Senti a minha respiração acelerar um pouco à medida que o vulto loiro ia descendo as escadas. Cada passada de Lucius era como se um punhal se enterrasse no meu coração. Mas eu não tinha medo dele. Seria capaz de o enfrentar, pois já tinha lutado contra devoradores da morte nos tempos críticos de guerra. Tinha mesmo sido capaz de matá-los, embora outrora achasse que nunca seria capaz de o fazer. Matar alguém para mim era uma sensação horrível, mesmo que se tratassem de devoradores da morte sem escrúpulos e sentimentos.
- O Draco mal sabe o que o espera… - ele falou pela primeira vez, arqueando uma sobrancelha, algo tão típico do meu Draco e isso de certa forma mexeu comigo. Ameaçar-me a mim era compreensível, mas não admitia que ameaçasse Draco.
- Não! Não lhe vai fazer nada! – gritei como se o punhal se tivesse enterrado por completo no meu peito. Doía-me o coração só de imaginar Draco a sofrer. O rosto dele contorcido em dor fez-me sentir náuseas. Amava-o tanto que daria a minha vida por ele se fosse necessário.
Lucius Malfoy riu-se com sarcasmo. Aproximou-se de mim e eu já lhe podia ver o rosto por completo devido à iluminação da cozinha. Aquela expressão sarcástica era tão semelhante à que Draco exibia em Hogwarts quando cuspia a palavra 'sangue de lama' com desprezo. O olhar de Lucius era petrificante e, embora continuasse bonito, as rugas em redor dos olhos já eram visíveis. Mantive-me no mesmo local com a varinha erguida. Lucius cercou-me e observou-me com aqueles olhos que transbordavam maldade. Por mais que eu tentasse mostrar-me corajosa, os meus gestos traíam-me, pois a mão que segurava a varinha tremia e a minha boca abria-se sem nada conseguir articular, nem sequer um som abafado eu conseguia dizer. Não tive mais certezas de que seria capaz de enfrentá-lo. Dissiparam-se todas à medida que ele me fazia sentir a respiração dele no meu pescoço.
- E és tu quem me vai impedir de fazer mal ao Draco? – perguntou com a voz rouca, quase a sussurrar ao meu ouvido. Tentei impedir o meu corpo de reagir, mas senti as minhas pernas fraquejarem. Aliás, todo o meu corpo estava a fraquejar.
- Faço o que for preciso para não lhe fazer mal. – disse, sentindo que a minha voz estava a falhar a cada palavra que proferia.
Eu queria tanto sentir-me firme e confiante. Atacá-lo e acabar com tudo o que ele estava a fazer. Mas eu não podia. Mesmo que ele não tivesse uma varinha apontada na minha direcção seria sempre mais forte do que eu. E isso deixava-me frustrada e sem alternativas.
- Eras mesmo capaz de fazer qualquer coisa por aquele que sempre te odiou? Aquele que te rebaixou e chamou de sangue de lama? – interrogou sem perder o sarcasmo mas com uma certa curiosidade que eu pude identificar na voz. Parecia-lhe a ele ser a coisa mais estranha do mundo: Hermione Granger, a fiel amiga de Harry Potter, disposta a dar a vida se fosse necessário pelo inimigo dos tempos de Hogwarts, Draco Malfoy.
- O Draco que conhecia morreu. – disse, encarando-o nos olhos. - E com ele morreram também os preconceitos. – acrescentei, notando mais alguma segurança na minha voz. Não poderia vacilar quando se tratava de defendê-lo.
- Vejo que se tornaram muito íntimos, até já o tratas pelo primeiro nome. – constatou com um sorriso exagerado no rosto.
Não lhe respondi, apenas continuei de varinha erguida. Atenta a cada passo que ele dava em meu redor. Depois de me rodear mais uma vez, observou atentamente a minha cozinha e dirigiu-se até à sala. Pegou em vários objectos e fitou-os com cara de espanto.
- Vê-se mesmo que é uma casa tipicamente muggle. É impossível que escondas as tuas origens. – disse, aproximando-se de mim com cara de nojo.
- Eu não as quero esconder. – disse com segurança na voz e lançando-lhe um olhar frutífero.
- Desilude-me completamente saber que o Draco conseguiu esquecer as dele. – disse com um olhar cheio de ódio, a falar mais para ele do que para mim.
- Os tempos mudaram, Mr. Malfoy. Creio que as pessoas devem acompanhar as mudanças sofridas… - disse sem conseguir pensar em mais nada para dizer.
