Capítulo 04 – Passado?
Os olhos verdes se abriram sonolentos, incomodados com a luz que entrava pela janela aberta. As cortinas se moviam com uma brisa suave e fria, jogando pelo assoalho gasto alguns flocos de neve, e trazendo para o ambiente o som do trânsito do lado de fora.
Harry se virou e ajoelhou sobre a cama, sentindo a cabeça pesada e o corpo cansado apesar do sono. Engatinhou sobre o colchão, descendo do outro lado da cama e fechando a janela, sentindo o contato frio dos pés descalços com o assoalho. Voltou, achando os óculos jogados sobre o lençol, e analisou o lugar.
Não conhecia aquele quarto. Os móveis baratos, a cama baixa, tudo muito impessoal e pouco familiar. Mas para quem estava pulando de hotel em hotel desde que tio Vernon começara a fugir das cartas, aquilo não era uma surpresa. Seu espanto estava em darem uma cama para ele. Ainda mais, um quarto inteiro!
Harry coçou os cabelos, confuso, tentando se lembrar de quando chegaram naquele lugar, mas deu de ombros, assim que encontrasse Duddley, ele estaria reclamando de tudo, e certamente lhe daria alguma pista.
Olhando desconfiado para os sapatos bonitos, estranhos e grandes jogados ao lado da cama, Harry se dirigiu para a porta que julgava levar a um banheiro. Não estava errado, mas ao parar em frente à pia, perdeu completamente sua linha de raciocínio.
No pequeno espelho em cima da cuba de louça branca encardida, olhos verdes o encaravam. Familiares, seus olhos. Mas estranhos. Pareciam maiores, embora brilhassem da mesma forma inocente como sempre os vira. E havia rugas.
Os dedos maiores do que ele se lembrava tocaram tentativamente seu próprio rosto. Ele sentia o toque, mas era como se o que visse refletido naquele espelho fosse outra pessoa. Sentindo a respiração se agitar, examinou as próprias mãos fora do reflexo. Tocou o peito largo que não se lembrava de ter. Era ele, mas era como se ele tivesse entrado em um corpo que não lhe pertencia.
Ou lhe pertencia, mas estava muitos anos mais velho.
Em um impulso, Harry deixou o banheiro. Foi até a porta do quarto, saindo em um corredor cheio de portas. Pouco à frente, uma camareira andava arrastando seus baldes.
- Senhora! Senhora! Por favor. – ela parou e esperou que o homem a alcançasse – Quantos anos você acha que eu tenho?
Ela riu, mas ao ver o homem sério a sua frente esperando ansiosamente por uma resposta, ela o examinou mais fixamente e respondeu.
- Uns trinta e cinco, quarenta anos. Não mais que isso. – os olhos verdes se arregalaram e ele parecia não respirar – Está tudo bem, senhor? Desculpe, mas...
- Que dia é hoje? – ele perguntou em um fôlego só.
- Vinte e nove de dezembro. – ela estranhou a pergunta.
- De que ano?
- Dois mil e dezenove. – ela viu o homem perder toda a cor e se apoiar contra a parede. Aproximou-se, tocando seu ombro, o fazendo se assustar, como se tivesse esquecido que ela estava ali – Você precisa de ajuda?
- Não... eu... só... Você sabe se eu estou acompanhado?
- Meu turno começou há poucas horas, senhor, não te vi dando entrada no hotel. O atendente da noite deve saber alguma coisa, mas ele já foi para casa e não deixou nada para o senhor, pelo que eu sei.
- Ok. – ele respondeu, parecendo ainda perdido, e voltou cambaleante para o quarto, fechando a porta às suas costas.
Os olhos verdes pareciam ver tudo a sua volta como se houvesse uma névoa o separando da realidade, mas não foi difícil concluir que ele não tinha bagagem ou nada dele além de uma capa grande jogada em cima da poltrona e os sapatos bonitos abandonados à beira da cama. Harry os calçou e se vestiu, ainda estranhando como tudo lhe servia perfeitamente, depois desceu para a recepção. Precisava encontrar alguém que o conhecesse e pudesse lhe dizer o que havia acontecido.
O homem atrás do balcão tinha uma expressão cansada, tediosa e mal humorada, e Harry não se lembrava de tê-lo visto antes.
- Bom dia. Foi o senhor quem me atendeu quando cheguei?
O homem somente balançou a cabeça em negação e abriu uma gaveta cheia de papéis jogados.
- Qual o quarto?
- Quarenta e dois.
