Sensações

"Todos os seres possuem algo que buscam e, quando encontram, percebem que nunca se sentem completos. Então, até na morte nos sentiremos incompletos?" Abstract

O dia estava chuvoso, o que tornava o velório mais sombrio e dramático. Akel estava presente em meio à família e os colegas de classe. O olhar do anjo era baixo.

"Ele havia dito que era só, era mentira. Nunca conseguiu notar aqueles que o amavam."-Pensava o anjo que observava cada movimento daquelas pessoas.

A mãe perguntava a Deus porque havia tirado seu único filho. O anjo fechou a expressão e olhou para outro lado, permanecendo em silencio, com medo de que alguém ouvisse sua voz. Chorava como uma criança sincera, cada lagrima que caia que sua face doía mais. Era doloroso demais saber que havia matado o rapaz, que Deus não lhe permitiu salvar o menino.

"Será que você consegue ver essas pessoas? O que você estaria pensando se visse todos chorando pela sua partida? Estaria arrependido? Surpreso?"

O anjo estava pensativo, aquele clima pesado fazia com que sentisse algo apertado na região do peito. O que era aquela sensação? Algo diferente de todas as sensações dos sentimentos que experimentou vagamente. Sentia-se como se estivesse incompleto, algo parecido com arrependimento pesava em seu peito. "Frustração... Sim, é isso." Não agüentava mais ficar naquele lugar. Abriu suas asas e saiu voando para fora daquele velório. O dia começava a clarear, a chuva ia embora dando espaço para o Sol surgir. Akel agora observava do céu o velório do rapaz.

- Você merece ao menos um dia bonito com essas pessoas que tanto te amam. – a voz do anjo era doce e repleta de compaixão. -A morte... O que será que acontece quando um anjo perde aquilo que eles chamam de vida?

Deitou no céu, observando o andar calmo das nuvens. Era tudo igual, os dias, as horas, uma monotonia imensa. A única coisa que se alterava naquele mundo, para ele, era a coloração do céu. Ela acompanhava as emoções contidas e nunca havia uma mascara sobre sua real face. Demonstrava quando se sentia bem ou não. "Os anjos perdem a vida, isto é incontestável. Para onde vão? O que acontece a eles depois disso?". Repleto de perguntas, e sem obter resposta alguma. Franziu o cenho e suspirou. Não adiantava pensar, tinha pouco conhecimento sobre os mundos, desconhecia o mundo ao qual pertencia assim como não compreendia o mundo dos humanos.

- É, vou procurar Jesebel. – sorriu um pouco e saiu voando a procura do irmão mais velho. As asas de Akel eram pequenas e tão brancas quanto às próprias nuvens. Seus olhos de tonalidade mel esverdeada mostravam algum temor. Tinha receio de encontrar o irmão em solo humano, e se alguém o visse com Jesebel contrariando as normas, ambos estariam com problemas.

Não conseguiu encontrar o irmão. "Ele está, então...". Sim estava com os humanos. Suspirou pesadamente e massageou a testa. Pensava em procurar o irmão virando um ser humano por um curto período de tempo. Contudo, isso atiçaria mais sua tentação de viver aquelas emoções descritas pelo irmão. Estava em um dilema, sua expressão pensativa era evidente.

- No que tanto pensa?- os pensamentos do anjo se dispersaram ao ouvir a voz. Ele virou-se repentinamente e reconheceu o arcanjo com quem estivera na noite anterior. Sua armadura reluzia diferente daquela noite, quando estivera sombria. Era admirável a beleza do anjo e de seu uniforme.

- Bem, apenas estava refletindo sobre algumas duvidas que tenho. – seu tom mostrava susto, porém sorria para disfarçar.

- Duvidas? Pois bem, fale. – O arcanjo sorria docemente, um sorriso belo e sem esforço algum, diferente do sorriso de Akel. Ele olhava diretamente nos olhos do outro anjo, um olhar fixo, mas sem ser intimidador. O olhar do arcanjo atraia a qualquer outro ser, fazendo sentir-se tranqüilo e sem medo de expressar-se.

"Perfeito, um arcanjo talvez tenha as respostas. Ele está a um nível mais próximo de Deus do que nós.", refletia. Seu sorriso forçado sumiu, dando espaço a um tranqüilo. Seu olhar tornou-se interessado.

- Para onde um humano vai quando morre?

O arcanjo riu, há muito tempo que não escutava tal pergunta. Sabia que havia um interesse a mais, por seguir o anjo.

- Bem Akel, os seres humanos são todos iguais perante o Senhor. Todas as almas têm a mesma direção o mesmo local ao qual convive quando sua alma esta em paz. Contudo aqueles que se mostram incompletos voltam a Terra até sua alma estar em paz, ou tomarem o rumo certo.

O olhar do arcanjo voltou-se ao mundo abaixo deles. Com um pequeno estralar de dedos, eles se encontravam em um parque. Os pés dos anjos encontravam-se acima do gramado, jamais pisavam.

- Pessoas que seguem um rumo errado têm uma segunda oportunidade de tomar o rumo certo e encontrarem a paz em suas almas. – Era possível notar o olhar vago do anjo. Aquele ambiente tranqüilo, verde e feliz trazia ao arcanjo um ar pensativo e triste.

- E... - Akel resolveu interromper a explicação e os pensamentos de seu superior. Havia duas perguntas que precisava fazer, ainda. O arcanjo voltou o olhar a Akel, que desviou, observando agora o parque. Ele havia notado algo triste, porém preferia não tocar no assunto, não naquele instante. – Qual seria o "rumo errado"?

