E assim como esperado, o carro policial ficou sem combustível, eu tinha rodado a cidade inteira, ainda assim não achei nada que me fizesse lembrar de quem eu sou, relutantemente abandonei o carro, após varias tentativas de encontrar outras pessoas pelo radio, todas sem sucesso.
Só agora me dei conta de que perdi o cassetete na minha fuga, e que havia disparado a pistola sem maiores problemas, abri o tambor da arma para conferir que se tratava de uma pistola de seis tiros padrão da policia, agora restavam quatro balas, uma o tal policial James havia usado e a outra, eu. No porta-malas da viatura achei um celular provavelmente apreendido, mas que estava sem bateria, também havia um binóculo perto do celular, com a música soando alto nos fones de ouvido eu enfiei o celular no bolso do terno e o binóculo em volta do meu pescoço.
Agora estava caminhando por um gigantesco parque com um belo lago no meio, alguns ''Deles'' á distancia no horizonte, felizmente não me avistaram. Entre várias arvores avistei uma pequena igreja, nunca fui religioso, mas um pouco de fé e bênçãos nessas horas sempre ajuda.
Caminhei calmamente, o portão da cerca que rodeava a igrejinha estava escancarado, uma placa próxima á porta da igreja me chamou a atenção. – Reze agora ou será silenciado e nunca mais poderá rezar – Sorri ao ler o letreiro, removendo os fones de ouvido fiz um sinal da cruz e adentrei a igreja.
Apesar de pequena, a arquitetura impressionava. Um teto alto com várias pinturas religiosas, as janelas e pilastras construídas em um antigo estilo gótico, os bancos reluziam na luz da tarde, o sol batendo de lado nas vidraças coloridas, projetando as cores em todo o lugar.
Mas o que chamou a atenção foi o altar, aonde uma gigantesca cruz de madeira enfeitava o local de adoração, pouco depois disso, percebi que havia uma forma em um canto do altar onde não batia luz, o vulto se aproximou da mesa de mármore no centro do altar, meu coração disparou ao ver quem era.
Segurando dois cálices dourados estava um padre de meia-idade, alto e esguio com um acolhedor sorriso e um semblante calmo, o suor na testa branca contrastava com a batina negra que ele trajava.
- Boa tarde, meu jovem. – Ele falou, pondo os cálices sobre a mesa e abrindo a bíblia em uma pagina que me pareceu totalmente aleatória. – veio louvar ao Senhor? Sente-se que logo começaremos a missa.
-B-Boa tarde, padre. – respondi pasmo pela calma do sacerdote, e como ele pediu, sentei-me em um dos bancos, ainda assim estava muito inquieto e não me contive em perguntar. – Já olhou pra fora da janela por acaso, padre?
- Não há necessidade para tanto. – ele respondeu sem pestanejar. – Lá fora é o domínio do demônio agora, porém aqui dentro continua sendo a casa do Senhor. Não precisamos expor nossas almas ás trevas que reinam fora daqui. – O sacerdote disse com um tom de voz tranqüilizador antes de começar com o falatório da missa.
Permaneci quieto enquanto o padre conduzia a missa para algo que parecia ser uma multidão invisível e imóvel apesar de eu ser o único fiel assistindo aquilo, depois de alguns minutos comecei a me irritar com a tal multidão invisível de fiéis, mas fiquei sem dizer mais nada.
A missa durou cerca de duas á três horas e ao final recebi a comunhão do pão e do vinho, o sacerdote repousou a mão em meu ombro e recitou alguns salmos encorajadores e me ofereceu uma estadia permanente na casa do Senhor.
- Sinto muito... Mas não pretendo ficar, padre. – respondi á proposta do sacerdote, caminhei em direção a porta para sair da igreja, o brilho do sol lentamente se esvaindo do recinto enquanto o sol se punha no horizonte. – Tenho muitas perguntas que precisam ser respondidas.
- Podes encontrar tais respostas aqui mesmo, e em completa segurança. – O padre insistiu, acendendo algumas velas para iluminar o altar.
- Desculpe, mas não posso. – dizendo isso repousei minha mão na maçaneta da porta de madeira maciça.
- Confie e mim e fique, nem que seja por uma noite, o demônio se torna mais ativo nas horas de escuridão. – A frase foi terminada um pouco antes de batidas nas vidraças serem ouvidas, olhei assustado e com os olhos esbugalhados diante das centenas de vultos de olhos brilhantes rodeando a igreja. – Deus não pode ajudá-lo fora de seus domínios. – O sacerdote completou enquanto acendia a ultima vela no altar.
Resolvi passar a noite ali mesmo, tendo em vista os fortes argumentos do padre e da horda de mortos-vivos circulando a igrejinha, foi a pior noite de sono da minha vida, claro, quem consegue dormir com os grunhidos e resmungos daqueles que deveriam estar á muito tempo mortos?