Ele tirou uma nota, havia um grampo com um bilhete em uma letra que Harry não reconheceu, e o homem o jogou de volta à gaveta, lhe apresentando somente a nota.
- É só a diária, cinqüenta libras.
- Ah, claro. – Harry revirou os bolsos das roupas que ele tinha certeza que não eram dele, na esperança de achar algum dinheiro, mas o mais parecido que encontrou foi uma bolsa cheia de moedas grandes e bonitas em um vão da capa.
Derramou o conteúdo sobre o balcão e ganhou um olhar reprovador do atendente.
- Você está brincando comigo? – ele perguntou muito sério.
- Desculpe, é tudo o que eu tenho.
O homem apanhou uma das douradas e a mordeu.
- Ao menos é ouro. – ele separou todas as douradas do monte e fez um sinal dispensando o homem parado a sua frente.
Harry ainda encarava as moedas, descrente. Estava sozinho, em um hotel no meio de Londres, e sem dinheiro. Precisava ao menos chegar até a casa de seus tios, talvez eles pudessem lhe falar o que havia acontecido.
- Será que você... – ele engasgou ao receber o olhar reprovador do homem, que lhe dizia perfeitamente que já havia feito demais por ele. Harry empurrou o resto do conteúdo da bolsa, moedas de prata e de bronze, respirou fundo e pediu – Será que você pode trocar isso por algum dinheiro para mim? Preciso tomar um táxi e não acho que o motorista entenda de moedas.
O homem voltou a examinar o conteúdo, desconfiado, e, por fim, jogou todo o volume da bolsa de Harry na gaveta, lhe dando algumas notas em troca, somando um valor que Harry tinha certeza que não correspondia ao peso de metal ali, mas era tudo o que conseguiria.
- Obrigado. – resmungou e deixou o hotel para a avenida. Na outra calçada, havia uma fila de táxi parados.
- Para onde? – o motorista perguntou ao ver o homem entrar no banco de trás pelo retrovisor.
- Rua dos Alfeneiros, número quatro, Little Whitning, Surrey. – Harry pediu, baixo, e lhe estendeu todo o dinheiro que o atendente havia lhe dado – Mas eu só tenho isso, pode me levar, por favor?
O motorista examinou as notas e voltou a olhar para o homem.
- Está perdido? – o homem confirmou com a cabeça, engolindo em seco – Ok, é natal. – o motorista resmungou e deu partida no carro, não parecendo muito feliz.
A viagem foi longa e silenciosa. Harry olhava a paisagem, os carros, as pessoas, as casas e os lugares buscando captar todas as mudanças que ocorreram naqueles vinte e sete anos que ele simplesmente não sabia que haviam se passado. E ele não sabia o que pensar a cada comprovação de que, sim, havia mudanças, confirmando que tudo aquilo não era somente um sonho ruim e ele acordaria com os gritos de Tia Petúnia do lado de fora de seu armário em alguns segundos.
Ele tentava prever qual seria a reação de seus tios quando ele simplesmente batesse à sua porta depois de sabe-se lá quanto tempo ausente – talvez só aquela noite, talvez os vinte e sete anos. Se eles realmente poderiam lhe dizer o que havia feito naquele tempo, como havia ido para naquele quarto de hotel com roupas e sapatos decentes e um saquinho de ouro.
Algo lhe dizia que, se ele já tinha quase quarenta anos de idade, seus tios seriam as últimas pessoas a saber de sua vida, mas ele simplesmente não conhecia mais ninguém que pudesse procurar.
Harry fechou os olhos e esfregou a cicatriz em sua testa com força, em um costume que não sabia que tinha, e decidiu não pensar mais até que seja o que for acontecesse.
O carro estacionou e ele abriu os olhos, assustado.
- Muito bem. Aqui estamos. Vou até o centro da cidade ver se consigo alguma corrida para a volta para compensar o prejuízo. – o motorista disse e destravou a sua porta para que pudesse descer.
- Mas... Mas... – Harry olhava pela janela, surpreso – Desculpe, eu disse Rua dos Alfeneiros, número quatro, em Little Whining, Surrey.
- Sim, é aqui. – o motorista apontou primeiro a placa enferrujada na esquina e depois o número quatro de latão pendurado de ponta cabeça na parede da casa em frente a qual estavam parados.
