Antes de mais quero pedir desculpa pela demora. Este capítulo não foi revisado e por isso desculpem por qualquer erro :)
Obrigada a quem lê e comenta *.*
Este é o penúltimo capítulo... o último está a ser escrito, vai ser um género de epílogo. Mas ainda não consegui terminar porque estou com uma crise de inspiração!


A sugestão de Ron era com certeza muito boa. Apesar de que o facto de me imaginar novamente frente a frente com Lucius deixava o meu coração com os batimentos cardíacos acelerados. Quereria ele vingar-se em mim por Draco ter descoberto? Tentaria acabar o que começara da última vez? As dúvidas apoderaram-se de mim e a minha posição rígida e desconfortável pareceu atrair as atenções novamente para mim.

- Está tudo bem, Hermione? – perguntou Harry, desconfiado.

- Sim, está tudo bem. – disse com um sorriso forçado.

- Então como vamos fazer? – Draco tentava colocar-se a par da situação.

- Um de nós vai com a Hermione debaixo do manto de invisibilidade…

- E os outros? – perguntou Draco.

- Esperam lá em baixo até sinal para subirem.

- Quem é que vai com a Hermione? – perguntou Ron, excluindo-se automaticamente da lista.

Ron era demasiado impulsivo para se aguentar debaixo daquele manto.

- Se vocês não se importarem eu gostava de ir. Além disso, eu acho que consigo desfazer os feitiços que o meu pai lançou na casa da Hermione. – disse Draco pouco à vontade.

- Sem qualquer problema, Malfoy. Desfazes os feitiços anti-aparição… nós vamos tentando entrar.

- Parece-me uma óptima ideia. – disse Draco a sorrir. – Ele costuma ir sozinho?

- Sim, de todas as vezes que lá foi. – respondi, preocupada com o facto de ser Draco a acompanhar-me. Era óbvio que eu me sentia mais protegida com ele, mas tinha medo que ele não aguentasse debaixo do manto. Às vezes ele parecia não ser menos impulsivo que Ron.

- Então e se ele não estiver lá?

Eu tinha a certeza que ele estaria lá.

- Só nos resta esperar… - disse Ron. – Vamos quando precisamente?

- Amanhã à noite. – foi a vez de Harry responder.

A conversa parecia ter terminado e, por isso, eu interrompi o silêncio:

- Harry, achas que podia usar a tua banheira? – perguntei, ansiando por um banho quente.

- Claro que sim, Hermione. Estás à vontade. Tens roupas da Ginny para trocares, tenho a certeza de que ela não se importaria.

- Obrigada.

Harry, Ron e Draco enquanto esperavam que eu acabasse de tomar banho estavam sentados no sofá a assistir a um jogo de basebol. Ron resmungava e lembrava constantemente que o quidditch era um desporto bastante mais interessante. Draco estava especialmente atento, pois não conhecia o desporto e muito menos aquele aparelho que o transmitia – a televisão.

Sempre que eu estava sozinha lembrava-me do perigo que envolvia levá-los até Lucius. Este sempre se revelara uma péssima pessoa, capaz de usar as maldições imperdoáveis. Mais uma vez me culpei por estar a envolver os meus melhores amigos nesta emboscada a Lucius. Fechei os olhos, enquanto a água tépida percorria as minhas costas. Vi novamente o pai de Draco aproximar-se de mim… aquela fúria misturada com desejo estavam patentes no olhar dele. Abri os olhos, afastando a imagem de mim. Enrolei-me na toalha e sequei-me. Vesti umas calças da Ginny que me ficavam um pouco largas nas pernas e uma camisola de lã cor-de-rosa feita por Mrs. Weasley. Senti-me confortável e limpa com aquelas roupas.

- Estão a ver televisão? – perguntei, entusiasmada.

- O quê? – perguntou Draco confuso.

- Isto… - apontei para a televisão – chama-se televisão. E o jogo que está a dar na televisão…

- Chama-se basebol, já sei. – disse Draco contente.

Harry riu-se da conversa estúpida que estávamos a ter. Eu ainda estava de pé e Draco, sem que Ron ou Harry vissem, fez-me sinal com a cabeça para irmos para o quarto com um meio sorriso nos lábios, aquele que eu já sabia o que significava.

- Rapazes, espero que vocês não se importem que eu roube o Draco por momentos… eu queria falar com ele. – disse, sem saber bem o que estava a dizer, pois o sorriso de Draco tinha-me desconcertado e eu sabia que eles já podiam ouvir o meu coração a bater tão ansiosamente para estar com ele.

- Claro, estejam à vontade. – limitou-se a responder Harry, sem desviar os olhos do ecrã.

Ron nem ao menos dirigiu o olhar a mim. Draco levantou-se desajeitadamente, dirigindo-se a mim com alguma ansiedade expressa no rosto. Percorremos a curta distância até ao quarto em silêncio absoluto.

Quando entramos no quarto, aproximei-me da janela e fiquei a fitar a escuridão.

- Hermione… - a voz rouca de Draco fez acentuar o medo que alguma coisa lhe acontecesse na noite seguinte.

Fechei os olhos com força como se isso afastasse o que eu estava a sentir. Quando ganhei coragem, abri os olhos e virei-me para encarar Draco. Estava perfeito com o ombro encostado à parede e de braços cruzados, salientando os músculos. Respirei fundo e aproximei-me de Draco. Os nossos corpos estavam quase colados e eu podia sentir a respiração um tanto descontrolada dele. Mas a minha estava mil vezes pior, estava ofegante.

- Há alguma coisa que me queiras dizer? – perguntou num sussurro.

- Eu tenho medo, Draco…

- Não precisas de ter medo. Eu vou estar lá contigo… - disse, passando a mão carinhosamente na minha face.

- Não é isso… eu tenho medo que te aconteça alguma coisa a ti.

- Não estejas preocupada comigo. Nem comigo nem com ninguém. Vai tudo correr bem. – garantiu-me com um sorriso fraco.

- Não sei… o teu pai… ele é capaz de fazer muitas coisas más. – disse hesitante. – Promete-me que vais ficar debaixo do manto até o Harry e o Ron conseguirem entrar?

