Capítulo 06 – Eu preciso que você confie em mim

Os olhos verdes se ergueram para ele claramente assustados e o homem se encolheu mais conforme o loiro se aproximava, se é que era possível.

- Mas que droga, Potter! O mundo inteiro te procurando e você enfiado nesse buraco! – Draco sentia como se toda a tensão dos últimos acontecimentos o invadisse em forma de alívio e uma certa revolta por encontrar o outro simplesmente bem – Será que dá para levantar logo daí? Eu não viajei metade do país para ficar esperando sua boa vontade em me acompanhar!

Harry finalmente se ergueu, confirmando que não estava ferido ou fisicamente abalado, mas sua atitude de se manter rente à parede como se pudesse se fundir a ela começava a alertar o loiro de que havia algo errado com o outro.

E isso só veio a se confirmar na pergunta dita em um tom de voz tão baixo e inseguro que Draco nunca havia ouvido vindo de Harry Potter.

- Quem é você?

- Ah, merda! – foi tudo o que conseguiu dizer, olhando para o outro, pasmo – Como assim quem sou eu, Potter? Isso não é hora para brincadeiras!

- Você me conhece?

- Todo mundo te conhece, cretino! – Draco começava a se desesperar com aquele tipo de atitude. O que haviam feito a Harry Potter?

Ele se aproximou do outro na esperança de poder examiná-lo e determinar se era algum delírio, poção ou algo assim. Mas o passo que deu para frente foi acompanhado por um Potter escorregadio que correu para o outro lado da sala, olhando os objetos à volta como se avaliasse o que poderia ser usado como arma.

- Olha, escuta, Potter. – ele respirou fundo e se corrigiu – Harry. – ergueu as mãos em um gesto de rendição, ainda que não deixasse a varinha de lado – Você pode me dizer o que está acontecendo com você?

- Se você me conhece, eu esperava que você pudesse me dizer o que aconteceu! – o outro retorquiu, o olhando desconfiado.

- Eu estava em casa, recebi a notícia de que Albus estava bem, fui ao hospital e não te encontrei. Fiquei preocupado. No Ministério, conseguiram te rastrear, e então eu vim aqui. – Draco disse devagar, observando atentamente as reações do outro – Você está bem?

- Quem é Albus? – Harry perguntou, confuso, havia visto o nome nas notícias jogadas em seu quarto, mas nem ao menos sabia se era a mesma pessoa.

- É seu filho. – Draco respondeu, visivelmente surpreso – Você não se lembra que tem um filho, Harry?

- Eu não lembro de nada! – o outro disse em aflição.

- Por Merlin! – Draco se deixou cair sentado no sofá poeirento, chocado demais com as implicações daquilo para poder se manter de pé – Como assim, não lembra de nada?

- Eu acordei hoje de manhã em um quarto de hotel no centro de Londres. A última coisa que me lembro antes disso era que... – Harry franziu a testa, como quem se esforça para algo – Estavam chegando umas cartas para mim. Por corujas. E meus tios não queriam que eu lesse. Como as cartas não paravam, eles começaram a fugir. Viajamos um pouco, até alugar um casebre no meio do mar. Eu achei que meu tio estava enlouquecendo. A última lembrança que eu tenho é... – ele pareceu se esforçar um pouco mais - é que era noite do meu aniversário... Eu estava acordado, no chão do casebre... Chovia... – ele parou, como se buscando algo mais, mas seu olhar simplesmente se levantou perdido para o loiro, que engoliu em seco.

- Você se lembra quantos anos estava fazendo? – perguntou, devagar, não querendo parecer mais ameaçador para o outro, ou mesmo deixar transparecer seu próprio desespero.

- Onze, eu acho. Estava para mudar de escola, e não queria ir.

- Oh, droga. – Draco passou as mãos no rosto e voltou a encarar o outro, descrente – Você nem ao menos sabe que é bruxo?

Sua pergunta saiu ríspida, na revolta do momento, mas ao ver o rosto do outro homem se tornar perigosamente pálido, Draco se alarmou. Levantou-se, se aproximando do moreno, e conjurou um copo de água, lhe oferecendo.

