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Sunday Morning Call


Liam sentou-se na confortável poltrona do avião e finalmente relaxou. Ali, sabia que estaria a salvo das investidas mais agressivas dos fãs. Tivera que aturar uma pequena multidão ensandecida pela sua presença e seus autógrafos. Agora, tudo o que precisava era de uma boa cerveja seguida de um sono profundo.

Não era que não gostasse de ser abordado, puxado, sugado até o último suspiro por aqueles que o idolatravam. A despeito de sua fama de briguento e mal-humorado, para a qual sempre contribuía com seu comportamento extremamente incorreto, ele adorava ser rodeado de fãs. Era incrível ser endeusado por pessoas que, muito embora lhe fossem desconhecidas, sabiam tudo ao seu respeito.

O que lhe incomodava um pouco era o conhecimento de que era um ídolo. Estava longe de ser alguém passível de ter um séquito fiel, mas, ainda assim, milhões de pessoas o consideravam um modelo a ser seguido. E isso o preocupava. O que se poderia esperar de uma geração que põe no altar seres que gastam seus dias bebendo, fumando, se entorpecendo? Qual tipo de futuro seria possível prever a partir dessa constatação?

Não se preocupava por si mesmo. Em poucos anos já não estaria colhendo os louros de ter sido o símbolo de uma era desregrada. Logo estaria morto e não teria que encarar o estrago e se arrepender de ter vivido a vida como se não houvesse amanhã. Tirava-lhe o sossego pensar nesse assunto porque deixara um legado. O que fizera de seus dias estava marcado por toda a história. Ninguém se esqueceria do Oasis, jamais abandonariam a lembrança dos Irmãos Gallagher que não se bicavam.

Seus filhos pagariam o preço por ele? Algum dia seria abordado por um pretenso fã e levaria um tiro de supetão, como fizeram com Lennon? Uma das canções de sua banda seria escolhida para nortear um grupo de assassinos, como ocorrera com The Beatles? E quando morresse, haveria um ser celestial para o qual seria forçado a prestar contas? Teria alguma barganha possível que lhe afastasse do inferno, em caso de resposta positiva?

O sinal para afivelar os cintos se acendeu. A voz suave e mecânica da aeromoça começou a ser entoada. O movimento para seguir corretamente o procedimento de segurança afugentou os seus pensamentos. A ansiedade pelo voo que se iniciava impediu o regresso dos mesmos. Quando a comissária de bordo perguntou se desejava algo, pediu sua cerveja. Recebeu o copo, tomou o conteúdo em goladas fartas e quase imediatamente caiu no sono, como se os questionamentos anteriores já fizessem parte de um passado remoto do qual não queria se recordar.


Oitava faixa do álbum e terceiro single do mesmo, lançado em 3 de julho de 2000.