Draco sacudiu a cabeça. Nem ele próprio acreditava que se conseguiria controlar e esperar por Harry e Ron, vendo o pai fazer qualquer coisa.

- Vamos esquecer isso por uns momentos… - pediu Draco, desencostando-se da parede e passando a mão pelo cabelo.

- Promete, Draco Malfoy. – pedi, impedindo as lágrimas se formarem nos olhos.

- Eu prometo, Hermione. Estás satisfeita? – falou em tom rude, sentando-se na beira da cama.

A mistura de sentimentos que estava a sentir naquele momento estava-me a dar vontade de gritar. Era uma mistura de sentimentos de extrema preocupação e de vontade de estar com Draco e esquecer tudo por uma noite. Desejava tanto ter um momento irracional e selvagem. Mas à medida que me aproximava ainda mais de Draco parecia perder as forças. Só tive certezas quando Draco olhou para mim e os olhos cinzentos cruzaram-se com os meus. Li-lhe o desejo e aí pude constatar que aquele sorriso que ele dera na sala não fora em vão. Ele desejava-me tanto quanto eu o desejava a ele.

Draco costumava ser mais irracional que eu. Tive a plena certeza disso quando Draco se pôs de pé e sem desviar por um segundo o olhar, pegou-me na mão.

- Anda cá, deixa-me beijar-te – chamou-me em voz baixa.

Eu não disse nada, apenas fiquei a observá-lo. Draco colocou a mão direita na minha face, passeando com o polegar nos meus lábios. O olhar dele estava fixo na minha boca, enquanto eu mordia ao de leve o meu lábio inferior. O desejo dentro do meu peito estava prestes a explodir. Apertei-lhe a mão que estava solta, evidenciando esse desejo. Draco não esperou mais um segundo, depois de saber que eu também queria, pressionou os lábios frios contra os meus e aprofundou o beijo com a língua. Explorou a minha boca como se fosse a primeira vez - ou a última - que me beijava.

A minha mão rapidamente subiu para as costas dele, pressionando-o fortemente contra mim. Draco começou a beijar-me o pescoço de forma selvagem e seguidamente fez-me deitar sobre a cama. Tirou a camisola, ficando com o peito nu à mostra. Levantei-me ligeiramente para lhe beijar o peito que estava tão quente que me fazia arder a garganta. As minhas mãos percorriam todo o corpo dele e acompanharam as mãos dele quando estas me retiraram a camisola de lã que tinha vestida, deixando à vista o soutien preto rendado de Ginny que me ficava um pouco apertado. Draco tirou-me o soutien enquanto me beijava os ombros, deixando os meus seios colados ao peito dele. Ambos tínhamos a respiração ofegante. Desapertei-lhe as calças e rapidamente ele as atirou para um canto do quarto, ficando só com os boxers vestidos. Fi-lo encostar-se ao guarda-vestidos e tirei as calças que tinha ainda vestidas. Draco puxou-me pela cintura para perto dele e agarrou de cada um dos lados as tiras das cuecas. Sorriu maliciosamente e atirou-me com cuidado para cima da cama. Colocou-se por cima de mim e tirou-me a única peça de roupa que eu ainda vestia. Seguidamente tirou os boxers e deitou-se por cima de mim.

Rebolei-me de modo a ficar eu por cima dele e beijei-o desesperadamente, ainda mais do que cerca de dez minutos antes. Momentos depois os nossos corpos suados moviam-se em perfeita sintonia. Draco respirava ao meu ouvido, deixando-me ainda mais fora de mim.

Já há muito que precisávamos de um momento assim. Quando atingimos o ponto clímax em conjunto, deixei-me ficar deitada em cima de Draco, a cabeça pousada sobre o peito nu dele.

- Já tinha saudades… - disse, enquanto Draco me afagava os cabelos ainda um pouco húmidos.

- Eu também! Já não podia olhar para ti sem sentir um desejo enorme de ter assim comigo… - confessou, beijando-me a testa.

Levantei ligeiramente a cabeça para o encarar.

- Amo-te tanto! – disse, beijando-o de seguida, sem que ele tivesse tempo para responder.

Não me lembrava de ter adormecido tão rápido nos últimos dias. Quando eu e Draco acordamos já era hora de almoço e alguém batia à porta insistentemente. Enrolei os lençóis ao meu corpo e Draco vestiu os boxers que estavam no chão. Ron entrou no quarto à quarta tentativa.

- O Harry e eu já preparamos… - começou Ron, olhando em volta do quarto: as roupas no chão, Draco só com os boxers vestidos e finalmente eu enrolada num lençol. – Eu já percebi! Estamos à vossa espera. – disse, batendo com a porta.

Encolhi-me ao ouvir o barulho estridente da porta a bater.

- Foi um bocado mau… - disse Draco, sem deixar de lado aquele sorriso malicioso.

- Foi péssimo, Draco! Deixa-me vestir… - pedi, quando me encontrei novamente envolvida naqueles braços fortes. – Vá lá, eles estão à nossa espera.

Porém, Draco fingia não ouvir e já estávamos os dois novamente deitados na cama. Beijava-me carinhosamente e fazia-me festas na cara.

- Não podemos simplesmente ficar assim para sempre?

- Adoro a ideia… mas… penso que não seja possível. – confessei, voltando a beijá-lo.

Depois saí da cama e comecei a vestir-me. Draco seguiu-me o exemplo quando já só me faltava vestir a camisola. Estava prestes a abrir a porta quando Draco me puxou pelo braço. Encostou a testa dele à minha e disse:

- Obrigada… por todos os momentos de felicidade que me dás. Eu amo-te! – disse, abraçando-me. – E aconteça o que acontecer logo à noite, nós vamos ficar juntos, Hermione. O meu pai jamais nos poderá separar.

- Eu sei disso tudo, Draco. – respondi-lhe com um sorriso. – Eu também te amo. – disse, passando o dedo indicador na ponta do nariz dele. – Muito.

Quando chegamos à cozinha o almoço já estava pronto. Harry e Ron pareciam ter-se esmerado… ou seria mais uma refeição pré-preparada por Ginny?

- Espero que gostem de bacalhau com natas.

- Sim, obrigada Harry. – disse, já sentada à mesa com Draco ao meu lado.

Durante o almoço falamos sobre como seria a emboscada. Estávamos todos preparados e isso era o mais importante.

