Notas da autora:
Ok, esse é um capítulo que necessita de mais cuidado ao ser lido. Nele ocorrem várias mudanças no foco da narrativa, o que pode confundir alguns.
Só relembrando: o que está em itálico são expressões em élfico (vão ser traduzidas) e no caso desse capítulo haverá uma passagem flashback, ok?
(*&*) - Quando eu usar esse símbolo quer dizer que não muda o tempo e espaço, mas sim o ponto de vista sobre um mesmo fato.
Ah! Na fala dos elfinhos eu tentei simplificar ao máximo para eles não soarem como adultos. Mas de qualquer jeito, se for comparar com uma criança humana, eles falam até direitinho.
Sinopse do Capítulo: O passeio por Imladris tinha tudo para ser maravilhoso, no entanto, um fato inesperado ocorre e tal passeio não será tão facilmente esquecido.
6 - Encontro Indesejado
A caminhada prosseguia em um ritmo bom. Alguns minutos haviam se passado desde que eles deixaram o centro da cidade e faltava pouco para que chegassem a seu destino.
Nos primeiros momentos, com a brincadeira que o gêmeo mais novo criara, havia muito alvoroço entre eles. Conforme o tempo foi passando, Estel e Elladan haviam se cansado do papel a eles destinado. E mesmo sob vários protestos de Elrohir os dois colocaram os elfinho no chão.
"Vocês não têm coração?" Indagou o elfo se aproximando dos irmãos. "Olha só a carinha de desapontamento deles." Continuou o gêmeo tentando usar da chantagem emocional para irritar Elladan e Estel.
"Então porque não os carrega você?" Retrucou Elladan enquanto fazia um alongamento com Estel, enquanto andavam, para que seus músculos dormentes voltassem ao normal. Os pequeninos eram leves, mas se carregados por muito tempo cansava muito.
"É isso mesmo, Dan! Esse elfo aí fala isso, porque não foi ele quem teve que carregar esse tempo todo peso nos ombros. Só ficou servindo de bobo da corte." Disse Estel em apóio ao irmão mais velho.
"Se é assim, eu carrego os dois." Disse Elrohir aceitando o desafio proposto pelos irmãos. "Ainion! Melenthiel!" – Chamou-os - "Eu carrego vocês."
"Não precisa Elrohir. Eu já tô cansada de ficar sentada. Eu queria ir andando." Recusou Melenthiel correndo para o lado de Legolas. Ela já nem lembrava mais que estava longe dos pais. A elfinha estava encantada com tanta beleza e havia se acostumado com os amigos do príncipe. Ela passou a andar vagarosamente contemplando tudo. Seus olhinhos brilhavam a cada passo que dava.
"E você Ainion? Vêm comigo?" Questionou o elfo moreno com os braços abertos prontos para pegar o elfinho no colo.
"Ahn... Eu também tô cansado de ficar sentado." Disse o elfinho um pouquinho encabulado. Mas já se pondo prontamente a correr louco para descobrir os mistérios daquela terra desconhecida. O menino não se importava aonde os caminhos da vida o levariam, e tampouco se as estradas lhe proporcionassem perigo mortal. Ele ainda assim, continuaria a caminhar para tentar entender um pouco mais daquele mundo. Com certeza ele seria um elfo muito valente quando crescesse.
Elrohir preocupado em perder o menino de vista, tratou logo de correr atrás dele e nesse meio tempo inventou mais uma brincadeira.
"Espere aí, elfinho travesso." Pediu o gêmeo antes de ser interrompido pelo irmão caçula.
"Olha só quem fala." Brincou o humano arrancado risadas dos outros membros do grupo.
"Ainion, o que você acha de apostarmos uma corrida para ver quem chega à cachoeira primeiro?" O gêmeo mudou completamente de assunto, o que não lhe era nada peculiar.
"Aham. Eu tô ficando bom em correr, Ro!" Disse o pequenino todo alegre praticamente a postos para sair correndo.
"Eu acho melhor não, Elrohir. É meio perigoso." Alertou Arwen que estava caminhando ao lado de Legolas e Estel, mas não se pronunciava há um bom tempo.
"Não se preocupe, Arwen. Nós já estamos perto o suficiente da cachoeira para uma pequena brincadeirinha." Justificou-se o elfo moreno já se preparando para correr.
