Boneca de porcelana
"Alguns seres ao longo da vida tornam-se tão rígidos quanto uma pedra em sua primeira camada, quando quebrada nada mais são do que porcelanato." Abstract
A jovem continuara a caminhar em direção do local, esbarrando na construção do chafariz, porém antes de cair alguém houvera segurado seu braço. Ela espantada virara-se.
- Tenha cuidado. – Akel agora estará em sua forma humana, um rapaz de branco de cabelos negros, estatura média, um físico definido. Sua voz era doce e seu olhar gentil, fitara o rosto da bela moça que ao ouvir sua voz voltara a se acalmar e mostrara um belo sorriso tímido. O rapaz passara uma energia tranqüila diante dela.
- Obrigada. Por favor, o senhor viu um labrador de coleira rosa? É a minha cadela, se chama Rose.
- Ah, bem... Essa cadela apareceu na minha frente faz pouco tempo. Acredito que seja sua. – ele colocara a guia na mão da jovem. As mãos dela foram sedosas e frágeis. Akem sentira uma sensação estranha ao tocá-la. Seu coração estivera inquieto.
- Rose?- Ela abaixara esticando a mão a procura da cadela. Ao tocá-la a cachorra lambera a face da jovem que soltara um riso. - Não faça mais isso, me preocupou poxa.
- Ahn, por que não viu o chafariz a sua frente? – Akem quisera fazer tantas perguntas à jovem, controlara-se o máximo possível para isso.
- Uhn? Ah, eu sou cega moço. – dissera em um tom delicado e gentil.
- Cega? – o tom de Akem fora de duvida, conhecera pouco sobre os humanos. Aquela palavra não entendera o que era.
- Sim, sabe eu nasci sem poder enxergar. Não sei o que seria uma arvore, as cores, os animais... E para isso preciso andar com minha cadela. Ela foi treinada para me guiar, assim não sou um fardo para minha família. - Seu sorriso tornara-se vago. Fora possível sentir a tristeza em cada palavra dita.
-... Nascer sem poder ver ao seu redor? Não imaginava que algo assim existisse. – Akem não soubera o que dizer, estivera pasmo em saber que isso ocorrera em um mundo ao qual ele tanto admirara. Tivera algo semelhante ao mundo ao qual ele pertencia?
- Não existisse? Nossa moço, de onde o senhor veio que não conhecia o que era um cego? – a jovem voltara a rir um riso divertido e alegre, por mais triste que pesasse ao anjo saber que uma jovem tão bela não pudera saber o que fora realmente os objetos os formatos, aquele doce riso fizera Akel voltar a sorrir. -... Mas apesar de tudo eu sou grata ao menos de ter nascido. Posso não ter visão, mas o cheiro, os sons, o tato tudo isso me marca.
- Te marca? – O anjo estivera confuso. Fora tão estranho, não imaginara que existira uma pessoa tão doce e gentil como a que houvera encontrado a sua frente. Sem visão, devera depender dos demais, devera estar abalada, mas não estivera. Sorria um sorriso tão puro e belo que fora impossível não sorrir junto.
- Sim, por exemplo.- ela tocou o corpo dele, então aproximara-se sentindo o cheiro próximo ao pescoço. Uma atitude estranha, mas sem um pingo de maldade. – O senhor me lembra uma maçã fresca, um cheiro gostoso. Ah sim, perdão. Sou Mabelle, pode me chamar de Mabel moço, e você como se chama?
- Maçã?- o rapaz mal sabia o que eram frutas, conhecera a maçã poucamente em uma de suas conversas com Linus. Linus, este anjo estava sumido, Akel adorava conversar com ele, em sua opinião Linus era o anjo que Akel mais possuía admiração. – Mabel, que belo nome. Chamo-me Akel.
- Akel? Que nome lindo, sua mãe escolheu um lindo nome a você Akel. – sorria gentilmente a jovem após a frase, porém ela começara a mexer levemente a ponta de um dos pés esfregando-o no chão. Ao ouvir tal frase Akel começara a pensar se realmente havia tido uma mãe. Sabia que Jesebel era seu irmão, porém não se lembrara de uma imagem materna. De onde havia surgido? Como foi gerado? Ele não tivera idéia de onde veio, de como era. Era tudo um enorme vago em sua mente.