- Eu só espero que o Crookshanks esteja bem.

- Não te preocupes com ele, de certeza que se safa bem sem ti. – comentou Ron.

- Ele tem bons esconderijos em casa, às vezes nem eu sei onde ele anda. – disse, confiante que Crookshanks estaria num desses esconderijos.

A tarde passou lentamente, talvez por estar ansiosa demais. Os rapazes também estavam, principalmente Ron que parecia estar com sede de vingança. Queria trocar umas palavrinhas com ele e quando Ron foi à cozinha com o pretexto de beber água, eu fui atrás dele.

- Eu venho já. – disse a Harry e a Draco.

Senti os olhos de Draco presos em mim para ver onde eu me dirigia. Quando cheguei à cozinha Ron estava com as mãos na banca, abanando inúmeras vezes com a cabeça.

- Está tudo bem, Ron? – perguntei, chegando mais perto dele.

- C'os diabos, Hermione! Assustaste-me… está tudo bem… - sobressaltou-se e virou-se de frente para mim.

Coloquei-me em frente a ele e sorri-lhe.

- Vai correr tudo bem logo, certo, Ron? – perguntei, agarrando-lhe a mão que estava quente.

- Sim… ele não te vai tocar com um dedo que seja enquanto eu estiver por perto.

- Ron, eu queria-te pedir uma coisa… - comecei um pouco hesitante. – Tem a ver com o Draco.

- Eu já sabia, Hermione, agora tudo bem a ver com ele, não é? – perguntou irritado. – Mas agora o teu mundo gira à volta dele, é? – Ron estava a ser rude e eu não me queria chatear com ele. Levei o meu dedo indicador aos lábios dele para o calar.

- Ouve, Ron, eu sei que é difícil, mas é importante para mim que o aceites…

- Ele foi nosso inimigo durante anos… como conseguiste esquecer tudo o que ele te fez? – Ron falava em tom baixo.

- Não escolhemos quem amamos, Ron. Tu sabes bem disso! Quando te apaixonaste pela Lavender Brown fizeste com que isso acontecesse? Na altura eu gostava de ti, Ron, mas tu preferiste ver-me sofrer… eu gostava tanto de ti… e tu despedaçavas-me o coração quando andavas com as outras miúdas por quem te apaixonaste. Será que eu te posso culpar por isso? Por não te teres apaixonado por mim?

- Não compares, Hermione! – disse Ron, constrangido por eu estar a dizer que tinha gostado dele.

- Comparo sim, Ronald Weasley! – disse num berro, sabendo que tanto Harry como Draco tinham ouvido. – Será que custa assim tanto dares-te razoavelmente bem com o Draco? Eu amo-o… - voltei ao meu tom normal.

- Eu já sei que o amas, porra, Hermione! – Ron estava furioso e voltou a virar-se de costas para mim.

Pensei que agora que ele estava com Luna já me tivesse esquecido. Contudo, depois dessa conversa fiquei com algumas dúvidas. Mas Ron rapidamente as dissipou:

- Eu ainda gosto de ti…

- Então não deverias estar com a Luna. – disse, tentando manter-me serena.

- Quero dizer, eu acho que ainda mexes comigo de alguma maneira. – disse, hesitante. - Tu já… não sentes nada por mim? – Ron perguntou, ainda sem me encarar.

- Tu és o meu melhor amigo.

Ron virou-se de frente para mim e abraçou-me.

- Eu prometo que vou tentar. – sussurrou ao meu ouvido, ainda a apertar-me as costelas com muita força.

- Obrigada pelo esforço. – agradeci, soltando-me do abraço.

Voltamos juntos para a sala. Durante o resto da tarde mal olhávamos um para o outro e poucas palavras foram as que trocamos. Evitei estar muito agarrada a Draco, pois sabia que isso magoaria o Ron. Mais tarde ou mais cedo ele iria esquecer-me. Tinha uma excelente mulher com ele, Luna Lovegood, era uma questão de tempo. Além disso, ele não tinha dito que não gostava de Luna, apenas que eu ainda mexia com os sentimentos dele.

Já eram quase nove da noite quando Harry passou o manto de invisibilidade para as mãos de Draco. Tínhamos decidido desmaterializarmo-nos em frente ao ministério e iríamos o resto do caminho até minha casa a pé. Agora que estávamos a chegar perto de minha casa, o medo começava a apoderar-se novamente de mim. Draco já estava invisível debaixo do manto e eu sentia a presença dele mesmo atrás de mim. Harry e Ron caminhavam em passos ligeiros, mas firmes, um pouco mais à minha frente.

- Malfoy, a primeira coisa a fazer é retirar os feitiços anti-aparição. De qualquer das formas, eu e o Ron vamos desmaterializar-nos no andar de cima.

- Tudo bem, não se preocupem. No caso de alguma coisa correr mal, envio luzes vermelhas de alerta pela janela. – disse a voz de Draco vindo do ar, algures do meu lado direito.

- Combinado. – disse Harry, fitando o vazio.

Aproximou-se de mim e beijou-me a testa. Ron abraçou-me com sentimento de culpa por termos estado a discutir horas atrás. Apesar de termos resolvido o pequeno atrito, Ron ainda se sentia assim, eu sabia disso.

- Vai tudo correr bem. – disse Ron, ajeitando o casaco.

- Eu sei que sim. – disse, esforçando-me por dar um sorriso apesar de todos os nervos que sentia.

Eu e Draco subimos as escadas até à porta de minha casa num silêncio aterrorizante. Era ainda mais por não poder ver Draco mesmo ao meu lado. Senti um arrepio percorrer-me a espinha ao pensar que teria de enfrentar Lucius mais uma vez. Mas eu seria capaz, se Draco estivesse mesmo ali, pois sentia-me protegida. Draco deve-me ter visto fechar os olhos com força enquanto pedia a Merlin que nenhum deles os três saísse magoado, porque quando estávamos no penúltimo lance de escadas colocou-se à minha frente e destapou-se do manto.

- Não quero ser repetitivo, Hermione, mas podes ter a certeza que vai correr tudo bem. – a voz estava rouca e deixava-me maluca em qualquer circunstância, mesmo com o medo à flor da pele. – Confias em mim?