Harry desceu do carro, observando atônito a paisagem à volta, sem ao menos reparar que seu táxi partia com pressa, o deixando ali. Aparentemente, Little Whining havia se tornado um bairro de periferia. As casas tão respeitáveis de sua infância agora ostentavam em lugar de seus jardins bem cuidados grandes cimentados, com grades protegendo os carros populares. A população parecia se mobilizar na rotina do horário de almoço, mas não havia ninguém na rua. Os vizinhos pareciam não se conhecer e tampouco se importar uns com os outros, quanto mais com o homem estranho parado em frente à casa abandonada.
Sim, abandonado era o mínimo para definir o número quatro da rua dos Alfeneiros. O gramado bem cuidado de tia Petúnia havia crescido a enormes proporções, de forma que nem a neve conseguia esconder a folhagem que cobria suas flores e quase alcançava a janela da sala. O caminho para a porta já não existia, e ela mesma padecia semi-caída em suas dobradiças enferrujadas. Os vidros estavam quebrados nos dois andares, assim como a lâmpada da soleira, e a tinta descascava nas paredes.
Sem parar para pensar no que encontraria exatamente, Harry caminhou entre o mato e a neve, empurrando a porta até ceder, sem muita dificuldade. Do lado de dentro, parecia tudo familiar demais por baixo da grossa camada de pó e das teias de aranha. Mas lá estava a sala montada, decorada do jeito que se lembrava que era, com as fotos de Duddley – algumas em que ele parecia estranhamente mais velho, maior e mais... magro? – sobre a lareira e a televisão – agora antiga – ocupando seu lugar central.
A cozinha sempre branca e limpa já não se encontrava assim, mas também todos os seus utensílios se encontravam na mesma posição que Harry se lembrava de ter deixado. Ele seria capaz de preparar um almoço ali, se houvesse comida que não fora deixada para trás há mais de vinte anos.
Essa era a impressão que ele tinha ao subir as escadas e examinar o banheiro e os quartos de Duddley e dos tios: a casa havia sido abandonada às pressas em algum momento de um passado tão longínquo quanto suas memórias, e não encontraria nem seus tios, nem ninguém morando ali. Há muito tempo.
Ao entrar no quarto de brinquedos de Duddley, porém, o menor quarto da casa, Harry teve sua primeira surpresa: suas roupas estavam ali. Nada que o servisse, obviamente, mas as roupas que ele reconhecia como suas aos 10 ou 11 anos, dobradas em um canto do guarda roupas pequeno, e outras tantas penduradas nos cabides, com o mesmo estilo "pertencia-a-Duddley", mas com o seu cheiro. Talvez tivesse realmente habitado aquele quarto em algum momento.
Momento de que não se lembrava.
Havia um cheiro forte no ambiente que lhe fazia pensar em galinhas e comida estragada. Ele olhou à volta e localizou um canto mais sujo sobre a mesa, onde parecia ter vestígios de um animal. Uma ave, provavelmente. Seus tios nunca teriam permitido que ele tivesse qualquer animal, quanto mais que cuidasse de um em seu próprio quarto.
Ao se aproximar da mesa ao lado da pequena cama, encontrou um calendário riscado até julho do ano de 1998. O dia 31 estava circulado de forma insistente em vermelho, o que o fez sorrir. Perto do calendário havia inúmeras matérias de jornal recortadas, jogadas umas sobre as outras. Ele as separou para ler, não reconhecendo o nome do jornal. Profeta Diário... O ano era 98 também...
- AH!
Harry gritou e jogou as folhas longe. Uma foto se moveu!
Duvidando do que havia visto, o homem se abaixou, olhando as páginas caídas no chão de longe, com certo receio. As imagens se moviam! Ele as apanhou com cuidado. Seria algum tipo de tecnologia que haviam desenvolvido? Mas tão rápido, não era como se de 91 – seus 11 anos, de que se lembrava – até 98 pudessem ter transportado as imagens da TV para o jornal impresso. Ou podiam?
Harry leu rapidamente os títulos e algumas matérias. Seu nome aparecia várias vezes, como se ele fosse alguém importante, mas ele não conhecia aquelas pessoas, havia palavras que ele simplesmente não sabia o que significavam, e ele não conseguia entender aquelas notícias. Elas pareciam tratar sobre... bruxaria? A palavra "bruxo" era, definitivamente, presente.
Ele deixou as matérias de lado e se fixou nos livros empilhados no chão ao lado da mesa. "Transfiguração", "Poções", "Defesa contra as artes das trevas", "Adivinhação". Seus olhos percorriam os títulos cada vez mais assustados. Ele não ousou abrir nenhum, tampouco terminou de olhar todos. Suas mãos tremiam.
