Aparentemente essa lambreta que eu achei estava com o tanque totalmente cheio, então eu imagino que vai dar pra rodar vários quilômetros com ela sem ter que parar para abastecer.

Infelizmente o mesmo não pode ser dito sobre meu próprio combustível, sendo que nesses dois dias desde que acordei não consegui descansar direito, isso sem falar no fato de meu corpo estar totalmente cansado e meus músculos tensos.

- o que eu não daria por uma massagem? – murmurei comigo mesmo enquanto dirigia de cabeça baixa, sem me preocupar com qualquer tipo de transito ou acidentes.

Dirigi por várias horas esperando achar algum lugar seguro para dormir, as plantas e árvores ao lado da estrada começaram a crescer á medida em que eu ia me afastando da cidade, e a estrada ficava cada vez mais enlameada e difícil de dirigir, e no horizonte á minha frente eu podia ver uma nuvem absurdamente negra encobrindo o céu.

Já era de tarde quando a tempestade começou, a estrada se tornou um rio de lama, e a minha pobre lambreta ficou soterrada, tive que abandoná-la e seguir adiante a pé, logo descobri que andar em um trecho lamacento no meio de uma tempestade não é uma boa idéia.

Quando pensei que não acharia nenhum lugar para dormir me deparei com um pequeno caminho mata adentro, não tinha certeza, mas no meio das árvores, em algum lugar no final daquele caminho havia uma luz, na esperança de ser uma casa com alguém racional morando nela eu me adentrei na mata.

O barulho da chuva era tão alto que me impedia de ouvir meus próprios pensamentos, a água começou a transbordar rapidamente e fui sentindo mais e mais dificuldade para andar, o capim alto batia contra a minha pele com o vento, parecendo pequenas navalhas abrindo rasgos nas minhas roupas e fazendo pequenos cortes na pele.

A inundação alcançou meus joelhos e usando as árvores como apoio eu consegui chegar até a fonte da luz, era uma cabana de madeira, velha e com um aspecto de abandonada, mas havia luz saindo da única janela na parte da frente da cabana, minhas roupas grudavam no meu corpo graças a água que caia, com a voz meio trêmula devido ao frio eu gritei.

- Olá? Tem alguém ai? – me apoiei em uma das pilastras de madeira que sustentavam a varanda, o vidro da janela estava fechado e eu não conseguia ver nada lá dentro.

Tentei bater na porta, mas percebi que ela já estava aberta, sem pensar muito eu entrei na cabana e fechei a porta atrás de mim. – Olá? A porta estava aberta então eu entrei... Só preciso de um lugar para passar a noite, prometo que não irei atrapalhar.

Em todas as paredes da cabana haviam troféus de caça, da entrada saia um corredor, eu podia ver parte da sala que ficava na primeira porta a esquerda e parte da cozinha na primeira á direita, a luz vinha da cozinha, mas o que mais me deixou apreensivo foi o restante corredor escuro e sem luz que ia para a parte de trás da cabana.

Apanhei a pistola do meu bolso e, segurando ela firmemente eu caminhei meio abaixado pelo corredor até a entrada da cozinha, ao entrar lá percebi que a luz vinha de um lampião aceso em cima da mesa, em cima do fogão de lenha havia um radio antigo fora de sintonia fazendo um chiado irritante, a bancada com a pia pingava sangue, sangue esse que se espalhava pelo chão e pelas paredes, em formatos de mãos e pés humanos .

Um calafrio me desceu a espinha assim que eu vi as marcas nas paredes, agarrei o lampião e fui vasculhar a sala, com a pistola em mão e o dedo trêmulo no gatilho, na sala havia um antílope morto, que aparentemente havia sido comido vivo, faltava uma das patas traseiras, e um rastro de sangue que seguia para o corredor escuro me deu a pista de onde estaria a pata.

Deixei o lampião na mesa de centro para iluminar a sala inteira e apanhei o rifle de caça antigo que estava sobre a lareira, era uma daqueles que usavam na segunda guerra, carregado com apenas duas balas, no restante da sala eu via cabeças de animais empalhados exibidos a prêmio, todos ainda mais medonhos naquele ambiente mal iluminado e com o barulho da tempestade lá fora.

