CAPÍTULO TRÊS
No domingo de manhã, Edward estava em frente ao espelho do banheiro se barbeando e se perguntou que diabos estava fazendo. Será que estava perdendo a razão?
O que tinha dado nele para convidar a secretária para viajar com ele para o Havaí? Ela era uma ótima funcionária e uma pessoa muito boa, mas não precisava passar uma semana com ela por causa disso.
Claro que, se fosse encontrar com Furukawa, a presença dela seria bastante útil para apresentar o orçamento e fazer as negociações. Era muito competente no que fazia e nunca reclamava do trabalho.
Mas levá-la para o Havaí?
Será que a crise dos 50 havia chegado mais cedo? Por qual outra razão teria pensado nisso? Não sabia nada sobre a vida dela fora do trabalho. Bem, sabia que ela era solteira, mas só isso. Será que tinha parentes próximos? Será que eles iriam aconselhá-la a não n?
Podia acabar se complicando se ela resolvesse processá-lo por assédio sexual.
Bem, aquilo já era exagero. Bella poderia ter dito uno. Quando ligou para ela na noite passada, não parecia nem um pouco contrariada. Certamente, ele não ti tinha obrigado a ir. Não muito.
Ele terminou de se vestir e pegou a mala. Teve dificuldade em escolher as roupas. A única vez que esteve no Havaí foi para fazer negócios. Passou três dias em reuniões.
Escolheu para levar algumas camisas, calças caqui e um par de tênis, que nem se lembrava mais que tinha.
Talvez, estivesse mesmo focado demais no trabalho. O trabalho duro tinha virado uma rotina em sua vida, mas não tinha certeza se conseguiria quebrar essa rotina.
Nem se queria quebrá-la.
Os comentários de Tanya o atingiram em cheio, o que era ridículo. Por que se preocuparia com o que ela pensava ou deixava de pensar dele? Foi pego de surpresa, era isso.
Ele e Bella iam se dar bem durante a viagem, tinha certeza disso. A viagem seria um bônus para ela pelos anos de dedicação à empresa.
Sorriu, satisfeito por ter encontrado uma boa razão para levá-la naquela viagem.
Edward não reconheceu Bella quando a viu entrar no aeroporto. Estava diferente, mas por quê? Então notou que ela estava com os cabelos soltos. Ele nunca a tinha visto sem o coque de todos os dias. Ela estava bem diferente, mesmo.
Ele olhou o relógio e franziu a testa.
Assim que saiu do táxi, Bella avistou Edward dentro do aeroporto. Entrou rapidamente e foi até ele.
Estava cada vez mais animada com a idéia de ir ao Havaí. Pelo menos, ficaria uma semaninha sem ter que aguentar o inverno rigoroso de Chicago. Não via a hora de sentir o sol queimando sua pele.
Assim que ela chegou perto de Edward, ele pegou a mala dela e disse:
— Você está atrasada. Tem uma fila enorme para passar pela segurança e não quero perder o vôo.
Na verdade, ela havia chegado 45 minutos antes do recomendado pela companhia aérea, mas não ia começar aquela viagem retrucando com o chefe. Sorriu e disse:
— Bem, eu cheguei e bom-dia para você. Já fez o seu check in.
— Já. — Ele olhou para a mala de Bella. — Você não vai levar isso?
— Mas a gente vai ficar fora só uma semana.
— Achei que as mulheres levassem no mínimo três ou quatro malas para qualquer viagem.
— Nem todas.
— Bem — disse meio sem graça —, que bom. Ela foi para a fila e ele a seguiu.
— É melhor a gente ficar junto para não corrermos o risco de nos perder.
Bella percebeu que ele estava nervoso! Achou estranhíssimo, pois ele já estava cansado de viajar. Será por que ela estava indo com ele?
Não tinha se dado conta antes, porque tinha ficado preocupada com a acusação de que, por causa dela, eles poderiam perder o vôo. Não havia a menor chance de se perderem. Alto como ele era, poderia ser avistado de qualquer lugar do aeroporto.