- Ouve bem, sangue de lama, tu vais te afastar do Draco. – gritou, quase a correr na minha direcção. - Ele é dos únicos da família Malfoy que restam e com certeza que não vai querer difamar o bom nome. – Lucius Malfoy falou com tanto ódio que me fez arrepiar. Largou uma taça de barro que tinha na mão, fazendo-a cair no chão com o barulho estridente de cacos partirem-se ecoar por toda a casa. Eu fitei a taça alaranjada destruída no chão. - Por isso, afasta-te dele. E isso também é para o teu bem. – continuou, dessa vez passando a mão áspera pela minha face quase como se a estivesse a acariciar. Isso fez-me desviar o olhar da taça para fitá-lo. Passou a língua no próprio lábio, o que me deu vontade de vomitar. Preferia sentir o ódio nas palavras dele do que ser acariciada. Lucius dava-me nojo. – Não que eu me importe com o teu bem-estar, é claro… - acrescentou, deixando transparecer um sorriso maldoso nos lábios.
- Eu não tenho medo de si. Agora saia da minha casa! – disse, apontando com a varinha para o peito dele. Não consegui perceber onde arranjara coragem e forças suficientes para mandá-lo sair. Lucius Malfoy repudiava-me e eu não podia vê-lo por muito mais tempo.
- És patética, Granger. – disse entre risos forçados. De seguida, baixou a mão que estava na minha face e agarrou-me na varinha sem me dar tempo de reagir. – E és tão facilmente dominada por mim. – disse, quase a cantarolar, afastando-se um pouco de mim. Senti a raiva a fervilhar enquanto fitava estupidamente a minha mão erguida no ar como se ainda segurasse uma varinha invisível.
Sentia-me ainda mais impotente sem varinha. Como me pude distrair tão facilmente com um predador como Lucius diante de mim? Insultei-me mentalmente e cerrei os punhos. Agora ele faria tudo o que quisesse comigo. Eu estava desarmada e sem a varinha nas mãos eu não me poderia defender tão bem.
- Eu não me vou afastar do Draco, a menos que ele queira. – disse com a raiva abundante no olhar.
Lucius aproximou-se mais de mim, ficando com o corpo quase colado ao meu. A respiração dele fazia-me sentir arrepios por todo o corpo, senti os pêlos dos meus braços ficarem eriçados. Mas tentei manter-me o mais firme que consegui. Com violência Lucius pegou nos meus cabelos e puxou-os, fazendo-me gemer e gritar de dor. A minha cabeça estava para trás enquanto ele dizia palavras cuspidas ao meu ouvido:
- Afasta-te dele, Granger.
Senti lágrimas se formarem nos meus olhos e fechei-os para não ter que encarar a cara de gozo de Lucius quando este me visse chorar. Chorar de dor e medo. O medo de perder Draco invadiu-me e eu não me pude controlar mais. As lágrimas rolaram pela minha face de forma teimosa, eu não poderia evitar chorar, não quando se tratava de perder Draco que se havia tornado tudo na minha vida. Perdê-lo para sempre era como se eu morresse. Era como se me tirassem uma parte de mim…
Quando finalmente abri os olhos vi Lucius com um sorriso vitorioso nos lábios, fitando atentamente os meus seios. Eu senti a vontade que ele teve de me tocar, mesmo repudiando-me por ser uma sangue de lama.
- Mas em parte eu até compreendo o que o Draco viu em ti. – disse, largando os meus cabelos, o que me fez sentir uma ligeira dor na cabeça. Rapidamente segurou-me pela cintura, colando o meu corpo ao dele o mais que pôde. Uma das mãos dele pressionou as minhas costas com força para que ele pudesse sentir todo o meu corpo. Quase que senti os meus ossos estalarem de tanta força que ele estava a exercer sobre o meu corpo.
A campainha tocou e Lucius olhou para a porta um pouco surpreso. A voz de Draco falou do outro lado:
- Abre a porta, Hermione.
A voz perfeita do meu namorado fez-me sentir um pouco mais segura. Saber que ele estava exactamente do lado de lá reconfortou-me. Lucius largou o meu corpo, empurrando-me para a frente e eu bati com as costas na parede. O embate fez-me sentir uma dor forte e agoniante. Pensei que não fosse capaz de me controlar para não gritar. Mas a mão de Lucius na minha direcção fez com que eu me mantivesse calada, mesmo com todo o meu corpo dorido. Aproximou-se de mim e sussurrou-me ao ouvido:
- É a tua oportunidade para te afastares dele, Granger. Eu vou embora mas vou voltar, garanto-te!
