Capítulo 02 – Contra o tempo
Há mais tipos de magia no mundo do que os bruxos são capazes de catalogar.
Draco sabia disso. Sempre soube, desde criança. Foi uma das coisas que seu avô, Abraxas Malfoy, lhe ensinou no curto tempo em que conviveram no fim de sua vida.
Seu avô era uma figura estranha, que ele ainda não sabia se admirava ou simplesmente temia. A doença que o matou, varíola de dragão, o tornou mais amargo e, curiosamente, mais falante que em toda sua vida – era o que Lucius dizia. Assim, as lembranças de Draco se resumiam a intermináveis monólogos do avô sobre a supremacia da magia, a força de famílias como a deles e como a sociedade se desvirtuava gradualmente sem esses valores, pontuados por cochilos inevitáveis ou crises de tosse.
Os livros da biblioteca Malfoy repetiam muita coisa que Abraxas dizia. Dentre elas que, das muitas formas de magia, os bruxos conseguiam lidar com três: a limpa ou branca – aquela que nasce com cada um, a que as crianças conseguem manipular eventualmente, tendo mais facilidade para lidar com sua própria natureza -, a negra – que na verdade era a manipulação de elementos mágicos para fins considerados pouco éticos – e a magia legal, feita por varinhas – que é a restrição da magia branca ou a parcela da magia negra legalizada pelas normas sociais.
Draco nunca conseguiria determinar que tipo de magia estava drenando a vida de Albus Severus Potter. Mas ele sabia que, se os medibruxos ainda não haviam encontrado a cura, ela não estava na magia legal. Com magia branca ele não conseguiria lidar, pois ela é espontânea, e dependeria somente do próprio Albus encontrar sua cura, nesse caso. E isso restringia muito o apoio que oferecera a Harry.
Mas, se houvesse alguma forma de parar essa doença utilizando magia negra, ele sabia que era uma das poucas pessoas aptas a descobrir na Inglaterra daqueles dias.
Depois do fim da guerra, a família Malfoy havia perdido muito. Muito dinheiro, muito prestígio, muito poder. Mas isso se deu, principalmente, porque passaram um tempo presos e, quando voltaram ao convívio social, os poderes institucionais estavam em outras mãos.
Com o passar dos anos, porém, tudo volta à sua ordem natural, e aqueles que desejam, realmente, o poder, chegam a ele de uma forma ou de outra. E, para isso, precisam das pessoas que criam essas formas. E então se estabelecem as relações nas quais os Malfoys se incluem naturalmente.
Toda tradição tem como principal defesa a segurança de algo que já deu certo. E essa segurança se dá pelo conhecimento. Uma família tão tradicional a ponto de cruzar o limiar de uma nova era com seu poder restaurado merece crédito, e crédito gera laços de confiança, que geram poder.
Assim, Draco Malfoy era poderoso. Não mais tanto pelo seu dinheiro ou pelo seu nome, simplesmente. Mas pelo seu poder graduado em conhecimento milenar. E ele tinha uma dívida de confiança com Harry Potter, pois ele salvara sua vida, e agora estava compromissado em salvar a vida de seu filho.
Por isso, partindo do pressuposto de que havia uma cura, e que essa cura potencialmente vinha da magia negra, Draco buscou aqueles que ainda faziam magia negra na Inglaterra pós-Voldemort. Com algumas corujas bem direcionadas, conseguiu nomes de becos sujos que se escondem nos cantos escuros da cidade, por trás de casas bem apessoadas.
Nesses becos, magia corre pelas paredes em meio às sombras, e nunca um rato é somente um rato. É preciso saber disso para se conseguir algo, e Draco conseguiu o nome da poção que poderia reverter o quadro de Albus e o beco certo onde poderia encontrá-la. Agora faltava somente descobrir o nome do mestre de poções e seu preço.
- Querido? – Draco ergueu a cabeça sorrindo, vendo a esposa entrar na biblioteca.
Ela se aproximou, sorrindo para ele. O robe fino e transparente deixava visível a camisola de seda em um convite sutil. Ela acariciou os cabelos loiros do esposo ainda sentado ao gabinete e ele pousou um beijo suave em seu colo.
- Ainda acordada?
- Estava conversando com Scorpius. Ele me disse que não queria voltar para o colégio. Estou preocupada com ele, Draco, está muito fragilizado com a situação do Albus. Eu me sinto mal de vê-lo tão... desamparado dessa forma.
- Eu sei. – ele comentou, cansado – Converse com ele. Eu acho que tudo vai se resolver logo.