Discretamente, ela olhou para ele para ver o que estava vestindo. Surpreendentemente, ele vestia um suéter preto de gola, calça e jaqueta pretas. A jaqueta o deixava com uma aparência perigosa e masculina. Se ele, pelo menos, sorrisse de vez em quando, seria um homem atraente.
Entraram no avião com tempo de sobra, mas Bella, sabiamente, não fez nenhum comentário a respeito. Edward havia comprado um jornal e algumas revistas. Bella havia trazido o último livro de seu autor favorito e uma revista de palavras cruzadas.
Os dois se sentaram e ela começou sua leitura, Pouco antes de o avião decolar, a aeromoça ofereceu algo para beber e o cardápio do café da manhã. Depois de escolherem o que iriam comer, Bella acomodou-se confortavelmente no espaçoso assento da primeira classe e olhou ao redor. As únicas vezes que tinha estado numa primeira classe foram quando passou por elas para chegar até a classe econômica. Que diferença!
— Tem medo de viajar de avião? — ele perguntou, depois de vários minutos de silêncio.
— Talvez um pouco, por quê? — disse olhando pela janela.
— Notei que você não larga o braço da cadeira, e o avião ainda nem saiu do lugar.
Ela retirou as mãos bruscamente e as pôs em cima das pernas. Em seguida, abriu a bolsa e novamente pegou o livro para ler. Não conseguia se concentrar. Talvez fosse melhor tentar as palavras cruzadas.
Após mais alguns minutos de silêncio, Bella perguntou:
— Você sabe qual a duração do vôo?
— Dependendo do tempo, 13 horas. Trocamos de avião, em Los Angeles.
— Ah.
— A gente deve chegar em Maui depois do meio-dia, hora local.
— E o mesmo fuso horário da costa oeste, não é?
— É verdade.
Ela havia esgotado seu repertório de perguntas para puxar conversa. Bella pegou a revista de bordo e passou a folheá-la.
Depois do que pareceu horas, o avião finalmente saiu para a pista de decolagem. O piloto desculpou-se pelo atraso. Havia nove aviões na fila para voar. Que ótimo. Tempo suficiente para ela se arrepender de ter aceitado fazer aquela viagem.
— Bella?
— O quê? — ela se voltou para Edward.
— Estou um pouco sem graça de falar isso depois de tantos anos que você trabalha para mim, mas não sei quase nada sobre você, além, é claro, do fato de você ser uma pessoa muito ética, e de que decidiu estudar, o que é admirável. Gostaria de saber mais da sua vida. Por que não aproveitamos esse tempo para nos conhecermos melhor?
— Desculpe-me, mas, sinceramente, não estou em condições de conversar, agora. Preciso de toda a concentração possível até esse avião decolar, quero estar certa que as asas do avião estão bem presas. — Afinal, todo mundo sabia que a decolagem e a aterrissagem eram os momentos mais perigosos durante um vôo. A não ser que tivessem que cruzar alguma montanha. Será?
E se tivessem que passar por cima do oceano?
— Bella? — ela desviou o olhar da janela e o encarou interrogativamente.
— Você sabe que estamos completamente seguros.
— Claro que sei. — Ela concordou imediatamente e continuou sua inspeção na asa do avião, pela janela.
Edward fez um barulho que parecia de engasgue ou tosse. Olhou para ele, preocupada. Ele estava prendendo a boca, os ombros sacudindo levemente e, de repente, explodiu numa risada.
Rindo, ele? Raramente o via sorrir, rir então, quase nunca. Ela ficou olhando para ele com cara de boba. Que diferença aquilo fez nele. Parecia muito mais novo que seus 38 anos.
Imediatamente, ele tentou abafar o som, mas então olhou para ela novamente, viu que estava assustada, balançou a cabeça e voltou a gargalhar; uma gargalhada contagiante que fez com que Bella risse também.