No que estava metido? Será que perdera a memória em algum ritual bizarro de mágica? Mágica não existia, seus tios viviam lhe dizendo isso. Não era possível. Será que seus tios haviam desaparecido por sua causa?
O que ele fez?
Sentindo a necessidade de buscar algo minimamente familiar em meio a tudo aquilo, de encontrar um pouco dele, e não daquela pessoa que usava seu nome e suas roupas e fazia magia, Harry desceu rapidamente as escadas e abriu a porta sob ela – o espaço em que se lembrava de dormir – e uma pilha de livros desabou aos seus pés. Ainda havia as aranhas e o espaço parecia menor do que nunca, mas o pequeno colchão e as cobertas finas que usava não estavam ali, assim como mais nada que reconhecia como seu.
Abaixou-se e examinou os livros desatento. As capas brilhavam em sua mão em títulos semelhantes com os que encontrara em seu quarto, mas pareciam ainda mais velhos.
Um vulto, porém, saltou do armário, o fazendo se desequilibrar e cair no chão assustado com o movimento, olhando boquiaberto para a figura volumosa à sua frente.
- Seu traidorzinho sujo! – a voz grossa ecoou no espaço vazio à sua volta.
- Tio Vernon? – sua voz tremia e milhares de pensamentos passavam por sua cabeça de forma desordenada.
Um Vernon exatamente como ele se lembrava – vermelho e gordo – surgira milagrosamente de dentro do pequeno armário sem parecer nem um ano mais velho, e lhe apontava um dedo roliço em visível acusação. As palavras saiam de sua boca de forma agressiva e o homem parecia que ia explodir de tão alterado.
- NÓS LHE DEMOS TUDO, SEU INGRATO, E O QUE VOCÊ FEZ?
- Eu não fiz nada! Eu não lembro!
- VOCÊ NOS MATOU!
- NÃO! – Harry tampou os ouvidos com as mãos em um gesto defensivo quase infantil, mas a voz do tio parecia ecoar em sua cabeça.
- VOCÊ QUERIA TANTO QUE SUMISSEMOS, QUERIA TANTO VIVER SOZINHO! OLHA O QUE VOCÊ FEZ! VOCÊ MERECE SER ESQUECIDO! MERECE SER ABANDONADO! NINGUÉM VAI BUSCAR VOCÊ! NINGUÉM SE PREOCUPA COM VOCÊ! NINGUÉM SABE QUEM VOCÊ É! VOCÊ É UM NADA! E MERECE ISSO! MERECE MORRER SOZINHO!
- Não! Não! – Harry repetia de forma fraca, respirando com dificuldade, sabendo que, de alguma forma, aquelas palavras eram verdadeiras, e o medo de ficar sozinho, medo da vingança do tio, medo de nunca mais saber quem era, começavam a dominá-lo de forma irremediável. Tudo o sufocava, e, de repente, aquele aperto em seu peito explodiu em um grito, como se ele sentisse dor naquelas palavras.
Uma luz que parecia emanar de seu próprio corpo se espalhou, envolvendo tudo à volta, e quando seu grito cessou o tio havia sumido. A porta do armário sob a escada estava fechada, mas os livros de magia continuavam caídos perto de seus pés. Ele se arrastou pelo chão, como se eles pudessem lhe fazer algum mal.
Suas costas bateram contra a parede do canto da sala e ele se encolheu ao máximo, abraçando as próprias pernas, soluços explodindo de seu peito em um choro incontrolável. Ele estava sozinho, estava perdido e não sabia mais nem quem ele era.
Seus olhos fitaram o armário fechado por horas intermináveis em meio ao choro e a pensamentos demais para que conseguisse se focar em qualquer coisa. Não saberia dizer quanto tempo levou até ouvir a porta da frente cair de vez do batente e uma outra sombra se projetar na entrada.
Harry escondeu a cabeça entre os braços com um gemido, esperando qualquer tipo de punição pelo que não sabia ter feito, simplesmente tendo certeza de que não conseguiria fugir daquilo ou lutar sozinho.
Mas a voz que o chamou parecia simplesmente... surpresa.
- Potter?
-:=:-
NA: Olá, pessoas.
Mais um capítulo. Cara, estou triste, tem tão pouca gente lendo a fic ._.
Estou pensando até em dar mais espaço entre as atualizações, quem sabe assim pode-se deglutir melhor o capítulo.
Enfim, espero saber o que vocês acham.
Enjoy.
Beijos