- O que é isso? – ela olhou o livro que ele examinava a pouco, apontando para um mapa grande no centro da página.
- Londres do século XVII. Estou procurando uma botica que funcionava no sul da cidade, mas parece que não existem muitos registros, além de um pequeno desvio no canal de água onde eu suponho que ela existia.
- E isso é importante?
- Gostaria de encontrar um dos herdeiros do boticário. Ele tem uma encomenda especial para mim. E algo me diz que ele trabalha no mesmo lugar.
- Hum. Isso não pode ficar para amanhã? – ela perguntou, baixinho, perto demais de seu ouvido.
- Eu já vou. – ele respondeu, sorrindo, depositando um beijo leve em seus lábios, e ela se afastou em direção à porta – Ah, querida, comprei uma garrafa daquele licor que você tanto gosta hoje. Fazia tempo que eu não encontrava.
Ela sorriu ao ver a garrafa que ele apontava em cima da estante. Serviu-se de um cálice e deixou a biblioteca subindo para o quarto.
Draco cumpriu sua promessa e não demorou. Já estava perto o suficiente do mestre de poções, mais um ou dois dias e tinha certeza de que suas suspeitas seriam confirmadas, podendo, enfim, encontrá-lo. Neste momento, enquanto subia as escadas da mansão para encontrar sua esposa, não era em Potter que queria pensar.
Entreabriu a pesada porta de madeira com cuidado, divisando pela luz do corredor que Astoria havia pegado no sono enquanto o esperava. Sorriu, olhando a esposa dormindo por sobre os lençóis de forma relaxada. Na verdade, ela mesma não devia estar esperando adormecer tão rápido, pois dormira meio torta na cama, em uma posição que parecia desconfortável.
Draco se aproximou, sorrindo, e puxou o lençol sobre seu corpo. Quando foi endireitar os travesseiros sob sua cabeça, porém, uma mancha mais escura perto dos lábios da esposa o assustou. Com um gesto rápido de varinha, os candeeiros do quarto se acenderam, iluminando o sangue sobre a seda e a pele branca de Astoria.
- Astoria. – ele tentou despertá-la, mas o toque em sua pele o fez estremecer ao perceber que não havia pulsação – ASTORIA!
Mesmo com o gesto rápido de tomá-la nos braços e aparatar para o hospital, chamando por ajuda, Draco sabia no momento em que levaram sua esposa para a reabilitação: ela estava morta.
o0o
Draco deixou o hospital naquela noite com a sensação de que tudo à sua volta pertencia a uma outra vida. Era quase se ele mesmo não estivesse ali, e observasse as pessoas, as ruas, sua própria casa de um outro plano.
O pequeno embrulho com as roupas que Astoria usava quando deu entrada no hospital parecia vento entre seus dedos, e ele ainda olhava para aquilo sem entender completamente o que significava.
Ela estava morta.
Esse pensamento já havia se instalado em sua mente de forma definitiva. Ele não poderia dizer que havia aceitado, mas sabia que ela não voltaria para casa. Nunca mais. Mas as consequências disso ainda estavam além de sua percepção.
A presença da sogra na casa deles, dando ordens e providenciando tudo o que era necessário para o enterro e as solenidades, a decisão definitiva de que Scorpius não voltaria ao colégio até que manifestasse esse desejo, as vozes baixas e os cumprimentos solenes que recebia. Ele entendia porque tudo aquilo estava acontecendo, era porque Astoria estava morta, mas ainda não conseguia saber exatamente o que tudo isso teria como consequência.
Ainda não havia sentido sua ausência. Tudo acontecera rápido demais.
Entrou na biblioteca e fechou toda essa atmosfera onírica do lado de fora, querendo ficar sozinho.
Fora o último lugar onde estiveram juntos. Os últimos momentos em que a vira, viva, sentira sua pele, ouvira sua voz, seus sorrisos, os olhos abertos brilhando. A sala estivera fechada desde então e seu perfume ainda podia ser sentido, suave, no ar. Ele fechou os olhos e se concentrou naquela lembrança, na forma como a camisola se movia suave em torno de seu corpo enquanto ela andava, no som do riso, nos gestos delicados dos dedos finos enquanto ela se servia do licor.
Os olhos cinzas se abriram e a testa se vincou repentinamente.
Os medibruxos disseram que a causa da morte de Astoria foi devido a algo muito raro de acontecer: a combinação de elementos mágicos no organismo a partir de substâncias que já existiam ali, de forma involuntária. No caso, provavelmente algum alimento que ela ingeriu somado a alguma poção inofensiva que ela tomou reagiram com o ácido estomacal resultando em um veneno que a matou.
