Cap 4. Plano "Distração para Rachel"

Eu não podia acreditar no que estava acontecendo... Eu, Rachel Karen Hobday, andando para a aula de DCAT, ao lado do cara que fazia meu coração perder um compasso, e não conseguia pensar em nada além de "vou me dar mal, essa confusão que eles vão aprontar vai acabar comigo!" Mas eu não podia fazer nada. Sirius não desgrudou de mim, talvez achando, corretamente, que eu fugiria de perto dele o mais rápido possível, para ficar longe de qualquer encrenca.

O professor já estava na sala. Mylor Sylvanus era um professor severo, não permitia conversas em suas aulas, não pensava duas vezes em punir qualquer aluno que não fosse da Sonserina. Como eles iriam arrumar confusão e não serem pegos?

— Nosso alvo já está aqui — cochichou Tiago passando por mim e por Sirius.

— Perfeito! Nada pode dar errado agora! — respondeu Sirius, com um brilho no olhar.

Olhei na direção que eles olhavam, vi Severo Snape, com seus cabelos oleosos emoldurando sua cara pálida e seu nariz adunco, sentando na outra ponta da sala. Eu devia imaginar, era óbvio que eles atacariam sua vítima predileta! Por isso o plano entraria em ação nessa aula, pois era a única do dia que dividíamos com o pessoal da Sonserina.

A aula começou. Tínhamos que praticar feitiços não-verbais. Olhei ao redor com medo do que me esperava. Vi que nessa aula Lílian tinha ido trabalhar com Remo, deixando Tiago e Pedro juntos. Agora sim eu tinha certeza que eles colocariam o plano em ação, sem pensar duas vezes. Remo provavelmente ficou com Lílian para distraí-la, e assim deixar os Marotos livres para fazer o que quisessem.

— Vocês estão muito atrasados nessa matéria. — começou o professor. — Hoje vamos dar continuidade aos Feitiços Não-Verbais. Afinal, com raras exceções, vocês ainda não foram capazes de efetuar nenhum feitiço sem falar nada! Não esqueçam, não é para falar! Enquanto um faz um feitiço, o outro deve repeli-lo, repito, não falem, nem murmurem o feitiço que vão lançar — avisou o Prof. Sylvanus.

— Eu ataco primeiro, gata. Você se protege — disse Sirius, piscando um olho para mim com ar maroto.

Não consegui pensar em como me proteger, já estava entrando em pânico. Ele colocaria o plano em ação assim, logo de primeira, ou tentaria passar um tempo despercebido? E qual seria o plano? O que ele faria?

— Não apronta nada, Si... Black! — eu pedi.

— Lá vem você com as formalidades. Se me chamar de Sirius, eu não apronto! — ele falou com um sorriso maroto.

— Tá bom... Sirius. Pronto, agora vai deixar esse plano maluco de lado?

— Claro que não! Só queria ouvir você me chamando de Sirius — ele disse sorrindo. — Preparada?

— Não. Mas não adianta, estou nervosa demais e não vou conseguir me preparar...

Ele riu e lançou um Feitiço do Corpo Preso em mim, como disse, eu não estava preparada, então nem tentei lançar um Feitiço Escudo. Como conseqüência, fiquei imobilizada e quase caí de cara no chão. Só não caí porque ele me segurou, senti sua risada silenciosa tremer meu corpo enquanto ele me segurava e tirava o feitiço.

— Você nem tentou se proteger!

— Eu disse que não estava pronta.

— Lança você, então, eu me defendo — ele falou ainda sorrindo.

Pensei... Qual o melhor feitiço para lançar nele... Tinha que ser um engraçado, para o caso dele não conseguir defender... Então me concentrei e pensei no Feitiço das Cócegas, ia ser divertido vê-lo se acabando de rir. Tá certo que ele sempre tinha um sorriso nos lábios, mas eu faria ele gargalhar! Droga... Ele conseguiu se defender.

— Você não deu tudo de si, gata! — ele falou, piscando um olho para mim.

— Cala a boca! E pára de ficar me chamando de gata!

— Já que não posso te chamar de Rach, nem de gata... Se prepara, porque vou atacar de verdade!

Ai, e agora? Pensei rapidamente no Feitiço Defensivo. Mas não senti nada no escudo que projetei, comecei a achar que não tinha sido eficiente e que ele tinha lançado algum feitiço que eu desconhecia. Enquanto eu tentava entender o que tinha acontecido, minha atenção foi atraída para outra coisa: uma explosão de risadas.

