Abri os olhos e a primeira pessoa que me veio ao pensamento foi Draco. Estava bastante mais tranquila por saber que ele estava tão perto e que me bastava gritar para que ele aparecesse e me protegesse. Mas, ao mesmo tempo, um desconforto apoderou-se de mim e eu não pude deixar de me culpar.
Antes de descer, olhei-me ao espelho: os meus olhos estavam inchados e os meus cabelos descuidados. Apanhei o cabelo com um elástico amarelo que tinha no pulso e dirigi-me à casa de banho para passar a cara por água.
Tinha tanto para conversar com Draco. Desci e deixei-me ficar à entrada da cozinha a observar o cenário. Draco, Harry e Ron estavam sentados à mesa a jantar algo que eu não consegui identificar, mas que cheirava deliciosamente bem. Pareciam finalmente estar a conseguir socializar os três. Ron estava sentado de forma descontraída que contrastava com a sua expressão severa na face. Draco estava nitidamente preocupado e Harry tentava descontrai-los, afirmando que eu estava em segurança.
- Mas então parece-vos uma boa ideia? – perguntou Harry que não se tinha apercebido da minha presença.
Bastou-me dar dois passos em frente para que os três ficassem a olhar para mim durante breves segundos constrangedores. Draco levantou-se subitamente da mesa e veio ao meu encontro; Harry virou costas e fingiu – ao que me pareceu – estar a preparar alguma coisa ao balcão e Ron apressou-se em ir buscar uma manta ao sofá e colocou-a nas minhas costas. Não pude evitar me rir com a tentativa de disfarçar desastrada dos três.
- Vou aquecer o empadão para ti, Hermione. – disse Harry, colocando no forno a travessa.
- Cheira muito bem. – disse-lhe a sorrir debilmente.
- A Ginny estava com medo que eu passasse fome. Deixou algumas refeições preparadas. – disse a sorrir, orgulhoso da prevenção da namorada.
- Bem me parecia que não poderia ter sido nenhum dos três a preparar. – disse com o objectivo de aliviar um pouco a tensão.
Ron continuava ao meu lado especado e só se afastou quando Draco me beijou a testa.
- Dormiste bem? – perguntou-me carinhosamente.
- Sim, saber que estavas tão perto tranquilizou-me, Draco. – respondi, observando o seu rosto angelical. Draco sorriu-me em resposta e fez-me sentar à mesa na cadeira vaga ao seu lado.
Ron estava sentado à minha frente e Harry encostado ao balcão à espera que o forno apitasse a avisar que o empadão estava quente.
- Por quanto tempo eu estive a dormir? – perguntei, apenas por curiosidade.
- Cerca de dez horas. – respondeu Ron, fitando o pão que estava pousado na mesa. – Nós já fizemos mais uma refeição e entretanto dormimos um pouco.
- Por Merlin, estava mesmo a precisar de dormir. – constatei, levantando-me em direcção a Harry que me olhava atentamente.
Peguei num copo e enchi com água. Bebi num só gole e durante esses minutos nenhum dos três falou. O silêncio deixava-me deprimida e pedia secretamente que Ron mandasse uma das suas piadas. Mas nada, silêncio absoluto. Até que finalmente o forno interrompeu com um apitar estridente. Harry apressou-se em abrir o forno e com uma luva puxou a travessa e colocou em cima da mesa.
- Ora aqui está…
- Obrigada, estou mesmo com fome.
Harry tomou o cuidado de me colocar a comida no prato e passou-me os talheres para que eu começasse a minha refeição. Os três estavam a observar-me enquanto eu jantava e isso incomodava-me profundamente.
- Vocês estiveram essas dez horas calados? – perguntei, revirando os olhos.
- Claro que não.
- Então porquê que não falam agora? – perguntei quase irritada.
- Ron, vamos levantar a mesa. – disse Harry, referindo-se ao pratos sujos dos três que tinham jantado antes.
Draco também se levantou para ajudar mas Harry impediu-o.
- Conversem um pouco. Acho que estão a precisar.
Sorri para o meu melhor amigo e ao passar os olhos pelo Ron pude ver algumas faíscas saltarem-lhe dos olhos, como se quisesse atingir Draco. Seria difícil Ron conseguir conviver com Draco, mas eu reconhecia o esforço dele.