- É claro que confio. Só não quero que ninguém saia magoado…

- É bom que confies em mim. – disse Draco num tom misto de presunção e orgulho. O sorriso torto nos lábios.

- Agora tapa-te! – disse de forma autoritária, soltando uma gargalhada nervosa.

Draco obedeceu-me e ficou novamente invisível. Antes de colocar a chave na fechadura, observei a porta com atenção e vi escrito em letras maiúsculas "SANGUE DE LAMA". Estremeci e senti a mão de Draco me segurar no pulso.

- Prometo que ele vai pagá-las! – sussurrou perto do meu ouvido, fazendo com que o meu corpo ainda estremecesse mais.

Rodei a chave na porta e entrei na sala que estava desarrumada. Eu sabia que da última vez que tinha lá estado não estava assim. A taça com que eu me tinha defendido de Lucius continuava no chão partida em cacos. Tirei a varinha do casaco e apontei em frente.

- Homenum reve…

- Há humanos nesta casa, Granger. – disse Lucius, interrompendo o meu feitiço para detectar se estavam mais humanos além de mim e de Draco.

Não me assustei propriamente, pois já contava com a presença dele. Lucius surgiu no fundo da sala. Vestia uma camisa branca de mangas arregaçadas que estava suja e umas calças clássicas pretas. O cabelo loiro puxado para trás e tinha um bastão preto como auxiliar de marcha.

- Com que então foste contar ao Draco…

- O Draco terminou tudo comigo. Penso que poderá ficar feliz agora. – disse, sem saber bem onde tinha ido arranjar a desculpa.

- E estás à espera que eu acredite em ti, idiota? – as palavras ásperas de Lucius magoaram-me quase tanto como o bastão que bateu no meu braço esquerdo.

- Eu estou a dizer a verdade, juro! – gritei, sentada no chão, protegendo o braço que fora atingido.

Draco já deveria estar a desfazer os feitiços e eu agradeci por ele se estar a controlar debaixo do manto.

- Cala-te, sangue de lama. Não prestas… muito menos para o meu filho. – Lucius olhava-me de cima com desprezo.

A minha varinha estava no meu colo. Lucius agachou-se à minha frente e fitando os meus olhos, aproximou o rosto envelhecido mas ainda assim bonito. De seguida, com uma mão apertou-me a cara e de certeza que ele viu os meus olhos encherem-se de lágrimas, pois soltou-me com brusquidão entre gargalhadas.

- És ridícula, Granger.

- Eu odeio-o! – disse cheia de ira.

Fechei os olhos quando vi a mão de Lucius se erguer e me esbofetear a cara. Não soltei um gemido, não lhe daria esse prazer. Senti sangue no canto do lábio e passei lá com a língua discretamente.

- Não sabes o gozo que isso me dá, pois não? – perguntou, puxando-me pelo braço para de seguida me atirar para o sofá.

As minhas costas bateram no braço do sofá e eu não pude evitar gritar com a dor. Tinha dores por todo o corpo. Lucius voltou a dar as suas gargalhadas sonoras e aterradoras. Aproximou-se de mim em passos lentos e ameaçadores. Eu reconheci no olhar dele desejo. Sustive a respiração por segundos e rezei para que Draco já tivesse conseguido tirar os feitiços anti-aparição. Eu precisava deles, agora. Estava com medo do que Lucius iria fazer.

- Sabes o que tenho vontade de fazer agora, Granger? – perguntou, esperando mesmo por uma resposta da minha parte.

Sem conseguir dizer uma única palavra, abanei com a cabeça negativamente, as lágrimas a escorrerem-me pela face.

- Matar-te. – sussurrou. – Tenho vontade de te matar, mas antes disso de fazer outras coisas contigo. Ver a tua cara de desespero e de suplica enquanto eu me divirto às custas disso… - aquela maldade toda patente na voz dele era real. Eu sabia disso.

- Nem penses! – gritou Draco, retirando o manto com brusquidão, a varinha apontada para Lucius.

Lucius preparou-se para dar com o bastão em Draco, mas este foi mais rápido:

- Stupefy! – Lucius caiu no chão.

Draco estava vermelho de irritação. Estava furioso e nem sequer olhava para mim. Mantinha a varinha erguida, pronto para o atacar novamente. Nesse momento Ron e Harry apareceram na sala com as varinhas a postos. Contudo, não apareceram sozinhos. Nathan O'Conner estava com eles e apontava a varinha para Draco.

- Ora, ora… parece que não vieste sozinho, Draco. – Lucius já estava de pé.

- Nem tu – disse Draco, fitando Nathan com ódio.

Mas não tinha tanto ódio como eu. Ron não esperou que contássemos até três para começar a lançar feitiços tanto para Lucius como para Nathan.

- Everte statum! – gritou Ron, fazendo Lucius ser projectado contra o móvel da sala.

Draco dirigiu-se até mim e ajudou-me a levantar do sofá. Peguei na minha varinha e lancei "Stupefy!" para Lucius. Nathan lançou-me um feitiço para atordoar, fazendo-me cair no chão.

- Incarcerous! – exclamou Nathan com a varinha apontada para Draco. Lucius que já estava de pé lançou o mesmo feitiço para Harry.

Harry e Draco ficaram presos por cordas. O esforço para se libertarem era em vão, pois não conseguiam. Ron lançou um feitiço a Lucius que caiu ao chão inconsciente. Mas imediatamente uma luz saiu da varinha de Nathan que acabava de lançar o feitiço das cordas para Ron. O meu amigo tentou debater-se mas as cordas apertaram ainda mais os pulsos dele e os tornozelos, deixando um rasto vermelho na pele dele. Ron caiu ao lado de Harry e Draco que estavam encostados costas com costas. Tentei alcançar a minha varinha que estava perto do corpo de Lucius, mas Nathan foi demasiado rápido e lançou-me uma das maldições imperdoáveis e o meu braço que estava esticado encolheu-se automaticamente.

- Crucius! – pronunciou o feitiço com prazer.

Não pude evitar contorcer-me com as dores e gritar. As minhas mãos estavam fechadas, tentando inutilmente suportar a dor.

- Hermione! – berrou Draco como se pudesse atenuar a minha dor. - Pára, não a magoes mais! – pediu descontrolando, fitando Nathan.