E agora Draco parara para pensar. Como o que encontraram no organismo de Astoria fora somente o veneno, não foi possível identificar o que, exatamente, o havia composto, e ele aceitou aquela explicação porque já era um fato irremediável. Mas Astoria não tinha o costume de se auto medicar. Isso sempre fora um ponto de conflito entre eles, principalmente com relação a Scorpius, pois Draco era bom com poções e poderia resolver alguns males pequenos, como cólicas ou tosses, com seu próprio conhecimento, mas Astoria sempre preferia procurar um especialista antes de tomar qualquer poção. Ela costumava recusar até as poções para dormir.
Então, daquela soma de alimento mais poção resultando em veneno, Draco percebia somente agora que Astoria nunca teria tomado uma poção ocasionalmente. Não por vontade própria, consciente do que estava fazendo.
A última coisa que ela ingeriu fora o licor.
Em dois longos passos, Draco alcançou a garrafa acomodada na estante. Estava praticamente cheia, nova, exceto pela dose que matara sua esposa. Ele a abriu, cheirando o líquido. Nada estranho. Ergueu o frasco, verificando sua cor e se havia partículas soltas. Era algo comum em licores, já que sua fabricação era a partir da fermentação de frutas e outros compostos orgânicos. E o frasco estava limpo.
Serviu uma dose, verificando com o toque que sua consistência também não era natural, estava meio aguado, menos licoroso do que deveria ser. Cheirou e teve a sua confirmação. Não havia o aroma natural do licor que sua esposa tanto apreciava. Talvez houvesse o sabor, mas comprovar isso seria letal. A ausência do cheiro e das partículas o alarmava de que aquilo estava muito errado.
Em um armário no canto da biblioteca, pegou um frasco com uma poção ácida. O mais próximo de ácido estomacal que tinha era a poção que os elfos utilizavam para limpar vidros, mas a hipótese de que sua esposa havia morrido de forma não acidental latejava em sua mente e ele precisava comprovar isso antes de tecer acusações. Sua palavra já não tinha o mesmo impacto de antes da guerra.
Quando a primeira gota entrou em contato com o suposto licor, lhe mostrou a transformação na coloração que lhe dizia com todas as letras: agora tinha em mãos um cálice de veneno. E um licor nunca aceitaria aquela transformação tão facilmente, sem a necessidade de mais nenhum componente.
Aquele licor – que não era licor – era um gatilho para fazer tudo parecer acidental.
Sua mão tremeu, fazendo com que o cálice se quebrasse ao atingir o chão, e ele buscou apoio na mesa.
Astoria não morreu em um simples acidente doméstico. Ela fora assassinada.
E, como a pessoa que lhe levou o veneno, ele fora usado pelo assassino para matar sua própria esposa.
Draco estava achando muito difícil respirar naquele momento.
Em um impulso, foi até a lareira, jogando o pó no fogo e o observando ficar verde antes de entrar, dizendo o nome da loja de importados em que adquirira o licor no dia anterior.
- Desculpe, estamos fechados. – o balconista informou logo que viu o homem sair da lareira.
- Eu tenho uma reclamação para fazer. – Draco disse, firme, depositando a garrafa de veneno licoroso sobre o balcão. Suas mãos ainda tremiam – Diga ao responsável que é Draco Malfoy.
O atendente confirmou e saiu por uma porta ao fundo. Em minutos um senhor que Draco reconheceu como o dono da loja voltou sozinho.
- Pois não, senhor Malfoy.
- Eu gostaria de saber quem é o fabricante deste licor. – ele ofereceu a garrafa ao homem – Ele foi adulterado.
- O fabricante é um mestre de poções local. Por contrato, não podemos dar maiores referências. – Draco ia retrucar, mas o homem fez um gesto o calando – Ele não aparecia há algum tempo, mas veio semana passada e trouxe somente esta garrafa. Disse que o senhor viria buscá-la, que não era para vender para mais ninguém, e que você voltaria.
Draco o observou pegar algo sob o balcão e analisou o envelope que lhe era entregue em seguida.
- Quando você voltasse, era para lhe dar isso. Agora, se me der licença, senhor, já estamos fechados.
Draco não lhe deu mais atenção, abriu o envelope com violência lendo o breve conteúdo rapidamente.
Você chegou perto, e eu o atenderia, Senhor Malfoy. Mas estou velho demais para que pessoas como vocês, aurores, consigam me cercar de maneira tão óbvia.
Eu já consegui o que queria, você não vai mais me encontrar, e este pequeno presente é somente um aviso para que não tente, ou coisas piores podem acontecer.