- Vais-me contar quem te fez esses lanhos? – disse, limpando a boca com o guardanapo.
- É uma longa história e eu gostava que eles também a ouvissem. Aliás, talvez seja mais fácil reviver essa memória, não estou com muita vontade de contar tudo e podem-me faltar pormenores.
- Como estás a pensar fazer isso? O Harry não tem nenhum pensatório por aqui. – disse, comendo mais uma garfada do empadão de Ginny que estava delicioso.
- Eu penso em tudo, Hermione. – disse num tom presunçoso tão Draco Malfoy.
- Trouxeste contigo um pensatório? – perguntei, quase me engasgando com a comida.
Draco consentiu com um acenar de cabeça. Depois passou um dedo levemente perto do meu lábio para me limpar um bocado de comida. Olhámo-nos nos olhos durante instantes e a vontade de estarmos juntos era tanta que se podia ver a léguas de distância. Sentia tanta falta de estar com ele. Há quanto andaria a evitá-lo?
- Tenho tantas saudades tuas, Hermione. – disse baixinho, talvez para que Harry e Ron que estavam na sala não nos ouvissem.
- Eu também, Draco. Nem imaginas o quão difícil tem sido evitar-te. Desculpa-me por tudo…
- Eu prometo que tudo isto vai acabar.
Larguei o garfo que ainda segurava na mão e abracei-o cheia de necessidade física. Precisava de senti-lo e saber que ele era real. E o que quer que estivesse naquela lembrança que iríamos ver não mudaria nada entre nós. Eu sabia que Draco lutaria comigo, inclusive contra o próprio pai. Estremeci com essa ideia.
- Vamos, eu quero que eles também vejam.
Levantámo-nos e fomos juntos para a sala, onde Ron chutava alguma coisa com o pé. Harry olhava para Ron como se quisesse dizer alguma coisa com aquele olhar. E como eu os conhecia tão bem quase poderia jurar que Harry queria dizer "Se dizes alguma coisa eu mato-te!" Pude confirmar quando Ron se virou para Draco e disse:
- Vais ficar aqui esta noite?
- Ron! – exclamou Harry em tom de desaprovação. Não que Harry adorasse a ideia de Draco ficar ali nessa noite, mas pelo simples facto que ainda tinha respeito por mim e sabia que era muito importante que Draco ficasse. Harry conseguia renegar as suas vontades perante as minhas, mas Ron era orgulhoso demais para conseguir fazê-lo. Eu sabia que ele se preocupava muito comigo, mas não conseguia entender a minha relação com Draco. E eu receei nesse momento que ele jamais conseguisse.
- Eu preciso de falar com a Hermione e com vocês os dois também. – disse Draco calmamente.
- Não percebes que não há nada, mas absolutamente nada, que possas dizer? – Ron disse, furioso. - Tu és o culpado! – concluiu, apontando com o dedo indicador em direcção a Draco e com tom acusador.
Draco avançou na direcção dele e levou o braço para trás, fechando a mão, pronto para dar um soco a Ron. Mas Harry apressou-se em colocar-se à frente de Ron.
- Eu nunca quis vê-la sofrer, Weasley. – defendeu-se Draco, apertando demasiado o punho para se controlar.
- Não! – gritei, agarrando o braço de Draco.
- Por favor, respeitem-na! – disse Harry, sem sair da frente de Ron que tentava a todo o custo chegar mais perto de Draco.
Draco rapidamente caiu em si, baixando o braço. Abanou a cabeça, desconcertado por ter perdido a cabeça tão facilmente. Mas eu sabia como Draco se sentia, a dor que sentia por Ron acusá-lo de todo o meu sofrimento. Bem lá no fundo, Draco deveria concordar com Ron, achava que a culpa era toda dele. Quando me fitou depois desse pequeno incidente, Draco pediu desculpas com o olhar e sentou-se no sofá de cabeça baixa.
Estranhamente, antes de me sentar ao lado de Draco, fui ter com Ron e abracei-o. Ron colocou a mão na minha cintura fina e eu beijei-lhe o rosto.
- Ron, por favor… - não precisei de dizer mais nada, porque o meu melhor amigo percebeu e voltou a abraçar-me.
