apenas a observá-la. Tantas memórias me passaram pela mente! As discussões que já tivera com Ron e todas as desavenças fizeram-me ficar com um sorriso aparvalhado no rosto. Tudo passou pela minha cabeça naquele momento como se fosse um filme. Os abraços e os risos incontrolados na sala comum dos Gryffindor fizeram os meus olhos encherem-se de lágrimas. Tinha saudades desses momentos. Queria repeti-los a todos, um por um. Eu queria sentir novamente o abraço apertado e desajeitado de Ron. Mas a lembrança de que um abraço meu fosse talvez a última coisa que Ron desejava levou-me a um choro silencioso. Eu ainda fitava a porta com toda a variedade de sentimentos a percorrerem a minha mente quando senti uma mão pousado no meu ombro. Fechei os olhos, tentando segurar as lágrimas solitárias. Respirei fundo e ganhei coragem para fitá-lo.
- Desculpa, eu… estava só a passar aqui. – justifiquei-me, abanando a cabeça.
Ron fitou-me seriamente.
- Ia só buscar um copo de água. – continuei, tentando parecer mais convincente.
O meu amigo continuou a fitar-me com um olhar sério mas acolhedor. De forma descontrolada e desajeitada atirei-me para os braços de Ron, como já fizera tantas vezes no passado, com Harry, por exemplo, antes de ele enfrentar aquele dragão no torneio dos três feiticeiros. Por fracções de segundos tive medo que Ron rejeitasse aquele abraço. Contudo, Ron agarrou-me com tanta força que quase me tirou o ar. As mãos fortes dele envolveram o meu corpo de forma delicada mas ao mesmo tempo desesperada.
- Desculpa. – murmurei ao ouvido dele, ainda sufocada devido ao choro e ao abraço.
Ron assim que me soltou colocou a testa dele colada à minha. Se há bem poucas horas eu tinha visto raiva e desilusão nos seus olhos, agora todos esses sentimentos haviam sumido. Estavam tão preenchidos de culpa que parecia transbordar.
- Eu só te quero ver feliz. – a voz de Ron estava rouca. – Tenho pena que não possa ser comigo. – apesar de estar apenas a sussurrar, aquelas palavras pareceram ecoar por todo o corredor. Eu não quis falar, quis apenas sentir aquele calor do qual já tinha saudades. – Perdoa-me se fui egoísta ao ponto de te magoar. Perdoas-me, Hermione? És capaz? – o olhar, a voz e toda a tensão no corpo mostravam a culpa que sentia.
- Seria imperdoável não te perdoar. – eu respondi, baixando o olhar dele. Ron deixou um meio sorriso formar-se nos lábios.