"Vamos lá, Ainion. Quando eu contar até três!" – Informou ao menino. – "Um, dois... três.".
O elfinho começou a correr o mais rápido que podia. Elrohir por sua vez não fazia muito esforço. Enquanto o garoto dava três passadas grandes, o elfo dava apenas uma. De qualquer forma ele fingia muito bem que estava se esforçando e vinha sempre no encalço do elfinho.
Os que ficaram para trás ainda acompanhavam atentos para ver qual seria o final daquela "disputa", embora não fosse possível.
Muito em breve o grupo estaria na nascente do rio que cortava o vale da cidade. Este ao seguir seu caminho, chegava a um desnível considerável formando uma bela cascata de águas.
Alguns minutos depois, o grupo que ficara para trás chegou à nascente do rio. Lá se depararam com Elrohir segurando o pequeno Ainion nos braços fazendo-lhe cócegas. O pequenino ria de tal forma que seria capaz de fazer qualquer ser sorrir.
"Quem venceu?" Era o que todos gostariam de saber quando Estel fez a pergunta ao irmão.
"Deu empate. Esse elfinho aqui corre que é uma beleza." Revelou o gêmeo deixando escapar um sorriso travesso nos lábios.
Ainion estava radiante. Não acreditava que por pouco teria vencido um elfo adulto como Elrohir - que por sua vez ganhava, a cada instante, a admiração do menino. Claro que havia ainda muitas coisas que sua cabecinha não conseguia entender. Como, por exemplo, por que eles tiverem que sair de casa para ir para aquele reino. De qualquer maneira, todas essas dúvidas não ocupavam nem um milímetro dos pensamentos do elfinho naquele momento. Com certeza um dia ele iria compreender. Talvez não pela razão da mente, e sim pelo coração.
(*&*)
Um pequeno sorriso surgiu em um rosto encoberto por panos negros. E quase que instantaneamente começou a odiar-se novamente.
"Como que depois de tudo pelo o que passei hoje, tal criaturinha ainda consegue me trazer um sorriso aos lábios?" O elfo misterioso questionava-se interiormente.
Ele estava ali quando um dos gêmeos chegou com o pequeno elfinho. Ele esperava que ambos fossem embora logo, mas para sua surpresa outros chegaram para atrasar mais ainda seu plano de fuga.
"Até aqui esses estúpidos me atrapalham." Tal pensamento começou a percorrer a mente do elfo como que para conter seu lado sentimental.
Aos poucos, a raiva e o desapontamento que corroíam seu ser voltaram à tona, proporcionando aquela mesma expressão fria, calculista e arrogante de sempre, como se ela nunca tivesse desparecido por alguns instantes.
"Ora por que diabos eu fui inventar de parar? Uma hora dessas eu já estaria longe." Lamentou-se o elfo que após ter chegado às margens do rio simplesmente se deixara ficar sobre aquela árvore pensando nos acontecimentos daquele dia que o levaram até ali.
Desde cedo ele tentava fugir daquela cidade. Estava quase impossível escapar, pois desde seu ataque ao orc, a vigilância na cidade aumentara.
Em todos os cantos da cidade guerreiros élficos montavam guarda. A situação piorou ainda mais depois da chegada de elfos que aparentemente pertenciam a outros reinos. Ele estava completamente enganado quando pensou que com a festa seria mais fácil fugir.
Acuado, tivera que esperar um bom tempo até conseguir mudar de árvore. Assim as horas iam passando, e ele começava a sentir seus efeitos. Apesar do fascínio que observar o povo de Rivendell lhe trazia, o elfo queria sair dali o quanto antes. Desde cedo ele estava se escondendo. A ansiedade criada pelo medo de ser capturado estava o atormentando.
Aos poucos, conseguia seguir em direção ao caminho que o levaria ao local por onde ele entrou. Contudo, a noite já havia caído e a festa parecia estar começando. Com ela, os convidados não paravam de passar muito próximos a ele. Infelizmente, sua rota de fuga ficava deveras próxima da entrada do salão.
Logo dois guardas de Rivendell se puseram à porta do salão e outros dois ficaram parados exatamente aonde ele pretendia ir.