A turma toda caiu na gargalhada. Olhei em volta, achando que eles estavam rindo de mim, mas vi Snape pendurado no ar, de ponta cabeça, com as cuecas encardidas aparecendo, uma galhada enorme na cabeça, além de estar parecendo um pisca-pisca de Natal, iluminando a sala com suas cores piscantes, verde, vermelho, amarelo, azul, laranja, verde, vermelho... A cena era muito, mas muito engraçada mesmo.

Foi então que percebi: Sirius não tinha tentado me enfeitiçar, ele direcionou seu feitiço para Snape, que, na hora, enfeitiçava seu companheiro. Tiago e Pedro, pelo visto tinham, com maestria, completado o trabalho de Sirius. Eu não imaginava que Remo tivesse feito algo, não com Lílian trabalhando com ele.

Lílian estava com cara de quem queria rir também, mas se conteve (a muito custo, diga-se de passagem). O Prof. Sylvanus desfez os feitiços e Snape caiu no chão como um saco de batatas. Mais uma onda de risos ecoou pela sala. Os grifinórios eram os que riam mais, os sonserinos disfarçavam, afinal um deles era o alvo das gargalhadas, mas não tinha como não rir... O professor não estava com cara de bons amigos. Com um simples olhar dele a turma entendeu que ele não iria dar trégua para ninguém ali.

Enquanto o professor tentava colocar ordem na sala, fui atingida, por um feitiço que me deixou cheia de cortes e sangrando muito. Sirius se jogou à minha frente e lançou em Feitiço de Levitação em Snape, depois se virou para mim parecendo um pouco assustado.

— Cinqüenta pontos a menos para a Grifinória! — gritou o Prof. Sylvanus. — Alguém leve a Srta. Hobday para a ala hospitalar! Madame Pomfrey dará um jeito nisso.

— Eu levo! — disse Sirius.

Na porta da sala ouvi os grifinórios reclamando que aquilo era injusto, tirar 50 pontos da gente e nada da Sonserina? Eles também atacaram e com consequências muito piores que uma simples mudança na cor da pele!

Na ala hospitalar, Madame Pomfrey fechou meus cortes, me deixou de repouso, por tempo indeterminado, e me informou que alguns deixariam marcas. Quando ela se afastou, Sirius se aproximou da minha cama. Madame Pomfrey disse para ele voltar para a aula, mas Sirius fez questão de ficar, dizendo para ela que precisava falar comigo. Ela saiu resmungando alguma coisa que não entendi.

— Desculpa, Rach! Não consegui repelir o feitiço do Ranhoso a tempo... — ele falou, parecendo realmente preocupado. — E não entendo muito de curativos, se entendesse tinha tentado fechar os cortes na sala mesmo...

— Cala a boca, Si... Black! Por culpa dos Marotos estou presa aqui até sei lá quando! — falei irritada.

— Já pedi desculpas! — ele falou me olhando nos olhos, não tinha nenhuma sombra do sorriso que parecia ser permanente no rosto dele. — O Ranhoso atacou quando eu menos esperava!

— Vou ficar com algumas marcas, sabia? Acho bom esse ser o único efeito colateral! Se eu pegar detenção, vocês me pagam!

Ele ficou quieto, olhando as pequenas cicatrizes que marcavam meu braço, aproximou sua mão para tocar a maior, que ficava próxima ao pulso. Pensei em tirar a mão, mas não fiz, não sei explicar bem o porque. Ele respirou fundo.

— O Ranhoso me paga! É isso! — ele disse se levantando e andando de um lado para o outro. Olhei espantada para ele. Agora ele parecia irritado. — Vai se arrepender de ter nascido, aquele verme nojento! Se ele queria se vingar da humilhação que passou, que se vingasse em mim, não em você! Logo em você que... — ele parou de falar. Olhou para mim, suspirou e sentou novamente ao meu lado.

— Que o que? — perguntei.

— Nada... Esquece.

E assim ficamos em silêncio. Lílian apareceu para me visitar, e trouxe junto os outros Marotos, que também ficaram pedindo desculpas.

— Vão embora, todos vocês! Ela precisa descansar! — falou Madame Pomfrey que tinha aparecido para ver como eu estava.

— Não posso ir embora? Os cortes já fecharam... — perguntei.

— Por enquanto não. Talvez depois do almoço, querida. E vocês estão fazendo o que aqui, ainda? Já falei, saiam!