Aquele descontrolo na voz de Draco fez com que uma dor ainda mais forte invadisse o meu peito. Apesar de não conseguir olhar para ele tive a certeza que estava a tentar a todos os custos desenvencilhar-se das cordas. O desespero de Draco pareceu só atiçar mais Nathan. Os olhos dele estavam cheios de raiva. Se dependesse dele eu morreria naquele momento, lenta e dolorosamente.

- Por favor – pedi entre soluços, mas ele parecia não querer parar com o seu divertimento.

Eu já sabia que a maldição cruciatus era dolorosa. Infelizmente, já a tinha sentido quando Bellatrix Lestrange me tinha torturado a fim de saber onde eu tinha ido buscar a espada de Godric Gryffindor na Mansão Malfoy. Tinha sido tão dolorosa desta vez. Era como se me arrancassem os membros ou me partissem os ossos. Era impossível não chorar e gritar.

- Odeio esse teu sangue sujo que te corre nas veias. Sangue de lama! – disse entre dentes, ainda com a varinha apontada para mim. – Não era isso que o Malfoy te costumava dizer em Hogwarts?

- O que é que eu te fiz? – perguntei, sentindo a raiva brotar dentro de mim.

Qual era o objectivo dele? O Draco já não me chamava mais sangue de lama.

Nathan debruçou-se sobre mim e ficou a uma distância insegura, conseguia sentir o hálito de whisky de fogo. A mão que não tinha a varinha erguida passeou pelo meu corpo, pressionando a minha coxa. Enquanto fazia isso, Nathan fitava Draco e mordia o lábio inferior. Fechei os olhos e tentei afastar o nojo que estava a sentir de Nathan à medida que o desejo dele aumentava ainda mais.

- Beija-me, Granger. – ordenou divertidamente Nathan, fazendo Draco enfurecer-se ainda mais. – Eu bem sei que não o fazias por causa dele. – pronunciou bem a última palavra com desdém. – Lembraste daquela vez que fomos jantar juntos?

Encarei-o, ainda a sentir o meu corpo dorido. Draco olhou para mim, confuso. Nunca lhe chegara a contar que tinha saído com o Nathan.

- Estúpido! Eu jamais teria alguma coisa contigo! – disse, num rosnido, o que pareceu diverti-lo ainda mais, pois soltou uma gargalhada explosiva.

- Deixa a Hermione em paz! – gritou Ron, enfurecido.

Nathan não desviou o olhar de Draco para encarar Ron. Draco, por sua vez, estreitou o olhar e quase prevendo o que ele faria de seguida disse:

- Juro que te desfaço! – advertiu Draco entre dentes.

Nathan sorriu para ele sarcasticamente e aproximou os lábios do meu pescoço, beijando-o com alguma violência. Fechei os olhos com força, sentindo Nathan pressionar a boca contra a minha. Draco arfava enquanto assistia à cena deprimente que se desenrolava, sem poder fazer absolutamente nada. Num impulso mordi o lábio de Nathan e ele afastou imediatamente a boca da minha, passando a língua no lábio que deitava um pouco de sangue.

- Cabra! – disse, esbofeteando-me.

Mas não me doeu tanto como ouvir Harry, desesperadamente, pedir a Nathan que parasse. Aliás, Harry implorava. Não tive coragem de olhar para nenhum dos três. O meu olhar incidia sobre Nathan que não iria desistir facilmente. Eu sabia disso. E as minhas certezas apuraram-se ainda mais quando Nathan me desapertou os botões das calças e subiu a minha camisola até deixar o soutien visível. Chorei, sentia-me suja. Só queria que ele parasse. Mas como? Fechei novamente os olhos, evitando assistir ao que se estava a passar. Concentrei-me em encontrar uma solução, mas nada. A minha mente estava demasiado perturbada para conseguir ser racional. Não ajudava o facto de sentir os lábios dele grudados à minha pele.

Estava a sentir que estava a perder as minhas forças, sentia-me tonta e desorientada. Mas uma luzinha ao fim do túnel pareceu surgir. Sem permitir que a minha pequena chama de esperança se estendesse e ainda de olhos fechados pus em prática aquilo que tinha aprendido em defesa contra as artes negras no meu sexto ano em Hogwarts.

Primeiro, concentração redobrada. As vozes de Harry, Draco e Ron invadiram a minha mente, provando que logo neste primeiro ponto eu ainda não estava eficaz. Tentei afastá-las e passar neste primeiro ponto. Porém, não sei ao certo quanto tempo demorei. Quando já não sentia a língua do Nathan na minha pele e nem ouvia as vozes dos meus amigos e Draco. Segundo, pensar no feitiço. Embora a minha vontade fosse atacá-lo com um Avada Kadavra, deixei-me ficar pelo Petrificus totalus. Terceiro, dizer o feitiço na mente como se estivesse a dizê-lo em voz alta. Após o terceiro ponto, o corpo de Nathan enrijeceu-se. Tirei o corpo pesado de cima de mim e baixei a camisola com certa repulsa e ânsia de vómito.

- Mas… como é que… - Ron parecia pasmado e estava sem palavras.

- Feitiço não verbal? – perguntou Harry não tão espantado.

Harry nunca tinha conseguido realizar plenamente um feitiço não verbal, talvez por ter sérios problemas de concentração e uma mente um tanto aberta. Lembrava-me perfeitamente que eu tinha conseguido tirar melhor nota nesse teste que o Harry, apesar de ser a melhor disciplina dele.

- Como é que te conseguiste concentrar com esse canalha por cima de ti? – Draco perguntou, ainda sem me encarar.

Apressei-me a desfazer o feitiço das cordas. Dirigi-me em primeiro lugar a Draco que me abraçou ainda sem obter a minha resposta.

- Deixem lá os romantismos para depois… e desfaçam o feitiço. – Ron disse e se o momento não fosse tenso eu ter-me-ia rido do constrangimento dele.