Impedido de fugir, o elfo não pôde fazer nada a não ser esperar escondido pelas folhas de uma árvore. Com medo de ser visto, ele subiu o mais alto que podia conseguindo uma visão privilegiada da porta do salão.
Os elfos, em seus trajes de gala, entravam no grande salão. Dessa forma, o elfo misterioso viu rostos vagamente familiares até que finalmente se deparou com dois rostos que ele tinha gravado muito bem em sua mente. Eram o elfo loiro que encontrara alguns dias antes e o humano insolente, que por pouco escapara da morte.
Junto a eles, três elfos aparentemente mais velhos e sábios. Além de dois elfos genuinamente idênticos.
O grupo foi brevemente anunciado, deixando o elfo intrigado, pois se eles haviam sido anunciados é porque deveriam ser figuras de grande importância.
Além disso, ele tinha outras pistas. O elfo que anunciara disse: Lorde Erestor, Lorde Glorfindel, Lorde Elrond e seus filhos Elladan, Elrohir e Estel e príncipe Legolas de Mirkwood.
"Provavelmente os três elfos mais velhos devem ser os três primeiros a serem anunciados em sinal de respeito a sua idade e sabedoria superiores." O elfo confabulava em sua mente.
Enquanto isso as portas do salão já tinham sido fechadas e o elfo continuava absorto em seus pensamentos.
"Os elfos idênticos devem ser Elladan e Elrohir ou Elrohir e Estel, pois em uma enumeração de nomes, os de gêmeos sempre vão estar juntos. Além disso, esses elfos são filhos de um dos Lordes. O que faz do elfo loiro irmão deles e o humano só pode ser Legolas príncipe de Mirkwood." Porém, algo não se encaixava em seu raciocínio. "Um humano de nome élfico? Estranho. Mas por aqui as coisas são bem diferentes do que eu sou acostumado, então..." Concluiu então.
"Quem diria um príncipe aquele humano estúpido. Eu imagino como deve ser o seu reino. Humanos..." Riu voltando novamente sua atenção para a porta fechada do salão. Passado algum tempo, um novo grupo se aproximava. Aquele grupo com certeza era de elfos forasteiros. Eles se diferenciavam muito dos elfos da cidade por seus longos cabelos claros e suas roupas.
O grupo em frente à porta tratou logo de organizar uma formação de entrada. De repente as portas se abriram e o grupo foi anunciado como a comitiva de Lothlórien sem maiores distinções. O elfo observou atentamente os elfos de Lothlórien, sendo que as últimas pessoas que formavam a comitiva chamaram-lhe a atenção. Eram quatro elfos: um casal, pôde perceber pela forma que caminhavam lado a lado; uma bela elfa de cabelos muito negros, e outra elfa igualmente bela e de cabelos castanho claros, que também destoavam do amarelo dourado que era o cabelo de seus acompanhantes.
Logo o grupo que há pouco estivera ali desaparecera dentro do salão e o elfo se deixou ficar imaginando quem seriam aquelas pessoas e, principalmente, relembrando a beleza das duas elfas que acompanhavam o casal.
Algum tempo depois, um novo grupo se formou novamente. Eram elfos que também pareciam não morar na cidade. Mas com certeza deviam ser de outro local diferente de Lothlórien, pois estavam entrando em uma outra comitiva, além de particularidades quanto a fisionomia e vestes dos mesmos.
O elfo misterioso continuou observando. Esperando ansiosamente para ouvir o anúncio da comitiva.
Para sua surpresa aqueles eram elfos do reino de Mirkwood. "Mas como um reino élfico tinha um príncipe humano?" Aquilo não fazia o menor sentido para ele.
Ele ficou ali parado, sem nenhuma movimentação. Parece que todos já haviam chegado. Ele adoraria se invisível para ver o que se passava dentro do grande salão. Melhor, se daria por satisfeito se pudesse chegar perto de uma janela para observar. Mas isso era impossível com tantos guardas.
O tempo passou e ele estava começando a ficar entediado. Então, ele teve a maior de todas as surpresas. Um guarda aparentemente de Mirkwood se aproximava do salão sendo acompanhado por dois elfinhos: um menino e uma menina. Instantes depois, as portas se abriram novamente e por elas apareceu o elfo loiro. Ele se encaminhou até os pequeninos e o guarda.
