Durante toda a tarde Draco não apareceu no meu gabinete. E eu não consegui parar de pensar nele, em como detestava estar chateada com ele. Absorvi-me nos meus pensamentos de tal forma que o trabalho me passou ao lado. Eram quase sete da tarde quando me cansei de esperar por ele. Estava a ser uma birra demasiado infantil. Levantei-me e segui pelo corredor até à sala dele. Estava prestes a alcançar a maçaneta da porta quando esta se abriu, surgindo o Draco com a mesma cara de chateado de há horas atrás.
- Ias ter comigo? – perguntei cautelosamente, embora que de Draco já esperasse qualquer resposta.
- Pensei que pudesses estar demasiado ocupada… com o novo membro da associação. – disse como se estivesse a dar-me uma boa justificação.
- Vejo que a tua crise de ciúmes em relação ao Nathan ainda não passou. – conclui em voz alta, entrando dentro do escritório. Draco abriu a boca para protestar, mas logo a fechou. Calculei que ele nunca admitisse que estava com ciúmes. – Podes dizer que não são ciúmes… - completei, quando verifiquei que ele não ia continuar.
- Se queres ficar a pensar que são ciúmes, tudo muito bem, Hermione, fica. – Draco tentou mostrou-se o mais calmo e sereno que conseguiu. Parecia não estar com a menor disposição para discussões.
- Draco, por favor – aproximei-me dele, encarando-o. O olhar cinzento dele já não estava reconfortante como ultimamente. Aliás, transmitiram-me insegurança. – Não vês que não suporto estar assim contigo? Detesto estar chateada contigo.
- Eu também não gosto de estar chateado contigo. Mas não estás a ser minimamente compreensiva. – Eu é que não estava a ser compreensiva?
- Eu? – perguntei com a voz num fio de ironia. – Tu é que não queres aceitar o facto do Nathan fazer parte da associação! E eu é que não estou a ser compreensiva? Por Merlin, Draco! – exaltei-me.
- Ele não é de confiança, Hermione! – Draco falava alto, quase a gritar.
- Como é que podes afirmar isso? Não julgues as pessoas pela primeira impressão. – disse num tom igualmente alto.
- Tu vais ver que ele não é de confiança e depois vais me dar a razão. – ele disse, relembrando-me o velho Draco de Hogwarts devido à arrogância que a sua voz continha.
- Tu é que vais ver que estás a ser demasiado precipitado nas conclusões que estás a tirar. – era bom que Draco não me desafiasse.
Draco pegou no casaco que tinha entretanto colocado na cadeira.
- Estás habituada a ter sempre a razão, Hermione… Mas pode ser que desta vez estejas errada. – a expressão de Draco estava um pouco sinistra, como se desejasse interiormente que eu não tivesse razão.
- Custa assim tanto acreditares no valor da Associação? – perguntei, cruzando os braços.
- Eu nunca questionei o valor da Associação… - disse Draco em sua própria defesa.
- Se não acreditas que o Nathan esteja verdadeiramente interessado na minha Associação, então estás a questionar o valor dela.
- Não tem a ver com isso. – continuou a defender-se - É a maneira como ele olha para ti. – acrescentou sem me encarar. Será que ao dizer isso ele estava a admitir os ciúmes? Contrai os meus lábios para não deixar formar-se um sorriso de vitória. – Esquece, depois falamos melhor. – Draco aproximou-se de mim, abanando a cabeça. Deu-me um leve beijo na testa e foi em direcção à porta.
- Draco? Onde vais? – eu questionei-o, sem sair do local onde estava.
- Preciso de espairecer.
- Espera. Draco! – exclamei, tentando alcançá-lo, mas em vão, pois ele já havia desaparecido.
Uma raiva incontrolável apoderou-se de mim. Peguei nas minhas coisas e saí porta fora. Estava tão chateada que me apetecia gritar e chorar. Quando estava a descer as escadas da entrada para o ministério, senti alguém tocar-me. Não tive tempo de limpar as lágrimas, virei-me e deparei-me com Nathan.
- Hermione? – Nathan mostrou-se surpreendido. – Estás a chorar?
Limpei as lágrimas sem disfarçar e respirei fundo.
- Não é nada. Ainda estás aqui? – a entrevista já tinha sido há algumas horas e ele ainda lá se encontrava.