- Beba, Potter. – insistiu, ao ver o outro se afastar. Percebendo que ele continuava em quase pânico, decidiu acabar com aquilo de uma vez. Pousou o copo sobre a mesa de centro entre os dois e encarou o homem novamente – Se você procurar, deve achar uma varinha como esta em algum lugar das suas vestes – ele mostrou a própria varinha – Aponte para o copo, se concentrando em tê-lo em suas mãos, e diga "accio copo".

Os olhos verdes o olhavam em descrença e Draco acompanhou com aflição a forma lenta como ele procurava a varinha e executava o feitiço. Automaticamente, o copo voou em sua direção, e Harry deu um grito e desviou, deixando que ele se estraçalhasse contra a parede.

- Por Merlin! – Draco se levantou, girando a varinha fazendo o copo surgir reconstruído em cima da mesa e pegando a mão do moreno para verificar o pequeno corte, fruto de um caco do vidro. Mais um aceno de varinha e o machucado se fechava, mas a mão do outro tremia nas suas.

- Eu matei meus tios? – a voz fraca o questionou. Não havia mais pânico, mas a culpa era quase palpável.

- Eu não conheço ninguém menos capaz de matar do que você, Harry. – Draco disse, encarando os olhos verdes, preocupado – De onde você tirou isso?

Harry balançou a cabeça e riu, como se não pudesse acreditar no que falava.

- Meu tio saiu do armário onde eu dormia e me acusou. E tem livros sobre magia e coisas das trevas por toda a casa, e eles sumiram e eu não sei o que aconteceu.

Draco olhou para o armário debaixo da escada, em frente ao qual os livros se espalhavam, e se dirigiu para lá, o abrindo com cuidado. Quase que imediatamente, um garoto loiro apareceu visivelmente morto a sua frente, e ele o encarou com uma expressão de tédio.

- É só um bicho papão. Riddikulos. – ele balançou a varinha e Harry viu espantado a criança que surgira explodir e sumir à sua frente.

O loiro o encarou preocupado, se sentindo cansado.

- Potter, tem muita coisa que você precisa saber, e eu acho que não sou a melhor pessoa para te contar, mas preciso descobrir o que aconteceu com você antes de voltarmos. E para isso eu preciso pensar. E você precisa claramente de um banho e talvez comer alguma coisa. Você se importa de ficarmos aqui pelo menos até amanhã?

- Se você me disser o que está acontecendo...

- Eu posso dizer assim que descobrir. – Draco o olhou profundamente sério, e sua voz saiu meio abafada, sabendo que pedia demais – Eu preciso que você confie em mim.

- Eu confio. – o moreno respondeu rapidamente, e deu de ombros ao ver a expressão espantada do outro – Você me conhece, parece saber mais sobre mim do que eu mesmo... E o que mais eu posso perder?

"Tudo o que você lutou para conquistar na vida, Harry", Draco pensou, o olhando com tristeza. Mas não conseguiu dizer aquilo, sabendo que, de certa forma, o moreno já havia perdido.

- Obrigado, Harry. – disse com uma emoção sutil, sabendo que o homem parado a sua frente não saberia a importância daquele ato.

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Com alguns movimentos de varinha, Draco limpou a sala e colocou a porta e os vidros das janelas em seus devidos lugares, acompanhando Harry até o andar de cima, onde o moreno lhe mostrou seu quarto. O loiro olhou com atenção aquele pequeno universo: o calendário riscado, as roupas que nunca serviriam em Potter, os recortes de jornal. Limpou tudo também e transfigurou algumas vestes limpas e do tamanho certo para que Harry pudesse se trocar.

No banheiro, Harry já conseguiu executar o feitiço de limpeza sozinho, com a orientação de Draco, e o loiro o ensinou também a como conjurar água, enchendo a banheira e deixando o moreno sozinho para que pudesse se banhar à vontade.

