Mais uma vez meus olhos se abrem, mas dessa vez estou dentro da igrejinha, olhando o teto, aonde algo que parece um santo aponta para um local que está a minha direita, me virei no banco que usei para dormir, mal tive tempo pra respirar e uma mão sangrenta tentou apanhar minha cabeça.
-Mas que merda! Padre! Padre! – Gritei com todas as minhas forças assim que chutei a abominação para longe, alguns Deles haviam entrado por uma das vidraças e tinha muito mais de onde aqueles vieram. Meus olhos perceberam o padre ensangüentado no chão, segurando o pescoço e gemendo de dor.
- Padre? O que aconteceu? – Eu perguntei me ajoelhando do lado dele. – Venha, vamos sair daqui! - eu arrastei o sacerdote até o altar com certa dificuldade e analisei seus ferimentos no pescoço, de onde escorria sangue. – Oh não... Você foi mordido?
- Infelizmente receio que sim, meu amigo. – ele balbuciou enquanto se levantava lentamente se apoiando na grande cruz de madeira que enfeitava o altar. – Nossa fé não foi o bastante para amenizar a ira de Deus. – o sacerdote agarrou um pedaço de madeira e enrolou parte de uma cortina nele e com uma vela ele fez uma tocha improvisada. – Eu não tenho muito tempo, o mal já corre pelas minhas veias. – Dizendo isso ele caminhou para trás da cruz e acenou para que eu o ajudasse a empurrá-la.
- O que pretende fazer? – Perguntei me apoiando na parte de trás da cruz que aparentemente íamos tombar.
- Dar a eles nosso próprio julgamento divino, meu amigo! – ele impulsionou a cruz, com a minha ajuda nós dois tombamos o grande símbolo de madeira, fazendo a mesa do altar se espatifar, matando vários Deles com o peso. – Vá por aquela porta, há uma saída nos fundos da igreja, fuja. – ele disse calmamente jogando vinho na cruz.
- Nada disso, vamos juntos! – eu disse ao padre vendo todos os mortos-vivos entrando pelas vidraças, destruindo tudo no caminho, avançando para se banquetear com a nossa carne.
- Sabe que não posso... Logo me tornarei um servo das trevas também. – ele disse com a cabeça baixa. – permita-me lhe dar a chance de se salvar nos últimos momentos de minha existência como servo da luz! – o padre ateou fogo na cruz embebida com vinho, o fogo se alastrou rapidamente pelas cortinas e pelo teto. – Fuja agora! - ele gritou cravando uma pequena cruz de prata no olho de um morto-vivo.
Tive tanto medo que não pude reagir apenas dei um chute na porta e corri por um corredor que dava para o pequeno cemitério na parte de trás da igrejinha, ouvindo os últimos gritos de dor daquele padre e dos grunhidos de prazer dos mortos que se banqueteavam com ele.
Como sou fraco... Como sou covarde, abandonei o único ser humano que encontrei desde que recobrei consciência, e agora estou correndo sem direção, passando pelas altas árvores do parque, que a noite mais lembrava uma floresta amaldiçoada da qual eu jamais iria fugir.
Tropecei em uma raiz de árvore e rolei barranco abaixo, as folhas, a grama e a terra girando em volta de mim enquanto meu corpo rolava sem controle para algum lugar que eu não sabia qual era, mas tudo parou assim que colidi com uma forte grade de aço que limitava o final do parque.
Ainda meio tonto por ter girado tanto, usei todas as minhas forças para pular a grade e corri até o pequeno prédio do lado oposto da rua, a porta estava aberta e eu voei para dentro do hall de recepção daquilo que parecia ser um hotel barato.
Me levantei sentindo minha mão roçar o carpete vermelho e imundo que enfeitava o chão, e com uma pesada ripa de madeira bloqueei a porta pelo qual eu havia entrado, ainda ofegante e com o suor frio ensopando minhas roupas, eu caminhei pelo hall até chegar a uma escada que ia do hall para o primeiro andar do prédio, que eu imaginava ter três andares.
Subi apressadamente a escada com medo de que algum Deles tivesse me seguido desde a igreja, apavorado demais para parar e vasculhar os quartos eu corri até o terceiro andar, então subi no terraço.
Como eu temia vários deles desciam o barranco em que eu vergonhosamente havia rolado antes, em questão de segundos o primeiro Deles começou a escalar a cerca, apavorado tranquei a porta para o terraço com alguns barris de metal que pareciam ser explosivos, para minha sorte havia um meio de sair daquele prédio.
No lado direito haviam duas ripas postas entre esse prédio em que estou e outro levemente mais alto, de modo a formar uma ponte entre eles, os fones ainda estavam presos aos meus ouvidos, para tomar coragem aumentei o volume no máximo quase explodindo meus tímpanos.
Corri pelas tábuas com os braços abertos para me equilibrar e cheguei até o outro terraço milagrosamente vivo, aonde outra ponte improvisada levava á um terceiro terraço, percebi que havia um caminho que dava para a saída norte da cidade distante no horizonte, e como nos filmes de ação que eu tanto adorava eu corri pelo caminho improvisado, a música ensurdecedora me dando coragem para um ultimo pulo de um muro até o chão, ao aterrissar me arremessei para dentro de um carro com a porta aberta que fechei assim que entrei.
Sequei o suor em minha testa com as costas da minha mão, logo senti toda a fadiga e exaustão física daquela corrida inesperada, removi os fones para poder pensar melhor sem a música me atrapalhando, aparentemente eu havia entrado em uma van, nos bancos de trás haviam alguns brinquedos e algo que me chamou a atenção, uma mochila de viagem, com um aspecto bem cheio.
Dentro dela além de roupas infantis que não me serviriam, também achei comida, muita comida, o bastante para me virar por umas semanas. Me senti aliviado e contente por poder comer de novo, mas os gritos dos mortos-vivos que se aproximavam me fizeram sair do carro correndo com a mochila nas costas.
Dessa vez não tive tanta sorte a ponto do carro ainda estar com gasolina e com a chave por perto, o único transporte que achei foi uma pequena lambreta, ainda funcionava e era mais rápido do que andar, então montado nela e com a mochila nas costas eu abandonei aquela cidade que eu nem sequer lembrava do nome, segui estrada abaixo, quem sabe na próxima cidade não encontro alguém vivo?
Quem sabe...