- Estive por aqui. – Nathan deu de ombros e sorriu. – Mas ainda não me disseste porque estás a chorar. – desviou disfarçadamente de assunto.
- Não se passa nada. – disse rapidamente. Mal ele sabia que eu estivera a discutir com Draco por causa dele.
- Compreendo que não queiras contar. – disse Nathan, compreensivo. – Mas não me vais negar um café?
- Oh, Nathan, desculpa, mas não é realmente a melhor altura. – eu não estava com a melhor disposição para ir tomar café. No entanto também não tinha a menor vontade para ficar em casa sozinha, aguardando inutilmente que Draco aparecesse a qualquer momento. Respirei fundo antes de voltar a falar – Vamos então ao café. Preciso de espairecer. – acentuei bem a palavra 'espairecer', uma vez que tinha sido essa a expressão utilizada por Draco. Embora, obviamente, Nathan não percebesse isso.
Entramos num café tipicamente muggle. O cheiro das bifanas, moelas e cerveja invadiu-me as narinas. Ao balcão estavam alguns homens com copos à sua frente. Nathan conduziu-me até à mesa mais ao fundo do estabelecimento. Rapidamente uma rapariga alta e loira aproximou-se da nossa mesa para nos servir.
- Boa noite. Para mim vai ser uma cerveja e um pão com bifanas… - pediu Nathan, tranquilamente, o que me fez prever que já fosse habitual ele frequentar estabelecimentos muggles e comer das suas comidas.
A rapariga anotou num bloco de notas o pedido e olhou na minha direcção.
- Uma torrada com pouca manteiga e um chá de cidreira em chávena fria, por favor. – pedi, sentindo o olhar de Nathan preso em mim, surpreendido.
- Vejo que tens alguns conhecimentos muggles… - comentou quando a loira já se tinha retirado com um sorriso em direcção a Nathan nada discreto. Eu ri-me do comentário. Mal ele sabia que eu era filha de pais muggles. – Estás a rir de quê? – perguntou, curioso.
- Sei quase tudo sobre muggles, Nathan. Sou a primeira e única feiticeira na minha família. – confessei com um sorriso.
- Não fazia ideia. Mas tu és uma excelente feiticeira… - Nathan disse, contendo um sorriso. – Quer dizer, pelo menos é o que se diz por aí. – continuou, deixando transparecer o sorriso contido.
- Pois, obrigada. – agradeci, embora tivesse ficado um pouco confusa.
Depois de duas longas horas a falar com Nathan sobre o projecto de Acção de sensibilização e protecção dos elfos que eu tinha em mente, várias perguntas pairaram na minha mente, o que estaria Draco a fazer era uma delas. Outra era se ele estaria minimamente preocupado com o facto de eu puder estar triste por estarmos chateados.
- Parece-me uma excelente ideia. Por mim avançamos com esse projecto. – a voz de Nathan interrompeu as minhas questões mentais. – Poderíamos começar por ir a Hogwarts fazer essa campanha de sensibilização.
- Que brilhante ideia, Nathan! Amanhã vou já enviar uma coruja a professora McGonnagall e depois agendo uma reunião com todos os sócios. – respondi-lhe entusiasmada.
- Fico à espera.
Levantei-me e peguei no casaco, pronta para ir embora. Nathan sorriu-me e foi em direcção à emprega de mesa para pagar a conta em dinheiro muggle.
- Obrigada pelo jantar – agradeci quando já estávamos a sair do café – Era para ser apenas um café e acabou por ser um jantar.
- Não há problema. Foi um prazer, na verdade. – mais um sorriso.
- Bem, até amanhã então. – disse um pouco atrapalhada.
- Deixa-me acompanhar-te até casa. – pediu, parecendo mais uma exigência. – Já é tarde, é só por isso, é claro. – prosseguiu, tentando atenuar um pouco a impressão que tinha dado.
- Não, obrigada. Mas não precisas de te dar a esse trabalho. – respondi, genuinamente.
- Faço questão e insisto. Eu atrasei-te e esse é o meu modo de te recompensar. – voltou a insistir, o que de facto me aborreceu um bocado.
- Eu posso perfeitamente ir sozinha. – respondi impulsivamente, um tanto agressiva.
- Eu compreendo. É por causa do Malfoy, certo? – ele devia ter estado cerca de cinco minutos com o Draco, seria possível que se tivesse apercebido de alguma coisa?