Pessoas que vivem na luz não devem entrar nas sombras, senhor. Há muito do que não conseguem entender.
Draco releu a carta umas três vezes até conseguir entender que, quem quer que tivesse feito aquilo, achava que ele o estava procurando. E que a morte de Astoria fora premeditada. Um aviso para parar.
Ele ergueu os olhos, buscando o atendente para mais informações. Precisava saber quem é. Iria até o inferno atrás do desgraçado para vingar sua esposa. Colocaria todo o ministério em perseguição, se fosse possível. Não seria com um aviso que deixaria a morte de sua esposa ser esquecida.
Mas com um breve olhar pela porta dos fundos da loja, aberta, ele soube: estava sozinho. E a garrafa de licor desaparecera.
- Merda.
o0o
Draco relia a carta continuamente há horas, pesando cada palavra, sentado à mesa da biblioteca.
Nada se encaixava.
"Você chegou perto", ok, ele estava procurando por um mestre de poções, e estava muito próximo de encontrá-lo quando Astoria morreu. E a sua morte era um aviso para não continuar. Mas todo o resto estava fora de sua compreensão.
"Pessoas como vocês" – ele estava sozinho nisso. "Aurores" – ele não era auror. "Eu já consegui o que queria" – o que diabos aquilo significava? O mestre de poções também o estava seguindo para conseguir algo? Mas eles não tiveram nenhum contato, Draco não poderia ter-lhe dado nada, mesmo que inconscientemente.
Pelo contrário, era ele quem precisava de algo. "Eu o atenderia, senhor Malfoy". O mestre de poções sabia o que ele queria? Sabia que estava atrás da poção para Albus? Que estava tentando ajudar Potter?
Potter trabalhava no ministério, com aurores, e Draco sempre os considerou uma das classes menos confiáveis, pois, querendo ou não, eles estavam em contato com o que havia de melhor e pior na sociedade bruxa.
Potter era auror!
Draco se levantou, agitado, e releu a carta mais uma vez, percebendo que a tinta começava a desaparecer no papel. Era lógico, o mestre de poções não deixaria também essa pista para trás por mais tempo.
Mas as palavras já estavam gravadas em sua mente, e agora elas faziam sentido: Potter era auror, e ele estava buscando a mesma coisa que Draco, a poção para Albus. O mestre de poções achou que estivessem juntos?
"Eu já consegui o que queria."
- Droga, Harry!
Draco deixou a carta sobre a mesa e aparatou direto para o St Mungus, correndo para o quarto de Albus, onde sabia que encontraria o imbecil inconsequente do Potter.
O quarto estava cheio e barulhento. Havia a coleção costumeira de Weasleys cercando a cama do garoto, mas, diferente das últimas vezes em que estivera ali, eles não estavam sentados em silêncio respeitoso pela dor alheia. Todos riam e conversavam e festejavam algo que se tornou óbvio para Draco muito rapidamente: Albus estava acordado, sentado na cama ainda pálido, mas sorrindo e conversando claramente com as pessoas à volta.
Um medibruxo conversava com Ginny em um canto, provavelmente explicando o novo quadro do menino, e o sorriso na face da mulher não poderia ser mais radiante e aliviado, o que era um indicativo de que Albus potencialmente estava curado de forma completa.
Mas o mais óbvio e alarmante para Draco neste momento era a observação clara de que Harry Potter não estava ali.
-:=:-
NA – Bom dia, queridos.
Bem, eu espero sinceramente que este fim de capítulo tenha deixado muitos de vocês aliviados o suficiente para não me baterem com a notícia que tenho para dar – ainda que não o suficiente para que desistam de esperar pelo próximo capítulo XD
Enfim, eu estou com alguns compromissos no momento – uma viagem que vou fazer nos primeiros 15 dias de setembro e tudo o que preciso terminar e arrumar antes da viagem – que estão atrasando minha escrita.
Eu quero mais tempo ._. Sinto uma falta tremenda de escrever, mas no momento eu não tenho argumentos para lidar com o fato de que simplesmente tenho outras prioridades.
Então eu vou pedir paciência para vocês. Tanto Ma Memórie Sale quanto Asmodeus vão deixar de ser atualizadas de agora até o dia 18 de setembro, quando eu prometo postar um capítulo de cada uma e depois retomar o ritmo normal de postagens, ok?
Pode ser que drabbles de projetos ou fics menores surjam nesse meio tempo – embora eu não tenha real esperança.
Espero comentários sobre tudo isso XD
Sejam felizes e até ^^
Beijos