Quando fiquei sozinha, parei para pensar no que tinha acontecido... Sirius tinha dito alguma coisa sobre me proteger... Merlim, é claro que Snape não deixaria isso barato. Óbvio que ele sabia quem tinha lançado os feitiços nele... Mas por que descontar em mim? Eu não tinha feito nada! Como Sirius disse, por que ele não descontou em um dos Marotos, por que em mim? E o que Sirius quis dizer com "logo em você...". Ele pareceu realmente preocupado comigo e irritado com Snape.

Na hora do jantar, Madame Pomfrey me liberou, pois os cortes já estavam completamente fechados, não teria como me desfazer das cicatrizes e eu tinha me recuperado bem, ela disse que não tinha mais motivo para me segurar ali. Corri para o Salão Principal a fim de tentar comer alguma coisa. Sentei junto da Lílian, que estava o mais longe possível dos Marotos. Não podia acreditar que tinha passado por aquilo, só porque eles queriam se divertir! Tudo bem, também dei risada da cara do Snape, mas as consequências me fizeram esquecer isso completamente.

Quando terminamos, Lílian se aproximou dos Marotos, me puxando pela mão e disse:

— Estão todos de detenção! Desculpa, Rach, mas o Prof. Sylvanus colocou você também.

— Mas eu não fiz nada! Muito pelo contrário, fui vítima! — retruquei, lançando a Sirius um olhar que provava que eu estava muito irritada.

— Lily, eu não posso estar de detenção. Também não fiz nada — falou Remo, tranquilo, como se nada tivesse acontecido.

— Você não, Remo. O professor viu que você estava comigo, portanto não teria como ter feito alguma coisa contra Snape. Mas você e eu vamos supervisionar a detenção dos quatro aqui — respondeu Lílian indicando a mim e aos outros Marotos com a cabeça.

— Quando será a detenção? — perguntou Remo.

— Amanhã, oito horas da noite. Temos que decidir que castigo aplicaremos neles!

— Mas dois monitores não podem dar a mesma detenção. — falou Remo. — Vamos dividir os grupos? Eu fico com o casal 20 ali, você com Pontas e Rabicho, pode ser?

Como eles podiam falar assim? Calmos, como se seus amigos não estivessem numa enrascada das grandes!

— Ótimo! Assim posso caprichar na detenção do Potter!

— Meu lírio, você não vai pegar muito pesado comigo, vai? — falou Tiago galanteador.

— É Evans para você! E vou sim. Faz tempo que estou querendo te dar uma detenção das boas para tirar esse sorrisinho da sua cara!

É... Sofri cortes, fiquei com algumas cicatrizes, tive que ficar na ala hospitalar, perdi as aulas da tarde e ainda por cima tomei uma detenção! Ótimo! O que mais faltava me acontecer? A semana não podia ficar pior, podia?

Perguntei cedo demais!

No dia seguinte, levantei, ainda com raiva dos meninos. Me arrumei e desci para tomar café, mais uma vez me sentei o mais longe possível dos Marotos. Não queria chegar perto deles... Mas vi Lílian conversando com Remo, Sirius e Tiago (Pedro estava tão interessado na comida, que não participava da conversa). Estranhei aquilo... Não era normal dela... Conversando, sem gritos, com Tiago Potter?

Quando cheguei na sala para a primeira aula do dia, Poções, percebi que ela combinara alguma coisa com os Marotos, pois ela sentara com Remo, e o lugar dela estava ocupado por Sirius. Suspirei, ainda parada na porta. Não podia acreditar. Mas o que eu poderia fazer? Fui me sentar. Mas me mantive o mais afastada possível do Black.

Um bilhete apareceu em cima das minhas anotações. Ia começar logo cedo? Logo percebi que a letra era de minha amiga.

Rach,

Sei que você deve estar revoltada por ter que sentar com Sirius, mas... Escuta o que ele tem pra te dizer... Ele ficou realmente preocupado com você ontem. Não aceitou o fato de que você se machucou daquele jeito. Eu ainda não acredito que Severo foi capaz de fazer uma coisa daquelas, mas... Também, com a turma que ele tem andado... Não sei por que ainda me espanto...

É sério, nunca imaginei que fosse dar apoio a um Maroto que não fosse o Remo, e você sabe disso, então, conto que leve em consideração o meu conselho. Converse com ele.

L.E.

Respondi o bilhete, imediatamente.