Ambos nos apressamos a soltar Harry e Ron. Draco dirigiu-se em passos lentos até Nathan. Não sabia ao certo de quem é que ele sentia mais nojo, se de Nathan ou do próprio pai. Fiquei com a ligeira impressão que naquele preciso momento Draco odiava Nathan, pois deu-lhe um pontapé no estômago e de seguida murmurou o contra-feitiço do Petrificus totalus. A minha mão segurou o braço de Draco e sentia-me um pouco aterrorizada ao ver aquele sentimento de puro ódio na face dele. Nathan gemia enquanto Draco lhe batia incontrolavelmente. Harry e Ron seguraram Draco com a força que eu não tinha.

- Pára, Malfoy! Ainda o vais matar…

- Não é o que ele merece, Weasley? Morrer? – quase que jurava que tinha visto faíscas nos olhos cinzentos de Draco.

- Eu não digo o contrário, mas lembra-te que não sairás impune… - lembrou Ron que pela primeira vez parecia ser o mais racional dos quatro.

Nathan cuspia para o chão o sangue que tinha na boca e tossia, quase sufocado. Mas ainda assim não perdia aquele olhar de superioridade. Draco já estava o bastante longe, mas os meus amigos não o soltaram. O meu namorado pareceu debater-se quando notou que eu me aproximava de Nathan que me olhava com malícia.

- Tenho que admitir que foste brilhante, Granger. Feitiço não verbal muito bem realizado. – disse, batendo palmas fracamente.

Baixei-me e fiquei com o meu olhar ao nível do dele.

- Não prestas, O'Conner. Sabes bem que por mim morrias. Mas não me vou dar ao trabalho de sujar o meu nome contigo. – disse, proferindo cada palavra com desdém.

- Estás à espera que eu te peça desculpas?

- Não estou à espera disso e jamais as aceitaria. – a minha voz saía por entre os dentes cerrados.

Eu não tinha reparado que Lucius já tinha acordado, mas Harry pareceu atento a isso e lançou um feitiço para atordoá-lo antes que ele se pusesse a pé. Apesar de eu estar com sede de vingança de Nathan optei por não magoá-lo mais do que aquilo que Draco lhe tinha feito. Virei-lhe as costas e caminhei até aos três.

- Temos de lhes fazer alguma coisa.

Draco soltou-se das mãos de Harry e Ron e fitou Nathan e seguidamente parou o olhar em Lucius.

- Contactamos o ministério?

- O Mayer vai mandá-los para Azkaban até apodrecerem. – disse, sabendo perfeitamente que o meu chefe faria isso. – Além disso, o teu pai já fugiu mais do que uma vez de Azkaban.

- Tens outra sugestão?

- Por que não lhes alteramos a memória? – sugeri, receosa da opinião deles.

- Parece-me uma óptima ideia. Podias fazer como fizeste com os teus pais antes da guerra e mandá-los para fora. – disse Harry.

Draco fitou-me durante breves segundos. O que estaria a passar por aquela mente tão confusa?

- Avança com isso, Hermione. – disse Ron, ansioso para ver aqueles dois seres saírem da nossa vista.

- Draco… ele nunca mais te vai reconhecer se eu lhe alterar a memória. – disse, apreensiva.

- Não importa. É o melhor a fazer! – disse em voz baixa, como se estivesse a convencer a si mesmo.

Ron lançou-me um olhar de incentivo e eu ergui a minha varinha na direcção do Nathan. Ficava sempre nervosa quando tinha de realizar um destes feitiços. Respirei fundo antes de murmurar:

- Obliviate! – apaguei todas as memórias, colocando apenas uma a convicção de que tinha de ir para a Bélgica.

- Onde é que eu estou? Merlin, tenho de ir para a Bélgica. – Nathan parecia um pouco atordoado, típico de quem tinha acabado de perder a memória.

Não lhe tinha deixado ignorante quanto ao mundo bruxo, pois achei cruel demais. Nathan ainda sabia praticar magia. Por isso, convicto de que tinha de ir para a Bélgica desapartou, sem deixar rasto.

Estávamos todos em silêncio quando me aproximei de Lucius que estava novamente consciente e me olhava com superioridade. Sabia que ia ter o mesmo destino que o Nathan. Porém, não perdeu a arrogância e não implorou para que não fizesse o que estava prestes a fazer. Ao ver-me apontar fragilmente a varinha na direcção dele, Lucius olhou pela última vez para Draco, no qual se podia identificar claramente a raiva. Draco estreitou o olhar na direcção dele.

- Obliviate! – murmurei tão baixo que não cheguei a saber se eles puderam ouvir.

A raiva e o ódio abandonaram o olhar de Lucius para dar lugar a confusão e talvez até um pouco de loucura. Mas era uma reacção natural a quem acabava de perder a memória. Tal como a Nathan eu tinha colocado uma indicação na mente de Lucius para convencê-lo a ir para um país estrangeiro, dessa vez optara por Estados Unidos da América, noutro continente. Poucos segundos depois ele desapareceu.

Nós continuamos num silêncio profundo, fitando o local onde eles tinham desaparecido. Ao que parecia tudo estava finalmente resolvido, não deveríamos estar a festejar? Mais parecia que estávamos num funeral. Espreitei pelo canto do olho para Draco. Continuava perdido nos seus pensamentos e eu no fundo culpabilizava-me por isso. Conseguia perfeitamente entender o estado dele, afinal era pai dele. Se eu me colocasse na pele dele não sei como reagiria se descobrisse que o meu pai fazia as coisas que Lucius fez.

Após longos minutos, Harry quebrou o silêncio:

- Acho que já não estamos aqui a fazer nada, Ron.

- Tens razão! Hermione, nós vamos indo… - Ron aproximou-se de mim, fazendo-me encará-lo.

- Esperem! – pediu Draco com a voz rouca. – Como é que aquele imbecil do Nathan apareceu?

- Ele estava lá em baixo de sentinela. De certa forma, eles já estavam a contar connosco a qualquer momento... – Harry começou a explicar-nos.

- Ele disse também que suspeitava que nós aparecêssemos porque a Hermione estava desaparecida há alguns dias.

Draco bateu com o punho cerrado na outra mão. Apesar de tudo ter acalmado, ele continuava furioso. Nathan O'Conner podia ter estragado tudo por ter aparecido.

- Quando ele nos viu desaparecer supôs que fosse para aqui e então tentou também aparecer. E o resto vocês já sabem… - concluiu Harry. – Bem, nós agora vamos indo. Qualquer coisa que precises diz-nos. – de seguida aproximou-se de mim e beijou-me uma das bochechas.