- Desculpa, mas eu não consegui evitar. Mata-me por dentro saber por tudo aquilo que passaste por causa do pai dele… - falou baixo e eu tive a certeza que Draco não conseguiu ouvir.
Harry já estava também sentado no sofá e passeava com o olhar pela sala, como se não a conhecesse. Draco fixava o olhar em nós e eu fui para o lado dele, sorrindo tristemente para Ron.
Ron aproximou-se do sofá e sentou-se no chão à nossa frente.
- O que nos tens para contar? – perguntou Harry que parecia realmente ansioso.
- Eu não vos contei antes, porque queria que a Hermione também estivesse presente. – Draco dirigiu-se até à mala preta de pele que costumava levar todos os dias para o ministério e retirou um pequeno objecto parecido com um pisa-papéis muggle. Colocou-o na mesa de centro que estava do lado esquerdo de Ron e apontou a varinha – Engorgio!
O objecto cresceu até ao seu tamanho normal e foi quando verificamos que se tratava de um pensatório. Ainda em silêncio, Draco encostou a varinha à cabeça e retirou um fio branco luminoso e colocou-o directamente no pensatório e fez sinal para que nós nos aproximássemos.
Retirara a memória a partir do momento em que tinha Aparecido em frente à Mansão Malfoy. Era de noite e a rua era um pouco sinistra, condizendo com o nome da minha Família. Eu tinha apenas vestido uma capa negra e exibia uns sapatos envernizados pretos. Hermione olhou para mim.
- A camisola do Harry fica-te bem. – comentou num sussurro. Baixei a cabeça para fitar a camisola azul escura que tinha vestida no momento.
- Estás a querer dizer que a capa não me fica bem? – rematei em tom de brincadeira.
- Ficas com um ar mais… sinistro. Mas perfeito na mesma. – disse, esboçando o meu sorriso favorito.
Harry revirou os olhos com a constatação da melhor amiga.
A única luz provinha das nossas varinhas e do grande candelabro que decorava a entrada para a minha casa. O Weasley parecia atento a tudo e Harry estava de mãos dadas com a minha namorada, mas isso não me afectou minimamente. Segui-me a mim mesmo, esperando o que ia acontecer.
Apontei a varinha para a porta e murmurei umas palavras que nós não conseguimos ouvir, mas que eu as conhecia bem. Por momentos olhei para Hermione e pude verificar que ela estava atenta a todos os pormenores, todo e qualquer passo que eu tivesse dado era importante para ela. A porta abriu-se e nós continuamos a andar atrás de mim.
Quando finalmente nos encontrávamos no andar de cima, eu olhei para os dois lados, pois tinha ouvido um barulho estranho. Semi-cerrei os olhos, chegando à conclusão de que só poderia ter sido um dos elfos domésticos. Sacudi os ombros e abri uma porta castanha que dava acesso à biblioteca. Harry, Ron, Hermione e eu entramos para a divisão e à medida que eu avançava eles pareciam ter curiosidade em descobrir o que fazia eu naquela divisão cheia de livros e poltronas. As janelas amplas – que no Verão deixavam entrar uma claridade estupenda – estavam fechadas, mas mesmo que estivessem abertas não haveria luz a penetrar pelas janelas. Eu tive a certeza de que na mente de Ron ele perguntava-se qual seria o interesse para eu lhes estar a mostrar esta memória. Hermione aproximou-se de umas estantes poeirentas e analisou com cuidado as lombadas dos livros.
O Draco de capa negra estava em frente a um quadro, onde estavam presentes todos os membros da família. Hermione, que já tinha analisado todos os livros com atenção, estava ao meu lado, olhando para o retrato com o mesmo cuidado. Reparei que quando os olhos de Hermione passaram pela imagem da minha tia Bellatrix faiscaram de raiva. Eu sabia bem porquê e sentia-me tão mal por ela ficar assim quando a via ou mesmo quando o nome dela era mencionado. Bellatrix havia torturado Hermione quando os devoradores da morte apanharam o trio maravilha. Na altura eu ainda não nutria qualquer tipo de sentimento pela Hermione, apenas indiferença. Depois de examinar o quadro, e eu lembro-me que no dia da lembrança estava a pensar em quantas saudades tinha da minha mãe, apontei a varinha para ele e afastei-o com um feitiço de levitação. O quadro saiu das nossas vistas e eu toquei com a varinha e com a mão esquerda na parede dura e áspera. Abriu-se uma passagem e eu peguei num espelho com a altura de Hermione e trouxe-o para o meio da biblioteca.