As portas tornaram a fechar. Somente quando o elfo loiro e as crianças estavam prontos para entrar que as abriram novamente. Fez-se um silêncio aterrador dentro do local e depois alguém gritou alguma coisa que o elfo não deu grande importância. Logo em seguida, o som de vozes começou a crescer novamente e as portas do salão se fecharam.
Naquele momento, mais do que nunca, o elfo encapuzado desejou estar ali junto com os outros elfos. Acompanhar aquela festa do lado de fora criara nele o desejo de saber o que acontecia lá dentro. Ele queria saber mais, conhecer aquelas pessoas. Saber seus nomes e um pouco de suas vidas. Pensando nisso, algo ocorreu ao elfo.
"Espere, o elfo loiro... Ele é Legolas, príncipe de Mirkwood. É claro, a fisionomia as roupas. Faz muito mais sentido." Riu o elfo.
"Então isso faz do humano um dos filhos do Lorde élfico. Um filho de criação talvez." - Sua cabeça estava a mil com suas possíveis descobertas. –"Logo se o humano é filho de Elrond, os gêmeos devem ser Elladan e Elrohir e o humano deve ser Estel. É claro que o nome do humano viria depois do dos elfos. Seja por importância, ou por idade."
O elfo parecia contente com suas suposições. Elas eram deveras plausíveis, só precisavam ser confirmadas. Embora talvez nunca fossem.
Mais algumas horas se passaram. Por falta do que fazer, o elfo voltou sua atenção para os dois guardas que atrapalhavam sua passagem. Parecia que eles não iriam sair dali nunca. Por isso, o elfo decidiu que caso eles não saíssem até um pouco depois do final da festa, ele teria procurar outra rota de saída da cidade.
A festa finalmente chegara ao fim. Os convidados iam deixando o salão. De olho nos guardas, percebeu que estes olhavam os convidados, mas não se moviam. Ele viu os elfos que observara antes. Faltava apenas o grupo que mais lhe interessava...
Não demorou muito para que avistasse o grande grupo que deixava por fim o salão. Nele vinha um dos Lordes, provavelmente Elrond, os gêmeos, o humano, o elfo loiro, os pequeninos, a bela elfa de cabelos escuros e três outros elfos da comitiva de Mirkwood.
O grupo passou pela árvore que ele se escondia e seguiu um pouco mais a frente até parar. Ele ia começar a focar sua audição apurada no que eles diziam quando outra conversa chamou-lhe a atenção.
"Figwit, Garnus!" O guarda de Mirkwood que acompanhara as crianças até a porta do salão falou se dirigindo aos outros dois que guardavam o caminho que ele pretendia seguir.
"Eu e meu colega de Mirkwood assumiremos o posto de vocês agora. Podem descansar." Disse ele para a alegria dos outros dois.
Após os outros saírem o guarda de Mirkwood ficou ali parado. Provavelmente a espera de seu companheiro de turno.
O elfo misterioso então viu naquilo uma possibilidade. Com um guarda, apenas, seria bem mais fácil distraí-lo para depois fugir. Mas antes que o fizesse, outro guarda, visivelmente jovem e inexperiente, apareceu dizendo:
"Tharlam, se- sen- senhor..." O elfo parecia tão nervoso que as palavras mal saiam de sua boca.
"Acalme-se, Adan." Disse o primeiro numa voz calma. Aparentemente Tharlam deveria ser o chefe da guarda de Mirkwood.
"Lorde Glorfindel deseja vê-lo imediatamente, senhor." Disse o elfo recém-chegado após conseguir se controlar.
"Ele disse do que se trata?" Quis saber Tharlam.
"Não. Ele apenas me mandou buscá-lo"
"Pois bem, fique em meu lugar até eu voltar. Outro guarda virá em breve."
Finalmente quando o primeiro guarda finalmente se foi, o outro ficou em seu lugar. Ele parecia deveras frágil e inexperiente, seria uma presa fácil para o elfo escondido sobre as árvores.
Olhando para o grupo de elfos ainda parado um pouco mais a frente e o guarda descuidado, ele desceu da árvore rapidamente e aplicou um golpe em Adan que não pôde reagir.