- Aquele que fere a liberdade dos demais seres. Todos possuem os mesmos direitos, porém não se pode ferir o direito alheio. Ou, ainda, sentir o pesar de estar incompleto. Isso o faz retornar.

"Liberdade, novamente essa palavra.". Akel permaneceu em silêncio; sua revolta com essa palavra era imensa. Ver seres obterem a liberdade que ele não tinha. Mas não era hora de dividir seus pensamentos com um arcanjo, que estava observando-o e que ainda não compreendia seus pensamentos.

- E o que ocorre quando a alma não consegue atingir a tranqüilidade depois da segunda vez, ou não consegue seguir o caminho "certo"?

Após a pergunta, o anjo fitou atentamente a face do arcanjo. Este olhava a grama, o sorriso diminuindo de tal forma que sua face se tornou em outra. Demonstrava algo que não era verdade, uma mascara encobrindo seus pensamentos e suas simples emoções. A resposta demorou a vir; em que o arcanjo pensava?

- Akel, há coisas que é melhor não saber. Aceitar a palavra suprema é mais fácil, pois Ele sabe o que faz. Questionar tanto pode trazer dificuldade em aceitar seus deveres.

Era evidente que esta seria a resposta final do arcanjo. Akel balançou negativamente a cabeça com um sorriso. "Então algo bom não é. Como imaginei." Não falou mais nada depois daquela resposta, permanecendo em silêncio. De nada adiantaria opor-se, até porque o arcanjo tinha poderes muito maiores e Akel não conseguiria uma resposta mais concreta questionando-o ou mesmo forçando-o a falar.

Ambos guardaram silêncio, os minutos passando. Akel suspirou. O arcanjo voltou a falar.

- Não posso dizer o que passa por sua mente, contudo é mais doloroso pensar no que já se foi e questionar cada ato dos demais. Fomos criados para atender nosso Criador e seguir suas ordens. Questionar aquele que nos deu a vida não é algo bom e não mostra a gratidão que temos em estarmos vivos. Preciso voltar aos meus afazeres, por isto, prometa-me que ficará quieto. Pode me prometer isto?

Enquanto o arcanjo falava, abriu suas belas asas e graciosamente voou, pouco a pouco, ficando a uma certa distância de Akel. Observava-o, aguardando uma resposta.

- Não. Promessas existem para serem feitas quando são aceitas. Não posso prometer algo que não compreendo e não aceito. Eu sinto muito.

A voz do anjo era séria. Ele fechou os olhos, tentando organizar os pensamentos. A expressão do arcanjo era triste.

- Eu também.

O arcanjo deu meia volta e dirigiu-se ao céu novamente, porém, Akel o chamou de volta.

- Qual seu nome? E por que continua a falar comigo?

O arcanjo, que já estava um pouco longe, parou e virou-se, olhando Akel. Ele sorria. Um sorriso calmo e delicado, sem nenhum sentimento negativo.

- Micael. – o arcanjo tornou a dar-lhe as costas. – É porque você lembra a mim mesmo. Apenas isso... Vemos-nos depois, Akel.

"Micael, então este é o nome dele. Eu o lembro? Tsc, ele nem aparenta metade do que sou.", pensava Akel, enquanto via o arcanjo sumir em meio às nuvens.

- Aceitar as palavras... Por que não possuo direito a escolhas ou vontades como eles? – o anjo dizia em tom calmo e triste observando as pessoas que caminhavam pelo parque. Estavam distantes, não iria escutá-lo.

- Não, acalme-se Rose. Por favor. Ahh...- dizia uma voz quase melódica.

Akem virava o olhar para observar, havia uma jovem perto ao qual ele não havia percebido. O cachorro ao qual ela caminhava havia se soltado dela fazendo com que a jovem caísse. O cachorro corria na direção de Akem e sentava frente a ele, latia algumas vezes, mas o rapaz voltou a olhar a moça.

Uma jovem de belos e longos cabelos castanhos claro ondulados. Seu cabelo estava poucamente preso. Um pouco bagunçado, mas com a brisa docemente acariciando seus cabelos dava um ar esbelto. Pele clara, pálida. Talvez não tomasse tanto Sol. Olhos de tonalidade mel. Estatura media, e um físico fraco e magro. Usava um vestido rosado, rosa claro, com vários babados. Uma sandália rasteira branca. Era bela, aos poucos ela tentava se erguer e caminhava com as mãos esticadas chamando o cachorro.

- Rose? Rose?- dizia à moça que aparentava uma criança perdida.

Ele voltava novamente a olhar o cachorro a frente dele. Ele latiu mais uma vez, um latido amigável que fez Akel sorrir, e até soltar um riso baixo.

- Consegue me ver? – indagava em tom baixo ao animal.

- Alguém? Tem alguém ai? – dizia à moça que mesmo em tom baixo havia escutado o anjo. – Por favor, ajude-me. Sabe onde está minha cadelinha Rose?

" Ué? Ela não consegue ver?" Questionava mentalmente o anjo. Via a moça caminhar na direção de um chafariz próximo. Iria cair. Ele gelou. Ela poderia machucar-se muito mais, e quem sabe morrer. Akel não suportaria observar outro ser humano morrer, porém se ele tentasse salvá-la poderia ocorrer o que ocorreu com o seu protegido, imagens do velório vinham a sua mente, a imagem do sorriso do rapaz e as lagrimas ao ver o anjo. O que faria? O que seria correto?