- É o espelho dos inimigos? – perguntou Hermione, levando a mão livre à boca.
Assenti com a cabeça, eu já sabia que iriam ficar surpresos. Afinal de contas, o espelho dos inimigos era um dos objectos mágicos mais antigos de toda a história da magia. Todos os livros escolares falavam dele, mas nunca sobre o seu funcionamento, pois só existia um e esse pertencia à minha família.
- O espelho de quê? – perguntou Harry, mostrando logo que desconhecia a existência desse objecto. Mas afinal ele era ou não era um feiticeiro?
- Não conheces o espelho dos inimigos? – perguntou Ron, confuso.
- É o único em todo o mundo e foi construído por Alexis Magnum, um famoso feiticeiro do século II, que foi assassinado meses após ter tornado célebre este espelho. Serve para identificar os nossos inimigos mais perigosos e diz-nos também o motivo pela qual essas pessoas se tornaram nossas inimigas. É um tipo de magia muito poderosa. – disse Hermione e eu rapidamente me lembrei da Hermione Granger, sabe-tudo, de Hogwarts. - Desconfia-se que o próprio Voldemort procurou anos a fio por este objecto com o intuito de reunir apenas os servos fiéis e tementes e nunca traidores e espiões. – acrescentou sem quase parar para respirar.
- Aí tens a melhor explicação que te poderiam ter dado… - disse, sorrindo orgulhoso do conhecimento da minha namorada. Ela sim, era uma feiticeira. – Vejam. – disse, apontando para o Draco que se encontrava em frente ao espelho de olhos fechados.
Falava baixinho frases em latim que pediam que me deixasse visualizar o meu inimigo. Eu já sabia que Nathan O'Conner seria um dos primeiros a aparecer… quando abri os olhos constatei que não me tinha enganado. Linhas negras surgiram por cima do reflexo do O'Conner.
- "Nathan O'Conner tornou-se um alvo a abater por se ter aliado a um feiticeiro que deseja a separação de Draco Malfoy e Hermione Granger." – li em voz alta, talvez para tornar mais credível.
A figura de O'Conner desaparecera para dar lugar a outro inimigo: Lucius Malfoy. O meu próprio pai.
- Pai? – perguntou o Draco da lembrança. Não era possível, o meu pai tinha desaparecido há quase dois anos, desde que tinha conseguido escapar a Azkaban. As letras negras voltaram a surgir – "Lucius Malfoy deseja a separação de Draco e Hermione."
- Nathan, chega aqui. Há algo que te quero dar como recompensa. – disse a voz do meu pai, cada vez mais próxima e eu só tive tempo de pegar no espelho e colocar-me dentro da passagem apertada. Murmurei novamente palavras em latim e fiquei fechado lá dentro, deixando os três a olharem para a passagem que agora estava completamente fechada.
Lucius Malfoy entrou acompanhado pelo Nathan e eu tive vontade de matá-lo. Hermione tinha os olhos pousados sobre Nathan com rancor. Ron e Harry estavam ao nosso lado, controlando-se para não se aproximarem do meu pai, embora tivesse o mesmo efeito se o fizessem. Ele era apenas uma memória, nunca lhe poderiam fazer mal assim como eu nunca poderia matar Nathan. Passaram próximos de nós e o meu pai olhava fixamente para o sítio onde deveria estar o quadro. A expressão pensativa indicava-me agora que ele já sabia que eu tinha estado ali. Os elfos não conheciam a passagem nem o que guardávamos ali.
- Eles vão te encontrar? – perguntou Hermione, segurando-me no braço com firmeza.
Não lhe respondi, pois segundos depois o meu pai aproximou-se da passagem e disse:
- O'Conner, parece-me que não estamos sozinhos…
- Não? – perguntou pateticamente Nathan, observando atentamente um objecto dourado que estava pousado numa das prateleiras. Ao que lhe parecia era valioso.