Ele tirou um lenço de pano do bolso da calça e enxugou os olhos e, finalmente, parou de rir. Porém, continuava sorrindo e ela continuava sem entender aquela mudança. Edward estava sorrindo e seu rosto não havia rachado em mil pedaços por causa disso. Quem acreditaria naquilo?
— Posso saber qual a piada? — ela perguntou. Sorriu ao perceber que estava enganada quando achou que conhecia o chefe muito bem.
Ele tocou no braço de Bella e deslizou a mão, cruzando com a dela.
— Desculpe-me, não devia ter rido do seu nervosismo. Você vai ficar bem, eu prometo.
— Promessa é dívida — ela murmurou.
Ele voltou a soltar uns risinhos. Definitivamente, ele estava se divertindo horrores à custa do medo de Bella de voar. Mas até que havia sido bom para que ela visse que o chefe tinha um lado humano. E decididamente um lado bastante sensual.
Quando ele ria, covinhas apareciam no canto da boca. E Bella poderia apostar que ele odiava aquilo. Na verdade, agora ele mal se parecia com o chefe que estava acostumada a ver quase todos os dias. Estava até bonito.
Tudo bem, ela estava indo longe demais. Quando olhou para Edward Cullen novamente e viu na sua frente um homem lindo, viu que estava perdendo a compostura. Devia ser o medo, só podia ser, pensou.
— Nasci em Indiana — ele disse, como se respondesse a uma pergunta. — Vim para Chicago para estudar na universidade de Northwestern e nunca mais fui embora. E você?
— Nós viemos de Wisconsin.
— Nós, quem?
— Minha mãe, eu e meus quatro irmãos. Meus pais se casaram cedo demais, mas estavam apaixonados e não queriam esperar terminar a faculdade para ficarem juntos. Meu irmão mais velho nasceu pouco depois e o papai teve que largar a faculdade para arranjar um trabalho. Foi um bom pai e trabalhou muito para nos sustentar. Aos 45 anos morreu de um ataque cardíaco. Minha mãe teve que se virar para arranjar um emprego, mas foi difícil, pois era dona-de-casa e nunca tinha trabalhado antes. Acabou trabalhando como garçonete. Tanto meu pai como minha mãe sempre acreditaram que a educação era o maior bem de uma pessoa. Todos os meus irmãos trabalharam para pagar a faculdade.
— Onde mora a sua família?
— Mamãe mora em Phoenix, que é onde morávamos quando o papai morreu. Um dos meus irmãos é advogado em Oregon, outro é da marinha e mora em Washington. O terceiro irmão mora perto da capital, e ninguém sabe o que ele faz. Se alguém pergunta, ele diz que trabalha para o governo e muda de assunto. Minha irmã, Alice, mora aqui em Chicago.
— Algum deles tem filhos?
— Alice e Jasper têm dois meninos e uma bebezinha — disse sorrindo.
— Seus irmãos são casados?
— Nenhum. Estão muito ocupados trabalhando. — Ela esperou que ele fizesse mais alguma pergunta, mas como não ouviu nada disse: — Agora é sua vez. Conte-me da sua família.
— Minha mãe vive num asilo, aqui em Chicago. Eu tinha um irmão mais velho, mas ele e meu pai estavam no lago Michigan na hora errada, há anos atrás. Um temporal fortíssimo chegou na cidade e eles nunca mais voltaram para casa.
— Que horror! Quantos anos tinha o seu irmão?
— 12. Eu tinha oito e estava gripado. Minha mãe não me deixou ir com eles. — Ele desviou o olhar e depois de alguns minutos acrescentou: — É a primeira vez que falo deles depois de anos.
Ela supôs que ele devia carregar muitas cicatrizes por conta daquela tragédia. Ela o conhecia bem o suficiente para não fazer mais perguntas.
— Por que você não é casada? — ele perguntou, curto e grosso.
