Gas Panic!
O barulho vindo do andar de baixo era ensurdecedor. Coisas rolavam pelo chão, batiam-se pelas paredes, espatifavam-se entre si. Thomas, outra vez, estava mostrando para a esposa a força ébria de sua fúria. Como sempre, de forma gratuita e covarde.
No quarto de cima, dois garotos deviam estar dormindo, mas escutavam tudo o que se passava na casa. Paul, o mais velho, parecia rezar baixinho enquanto encarava um canto qualquer do cômodo. Ele era um menino sensível e impressionável. Não conseguia fazer mais do que balbuciar palavras que somente ele compreendia quando estava nervoso, ansioso ou triste. Hoje não era diferente. Noel estava na casa de um amigo, portanto, alheio a tudo. William, o menor, gostaria que ele estivesse ali.
O menino fazia um esforço tremendo para respirar. Quando as coisas saíam do controle daquele jeito, ele não sabia como se comportar, se deveria fazer alguma coisa ou não. William se sentia mal sempre que o pai agredia a mãe, que era a pessoa que ele mais amava no mundo. Queria fazer alguma coisa, mas o medo lhe dominava e lhe impedia de agir.
Achava que era um menino mau por isso. Noel sempre saía em defesa da mãe, levando por ela algumas das surras por conta de sua insolência. Noel era corajoso, destemido, correto. William se sentia sujo, fraco e desprezível por ficar com tanto medo da situação. E sua condição piorava todas as vezes em que, após apanhar, Noel surgia no quarto e se deitava calado, sem nem mesmo dar boa noite para os outros, se cobria inteiro e dormia como estava. Seguido a ele a mãe entrava e checava os filhos, sempre abraçando William por muito mais tempo que os demais, beijando somente o seu rosto, consolando somente a ele.
Não pensava que aquilo era justo. Noel a defendia, mas era para ele, William, que a mulher direcionava toda a gratidão. Era Noel que deveria receber aquela atenção, aquele carinho, todo o respeito. Mas Peggy não fazia isso. Esse apego só tornava a sua sensação de inutilidade ainda mais intensa.
Virou-se com dificuldade para a cama onde seu irmão deveria estar. Sentiu mais falta ainda dele. Não só por ser muito chegado a Noel, mas porque sabia que se alguém poderia acabar com aquela agonia, esse alguém seria ele. Suspirou de forma ruidosa e fechou os olhos, buscando a calma que precisava.
Paul miraculosamente se virou na mesma direção instantes depois. Como se tivesse saído de um transe, encarou o mais novo por alguns segundos e resolveu ir até ele. Deitou-se ao seu lado, o abraçou apertado e o fez encaixar a cabeça em seu ombro.
Seriam horas de muito sofrimento para todos naquela casa.
Sexta faixa do álbum. Fala sobre um ataque de pânico que Noel sofreu na década de noventa.
