Se era por causa do Draco? Mas afinal o que é que Nathan sabia acerca do Draco? Fitei-o durante segundos sem dizer nada. Eu tinha conhecido Nathan nesse dia e ele já estava a fazer perguntas pessoais. A voz de Draco veio de repente à minha mente, alertando-me mais uma vez sobre o Nathan. Respirei fundo e afastei a voz repreensiva de Draco antes de voltar a falar.

- Porquê que dizes isso? – tive a certeza de que os meus olhos transpareciam confusão.

- Desculpa. Não me deveria estar a intrometer, mas ele parecia que me ia comer com os olhos quando me viu. Desculpa mais uma vez, Hermione. – disse, passando as mãos pelos cabelos, um gesto muito Draco.

- Não, Nathan, desculpa-me tu a mim. – estar a julgá-lo por uma pergunta poderia estar a ser muito injusto da minha parte. – Eu e o Draco não estamos muito bem. – esclareci, abanando a cabeça como se fosse algo absurdo.

- Estamos ambos desculpados então. – Nathan sorriu e seguiu em frente. – Posso acompanhar-te a casa então? – perguntou sem se virar para me fitar, talvez ansioso pela minha resposta. Porquê que fazia tanta questão de me acompanhar a casa? Seria apenas uma questão de cavalheirismo?

- Se não te importares eu prefiro ir sozinha, sabes é que preciso de pensar. – a minha expressão era de desculpa. – Talvez noutra ocasião.

- Sem problemas, de qualquer das formas aguardo a tua coruja.

Sorri-lhe e sussurrei um 'adeus' quase inaudível. Nathan correspondeu com um sorriso minúsculo, o que me levou a pensar que talvez tivesse ficado ofendido. Virei costas e caminhei pelo passeio até à paragem de metro. A minha mente estava a ser invadida por milhentas questões. Dessa vez, porém, o protagonista não era apenas Draco como também Nathan O'Conner.

Uma parte de mim queria chegar a casa e deparar-se com Draco, mesmo que ele estivesse chateado, só queria vê-lo e estar com ele. Assim que cheguei a casa senti o cheiro de alho e pimenta na cozinha. Em cima da banca tinha uma sertã que parecia que tinha sido acabada de usar. De repente ouvi um barulho no andar de cima que fez o meu coração pular de excitação e formar-se um meio sorriso nos lábios. Subi as escadas a correr, tropeçando num dos degraus finais. Uma cabeça ruiva ergueu-se para me encarar.

- Ginny, o que estavas a fazer debaixo da minha cama? – perguntei, surpreendida por ver a minha amiga, mas desiludida por não ser o Draco.

Ginny cruzou os braços para logo a seguir os descruzar e colocá-los na cintura.

- O parvalhão do teu gato roubou-me os bifes que tinha acabado de fazer para o nosso jantar! – justificou-se, lançando um olhar fulminante para Crookshanks que se enrolou nas minhas pernas. – Crookshanks, ladrão! – exclamou repentinamente, assustando-me. – A propósito onde te meteste? Estou aqui há uma hora e meia.

- Calma, Ginny. Não me avisaste que vinhas, sou bruxa mas nunca tive muito jeito para artes divinatórias.

- Desculpa, mas como costumas vir logo para casa depois do trabalho… Estavas com o Malfoy? – a curiosidade era notável na voz de Ginny.

- Não. Fui jantar com o Nathan. – disse, virando-me de costas para Ginny, preparada para descer as escadas.

- Nathan? Quem é o Nathan? – perguntou, sentando-se na cama.

- Vais conhecê-lo brevemente.

- A que propósito?

- Ingressou na Associação hoje. – informei-a, sentando-me também na cama.

- E já foste sair com ele? – perguntou, admirada. – Aposto que o Malfoy não vai gostar disso… - comentou em tom de brincadeira.

- Tanto não gostou que estamos chateados.

- Jura? – levou a mão à boca como gesto de incredulidade. – O Malfoy é ciumento? Não me digas… - explodiu imediatamente em gargalhadas.

Era realmente difícil de imaginar o Malfoy dos tempos de Hogwarts ter ciúmes de um rapaz por causa de uma rapariga ou mais especificamente uma rapariga como eu.

- Não me estou a rir, Ginny. Ele está insuportável! – comentei num desabafo.

- O Nathan é assim tão giro? – perguntou quando conseguiu controlar o riso.

- Sim, é giro. Mas não justifica a birra do Draco.

- Pelo que me contaste na altura também te roeste de ciúmes da Rowland. É normal, Hermione. O Harry nem me deixa olhar para o lado.

- Não compares uma situação com a outra. A Rowland atirava-se literalmente ao Draco. O Nathan não fez nada disso…

- Ainda! – alertou a minha amiga. – Dá-lhe tempo e confiança que eu quero ver.

Revirei os olhos. Seria possível que também Ginny concordasse com Draco? Mesmo sem conhecer o Nathan? Desde quando é que Ginny dava razão ao Draco Malfoy? Desci a passos pesados para o andar de baixo e senti o olhar de Ginny em mim. Rapidamente fizemos umas panquecas e um sumo de laranja natural e embora eu não tivesse fome acompanhei Ginny na refeição. Estava irritadíssima a conversar sobre o Harry.

- Ele não faz nada, Hermione! Nem se limita a agitar a varinha para limpar a cozinha. – engoliu um pedaço de panqueca.