O elfo misterioso então carregou o corpo desacordado do jovem guarda e escondeu-o no meio de algumas plantas. Aproveitando que não havia mais ninguém por perto, ele finalmente seguiu seu caminho para deixar a cidade.
"De qualquer forma eles não podem passar a noite inteira aqui." Pensou tentando agarrar-se a esta idéia para não colocar tudo a perder.
Porém, a vontade que tinha era de descer daquela árvore e sair correndo de volta para o seu esconderijo. Apesar de não ser dos melhores, era o seu lar há algum tempo. Ao menos ali ele tinha paz.
Além do mais, esperar algumas horas a mais seria fácil para quem se acostumara a viver nas sombras.
(*&*)
"O que foi, Mel?" A pequenina parecia assustada.
"É bonito aqui. Mais dá um pouquinho de medo." Confessou a menina segurando com mais força a mão do príncipe louro.
"Não precisa ter medo, pequena. Nada de mal vai te acontecer." Assegurou Arwen abrindo os braços para segurar a pequena criança. A elfinha por sua vez aceitou de bom grado a oferta.
Ainion apesar de ser gêmeo da menina, tinha um temperamento completamente diferente do da irmã. Ele podia parecer tudo naquele momento, menos assustado. Olhava para todos os lados, fascinado. Enquanto isso, os outros admiravam a beleza daquele ambiente iluminado pela lua e as estrelas.
Porém, alguma coisa na água chamou a atenção do pequeno elfinho. As águas límpidas refletiam as árvores da borda. Entretanto, em um ponto, ou melhor, um vulto negro estava refletido na água. Curioso, o menino se aproximou mais da água para poder distinguir o que era aquilo. Conforme chegava mais perto, a imagem se tornava cada vez mais nítida. Era uma pessoa. Ainion percebeu que o vulto mantinha seu olhar fixo no grupo. Não dava para distinguir quase nada em meio a capa negra que ele usava e as folhas das árvores. Apenas mais uma coisa poderia ser vista: um arco sendo segurado por seus longos dedos finos.
"Ainion!" Gritou Elrohir quando o elfinho caiu nas águas, sendo levado pela correnteza.
O gêmeo mais novo preparou-se para pular no rio. Porém, Elladan segurou-o pelo braço impedindo-o de pular.
"A correnteza está muito forte vocês não vão conseguir voltar." Alertou o elfo da insana atitude do irmão.
"Procurem por algo que nos sirva de corda." Gritou Legolas já procurando por uma espécie de cipó para que ele mesmo entrasse na água para resgatar o garoto.
Arwen, que estava com Melenthiel no colo, tentava inutilmente acalmar a menina. Melenthiel chorava sem parar. As lágrimas saiam de seus olhos correndo seu rosto e indo parar no peito de Arwen.
Enquanto trabalhavam juntos para salvar a vida de Ainion, um movimento brusco vindo das árvores acima de suas cabeças chamou-lhes a atenção.
(*&*)
Agora, mais do que nunca, se odiava por ter pulado naquelas águas turbulentas para salvar o elfinho. Simplesmente ele não poderia deixar um ser tão inocente morrer. Ainda mais, porque sabia que o garoto havia caído ao ver seu reflexo na água. Ele provavelmente se assustou quando o elfo encarou-o sem ter dado o menor sinal de que o faria antes.
Portanto, nadava o mais depressa possível por debaixo da água. A força do rio se tornava menor conforme a profundidade aumentava. E é claro temia que alguém na superfície visse seu rosto descoberto para poder enxergar melhor.
A água fria passava por seu corpo retirando todo o calor. Procurava manter-se consciente o suficiente para achar a criança e voltar à superfície. Olhando em volta não demorou para achar o corpo do elfinho boiando alguns metros acima de sua cabeça. Antes de subir colocou novamente o capuz de sua capa nadando as cegas para cima.
Quando atingiu a superfície, percebeu após retirar o pano dos olhos que o corpo de Ainion estava preso em um aglomerado de pedras no meio do rio. Deixou-se levar pelas águas para atingir o lugar desejado. Ao chegar perto do menino constatou que ele estava desacordado, mas que ainda respirava.
