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Roll It Over


A entrevista acabou e Noel agradeceu ao tal apresentador, o Alguma-Coisa. O sujeito tinha mesmo um nome difícil de pronunciar. Aliás, qualquer nome no idioma brasileiro era complicado para ele. O tal português não era nada parecido com o inglês.

Seguiu para o seu camarim e antes de se sentar, pegou o violão. Ainda levaria um tempo para subir ao palco com o Oasis. Não havia mais nada que desejasse fazer no Brasil, por enquanto. Vira as praias, falara com fãs, comera pratos típicos. Não via motivos para enfrentar o calor diabólico desse país tropical. O melhor seria gastar o tempo de folga dedilhando as cordas de seu instrumento principal de trabalho. Quem sabe uma nova composição surgiria dali? Era geralmente em momentos de ócio que compunha suas melhores canções.

Começou a tocar uma melodia sem sentido, tentando encontrar para ela um caminho, um padrão, um significado. Foi deixando o som dominar seus ouvidos, buscando levar a música para um nível superior de compreensão, onde poderia guiá-la para a luz, tirando-a do estado bruto e mostrando ao mundo a beleza que, antes da lapidação, escondia.

Enquanto trabalhava nesse intuito, ia rememorando as perguntas que respondera instantes antes. Os repórteres não costumavam ser muito criativos. Sempre era questionado sobre as letras que escrevia, a relação com os fãs, a relação com a família, e, principalmente, sobre como era conviver com seu irmão.

Dava respostas diferentes porque a mesmice lhe deixava exausto. Um dia dizia que Wonderwall era inspirada numa garota, depois afirmava ter sido escrita para um bichinho de estimação. Depois falava que fora composta em homenagem ao próprio pênis. Seguia filosofia idêntica para todas as perguntas similares que recebia. "Como é lidar com a fama?" "A fama é a coisa mais importante./ Às vezes eu gostaria de não ser famoso./ Eu quero mais, muito mais!/ Quem é famoso? Eu?"

E então vinham as perguntas sobre Liam. "Como é estar na mesma banda que o irmão?" "Ótimo/ Ruim./ Excelente./ Bom, família e membro de banda não se escolhem." "Você e Liam brigam muito. Por quê?" "Irmãos brigam./ Ele é um pé no saco./ Nós não brigamos tanto, a imprensa exagera." Sempre assim. Sem variação. Exceto naquela tarde.

O tal repórter fizera uma pergunta realmente capciosa sobre seu relacionamento com Liam. "As brigas com seu irmão são excelentes para o marketing da banda, não são?" Fora pego de calça curta com a maneira de perguntar do sujeito, precisava admitir. Muitos já fizeram a insinuação de que criavam as brigas para alavancar o nome do Oasis, mas jamais o mencionaram de forma tão sutil e direta ao mesmo tempo. A única resposta que pôde oferecer foi um cínico e despreocupado "Yes". Mas a verdade passava bem longe disso.

Brigar com Liam não era marketing. Sim, eles inventavam situações, aumentavam consequências, bagunçavam as informações numa ou noutra briga. Na maior parte das vezes, no entanto, as discussões eram reais. Liam era o irmão mais novo, aquele que foi protegido de tudo de ruim que há no mundo. Ele e a mãe, porém, se esqueceram de trabalhar para proteger Liam de si mesmo. E agora ele era um homem crescido que não dava ouvidos a ninguém. Extremamente inconsequente, a despeito da idade. Não podia ser largado sozinho.

O maior motivo para ter aceitado entrar no Oasis foi esse. Queria sim ser famoso, mostrar o que sabia fazer, ganhar dinheiro com isso, mas o teria feito muito bem sozinho. Não precisava se unir a William para tanto. Mas ele era o guardião de seu irmãozinho e continuaria sua missão de mantê-lo a salvo. Mesmo que ele, Liam, nunca se desse conta disso. Ainda que sua sina causasse as brigas mais loucas e tristes que tinham.

Perdeu o foco da música que criava e desistiu do violão. Suspirou pesadamente e se ergueu, indo em direção à saída. Não via o irmão já tinha um tempo. Onde Liam estaria enfiado?


Décima e última faixa do álbum.

A entrevista mencionada existiu. Foi durante o Rock In Rio que a banda esteve presente, em 2001. A questão foi levantada por Edgard Picolli, que na época trabalhava na MTV. Quer dizer, acho que foi isso. Faz muito tempo, minha memória é de galinha velha e, para piorar, não achei referência à entrevista na internet. Mas eu juro que houve! haha Não me lembro com exatidão das palavras usadas na pergunta, mas sei que a forma com que Noel concordou com a insinuação nunca me saiu da cabeça. Fez com que eu visse um milhão de implicações por trás do tal Sim.

Acabou a imbecil porém sincera homenagem à minha banda favorita. Tem aí uns quinze ou dezesseis anos de relação com o Oasis e com o que restou dele. Não é pouca coisa, mais da metade da minha vida. Só eu sei o quanto eles são importantes para mim. Tem muito mais que uma mera admiração pela música. Enfim. Valeu demais fazer essa bobagem aqui para celebrar o relacionamento mais longo que tive na história! xD

Por fim... A quem possa estar do outro lado: Stay young and live forever!