Ron seguiu-lhe o exemplo e ficou a fitar-me durante uns segundos até dizer:

- Espero que ele cuide de ti. A maneira como o Lucius Malfoy te tratou não foi a melhor… - Ron referia-se à maldição imperdoável. O meu corpo começou novamente a doer. Acenei afirmativamente com a cabeça e os meus dois amigos desapareceram.

Draco caminhou até ao sofá e sentou-se. Estava tão concentrado nos seus pensamentos que não deu pela minha presença ao lado dele. Tinha na face estampada uma expressão dura e séria. Os músculos estavam tensos e os lábios contraídos numa linha recta. Levei a minha mão até à dele e toquei levemente, como se não quisesse acordá-lo do seu estado de concentração. Mas foi em vão, pois ele levantou ligeiramente a cabeça e encarou-me, fazendo-me perder no seu olhar distante.

- Desculpa – pedi num sussurro.

- Não peças desculpa, Hermione. Não tens absolutamente culpa nenhuma. – disse também em voz baixa. Apertou-me a mão e sorriu fracamente.

Evitei pensar nas dores que o meu corpo sentia e fitei-o com um sorriso também fraco.

- Estás magoado comigo? – perguntei, receosa.

- Não estou magoado contigo… foi o melhor a fazer. Mandá-lo para longe e apagar tudo da memória dele, ao menos teremos a certeza que ele não voltará a magoar-te. – a expressão de Draco estava novamente séria com uma das sobrancelhas erguidas.

- Eu posso imaginar como te sentes. Afinal de contas ele era teu pai. E isso magoa-te, não é verdade?

- Não te vou mentir e dizer que não me magoa. Sabes, eu sempre vi o meu pai como um modelo a seguir, pelo menos até ao momento da guerra. Depois não tive mais certezas disso. Mesmo quando todos os outros devoradores da morte me diziam que o meu pai era um fraco, eu teimava em acreditar que ele era o meu herói. Quando era mais novinho fazia tudo o que podia para agradá-lo. Acho que eu ambicionava ser como ele um dia.

- Tu nunca imaginaste que ele ia ser assim… - sussurrei, sem saber bem o que dizer. Mas eu sabia que ele estava agora mais desiludido do que nunca.

- Não… nunca reparava que ele me tratava com indiferença e que nunca me elogiava quando eu fazia aquilo que ele queria que eu fizesse.

- Ele… ele tratava-te mal? – perguntei com um misto de curiosidade e ódio.

Draco riu-se sem grande vontade.

- Como deves imaginar ele não era propriamente um pai afectuoso. Além disso, eu nunca fui o filho que ele sonhou em ter. Dizer que ele me tratava como se eu fosse um elfo era também um exagero da minha parte… mas acredita que não tive uma infância feliz como dizia ter em Hogwarts. Mas eu só percebi isso quando estávamos perto da batalha final, mais especificamente quando eu falhei naquela missão. – Draco continuou, sem parecer querer tocar no assunto.

- Lamento ter feito com que ele nunca mais se vá lembrar de ti como o seu filho.

- Foi melhor assim, Hermione. – garantiu-me com um suspiro. – Como é que tu estás? – perguntou com bastante preocupação, virando-se para mim e agarrando-me nas duas mãos. – Tens de tomar alguma coisa para as dores… deves estar com tantas dores. – disse, abraçando-me.

- Eu já estou melhor. Mas acho que tens razão. Eu tenho a poção guardada lá em cima.

- Então vamos para o teu quarto que eu vou cuidar de ti. – disse já com um sorriso nos lábios.

Draco pegou em mim ao colo, fazendo-me soltar um grito abafado. Levou-me até ao andar de cima e pousou-me sobre a cama. De seguida dirigiu-se até à casa de banho e procurou pela poção. Fez-me tomá-la e deitou-se ao meu lado. Adormeci enquanto Draco me fazia festas nos cabelos volumosos.

Acordei com os raios de sol a entrarem pela janela e deslumbrei-me com a cena à minha frente. Draco segurava um tabuleiro que transportava o nosso pequeno-almoço. Esboçou um sorriso de orelha a orelha e deixou o objecto ficar suspenso no ar pela magia. Beijou-me os lábios carinhosamente e sussurrou-me um bom dia.

- Preparei-te o pequeno-almoço. – disse, sorridente.

- Obrigada, Draco. – foi a única coisa que consegui balbuciar.

- Espero que a poção tenha anulado as dores. – disse, sentando-se ao meu lado e puxando com a varinha o tabuleiro para mais perto.

Levantei-me e confirmei que as dores já tinham sumido.

- Não tenho dores nenhumas. O que trouxeste para comer? – perguntei ao sentir o meu estômago reclamar.

- Ovos mexidos e presunto e para beberes tens sumo de abóbora.

Tomei o pequeno-almoço entusiasticamente enquanto falava sobre a possibilidade de no dia a seguir regressar ao trabalho.

- Hermione, eu vou ter de me ausentar durante umas horas. – disse, pegando no tabuleiro para levá-lo para a cozinha.

- Tudo bem, não há problema. Mas onde vais?

- Fiquei de ir ao ministério buscar umas coisas. – disse quase a engasgar-se.

Beijou-me rapidamente e desapareceu. Fiquei a fitar o tecto durante uns minutos, sem saber bem o que fazer. Olhei para o lado e vi um livro pousado sobre a mesinha de cabeceira. Peguei nele e fiquei a lê-lo durante a manhã toda. Quando chegou a hora do almoço, sentei-me no sofá a ver televisão enquanto almoçava.

- Crookshanks! – exclamei ao ver aquela enorme bola de pêlo laranja espreguiçar-se no tapete. – Onde estiveste, seu dorminhoco?

Crookshanks miou e rapidamente saltou para o meu colo. Fiquei a tarde toda a ver televisão, alternando entre as séries e os filmes, enquanto esperava por Draco. Já eram seis e meia da tarde quando ele finalmente apareceu.

- Finalmente! – disse, suspirando.

- Desculpa, demorei mais do que aquilo que pensava. – desculpou-se, sentando-se no sofá ao meu lado.