Lily,

Sei que você nunca levou nenhum Maroto em consideração. Não acreditei quando te vi conversando com eles no café-da-manhã... Ok. Vou tentar conversar com ele. Mas estou profundamente irritada com o que aconteceu, e você sabe. Dorme no meu dormitório, deve ter visto como fiquei. Fui vítima e ainda por cima tomei uma detenção! E vou ter que cumprir essa detenção com o Black... Não consigo acreditar...

Mas... Vou ouvir seu conselho... Vou tentar ouvir o que ele tem pra me dizer...

R.H.

Eu olhei para ela. Ela piscou um olho para mim e sorriu, um sorriso compreensivo e algo mais, parecia que com pena do garoto sentado ao meu lado... Não, não podia ser pena... Lily não sentiria pena dele. Mas o que poderia ser, então?

— Oi, vamos dividir a mesa essa aula. Tudo bem para você? — Sirius me perguntou.

— Não, mas fazer o que? Ouvi dizer que você quer falar comigo... — ainda estava irritada, não passaria assim tão fácil.

— Quero. E o quanto antes melhor... Tenho uma detenção a cumprir. E acho que não teremos muito mais tempo para conversar depois dessa aula...

Nós temos uma detenção!

— Sei disso... Mas não vai ser nada demais.

— É fácil falar... — retruquei. — Você está acostumado com detenção, eu não. É a minha primeira e eu nem tive culpa! Antes tivesse azarado aquele imprestável do Snape, pelo menos teria um motivo justo para ser punida!

Ele riu. Olhei para ele erguendo uma sobrancelha e fechando a cara. Não tinha graça. Não tinha a menor graça!

— Vamos dar um jeito de você se divertir. Fica tranquila — ele me disse tentando parecer sério.

— Engraçado, foi a mesma coisa que ouvi outro dia "fica tranquila"! Não tem como "ficar tranquila", Black!

O Prof. Slughorn começou a aula. Bom, não poderíamos mais conversar. Ficaria em paz até o final do dia. Era só me dedicar a fazer minha poção e pronto. Mas Sirius deixaria isso acontecer? Claro que não!

— Pode me ajudar com isso aqui? Não estou entendendo o que quer dizer... — ele falou.

— Não! Se vira! É só seguir o que diz no livro! — interrompi.

— Que isso, gata! Aluado vai pegar leve com a gente. Estou é com pena do Pontas...

— Já te disse... Me erra! Esquece que sentou comigo! Sei lá, me deixa em paz!

Era difícil falar assim com ele. Ele fazia uma cara de cachorro sem dono, a mesma cara que me derretia todas as vezes que eu brigava com ele. Mas dessa vez eu estava realmente enfurecida. Peguei uma detenção por ter sido ferida! Como aceitar isso? Continuei tentando ignorar meu companheiro de bancada. Mas ele não ia deixar isso acontecer... Um pergaminho surgiu em cima do meu livro de Poções.

S – Realmente, sinto muito.

S – Não vai responder?

S – Vou ficar insistindo...

S – Posso fazer isso por horas!

R – ME ESQUECE, BLACK!

S – Consegui! Me respondeu!

R – Você é irritante assim sempre, ou só nas horas vagas?

S – Não sou irritante! Sou o máximo! Aposto o que você quiser que você vai se divertir muito na detenção comigo!

R – Não vou nem comentar!

S – Quer apostar?

S – E aí, vai apostar ou não?

R – Tá. Se é para você me deixar em paz... Aposto! O que vai ser?

S – Se você não se divertir, o que não vai acontecer, porque você vai se divertir, você escolhe minha "punição", mas se você se divertir, o que com certeza vai, você vai comigo na próxima ida a Hogsmeade!

R – Que? Não!

S – Você já concordou com a aposta! Esses são meus termos! Pensa bem, se você ganhar, o que não vai, serei obrigado a fazer o que você quiser!

S – Que sorriso é esse?

R – Ok. Tenho o plano perfeito!

S – O que é?

R – Me aguarde!

Para que ele não pudesse perguntar mais nada, amassei o pergaminho e joguei nas chamas embaixo do meu caldeirão, com um sorriso sarcástico.

Graças ao bilhetinho trocado, minha poção não ficou nada parecida com o que o livro dizia que era para ficar, na verdade, ela ficou parecendo cimento... Não tive como levar uma amostra para o professor e acabei tomando um zero no dever...

Nunca se deve perguntar se algo pode piorar! Maldita Lei de Murphy! E meu dia estava apenas no começo...


Mais um capítulo...

Obrigada a quem mandou review! Espero compensar a curiosidade.

Bjos