Antes de desaparecer, pousou a minha varinha em cima da mesa de centro, uma atitude que eu estranhei. Pensei que ele me deixasse desarmada para os próximos encontros. Eu sabia que iriam haver próximos. E não pude evitar as lágrimas grossas que se intensificaram ao ouvir novamente a voz angelical de Draco:
- Hermione, por favor, estou preocupado.
Com passos hesitantes dirigi-me à porta para abri-la. Mas antes de rodar a maçaneta, respirei fundo e tentei acalmar-me. Passei as mãos em volta dos olhos a fim de limpar as lágrimas.
- O que se passa? Porquê que eu não consegui aparecer dentro de tua casa? – perguntou exaltado, entrando para a sala.
- Draco eu não… - comecei a falar sem ter explicação, mas rapidamente me lembrei que só poderia ter sido Lucius Malfoy a colocar um feitiço para ninguém conseguir aparecer em minha casa. Só ele poderia, obviamente. – Estive a experimentar uns feitiços de anti-aparição. Pelos vistos parece que funcionaram. – disse a com a minha voz a tremer ligeiramente.
- Podias ter permitido que eu entrasse. – Draco disse, revirando os olhos com impaciência.
Ele nem sequer tinha reparado na minha face. Achei que o medo estivesse estampado na minha cara, mas pelos vistos não.
- Desculpa. – murmurei.
– Porquê que demoraste tanto tempo a abrir a porta? – perguntou, finalmente me encarando nos olhos. – Estás a chorar, Hermione? – perguntou, dirigindo-se a mim e agarrando o meu rosto com as duas mãos para que o encarasse.
Quando o meu olhar encontrou o olhar cinza de Draco só tive vontade de chorar. Eu queria poder olhar todos os dias da minha vida para aquele olhar. Eu amava Draco. Já tinha me convencido a mim mesma que iríamos ficar juntos para sempre. Como é que poderia chegar agora Lucius Malfoy e estragar toda a linda história de amor que nós tínhamos construído? Doeu-me o coração e eu não segurei o choro. As minhas pernas tremeram e eu caí no chão com brutalidade. Draco ficou sério e preocupado, vendo-me chorar sem perceber o que realmente se estava a passar. Fraquejei diante dele. Aproximou-se ainda mais de mim e sentou-se ao meu lado.
- O que se passa, Hermione? – Draco estava tão preocupado. E isso só fez com que me sentisse pior.
- Oh, Draco… - eu disse entre os soluços que eu não consegui evitar. Lancei-me para o pescoço dele e Draco agarrou-me nas costas com força. Ele tinha as mãos no mesmo sítio que minutos antes o pai dele estivera também. Mas ao contrário de Lucius, ele não exercia força bruta. O meu choro intensificou-se.
- Hermione, não estejas assim. Diz-me o que se passa. O que quer que seja eu vou ajudar-te a resolver. – Draco tentou mais uma vez que eu parasse de chorar e lhe contasse o que se passava.
Contudo, eu não podia. A minha respiração estava ofegante e eu nem sequer conseguia falar. Mesmo que pudesse, eu nunca lhe poderia contar. Sentia-me como se não fosse forte o suficiente. E só o simples facto do meu olhar se cruzar com o dele fazia-me sentir mais e mais impotente.
Se Draco não tivesse pegado em mim ao colo e me levado para o andar de cima, talvez eu tivesse ficado toda a noite no chão da minha sala a chorar como se não houvesse amanhã. Cuidadosamente, Draco deitou-me na cama e sentou-se ao meu lado, agarrando a minha mão direita. Eram tantas as perguntas que ele tinha para fazer e eu sem lhe poder dar uma única resposta.
Não sei quanto tempo estivemos assim, mas suponho que por várias horas. Draco não saiu da minha beira, pois quando acordei no dia a seguir ele ainda estava ao meu lado. Os olhos dele estavam de uma tonalidade cinza escura que eu nunca tinha visto. Os meus olhos com certeza que estavam vermelhos e inchados do choro incessante da noite anterior. Draco fitou-me com o rosto amargurado, ele estava a sofrer por me ter visto naquele estado. E eu nunca me perdoaria por isso. Fraquejar diante dele só havia piorado as coisas.
- Bom dia. – disse com voz afectada por causa do sono. – Como estás? – perguntou, envolvendo-me num abraço forte.
