Ainda ofegante olho em volta procurando algum sinal de vida dentro da delegacia, mas assim como antes, não vejo nada além de corpos, dessa vez não deixo minha guarda baixa, me levanto usando a parede como apoio atento a qualquer sinal de movimentação vinda dos corpos daqueles policiais.

Perto de um deles, algo que ao mesmo tempo parecia familiar e desconhecido, no chão havia uma pistola, ao lado da mão de um policial que na minha opinião era gordo demais pra servir a policia, com isso em mente dei uma leve risada e me abaixei ao lado do policial.

- Desculpe oficial... – Olhei para o crachá com o nome do homem. – James, mas acho que vou precisar disso mais do que você. – Algo me dizia que não havia perigo dele acordar, afinal, aquele buraco de bala na testa parecia ter sido definitivo.

Analisei a pistola com minhas mãos, rezando para que aquilo que sempre vi nos filmes fosse verdade, tentei destravá-la, mas alguém já havia destravado, é claro... O tal James tinha usado ela para se matar, como que ia travá-la depois de morto? Era mais pesada do que parecia, levando em consideração o tamanho, mirei um pequeno ponto na parede oposta, minhas mãos suavam e tremiam sem controle, eu precisava saber se estava funcionando ou não.

Algo me fez parar, mesmo que eu disparasse nada me assegurava que eu iria agüentar o tranco, nem se aquilo não atrairia mais daqueles lá fora. Guardei a pistola em meu cinto, e procurei algo que eu saberia usar para me defender, ali perto do balcão da delegacia estava outro policial morto, ao lado dele, um cassetete.

- Isso aqui eu sei usar. – Pensei comigo mesmo, agarrando a minha mais nova arma de defesa. Esse policial não tinha nenhum buraco de bala na testa, nem em nenhum lugar aparente. Me afastei dele a passos largos, até que ouvi um grunhido vindo de um ponto cego, meu corpo se virou para presenciar um dos policiais se reerguendo, seguido por vários outros.

- Se afaste! – Gritei empunhando o cassetete em mãos, o policial continuou se aproximando, seus olhos estavam vazios e a boca sangrava. – Se afaste de mim! – Com um urro fiz o cassetete cortar o ar e colidir com a cabeça daquele ser maldito, com um baque o corpo caiu imóvel no chão. Mas outros estavam me cercando.

Desesperado, procurei uma rota de fuga, batidas na porta fizeram meu coração disparar mais ainda, os que estavam na rua começaram a entrar na delegacia. Em um relance enxerguei uma escada que dava para o segundo andar, no caminho havia alguns deles, mas eu conseguiria escapar, se corresse.

Minhas pernas demoraram para se mexer, por mais que meu cérebro as mandasse, o que me fez sair daquele estado foi uma mão fria e ensangüentada que agarrou meu ombro. Com um movimento brusco corri desesperado escada acima, largando o cassetete no meio da confusão.

-Merda! – foi o que consegui dizer ao ver o cassetete no chão, sendo pisoteado pela multidão Deles, chutei uma porta que dava para um escritório, ela se abriu empurrando um que devia ter sido o delegado, puxei a pistola pra fora do meu cinto, mirando no delegado, atirei.

O corpo voou pela larga janela no lado oposto da sala, estilhaçando o vidro e fazendo aquela aberração dar os últimos gritos antes de colidir com o chão dois andares abaixo, muitos Deles começaram a entrar pela porta, desesperado e sem saída pulei para fora da janela, rezando para não ter os ossos quebrados com a queda.

Assim que meus pés tocaram o chão eu impulsionei meu corpo para frente e rolei, sem tempo para olhar pra trás, averiguar os estragos da queda ou qualquer coisa do tipo, continuei correndo, mesmo ouvindo o som de algo se quebrando, a adrenalina havia subido minha cabeça, minhas batidas do coração eram a única coisa que ecoava na minha mente no momento em que alcancei um carro de policia parado no estacionamento em que eu havia aterrissado, para minha sorte, a porta estava aberta, e a chave na ignição.

Acelerei arrebentando o portão do estacionamento e dirigi rua abaixo, precisava ir até minha casa, ver o que restava dela, se minha família estava inteira, atravessei um parque para cortar caminho, mas me perguntei o porquê de cortar caminho se eu não lembrava nem o trajeto inteiro.

Um calafrio desceu a minha espinha, assim que percebi que não me lembrava onde minha casa ficava, nem quem morava comigo, apenas lembrava de algumas pessoas, e bem vagamente.

Só agora percebi que minha "caixinha da salvação" ainda está tocando, era a ultima musica da lista que eu ouvia quando voltava pra casa. Agora começava uma bem melancólica, que me lembra alguma memória de infância, é estranho, pois me lembro de estar tendo aquela memória, mas não me lembro dela em si.

Fiz o carro parar assim que vi que nenhum Deles estava em volta, precisava pensar e tentar lembrar de algo. Pela primeira vez desde que acordei hoje mais cedo me olho em um espelho, minha aparência não estava muito melhor que a Deles, pele pálida, olhos inchados, uma grande e vermelha marca no lado direito da testa, foi aquilo que me fez perder a memória provavelmente.

Minha mão passou pelos meus cabelos curtos e loiros, sentindo algo quente e úmido, eu estava sangrando pelo topo da cabeça também. Com a mão livre procurei algo para impedir o sangramento, não achando nada semelhante a uma atadura, a única coisa que me restou foi a maldita gravata vermelha que me forçavam a usar o dia todo.

Finalmente alguma utilidade pra ela, serviu direitinho para amenizar o sangramento, não sei por que, mas no meio de toda aquela agitação decidi ajeitar minhas sobrancelhas e meu cavanhaque, que já estava precisando de uma aparada.

- Tenho que parecer humano... Pelo bem da minha sanidade. – Pensei comigo mesmo, ajeitei o tufo de cabelo saindo pelas bandagens improvisadas. Depois de relaxar e conseguir me reconhecer no espelho, me recostei no assento de motorista, mas meus olhos se alargaram assim que percebi. – Qual o meu nome mesmo? – Vasculhei meu terno e a camisa social debaixo dele procurando por um crachá de identificação, igual aquele tal de James. Mas não tinha nada lá, minha carteira também não estava nos meus bolsos, provavelmente tinha deixado no carro... Não. Eu paguei pela minha comida mais cedo.

- Deixei na lojinha... Mas agora está muito longe pra voltar, se pelo menos eu me lembrasse do caminho de volta eu podia até tentar. – Meu estômago reclamou de novo, felizmente os lanchinhos que eu tinha comprado ainda estavam no meu bolso, me deliciei comendo aquilo, me sentindo humano novamente por estar comendo aquelas comidas industrializadas e cheias de conservantes.

- Bom... Vamos lá, talvez eu me lembre de algo se eu vir alguma coisa familiar. – Eu falava comigo mesmo para me animar, dirigi devagar pela rua, tentando ver algo que chamasse a atenção e me fizesse recordar.

Já faz três horas que estou circulando pela cidade, deve ser quase meio-dia, e até agora... Nada.