- Hermione Granger, prazer. – disse, retribuindo o cumprimento. – Se me der licença, O'Conner, eu tenho de ir trabalhar.
- Nathan. Podes me tratar por Nathan. – disse, esboçando um sorriso simpático. – És tu quem está a substituir o John Mayer? – perguntou surpreendido e interessado.
- Sim. – sorri timidamente. – Bem, até logo! – os olhos castanhos de Nathan continuaram-me a sorrir e eu passei de lado entre ele e a parede para seguir em frente, retraindo um sorriso.
- Até logo, Hermione. – ele disse quando eu já estava um pouco longe, tratando-me pelo primeiro nome como se não tivesse acabado de me conhecer.
Assim que cheguei ao meu escritório, larguei a minha mala na grande cadeira que tinha perto da janela e sentei-me na cadeira de rodas da secretária. Queria começar a trabalhar, mas o interesse de Nathan estava sempre na minha mente. Confesso que fiquei um pouco confusa, mas talvez ele estivesse ali só de passagem. Nem tive oportunidade de lhe perguntar se trabalhava ali, eu não quis ter essa oportunidade. Se ele trabalhasse ali, eu saberia quem era ele, certo?
Respirei fundo e concentrei-me no que tinha a fazer. Levei a mão à cabeça, dando uma leve palmada. Tinha me esquecido de enviar uma coruja aos meus pais. Rapidamente, antes de começar a fazer o meu trabalho, peguei numa folha de pergaminho e molhei a pena na tinta. Eles mereciam no mínimo uma explicação para tudo a que tinham assistido. No dia de Natal a minha cabeça estava tão cheia que eu não tivera paciência para conversar um pouco com a minha mãe.
"Queridos pais,
Em primeiro lugar quero-vos pedir desculpa por tudo o que passaram neste Natal. Tenho a certeza de que estavam à espera que tivesse sido de outra forma e eu confesso que também estava. Contudo, eu tinha de apresentar o Draco. Como vocês devem ter percebido, o Draco não foi muito bem recebido. Isso devido a uns assuntos do passado. Mas agora já está tudo resolvido.
Nem sequer tive oportunidade de vos contar que tinha sido promovida aqui no ministério. Assim que toda a confusão em que a minha vida está acabar, prometo que irei ter convosco para conversarmos melhor sobre tudo o que se tem estado a passar.
Hermione Jane Granger."
E eram tantas as coisas que eu tinha para contar aos meus pais. Contudo, não queria que fossem ditas por carta. Queria estar com eles pessoalmente e contar-lhes. Depois de ter fechado a carta, chamei a secretária que me estava a substituir, Josie Hooper.
- Josie, achas que me podes fazer o favor de enviar esta carta aos meus pais? – pedi, levantando-me da cadeira.
- Claro que sim, Miss Granger.
- Peço desculpa, não tem a ver com trabalho, mas eu estou cheia de coisas para fazer e preciso mesmo de enviar isso. Obrigada. – disse, justificando-me, pois sentia-me mal que ela enviasse corujas sem ter a ver com o trabalho.
- Não há problema. – disse Josie, retirando-se com um sorriso genuíno.
Já estava pelo menos mais descontraída. Voltei a sentar-me à secretária e peguei na minha agenda. John Mayer sempre achara piada ao facto de eu usar uma agenda para me lembrar e organizar os eventos dos dias, pois era um objecto muggle. Contudo, eu já não passava quase um dia de trabalhar sem rabiscar na minha agenda amarelo-torrado. Virei as páginas até chegar ao dia que pretendia. Os meus olhos esbugalharam-se ao ver agendadas seis entrevistas para a minha Associação, pois tinha a noção de que só tinha três. Mas aquela letra não era a minha, definitivamente. As últimas três entrevistas não tinha sido eu a apontar, disso eu tinha a certeza. Dois dos seis que iriam ser entrevistados eram homens e um dos nomes saltou-me à vista: Nathan O'Conner.
Dirigi-me directamente para a sala de Josie para verificar se ela tinha mexido na minha agenda. Mas ela ainda não tinha regressado da torre das corujas. Esperei, pacientemente, até que ela chegasse.
- Josie – disse assim que ela se aproximou de mim – por acaso acrescentaste algum evento na minha agenda? Tenho agendadas mais três entrevistas do que o que eu achava que tinha.
- Miss Granger, desculpe. Esqueci-me completamente de lhe avisar. – justificou-se.
- Não há problema. Mas espero que não volte a acontecer. – disse, mas verifiquei rapidamente que tinha sido um pouco áspera com ela e então acrescentei – Mas tudo bem. Só gostava de ter sido informada com mais antecedência, entendes?
- Compreendo perfeitamente. Desculpe-me, mais uma vez.
- Esquece isso. – eu disse a sorrir, tentando aliviar um pouco a tensão. Não queria que a Josie se sentisse mal nos primeiros tempos de trabalho.