- Draco, o que estás aí a fazer? – o tom que usava era altivo como se estivesse a falar com uma criança de cinco anos.
Lá dentro eu estava de olhos fechados, segurando na varinha com força a mais. O meu pai tocou com a varinha na parede e fez com que ela se abrisse e eu ergui a minha varinha na direcção do Nathan, o meu objectivo era atingi-lo.
- Expelliarmus! – o meu próprio pai desarmou-me em defesa do seu novo aliado, fazendo a minha varinha saltar no ar e cair perto dos pés de Harry.. O rancor subiu-me pelo corpo, deixando as minhas bochechas visivelmente avermelhadas.
- Podes me explicar o que se passa aqui? – perguntei, endireitando as costas numa posição severa.
- Diz-me tu o que fazes aqui… - o meu pai puxou uma cadeira para se sentar. – Não devias de estar com a sangue de lama?
Tive exactamente os mesmos sentimentos que senti da primeira vez que ele tinha dito aquilo. Odiei-o por ele chamar sangue de lama à Hermione e eu percebi que Harry e Ron não mexeram um músculo por saberem que era apenas uma lembrança.
- Não falas assim dela! – gritei, cerrando um punho.
- Por que não? Não era assim que a tratavas quando andavam em Hogwarts?
- As coisas mudaram… Eu estou com ela, porque a amo e o facto de ela não ser filha de feiticeiros agora não me diz absolutamente nada.
- Quem diria que aquele furacão… - O'Conner falou, mas rapidamente foi interrompido por um soco meu.
Hermione levou as mãos à boca e levou-as para a cabeça quando viu Nathan levantar-se, limpar o sangue à manga da camisa e atirar-se para cima de mim pronto para se defender.
- Chega! – gritou Lucius já de pé.
- Draco, estou tão desiludido contigo… - disse, simulando um tom de desilusão.
- O que é que vocês lhe fizeram? – perguntei, sentindo um ardor na ferida que Nathan me tinha feito perto do lábio. – Ela anda estranha e eu sei que vocês estão metidos nisso…
- Não lhe dei alternativa. Se a vossa relação não terminar, eu vou ter de tomar uma alternativa drástica. Não vou ser bondoso, Draco. – Lucius Malfoy falou como se estivesse a dar uma ordem ao Draco que frequentou Hogwarts e realizava todos os pedidos e ordens dele. Esse tempo tinha terminado há muitos anos. Mas o meu pai não parecia estar a perceber isso.
Virou-me as costas e saiu, arrastando no chão a sua capa negra velha e gasta que não vestiria noutros tempos. Nathan preparou-se para segui-lo, mas eu agarrei-o pelo braço.
- Ela acreditou em ti… mas eu tinha-lhe avisado que tu não eras de confiança, O'Conner. – falei em tom grave.
- Acreditou porque é uma idiota. Foi fácil de mais tê-la na minha mão. Sabes mais uma coisa? Aposto que se me dessem mais dois dias com a Granger, ela acabaria sendo minha. – Nathan falou como se acreditasse mesmo no que dizia. – Cá entre nós, eu não me importava nada de fazer alguma coisa com ela. – falou em tom baixo como se estivesse a contar um segredo a um amigo íntimo.
- É desta que eu te mato, seu reles. – ameacei, levando a minha mão fechada novamente à cara dele. Nathan caiu no chão e eu tive tempo de apanhar a minha varinha e apontá-la a ele. – Stupefy! – uma luz saiu da minha varinha atingindo-o directamente na nuca.
Nathan parecia quase inconsciente no chão e jorrava sangue da cabeça. Contudo, eu não me importei muito com isso, pois estava cego de raiva. Não admitia que ele falasse da Hermione daquela maneira. Dei dois passos e tinha Nathan aos meus pés a olhar-me com dificuldade. Ainda estaria a ver desfocado devido ao Stupefy? Baixei-me e com a varinha encostada ao pescoço dele, disse:
- Ouve bem, O'Conner, não te aproximes mais da Hermione. Nem mais um passo, percebeste?