Tomou o elfinho nos braços preparando-se para nadar com o resto de suas forças contra a correnteza arrebatadora. O medo começava a tomar conta de seu ser. Não por ele, mas pela criança em seus braços. Devia controlar-se. No entanto, dentro de si uma voz gritava. A razão dizia-lhe que não sobreviveriam. Talvez fosse verdade, mas em seu coração ele ainda acreditava que havia esperança para aquele menino e quem sabe para ele também.
Seu coração estava certo. Segundos depois, um cipó surgiu a sua frente. Não pensou duas vezes: agarrou-o e depositou grande parte de suas forças para manter a cabeça e uma parte do tronco do menino acima da superfície da água.
Aos poucos conforme se aproximavam da borda o elfo deparou-se com os dois elfos idênticos, o elfo loiro e o humano puxando o cipó. Alarmado por tal constatação, o elfo voltou a preocupar-se.
"O que aconteceria quando chegasse à terra firme? Provavelmente eles o prenderiam e tirariam sua capa a força. Afinal ele era só um contra três elfos adultos e um humano." Tal possibilidade alfinetava sua cabeça impiedosamente. Ele teria que bolar algum plano para sair daquela situação, que poderia colocar em risco sua verdadeira identidade.
(*&*)
Todos estavam espantados e infinitamente confusos. Não entendiam absolutamente nada. Por que aquele ser tinha arriscado sua vida para salvar a de Ainion? E se ele era bom, por que vivia se escondendo? Será que poderiam confiar nele?
Aquilo tudo mexia com a mente dos presentes. Estavam calados apenas cumprindo sua missão de salvamento puxando o cipó. Tinham receio sobre o caráter duvidoso do elfo, o qual saia da água naquele momento.
Ninguém fez nada para ajudá-lo. Limitaram-se apenas a ficar calados observando o ofegante elfo misterioso depositar o corpo de Ainion na grama. Estavam receosos de se aproximar, por isso ninguém havia movido um músculo.
O silêncio aterrador recaia sobre eles. Ficaram apenas observando. Ainion que estava desacordado, parecia respirar com dificuldade. Então, o elfo tomou-lhe as mãos depositando sua cabeça em cima do peito do menino. O coração dele ainda batia fraco. De repente aquele ser encapuzado começava a falar algumas palavras às quais os outros não conseguiam entender.
De alguma forma, uma luz branca emanou de suas mãos sobre o peito do menino. Em poucos instantes, o garoto recobrava sua consciência. Tossindo muito, é claro.
Legolas deu um passo à frente na tentativa de se aproximar para ter certeza de que o menino estava bem. Porém, o elfo puxou o menino para perto de si pondo-se de pé.
"Vocês não acharam que eu iria entregar o elfinho aqui de graça para vocês, não é?" Disse ele com sarcasmo na sua voz.
"Sabia que não poderíamos confiar nele." Rugiu Estel louco por ter hesitado em se aproximar do elfo quando este estava vulnerável.
"Fique bem quietinho, humano. Você sabe que eu teria acabado com você se assim o desejasse."
Ao dizer isso Elrohir partiu para cima dele.
"Ntz, ntz! Não se aproxime ou eu..." Alertou o elfo.
"Vai machucar o elfinho? Depois de ter tido tanto trabalho para salvá-lo." Elrohir era ótimo em perceber certas falhas no que as pessoas falavam. Ele adorava fazer as pessoas entrarem em contradição.
"Não dê idéias a esse louco, irmão." Suplicou Arwen.
"Eu não seria capaz de machucar uma criança, mas você sim." Respondeu o elfo apontando a adaga na direção do gêmeo mais novo.
"Então tente." Elrohir não tinha medo dele. Queria apenas que aquele ser imundo libertasse Ainion.
"O que devemos fazer para que você solte o garoto?" Quis saber Elladan. Ele se sentia na obrigação de tentar negociar com o elfo. Eles não poderiam simplesmente voltar sem o garoto. Eles o teriam de volta a qualquer custo. E seria melhor que o fizessem de maneira pacífica, sem que ninguém saísse ferido.
"Eu entrego o garoto, se vocês me deixarem partir em paz."
"Parece justo." Disse Elladan.