Ela arregalou os olhos.
— Não acha que essa é uma pergunta pessoal demais?
— Pode ser, mas já que eu falei um pouco da minha vida pessoal, não custa você falar um pouco da sua.
— Não é a mesma coisa, a não ser que você também fale por que não se casou ainda.
— Não quero me casar. Já fui noivo, mas ela achou um cara com mais dinheiro e terminou o noivado seis semanas antes do casamento. — Ele deu de ombros. — Ela já está no terceiro casamento. Acabou me fazendo um favor. Depois disso, decidi que ia me dedicar a construir meu negócio, que era muito mais importante do que me envolver num relacionamento sério.
— Um dia, Edward, você vai encontrar a mulher da sua vida e aí não vai ter como fugir do inevitável.
— Duvido muito que isso aconteça. — Ele olhou para ela e voltou ao assunto. — E você? Já foi casada?
Ela balançou a cabeça, negativamente. Ficou um pouco exasperada com a pergunta. A persistência era uma das características mais fortes do chefe e o tornava um excelente homem de negócios. Mas não gostava nem um pouco quando ele direcionava sua curiosidade para ela.
Antes que se decidisse se queria ou não compartilhar com ele sua intimidade, a voz do piloto a salvou para avisar que o avião estava prestes a decolar. Ela pôs o cinto, imediatamente.
— Se apertar mais, vai acabar se machucando — disse ele, secamente.
Ela respirou fundo, segurou o fôlego e lentamente foi soltando o ar dos pulmões. Estava fazendo papel de idiota. Soltou um pouco a correia e relaxou os ombros.
— Não, nunca me casei — ela finalmente respondeu a contra gosto.
— Por quê?
— Porque nunca quis, ora.
— Algum motivo particular?
— Por acaso isso é um questionário?
— Vamos passar uma semana juntos, quero saber mais da pessoa que está viajando comigo.
— Tudo bem. Tive um namoro sério quanto tinha 19 anos. Na época, dividia uma quitinete com uma colega de trabalho. Trabalhávamos no mesmo escritório de advocacia e foi lá que conheci meu ex-namorado. Ele estudava direito e era estagiário da firma. Ficamos juntos mais de um ano e até falávamos de casamento depois que ele terminasse a faculdade. Todo o tempo livre que a gente tinha era para ficar junto. Era perfeito... até o dia em que cheguei em casa mais cedo e peguei ele com a minha colega na cama.
— Nossa!
— Pois é.
— Ele deu alguma desculpa?
— Inventou uma história que foi para minha casa depois da faculdade e que minha colega disse para ele esperar por mim. Tenho certeza que ela planejou ludo. Aí ele falou que ela se engraçou para cima dele e que uma coisa levou à outra, mas que não tinha significado nada. Pediu desculpas e disse que nunca mais ia acontecer.
— E você?
— Disse que se o visse novamente e se viesse falar comigo ia machucar gravemente uma parte bem delicada da anatomia dele.
Ele fez um ruído de dor, mas nenhum comentário.
— Ele e minha ex-amiga e colega de quarto acabaram casando, pois ela engravidou. Não sei o que aconteceu depois, acabei mudando de emprego e de bairro.
— Deve ter sido uma barra.
— Foi. Descobrir que uma pessoa que achava que era sua amiga e o homem com quem ia se casar traíram você na sua própria casa é bastante traumático.
— Faz muito tempo?
— Uns cinco anos.
— E desde então não namorou mais?
— Nada sério. Não quero mais me machucar. Prefiro não deixar ninguém se aproximar muito.
Ele olhou para as mãos dos dois, uma colada na outra.
— Então, me sinto honrado. Ela o olhou e disse:
— Não estamos próximos. Trabalho para você. — Afastou a mão assim que o avião começou a andar.
— Na verdade, você trabalha para a companhia.
— Você é a companhia. — Fingindo estar calma, pegou o livro, determinada a lê-lo.