A minha manhã foi forçosamente preenchida com as entrevistas. Arrependi-me imediatamente de ter escolhido fazer entrevistas individuais, pois tive de repetir tudo o que envolvia o projecto tantas vezes quantas as pessoas entrevistadas. Mas finalmente parecia que o meu grupo do projecto estava a desenvolver. Já contava com dez membros, incluindo a Luna e a Ginny. Ainda fazia parte dos meus planos convencer o Draco, Ron e o Harry a participarem.
O último a ser entrevistado fora o Nathan O'Conner. Bateu levemente na porta e, assim que eu ordenei, entrou com passos cautelosos. Sorriu-me e eu retribui.
- Bem, parece que já nos conhecemos. – disse Nathan, sentando-se na cadeira à minha frente. – Queres que me apresente de qualquer das formas? – perguntou novamente com aquele estranho à vontade.
- Pois, cruzámo-nos no corredor. – disse timidamente. – Mas eu gostava que te apresentasses e que me falasses um pouco mais de ti. – continuei, pois na verdade eu queria que ele desvendasse um pouco. Estava com uma curiosidade aguda.
Nathan sorriu-me com uma pontinha de mistério. Antes de voltar a falar, passou os dedos por entre os cabelos escuros.
- Nathan, 23 anos e sou de Londres. Como deves calcular tenho interesse em entrar nesta associação, porque realmente me interesso pelo bem-estar de todas as criaturas mágicas. – disse, seguido de uma leve tossidela para clarear a voz.
- Nathan, trabalhas aqui no ministério? – perguntei, quase prevendo a resposta. Se Nathan trabalhasse no ministério, eu já o teria visto mais vezes.
- Não. Eu só aqui estou pela Associação.
- Muito bem. – eu disse e prossegui, contando todos os objectivos da Associação e os trabalhos que iríamos desempenhar. Nathan mostrou-se sempre atento e interessado, algo que me agradou nele.
Após cerca de meia hora de ter começado a falar dos objectivos e actividades dei a entrevista por terminada ao ouvir a porta bater. Draco entrou e olhou desconfiadamente para Nathan.
- Vamos almoçar? – perguntou, ignorando a presença do entrevistado.
- Dá-me dois minutos para eu tratar de um assunto com o Nathan.
- Nathan? – Draco perguntou e eu pude sentir que uma pontada de ciúmes se avizinhava. Achei absolutamente normal, uma vez que Nathan era um rapaz bastante atraente e achei até uma certa piada a esse lado de Draco.
- Sim, vai ingressar na Associação de defesa dos direitos dos elfos e de outras criaturas mágicas. – disse com um sorriso. – Nathan, este é o Draco Malfoy.
Nathan sorriu e eu pude ver uma certa excitação da parte dele, o que me deixou confusa. Parecia que tinha ficado empolgado por ver Draco. Será que ele o conhecia? Ou seria apenas impressão minha?
- Tudo bem, Draco? – perguntou, não evitando um sorriso que eu defini como travesso.
- Está. Vamos, Hermione? – Draco continuava sem dar grandes confianças a Nathan.
- Bem, Nathan, eu acho que vou agendar uma reunião com todos os sócios e depois envio-te uma coruja.
- Ficamos combinados, Hermione. Espero a tua coruja. – ele disse cheio de sorrisos, o que frustrou Draco.
Depois de Nathan abandonar o meu escritório, Draco lançou-me um olhar fulminante. Peguei na minha mala e descemos silenciosamente para almoçarmos no refeitório.
- Estás com um ar extremamente sério, Draco! – constatei assim que tínhamos os tabuleiros na mesa prontos para almoçar.
- Como querias que estivesse? Quem é aquele tal Nathan? – perguntou com aquela voz que ele só tinha quando estava chateado.
- Diz-me que não estás chateado por causa disso, Draco Malfoy. – eu disse num tom ameaçador quase sussurrado. – O Nathan O'Conner é um membro da minha associação e não há necessidade de estares a fazer uma cena de ciúmes, por isso…
- Ele não me inspirou confiança, o que queres que faça? – Draco perguntou entre o exaltado e o impaciente, cortando-me a palavra.
- Mas inspirou-me a mim e é à minha associação que ele vai pertencer. – falei, por entre os dentes cerrados. Não queria que ninguém ouvisse a nossa discussão.
- Basta ser engraçadinho e cheio de risinhos para ingressar na associação? – perguntou, desafiando-me. Mas Draco Malfoy me conhecia muito mal se pensava levar a melhor. Já estava a exagerar com os ciúmes e eu detestava falta de confiança.
- Ele mostrou interesse…
- Em ti e não na associação de certeza! – completou, furioso.
- Lá porque tu não tens interesse na minha associação não quer dizer que não hajam pessoas que tenham! – pousei os talheres com alguma brusquidão a mais. Sem dizer mais única palavra, levantei-me da mesa cansada daquela discussão estúpida e inútil.
Detestava quando Draco se tornava possessivo demais. Por vezes achava piada que ele mostrasse aquele lado, pois sentia que ele realmente me amava. Mas odiava quando ele exagerava e colocava em questão outros assuntos, como a minha Associação. Não admitia que ele questionasse o valor que ela poderia ter para outros.