"Finalmente alguém inteligente neste grupo de idiotas." O sarcasmo do elfo tirava Elrohir e Estel do sério.
"Você não vai sair daqui." Afirmou Estel.
"Pelo menos não enquanto você respirar." Elrohir estava de acordo com Estel. "Estel, o que você acha de socar ele para depois eu torturá-lo." O elfo moreno usava mais uma fez da sua ironia para tirar aquele nojento do sério.
"Concordo plenamente."
"Se eu não sair daqui por bem sairei passando por cima de vocês e ainda levo o menino de refém. O que você acham?"
"Antolle ulua sulrim." ("Muito vento verte de sua boca.")
"Estel tem razão. Você não tem como fugir! Vai atravessar o rio nadando com o Ainion?" Disse Elrohir com um largo sorriso nos lábios. Agora ele tinha como provar que o elfo se baseava em falsas ameaças.
"Como você acha que eu entrei na sua cidade. Pela a porta da frente é que não foi. E atravessando esse rio a nado também não. Isso eu garanto."
Fazia sentido o que o elfo dizia. Ele não teria entrado na cidade pelos portões ou muito menos atravessando o ria a nado. Ele não tinha força suficiente para fazê-lo. Precisava de ajuda.
"Você tem um ajudante, não é seu imundo?" Indagou Elrohir com um tom de certeza na voz. "Amin feuya ten' lle" ("Você me dá nojo")
"Se eu tenho um ajudante não é da sua conta elfo intrometido!"
Essa foi a gota d'água para Elrohir. Ele tentou partir para cima do elfo. Elladan o segurou. Estel também entrou na briga e logo as vozes se alteraram. O elfo misterioso ria muito ao ver aqueles idiotas brigando entre si.
"Já chega!" - A voz de Legolas sobressaiu sobre as outras. – "Nós faremos o que você pediu em troca do Ainion. Tenho certeza de que cumprirá com sua palavra."
Ao ouvir as últimas palavras daquele elfo louro seu sorriso encoberto pela capa se dissipou rapidamente.
"Está bem. Vocês me deixam ir e eu largo o menino."
"Não mesmo. Você larga ele e só então nós te deixamos ir." Estel não conseguia confiar naquele sujeito.
"E qual é a garantia que eu tenho de que você ou o seu irmão esquentadinho não vão tentar me impedir, humano?" Questionou o elfo.
"Ao contrário de você nós somos honrados." Retrucou o dunedain que odiava com todas as suas forças aquele maldito elfo.
"Faremos o seguinte. Você foge e deixa o Ainion. Nós prometemos só tocar nele quando você tiver ido embora." Sugeriu Elladan desagradando profundamente Estel e Elrohir. Os dois queriam dar umas boas bifas naquele elfo arrogante.
"Pode até ser. Mas e se o menino sair correndo quando eu o soltar?" Disse olhando para o elfinho preso a seu corpo por suas mãos. Ele não parecia com medo.
"Eu não vou. Prometo. Você pode até arrancar minhas orelhas se eu fizer isso." Falou baixinho Ainion encarando aquele par de olhos verdes. Era a única coisa que poderia ser vista já que todo resto estava coberto.
"Em você eu acredito." - Ele não sabia por que, mas gostava daquele elfinho danado. – "Está bem então."
Ele deu alguns passos em direção à árvore em que estivera antes de pular na água. Subiu na árvore deixando o menino no chão. Segundos depois, ele estava de volta ao chão segurando seu arco. Ele se preparava para partir o mais depressa possível quando algo inesperado aconteceu.
"Moço..." - disse o pequeno elfinho segurando a mão do elfo encapuzado, para chamar a atenção dele para si. "Obrigado por me salvar."
"Por nada, garoto." Respondeu simplesmente o elfo soltando a mão do elfinho. Em seguida ele saiu correndo em direção a uma grande árvore mais a frente e subiu nela com tamanha destreza e elegância que apenas os elfos possuem. Depois foi andando pelos galhos grossos da árvore que chegavam a ficar metros acima do rio. Ele saltou de um dos galhos daquela árvore caindo direto no rio. Para a surpresa de todos, ele não afundou. Parece que, naquele ponto, o rio não era fundo. Depois, ele deu mais alguns saltos caindo exatamente sobre algumas pedras que não poderiam ser vistas por quem estava do lado de fora.