Beijou-me a testa e afastou Crookshanks que ainda estava no meu colo.

- Hermione… eu… estava a pensar em irmos jantar os dois. – Draco pareceu-me ainda mais desajeitado por estar a despentear os cabelos.

- Estás-me a convidar para jantar? – perguntei, deixando escapar uma gargalhada.

- Estou, com a excepção de que é um convite que tu não poderás recusar. Às oito em ponto estou aqui, Hermione Granger. – disse e desapareceu sem me dar hipótese de perguntar mais alguma coisa.

Com um sorriso nos lábios subi para tomar um banho demorado. Quando saí do banho o espelho estava embaçado e por isso esfreguei a toalha para poder fitar-me. Sacudi os cabelos e dirige-me até ao guarda-vestidos. Pensei com cuidado a roupa que escolheria. Optei por usar aquele vestido salmão que tinha usado daquela vez que fui ter com Draco à Mansão Malfoy. Como o vestido tinha uma renda preta discreta decidi calçar os saltos altos finos pretos. Uma bolsinha de mão também preta e já estava pronta quando faltavam dez minutos para a hora combinada. O cabelo estava solto com um gancho a segurar uma das madeixas.

- Hermione? – a voz de Draco ecoou por toda a casa e eu desci, ansiosa, até à sala onde ele me esperava. – Estás linda! – disse, observando-me com um sorriso.

Draco estava perfeito num fato preto com tons de cinza. O cabelo rebelde e o sorriso genuíno apenas complementavam a minha definição de perfeição. Beijou-me os lábios e arrependeu-se de imediato ao sentir o leve sabor do gloss brilhante.

- Argh! Não era necessário teres posto essa coisa nos lábios. Estarias na mesma perfeita! – disse, passando a língua no lábio inferior.

Ri-me da atitude esperada dele e dei-lhe a mão, pronta para desapareceremos. Segundos depois e já estávamos numa rua iluminada pelos lampiões.

- Estamos em Londres? – perguntei, reconhecendo aquele lugar.

- Acertaste. Vamos àquele restaurante… - disse, apontando para uma placa vermelha que dava as boas-vindas aos clientes do "Água na Boca".

- Escolheste um restaurante muggle? – perguntei, um pouco surpreendida pela escolha de Draco.

- Achei que ias gostar deste restaurante. – disse com um sorriso pomposo a dançar-lhe nos lábios. Sorri-lhe em retribuição e senti a minha ansiedade aguda no peito à medida que nos aproximávamos da porta do restaurante.

- Boa noite, Senhorita. – disse um senhor de bigode escuro, beijando-me a mão. – Senhor Malfoy, está tudo preparado.

Desde quando é que Draco tinha mandado preparar alguma coisa? A expectativa dentro de mim subiu ligeiramente. O senhor de bigode fez-nos sinal para nos deixar entrar naquela ampla sala iluminada pelos muitos candeeiros brancos. O interior do estabelecimento era decorado em tons leves: brancos e castanhos. As mesas tinham toalhas brancas com pequenas bordas castanhas e as cadeiras eram macias de cor branca e também com bordas castanhas. Era um local acolhedor e especialmente romântico, mesmo sem ter aquelas cores que os muggles consideravam do amor e paixão, o vermelho.

Draco conduziu-me até uma das mesas que tinha um pequeno papel indicativo de que já estava reservada. Puxou a cadeira para eu me sentar e eu não pude deixar de escapar uma gargalhada devido a todos o cavalheirismo. Draco sorriu ao ouvir a minha deliciosa gargalhada e sentou-se à minha frente. Durante os poucos minutos em que esperamos que alguém nos viesse atender aos pedidos, trocámos olhares intensos de paixão. Às tantas aos olhos de quem estava de fora parecíamos um casal recente de namorados, intensamente apaixonados. Porém, eu e Draco éramos mais do que isso que transparecia aos olhos das pessoas. Nós éramos a verdadeira personificação de paixão, amor e desejo.

Fizemos os pedidos e apenas dez minutos depois estávamos a ser gentilmente servidos. Durante o jantar estávamos animados, como se nada se tivesse passado. Há quanto tempo eu não estava assim com ele? Já nem conseguia precisar. O meu pensamento foi interrompido por uma bela música de piano tocada ao vivo. A melodia era tão bonita que seria impossível não querer escutá-la com a máxima atenção. Draco sorriu-me ao ver que eu estava deliciada com a música ambiente.

- Queres dançar, Hermione Granger? – a voz arrepiante de Draco interrompeu, não desfazendo o impacto que a música estava a ter. Pelo contrário, teve um efeito exuberante no meu corpo que vibrou ao som da voz dele.

Sorri-lhe em resposta. Draco levantou-se e esticou a mão na minha direcção para que lhe devolvesse a minha. Fomos até ao meio da pequena pista que tinha em frente ao piano e Draco fez os nossos corpos colarem-se, o que de certa forma fez com que eu tivesse de suster a respiração. O meu olhar perdeu-se no dele no momento em que os nossos corpos começaram a dançar ao ritmo calmo da música. A mão dele estava quase presa na minha cinta e a outra segurava a minha mão com ternura. A minha mão livre estava pousada sobre as costas largas de Draco.

Sorríamos um para o outro. A música pareceu não terminar, pois parecia que eu estava a dançar com Draco há uma eternidade. Mas isso não me importava minimamente, pois poderia ficar assim com ele para sempre. Quando Draco previu que a música estava prestes a acabar, separou ligeiramente os nossos corpos e continuou a fitar-me com uma expressão de paixão intensa. O que mais eu poderia querer com Draco Malfoy a fitar-me daquele jeito? Suspirei com o pensamento.

- Hermione… - a voz arrastada de Draco saiu quase sussurrada. – há algo que tenho de te perguntar.

- Sim? – apenas murmurei, curiosa.

Draco agarrou as minhas duas mãos com força. De seguida beijou-as, fechando os olhos por uma fracção de segundos. Os olhos cinza voltaram a encontrar os meus olhos curiosos cor de mel.

- Aceitas casar comigo, Hermione Granger? – a voz de Draco estava a sair quase num murmúrio e a expressão ansiosa no rosto dele só me fez acreditar que ele desejava muito um sim.