Examinei-lhe bem o rosto e apesar de vê-lo contorcido em dor não senti pena nenhuma. Por isso, levantei-me e ainda o encarando com raiva dei-lhe um pontapé na barriga. Nathan gemeu de dor e agarrou-se à própria barriga. Hermione protestou ao meu lado, chamando-me em voz baixa, desapontada. Virei costas a Nathan e preparei para fechar a passagem secreta e colocar o quadro no local certo. Contudo, agora eu podia ver como tinha acontecido, Nathan rastejou no chão, conseguindo apanhar a varinha.
- Atordoar! – o feitiço atingiu-me e eu cai ao chão, batendo com as costas num som estridente. Nathan aproveitou o momento e desmaterializou-se.
. Fomos quase que puxados para cima quando a lembrança de Draco chegou ao fim. Quando demos por nós já estávamos sentados no sofá e Ron no chão exactamente onde estávamos minutos antes.
- O teu pai foi-se embora sem dizer mais nada?
- Sim, depois fui ao ministério e encontrei-te. Precisava de saber como a Hermione estava. – disse, falando directamente para Ron. – Não sabia se eles se tinham ido vingar em ti. – continuou, dirigindo dessa vez o olhar para mim. – Porquê que nunca me disseste nada? Teria sido muito mais fácil se tivéssemos passado por tudo isto juntos.
- Eu não queria que vocês se preocupassem comigo, principalmente tu Draco. Afinal de contas, o Lucius é teu pai.
- E tu és minha namorada, Hermione. – contestou, levantando ligeiramente a voz rouca. – Eu teria feito qualquer coisa para te proteger dele… eu sei que muitas vezes ele se torna num monstro.
- Tenta compreender, Draco. – quase que berrei por causa dos nervos.
Harry e Ron pareceram se sentir a mais, pois levantaram-se.
- Nós estamos lá em cima. Se precisarem de alguma coisa… - disse Harry já nas escadas.
Assenti com a cabeça, agradecendo por nos darem espaço. Era uma conversa que precisava de ter só com Draco.
- Andaste a evitar-me este tempo todo… fizeste-me de burro…
- Não, não fiz. Draco, por Merlin, põe-te no meu lugar.
- Devias ter confiado em mim.
Draco estava sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos e eu estava de pé, esperando que ele me encarasse. No fundo eu já sabia que iria magoá-lo de qualquer das formas. Se lhe tivesse dito logo, teria sido difícil para ele aceitar que o pai não passava de um sacana. Contudo, agora ele estava na mesma magoado e a achar que eu não confiava nele.
Draco, ouve… - baixei-me e agarrei-o pelos pulsos levemente. – Eu amo-te!
- Isso não justifica nada. – disse asperamente.
Fiz com que ele me encarasse. Maldita a hora! Fitar aqueles olhos cinzentos matava-me por dentro. Eu queria tanto que ele me perdoasse. Doeu-lhe tanto a ele como a mim, pois segundos após fitar o meu olhar, Draco desviou e ficou a olhar fixamente para as suas próprias mãos. As lágrimas começaram a rolar-me pela face e como não queria que ele me visse chorar, levantei-me e dirigi-me até à janela. Afastei a cortina e apreciei a escuridão pouco convidativa do lado de fora. Esforcei-me ao máximo para não deixar escapar nenhum soluço, mas tornava-se cada vez mais difícil abafar o choro. Um minuto depois, senti a respiração fresca de Draco no meu pescoço. Beijou-me o pescoço e girou o meu corpo a fim de que eu ficasse de frente para ele. Abraçou-me fortemente e pediu desculpa num sussurro ao meu ouvido. Arrepiei-me ao ouvir a voz dele.
- Estou a ser injusto contigo. – disse, agarrando-me nas mãos. – No teu lugar, talvez também preferisse não te contar. Desculpa, mas saber que o meu pai nos quis separar deixou-me maluco.
- Draco, há outra coisa que precisas de saber. – disse, limpando as lágrimas à manga.
- O que é que ele fez? – perguntou, despenteando o cabelo loiro, nem sequer imaginando o que eu diria seguidamente.
- Ele… tentou… fazer coisas comigo da última vez. – era tão difícil ter de lhe contar.
- Ele violou-te? – perguntou, exaltado, a fúria patente na voz.
- Não, ele não chegou a fazer nada, porque eu consegui fugir a tempo. – disse, afastando essas memórias da minha cabeça.