Esse fato surpreendeu muito os filhos de Elrond e Legolas. Como ele sabia exatamente onde pular? Um passo errado e ele seria arrastado pela correnteza.
Quando o elfo atingiu o outro lado do rio, ele subiu novamente em uma árvore e finalmente desapareceu de vista.
Neste momento, os que ficaram na outra margem do rio correram em direção a Ainion. O garoto ainda tentava ver algum sinal do elfo do outro lado do rio.
"Você está bem, Ainion?" Quis saber Legolas bastante preocupado.
"Sim. Eu tô bem por causa daquele moço."
"Deixa de ser bobo. Aquele elfo só queria te usar pra sair daqui antes que a gente arrancasse o couro dele." Disse Elrohir espantando a preocupação que sentira há pouco, ao ver o sorriso sincero que conseguiu arrancar do elfinho.
Melenthiel desceu do colo de Arwen e correu para abraçar o irmão.
"Não faz mais isso, viu?" Ela abraçou o irmão com tanta força como se tivesse medo que ele evaporasse no ar.
"Acho que chegou a hora de voltarmos."
Arwen estava certa. Tudo dera errado. E agora teriam que voltar e contar aos pais dos meninos que haviam falhado em proteger seus filhos.
"Concordo. Já está tarde e querendo ou não ada vai encher os nossos ouvidos."
"Imagine o meu pai, Dan."
Legolas sabia que o pai não agiria da melhor maneira ao saber que por pouco Ainion tinha morrido. E, ainda por cima, a culpa era dele por ter inventado de sair naquela noite.
"Creio que teremos um dia cheio amanhã." Confessou Arwen.
"Sim, devemos conversar com o ada sobre esse elfo. Ele passou de todos os limites hoje." Disse Estel furioso por aquele imundo ter fugido.
"Passando dos limites ou não, ele ainda é uma incógnita para mim" Dizendo isso Elladan encerrou o assunto. Eles começaram a tomar o caminho de volta para casa, todos em silencio.
(*&*)
Do outro lado do rio, ainda observando atentamente ao que o grupo fazia, estava o elfo escondido em uma árvore. Respirava aliviado pelo fim de um dia tão turbulento.
Ele sabia da importância daquele dia para o seu futuro. Sabia que as consequências de seus atos viriam rápidas e sem piedade. Com certeza seu encontro com o grupo seria relatado a outros elfos. Logo, todos poderiam estar caçando ele. Mas isso era o de menos. Não o haviam pegado até aquele instante. Fugir seria fácil, como sempre fora.
No entanto, ele não se arrependia de tudo que havia feito. Isso era o mais estranho. E uma antiga sensação voltou como quem não quer nada, e logo tomou conta do seu coração.
Era esquisito sentir aquele calor de novo. Aquela vontade de continuar vivendo porque valia a pena. Mesmo que se vivesse da maneira que ele vivia. Ele ainda tinha esperança de que um dia tudo iria melhorar. Como? Essa era uma pergunta que não saia da sua cabeça. De qualquer forma, aquilo o arrastava dia após dia. Mas não naquele momento. Naquela noite, de alguma forma, ele estava mudado. E tudo isso por um simples ato, um mero sorriso, uma demonstração de afeto que ansiava tanto ter por parte de alguém.
"Cormamin niuve tenna' ta elea lle au, Ainion." ( "Meu coração lamentará até vê-lo de novo, Ainion.")
O menino aos poucos ia se afastando. Parecia até que nada havia acontecido ao elfinho. Ele andava aos pulos de mãos dados com aquele elfo loiro.
"Tenna' ento lye omenta" ("Até nosso próximo encontro.")
Aos poucos a imagem do grupo foi saindo de seu campo de visão. Enfim, ele deu as costas para o rio e saiu caminhando pela mata para voltar ao seu esconderijo.
Particularmente eu fiquei bastante satisfeita com o desfecho deste capítulo.
Ele ficou um pouco maior do que os outros, mas fiquei feliz por poder mostrar a história também sob o ponto de vista do elfo misterioso.
Bem, espero que vocês tenham gostado e como sempre...
Até Breve!
Anne Krol