Levantei o corpo de modo a ficar sentada. Embora não estivesse a chorar, a dor não tinha sido minimizada. Ainda me doía o peito. O medo de perder Draco ainda estava bem presente. Mas eu não fui capaz mais uma vez de lhe dizer nada, apenas sacudi os ombros e esforcei por dar um sorriso. Mas o meu sorriso saiu fraco e afectado pelo que Draco respirou fundo e agarrou nas minhas duas mãos.
- Este teu silêncio está a dar comigo em doido. Por favor, não te posso ver mais sofrer. Diz-me o que se passou… - a voz de Draco estava rouca e eu pude sentir o desespero em cada palavra que ele dizia.
Respirei fundo. Não lhe podia dar as respostas que ele esperava ouvir.
- Draco, eu não quero falar sobre isso.
Draco abriu a boca para protestar mas rapidamente a fechou. De seguida deu um sorriso sarcástico. E eu soube imediatamente que ele estava a pensar que eu não lhe poderia estar a dizer isso. Ele tinha todo o direito de saber por que raio eu estava naquele estado angustiante. Ele era meu namorado e era quase meu dever contar-lhe. Não havia nada que eu pudesse dizer-lhe para ele perceber isso.
Levantou-se de repente e passou as mãos nos cabelos, despenteando-os ainda mais. Virou-se de frente para mim e falou entre os dentes cerrados:
- Se o O'Conner tiver mãozinha nisto…
- Não foi o Nathan. – respondi, calmamente. Aliás, eu estava demasiado calma tendo em conta tudo o que se tinha passado.
Só não queria que Draco se zangasse comigo. Não queria ter o mundo virado de costas para mim. Draco foi em direcção à porta e eu conclui que ele se preparava para ir embora, pois antes tinha pegado no casaco preto que estava em cima da poltrona perto da janela.
- Espera. – pedi com as lágrimas nos olhos. Eu não queria que ele fosse embora. Tinha medo que Lucius aparecesse. Mas como lhe dizer isso?
Draco segurava a porta e continuava de costas para mim. Senti a respiração dele pesada e ele finalmente virou-se de frente para mim. Encarei-o com os olhos cheios de lágrimas contidas.
- Fica – pedi com a voz trémula. – Por favor. – acrescentei quando vi que a expressão de dúvidas dele quando já se tinha virado para trás.
- Vais me contar o que se passa? – perguntou, desviando o olhar. Ele não me podia ver assim, pois não me conseguiria negar nada.
- Eu… eu não posso, Draco. – disse, passando as mãos nos olhos para limpar as lágrimas que teimosamente rolavam na minha face. Se eu pudesse escolher, eu teria escolhido não chorar mais em frente dele. Não queria fraquejar nunca mais. Mas eu não conseguia evitar, era impossível.
- Porquê que eu não posso saber? Diz-me, Hermione. Não somos namorados? Não deveríamos esconder nada um ao outro. – Draco estava completamente revoltado. Eu compreendia o lado dele. Porém, ele nunca conseguiria entender o meu.
- Porque… Draco, tu achas que se eu pudesse não preferia contar-te? Eu amo-te! Dói saber que… esquece! – falei demasiado rápido que quase me descaia. Ouvi a voz de Lucius Malfoy na minha mente a ameaçar-me "Afasta-te dele, Granger". Abanei a cabeça para expulsá-lo da minha mente. – Por favor, tenta entender que não é algo que eu possa mesmo dizer-te.
- Não irias achar estranho se estivéssemos de papéis invertidos? – perguntou ainda furioso.
- Sim. Mas…
- Não há mas, Hermione. Eu gostava de saber o que se passa pela tua boca, mas parece que vou ter de tomar outras medidas. Desculpa. – disse, dirigindo-se em passo apressado para a porta.
- Não vás, por favor. – disse por entre um choro incontrolado. Mas dessa vez Draco não hesitou e saiu pela porta, descendo as escadas com passadas pesadas.
Tive medo que Lucius invadisse a minha casa novamente. Eu tive medo de que ele voltasse, porque ele tinha prometido que ia voltar e eu sabia que ele iria. Com o corpo a tremer dirigi-me ao guarda-vestidos e vesti a primeira roupa que me apareceu: uma saia travada e uma camisa de cetim roxa. Peguei nuns sapatos e calcei-os para de imediato desaparecer do lado de fora da casa. Quando apareci no ministério, já com o choro controlado, dirigi-me de imediato à minha sala.