Apesar de ter sempre esperado que Harry e Ginny ficassem juntos, era difícil imaginá-los a viverem juntos.

- Já conversaste com ele? – perguntei, tentando que as coisas não ficassem feias para o lado do Harry. Ginny era mazinha o suficiente para deixá-lo a viver sozinho até que aprendesse.

- Não adianta. O Harry Potter está a precisar de uma lição séria. – disse, pousando os talheres em cima da mesa com um meio sorriso maldoso no canto da boca.

Depois de convencer Ginny a conversar com Harry, antes de colocar em prática a maldade que tinha em mente, subi as escadas para tomar um banho. Depois vesti a minha camisa de dormir de seda, aquela que usara na noite em que me envolvera com Draco. Vesti-a por esse motivo mesmo. Assim que me deitei olhei para o relógio na mesinha de cabeceira que marcava com números grandes e fluorescentes as onze e vinte da noite. Abanei a cabeça, tristemente. Ele não viria.

Na manhã seguinte acordei para tomar o pequeno-almoço. Mais uma vez tive esperança que ele tivesse ido a minha casa enquanto eu estivesse a dormir. Procurei um sinal de que ele estivesse estado lá, mas nada. Nem um bilhete. Como precisava de pensar bastante, decidi ir de metro, o meu transporte favorito para ir para o ministério. Sai de casa meia hora antes do meu horário de trabalho. Quando cheguei à última paragem, saí e caminhei no meio da multidão até à escadaria principal. Procurei uma cabeça loira oxigenada, mas nada. Ao entrar no bufete deparei-me com Ellen.

- Bom dia, Granger. – tive a impressão de que me iria provocar.

- Bom dia. – respondi sem grande entusiasmo, esperando o que quer que fosse que ela ia dizer de seguida.

- Ontem o Draco estava muito triste, não sei o que lhe fizeste. Mas vá lá que eu devo ter um dom para animar as pessoas… - disse com naturalidade a mais para o meu gosto. Senti as minhas bochechas ficarem vermelhas de raiva e ciúme. Com que então Draco tinha estado com ela. Controlei-me para não lhe saltar em cima nesse momento.

- Ai tens?

- Sim, modéstia a parte, mas podes lhe perguntar se ele não ficou bem mais animado. – um sorriso amarelo surgiu no rosto de Ellen. E as minhas bochechas continuavam a arder cada vez mais.

Virei-lhe costas e segui para o balcão. Depois de fazer o pedido do meu café, olhei para trás onde tinha falado com Ellen. Os meus olhos quase saltaram das órbitas quando vi Draco e Ellen conversarem muito animados. Este rapaz queria me tirar do sério. Ellen fazia parte do jogo dele: como morreu de ciúmes do Nathan estava a usá-la para me fazer ciúmes. Peguei no café e decidi ir sentar-me numa mesa afastada deles. O sorriso que ele tinha para Ellen segundos antes desvaneceu-se quando se cruzou com o meu olhar e eu continuei com um olhar frio e zangado. Draco estava a jogar baixo.

Sem desviar o olhar, percebi que ele disse alguma coisa a Ellen que a fez concordar com a cabeça. De seguida, dirigiu-se ao balcão e com a cara de chateado do dia anterior pediu um café. Depois disso, caminhou em direcção à minha mesa. Evitando olhar directamente para ele, baixei o olhar para o café, remexendo durante bastante tempo o café. Tinha perdido a vontade toda de lhe dizer umas quantas verdades quando ele se sentou à minha frente. Mas a minha língua mesmo assim não se controlou:

- Podes muito bem dar meia volta e ir ter com a tua amiga. – disse-lhe de um modo frio. Oh não, eu estava roída de ciúmes!

- Não, obrigado. – respondeu também fria e ironicamente.

- Ela sabe como animar-te, Draco. – continuei a picá-lo.

- O que ela te disse?

- Aquilo que tu me deverias ter dito. Não precisava de sabê-lo através dela.

- O que é que ela te disse mais especificamente? – perguntou, confuso.

- Raios, Draco. Deixa-me em paz. Não vês que não me apetece falar contigo? Estou magoada! – explodi, embora falasse baixo para que ninguém ouvisse.

- Tudo bem. Só tu é que podes estar magoada, Hermione. Mas também não vês que me magoas por estares a dar trela ao teu amiguinho idiota? – perguntou enraivecido. Olhei para ele e não pude deixar de pensar que ele mesmo assim ficava lindo, irritado. Mas tentei não me desconcentrar naquilo que ele falava. – E a propósito eu não fiz nada de mal com a Ellen. Simplesmente fomos ao cinema e…

- Nunca foste ao cinema comigo! – atirei-lhe a cara, cada vez mais chateada com o rumo que a conversa tomava. Quer dizer eu em casa, ansiando que ele aparecesse a qualquer momento e ele no cinema com a loira estúpida. Argh!

Draco revirou os olhos face à minha constatação. Para ele ir ao cinema poderia ser algo banal. Contudo, para mim era algo que os namorados deveriam fazer sempre. Ele era meu namorado e andava a ir ao cinema com a outra. Levantei-me da mesa e subi para o meu escritório. Fechei a porta com força a mais, profundamente irritada. Ele podia agora dizer que eu estava com ciúmes, pois eu estava mesmo. Prometi a mim mesma que me iria concentrar na Associação. Nada de Draco naquele dia!