- Perdão, poderia me deixar tocá-lo por um instante? – sua voz fora tímida, chegara a corar por um instante pensando que o rapaz a acharia louca. Akel que estará com a cabeça baixa, um olhar pensativo voltara a olhar a bela jovem que proferiu em tocá-lo. - Não me entenda errado, por favor. Quero formar sua imagem em minha mente se não se importar.
Akel mantivera o mesmo sorriso doce, estará encantado com a jovem que havia conhecido. Seriam todos os humanos dessa maneira, gentis e doces? Não, o rapaz que sentira como tivesse matado não fora assim. Uma pessoa solitária que não vira as pessoas que o amavam. Ela fora uma rosa em meio aquele local.
- Não vejo problemas, sinta-se a vontade Mabel. – ele gentilmente pegara a mão de Mabel e colocara sobre sua face então soltara. Mabel aproximara um pouco e começou a tateá-lo com ambas as mãos por um tempo. Tão próximo fora o rosto dela, e tão belo. Fechara os olhos enquanto sentira a mão dela tocando a face. As mãos da jovem fora quentes, diferente do vento frio que acariciara a face daquele anjo todos os dias. Uma sensação boa cobrira ambos naquele breve momento em que apenas era possível ouvir o barulho de aves naquela praça.
- Sua face é tão delicada, tão suave. Deve me achar uma doida né? – Mabelle tirara a mão da face do anjo e dera um passo para trás. Por um instante Akem sentira uma vontade de segurar a mão da jovem. Ambos aparentaram crianças inocentes, não sabiam o que dizer ou fazer. Akem buscou palavras para expressar mentalmente toda aquelas sensações que surgira em seu corpo a cada momento. Não possuía o dom das palavras, desconhecia grande parte daquele mundo.
- Não. Te acho linda. – a voz do anjo fora tão delicada e gentil que fora impossível não notar a sinceridade contida em cada palavra. Os sentimentos singelos de um ser celestial. O anjo notara que o céu pouco a pouco perdia sua tonalidade clara dando espaço para a noite. – Está anoitecendo, talvez seja hora de voltar. – sussurrou o anjo que refletira no que poderia ocorrer caso o pegassem em solo humano, e ainda por cima com uma jovem daquele local.
- Já é noite? E-eu preciso voltar para a casa, meus pais...meus pais vão querer me matar se souber que eu não estiver em casa. – A jovem começara a tremer de medo, respirara ofegante a ponto de perder o ar e alguns momentos, segurou o pulso de Akel, sua pressão estava caindo e ela ficara a cada instante mais pálida. Chegara a quase cair, mas Akel a segurou nos braços assustado.
- Como assim te mata? Mabel? Mabel o que você tem?- o rapaz não soubera o que fazer, estivera aflito, como alguém seria capaz de matar uma jovem tão bela, tão doce como ela? Possuir uma mãe ou um pai seria tão aterrorizante assim?
- Meus pais, meus pais não me deixam sair de casa por eu ser cega e ter uma saúde frágil. E hoje enquanto eles dormiam eu resolvi dar uma volta com a Rose.- a voz da jovem estivera a cada instante mais fraca, até então desmaiar nos braços de Akel.
O anjo vendo que a jovem fechara os olhos e nada mais falara checou sua respiração com medo de que ela tivera tido o mesmo destino trágico que o rapaz. "Está viva... que bom.". Ele olhara para a cadela que estivera farejando o cabelo de sua dona.
- Sabe me mostrar onde fica a casa dela?- ele não tivera idéia se o animal iria entendê-lo, porém a cadela simplesmente virara e começara a andar e o rapaz seguira Rose. A caminhada durara cerca de dez minutos passaram por uma rua de paralelepípedos, alguns postes com luminárias mostrara o caminho, uma rua cheia de verde e a noite se mostrara mais sombria. Casas grandes e bonitas. Rose parara em frente de uma casa azul claro com partes branca, simples e bonita. Dera um latido e fizera Akel parar seguidamente.