Pousei a minha mala na secretária e saí para ir beber uma garrafa de água para me acalmar um pouco. Ouvi Josie atrás de mim chamar-me, mas eu simplesmente levantei a mão na direcção dela para que ela esperasse.
- Queria uma garrafa de água. – pedi, pousando a mão a tremer no balcão.
- Miss Granger, está bem? Está muito pálida e está a tremer tanto… - Mrs. Durston parecia-me preocupada. Mas tudo o que eu menos queria no momento era falar com alguém. Por isso, de forma um pouco bruta, respondi:
- Uma garrafa de água, por favor. – a minha mão que estava no balcão subiu para esfregar a minha face.
- Com certeza. – disse, baixando-se para retirar do armário uma garrafa. – Aqui tem.
- Obrigada. – disse, colocando o dinheiro em cima do balcão e pegando na garrafa.
Abri para beber um gole e petrifiquei quando senti uma mão agarrar o meu braço. Virei-me de frente para a pessoa e não podia ter ficado mais surpreendida.
- Mike? Não estava a contar consigo! – o meu tom surpreso era evidente.
- Olá Granger. Mas eu enviei-te uma coruja a informar-te… - disse, confuso.
A carta! Nunca mais me tinha lembrado de ler a carta. Depois de tudo o que se tinha passado eu tinha acabado por me esquecer de ler a carta do primeiro-ministro. Tentei arranjar mentalmente uma desculpa, mas nada.
- Desculpe, Mike, é que tenho andado com a minha cabeça tão cheia…
- … que nem leste a carta. – concluiu com um sorriso meigo. – Não te preocupes. Vamos falar para o escritório. – disse, erguendo uma mão em frente para que eu fosse primeiro.
Durante toda a manhã, embora não estivesse com muita paciência, contei todas as experiências a Mike Mayer. Ele parecia interessadíssimo em tudo o que eu dizia e parecia também contente pelo meu desempenho.
- Eu sabia que te ias desenrascar muito bem, Granger. Parabéns! – disse com um sorriso torto nos lábios.
- Obrigada. – disse simplesmente.
- Granger, passa-se alguma coisa contigo? Estás estranha e os teus olhos estão tão vermelhos que parece que estiveste a chorar!
Eu estive mesmo a chorar.
- Pa-passei mal a noite… foi isso. – disse, meia sem jeito.
- Se precisares de alguma coisa, conta comigo.
- Obrigada, Mayer. Mas está tudo bem.
Quando chegou a hora de ir almoçar encontrei Draco numa das mesas e aproximei-me com o meu tabuleiro. Draco não desviou o olhar do prato, nem mesmo quando eu puxei a cadeira para me sentar.
- Draco…
Mais uma vez ele não disse nada. Estava com o rosto ainda mais pálido do que o normal. E as suas expressões eram vazias. No meu fundo, eu bem sabia que aquilo era tudo preocupação comigo. Culpei-me mentalmente por fazê-lo passar por tudo isto. Eu só não queria que ele sofresse mais, doía-me muito vê-lo assim.
- Draco, nós temos de conversar…
- Sobre o quê? – perguntou com uma expressão sarcástica a assumir-lhe o rosto. – Vais-me finalmente contar o que se passou para eu ter dado contigo naquele estado de amargura?
- Por favor, não te preocupes comigo. – disse com tristeza. – Eu estou bem. – acrescentei com um sorriso triste nos lábios. Ele sabia tão bem quanto eu que era mentira.
- Pede-me tudo, menos isso, Hermione. E sabes porquê? – disse, assumindo um tom de voz um pouco elevado. – Sabes? – perguntou irritado, esperando a minha resposta.
Abanei a cabeça com as lágrimas novamente formarem-se nos meus olhos.
- Porque eu te amo e não posso deixar de me preocupar contigo. Não posso deixar que te façam sofrer, não posso, não entendes isso? – a voz de Draco estava cheia de mágoa. – Já percebi que não entendes isso… Mas se tu não me queres contar o que se passa, então eu vou ter de descobrir sozinho. E garanto-te que vou descobrir! – levantou-se da cadeira e foi-se embora.
Levei as mãos à cabeça e depois esfreguei a cara. Será que algum dia ele seria capaz de me perdoar por isto? Tive vontade de correr atrás dele e contar-lhe tudo sobre Lucius. Mas o medo de fazê-lo sofrer mais fez-me ficar na cadeira a fitar o prato de comida com uma expressão de tristeza e amargura.
Senti-me frágil e vulnerável, como se não fosse capaz de tomar qualquer acção.