- Eu não posso acreditar. O meu pai é um nojento! – disse, dando um murro com a mão na palma esquerda. – Nós temos de fazer alguma coisa.
Seguiram-se alguns minutos de silêncio. Eu sentia que era quem deveria quebrar o silêncio. Por isso, aproximei-me de Draco que já estava de pé e abracei-o. Draco correspondeu, afagando os meus cabelos volumosos.
- És capaz de me perdoar, Draco? – perguntei tão baixo que não tinha a certeza que ele conseguira ouvir.
- E tu és capaz de me perdoar a mim? – respondeu-me com uma pergunta.
Afastei-me ligeiramente para o encarar.
- Eu amo-te e só quero ficar de bem contigo.
- Eu também. – disse, voltando a abraçar-me. – Temos de resolver isto o mais depressa possível. Vamos chamá-los… - disse, apontando com o queixo para o quarto onde estavam Harry e Ron.
Dirigimo-nos até ao quarto. Bati levemente à porta e ouvimos um "Entre" grosseiro por parte de Ron. Deparamo-nos com Harry encostado ao guarda-vestidos e Ron sentado numa cadeira que estava em frente à secretária.
- Temos de delinear um plano. – disse Draco, sentindo-se completamente à vontade para se sentar na beira da cama.
Eu permaneci de pé à espera da resposta dos meus amigos.
- Claro que temos. O teu pai não pode sair impune… - começou Ron, tirando-me logo do sério. Seria impossível que ele conseguisse ser uma vez agradável com o meu namorado?
- Nem eu queria que isso acontecesse, Weasley. – disse Draco, encarando-o.
- Vamos pensar então no que é importante… - Harry tentou levar a conversa para o rumo certo. – Onde vamos encontrá-lo? Achas que é provável que esteja em tua casa?
- Não, supostamente ele estava fora da Inglaterra.
- Eu acho que sei onde o podemos encontrar. – disse-lhes e os três olharam para mim atentamente à espera que eu revelasse o local – Em minha casa. – disse simplesmente.
- Achas que ele vai lá?
- Eu tenho a certeza que ele tem ido lá. Prometeu que as visitas não terminariam enquanto eu não acabasse contigo. – continuei, engolindo em seco.
- Então temos de lhe preparar uma emboscada. – Ron falou pela primeira vez com entusiasmo, adorando a ideia de encurralar Lucius Malfoy e finalmente vingar-se.
- Mas há um pequeno problema. Não vamos conseguir Aparecer lá, porque ele colocou feitiços anti-aparição por toda a casa.
- Vamos todos contigo pela porta, Hermione. – disse Harry como se fosse óbvio.
- E se o Lucius está lá? Estragávamos tudo! – respondi, usando o mesmo tom que ele. – Só se eu subisse e depois de algum sinal meu vocês subiam.
- Nem penses que vais sozinha. – disse Draco, protestando. A ideia de ir sozinha enfrentar Lucius não me agradava muito. Contudo, parecia-me ser a única solução possível. – Nunca se sabe quais são as ideias do meu pai. E se ele te leva para outro sítio? Como é que te vamos encontrar? Não, nem penses, Hermione. – Draco falava alto e estava de pé a andar de um lado para o outro, agitando a cabeça.
- Eu concordo com o Malfoy. Nunca se sabe os planos do Lucius. – disse Harry.
- Eles têm razão. – acabou por concordar Ron, reduzindo-me a minha hipótese de protestar.
Ninguém respondeu e ficamos todos pensativos.
- Harry, a tua capa. – disse Ron espontaneamente.
Eu e Harry trocamos olhares cúmplices com Ron.
- Isso, Ron! – concordei, entusiasmada.
- Capa? – Draco perguntou um pouco perdido na conversa.
- Um manto de invisibilidade pode dar bastante jeito… - disse Harry, respondendo indirectamente à questão de Draco.
Na minha mente já tinha o plano traçado. Assim, nenhum de nós correria riscos, inclusive eu. Sentei-me perto de Draco, pronta para começarmos a estudar o nosso plano de acção. Ele parecia agora mais esclarecido em relação ao manto de invisibilidade e a nossa cumplicidade era agora partilhada com ele.