Guardei o rifle na mala de modo que o cabo ficasse para fora se eu precisasse tirá-la rapidamente de lá, peguei o lampião em mãos mais uma vez e segui pelo corredor, iluminando ele centímetro por centímetro, a passos vagarosos com minhas pernas trêmulas, o suor frio escorria e me fazia querer não sentir medo, o que era impossível, ainda mais depois que ouvi um grunhido vindo do final do corredor.

Tinha alguma coisa ali, eu não conseguia ver o que era, mas tinha certeza de que me via, os grunhidos ficaram mais fortes e desconexos, assim que eu ouvi o primeiro passo no velho chão de madeira, fazendo a estrutura inteira da casa tremer.

Dei um passo destrambelhado pra trás, o que me fez tropeçar e deixar o lampião cair no chão, espalhando óleo e chamas pelo chão, no instante em que cai vi o brilho de dois olhos sem vida no meio da escuridão, e um urro irracional assim que aquela coisa começou a vir na minha direção com passadas desproporcionais.

Atirei ás cegas três vezes com minha pistola, a breve luz criada pelos disparos iluminando a criatura por alguns instantes, tempo o bastante para fazer meu corpo se mover sozinho e me forçar a fugir dali, ainda sem equilíbrio corri pelo corredor ouvindo as passadas ficando mais próximas, esbarrei na porta que se abriu me fazendo rolar na varanda e cair no meio da lama, olhei para dentro da cabana e finalmente consegui ver o que era aquela coisa.

Gritos e urros medonhos viam do enorme vulto pegando fogo e segurando um machado de lenhador que vinha em minha direção, devia ter mais de dois metros de altura, e balançava aquele machado pra todo o lado tentando me decapitar antes que morresse queimado.

Me virei e corri pela mata, na direção da qual eu havia vindo, os urros sendo abafados parcialmente pelo barulho da tempestade, eu já não sabia se estava indo para o lado certo, tudo que sabia é que tinha que fugir dali o mais rápido possível.

De repente me vi em um pequeno barranco que dava de volta para a mesma estrada em que eu estava viajando, juntando meu medo com minha adrenalina pulei e rolei barranco abaixo, caindo na lama que me cobriu a visão por alguns instantes, felizmente a chuva que me espancava com aquelas gotas ajudou a remover parcialmente a lama de meus olhos, o bastante para eu ver aquela figura em chamas em cima do barranco jogando o machado em mim.

Me desviei do machado voador no ultimo instante, mas a criatura caiu pelo barranco, aterrissando sobre o próprio machado, mas aquilo continuou me caçando, mesmo com a própria arma enfiada no peito.

Segurei a pistola e atirei ás cegas novamente, um tiro abençoado por Deus, um tiro em cheio entre os olhos da criatura, fazendo ela cair em meio a lama e se silenciar de uma vez, ainda meio tonto e a ponto de ter um ataque cardíaco, eu me aproximei daquilo, a chuva e a lama apagaram o fogo, mostrando o corpo de um ser gigantesco, segurei o machado e arranquei do peito do morto que se levantou em seguida tentando me arrancar a cabeça com as mãos nuas, sem dó nem medo finquei o machado no pescoço daquilo três vezes, até a cabeça sair voando para longe do corpo, finalmente... estava tudo acabado.

Quando pensei ter me livrado da perseguição, ouvi bem longe no meio da mata alguns latidos, me levantei e permaneci com o machado firmemente em mãos , enquanto olhava fixamente para a direção de onde vinham os latidos, no meio das arvores vi dois olhos vermelhos e brilhantes, um animal pulou do barranco e praticamente voou em minha direção com a boca aberta mostrando dentes ensangüentados.

Com um golpe certeiro do machado dividi a cabeça do animal no meio, separando a parte superior do crânio do maxilar, o animal afundou na lama dando os últimos grunhidos e latidos antes de morrer de vez.

Agora sim estava tudo acabado, inclusive a tempestade que cessara, o sol da tarde passando por entre o restante das nuvens, e iluminando aquilo que havia sido meu campo de batalha, a tal criatura gigantesca era um lenhador, o animal seu cão de caça. Ambos morreram pela arma que ele usava para se sustentar e viver.

- Que irônico... – pensei comigo mesmo, deixando o machado no chão perto de seu dono, continuei o meu caminho cambaleante, ainda em choque por tudo o que aconteceu, mas de uma coisa eu sei...

Nunca mais eu durmo em uma cabana.