Logo após o latido de Rose, a porta da casa se abrira um rapaz que aparentara uma idade de dezoito anos saira. Cabelo de coloração castanho escuro, olhos mel, uma pele clara, contudo mais morena que a irmã, estatura média, e físico definido. Trajara um, sobretudo vermelho levemente rasgado em alguns locais, uma blusa preta comprida e uma calça jeans escura.
- Rose? Bell?- O jovem desesperado descera a pequena escadaria e pulara a cerca de metal preta pequena que enfeitara a frente da casa. Deparara-se com a cadela que estivera sentada na calçada e imediatamente olhara em volta observando Akel com Mabelle desmaiada nos braços do jovem.
A face do rapaz ficara cada vez mais séria com a cena que via como se fosse um animal ameaçado prestes a atacar. Rangera os dentes por um momento então fora se aproximando de Akel, seu pisar fora firme e seu olhar intenso.
- O QUE FAZ COM A BELL EM SEUS BRAÇOS?- a voz feroz do rapaz ecoara naquela rua silenciosa. Pegara a blusa de Akel com certa brutalidade. - Dê-me-a antes que eu arranque todos os dentes de tua boca e coloque por dentro de teus orifícios.
O anjo não compreendera o que o rapaz falara, mas sabia que ele não estivera nada feliz com sua vinda. Esticara os braços com Mabelle, então o rapaz que agarrara a blusa do anjo, soltara pegando nos braços a irmã delicadamente como se fora outra pessoa. Olhara a irmã por um instante, com um olhar doce e voltara a encarar o rapaz com o mesmo olhar de antes.
- Fique longe dela, caso contrário terei que sujar mais ainda meu, sobretudo e não é a toa que ele é vermelho.
- Ela somente desmaiou na praça, eu apenas a trouxe para a casa a salvo. Por favor, compreenda, não fiz mal algum a ela. - o anjo tentara explicar-se, não tinha motivos para tantas ameaças e tanta ferocidade.
- Claro você a encontrou caída e soube onde é a casa dela. Suma antes que eu quebre tua cara. Vamos Rose hora de entrar. – o jovem virara-se e fora em direção a casa seguida da cachorra, ao passar pela porta o menino sussurrara para Mabelle- você só me dá trabalho irmã, sabe que deve ficar em casa. Não há pessoas boas. – após a fala a porta da casa se fechara deixando Akel pasmado na calçada.
"Não há pessoas boas? Como assim?" ficara refletindo Akel, a audição dos anjos era muito boa. O rapaz escutara o que o menino houvera dito. "Então ele é irmão mais velho dela, deve ser bem protetor.". O anjo suspirara, houvera sido ameaçado sem ter feito nada errado. Ao menos nada errado em sua visão.
- Já está tarde, é melhor voltar antes que alguém sinta minha falta. Jesebel pode estar me procurando, ou aquele arcanjo que vive me perseguindo.
Akel voltara a sua forma angelical, abrira suas asas e voltara ao céu escuro e gélido que o aguardara. Fora poucamente iluminado pelas estrelas, porém quisera olhar uma ultima vez para a casa daquela dama que tanto o houvera deixado repleto de emoções e duvidas. Parara em meio ao céu e voltara a olhar a casa suspirando. Fechara os olhos e voltara a voar pelo céu a procura de seu irmão.
- Ora, ora... Francamente não acredito no que pude ver. – uma voz séria e fria soara no ouvido de Akel, como se algo estivera falando próximo, tão próximo que escutara a respiração daquele ser. O anjo assustado virara-se para ver ao seu redor, apenas conseguira enxergar a noite e logo abaixo dele as ruas poucamente iluminadas da cidade. Seus olhos buscara uma pessoa, mas nada encontrara.
- Aqui. - voltara à voz a falar com o mesmo jeito anteriormente. O anjo virara-se novamente e vira um par de olhos violetas no meio do escuro, um vulto ao redor daqueles olhos reluzentes. Poucamente a figura surgira do meio das sombras e mostrara sua real forma.
- Não pode ser... - fora a única frase dita pelo anjo que estava abismado ao observar a figura que surgira das sombras.