Na cozinha, Draco limpou tudo mais uma vez, convocando de sua própria casa um pouco de comida e bebida para os dois. Sentou-se à mesa, deixando a cabeça cair sobre a tábua, pensando sobre o que diria enquanto esperava que Harry descesse.

Como contaria para Harry Potter a sua própria história? Pior! Como se apresentaria para aquele Harry sem memória, sem conhecimento de guerra ou de quem ele era ou do que haviam feito um para o outro, um pelo outro, durante todos aqueles anos? Como faria para não perder a confiança tão necessária que Harry acabara de depositar nele?

Se havia a mínima possibilidade do outro recuperar a memória, ele não poderia simplesmente mentir, dizer que eram melhores amigos, mesmo porque mais cedo ou mais tarde Harry teria de voltar ao convívio da família e dos amigos, e aquela mentira seria desfeita em segundos. Mas a verdade também simplesmente não era viável.

Qual era a verdade deles, afinal? No que se consistia a sua relação com Harry Potter? O que o menino Harry Potter de onze anos esperaria dele?

Draco riu – talvez um aperto de mão. Talvez algo que ainda não estava pronto para dar, como aquela confiança.

- Essas roupas são estranhas. – a voz de Harry cortou seus pensamentos e Draco ergueu o rosto para vê-lo entrando na cozinha, limpo e perfumado, os cabelos molhados revoltados como sempre, as vestes que Draco escolhera para ele moldando seu corpo perfeitamente.

- Você ficou bem. – ele disse, sorrindo levemente.

Harry sentou-se a sua frente e o olhou preocupado.

- Você está bem? Parece cansado.

Draco balançou a cabeça em negação, mas sorriu também. Talvez fosse importante que Harry entendesse a situação para que ele pudesse avaliar melhor o que fazer.

- Harry, eu vou te contar o que aconteceu nos últimos dias para que você entenda como perdeu a memória, depois eu te falo sobre sua vida, ok?

O moreno concordou com a cabeça enquanto começava a se servir da comida que havia sobre a mesa.

- Você é considerado um dos maiores bruxos da nossa era, é uma pessoa muito importante e, por isso, tem muitos inimigos também. É casado e tem três filhos. No último dia primeiro de setembro, seu filho do meio, Albus, sofreu um desmaio como a primeira manifestação de uma doença degenerativa. Ele ficou internado até ontem, e estava morrendo. Ele não sobreviveria por muito mais tempo.

- Como ele está agora? – Harry perguntou, visivelmente preocupado, mas sem o envolvimento visível que tinha como pai. Era a preocupação que qualquer um teria ao saber que uma criança vai morrer.

- Bem. – Draco sorriu – Ele é o melhor amigo do meu filho, Scorpius, e isso nos faz amigos de certa forma também. A medicina bruxa dizia que Albus não tinha esperanças, mas eu conhecia um meio ilegal de conseguir a cura e comecei a procurar quando vi seu desespero. Eu cheguei muito perto da pessoa que podia te ajudar, mas então minha esposa foi envenenada.

- Eu sinto muito. – Harry disse com pesar sincero. O pesar que qualquer um teria com o falecimento da esposa de um conhecido. Draco somente concordou com a cabeça e continuou.

- Isso foi ontem, por isso eu estou tão abatido. Eu investiguei a morte da minha esposa e não tenho como provar, mas me sobram razões para acreditar que a mesma pessoa que a matou era quem detinha a cura de Albus. Eu fiquei com medo do que ele pudesse fazer a você, se você conseguisse chegar até ele seduzido pela promessa de ajuda ao seu filho, e fui te procurar. Chegando ao hospital, eu encontrei Albus curado e você estava desaparecido. Pelo que me contou, o fato de você acordar sem memória e seu filho acordar curado são coincidentes.

- Você acha que... que... O que você acha? – Harry perguntou, confuso com a quantidade de informações.

- Seu filho não se curaria sozinho. – Draco continuou, paciente - E esse tipo de mestre de poções costuma cobrar muito caro pelo que vende. Eu temo que o preço dele tenha a ver com sua amnésia. Se você me permitir, Harry, eu gostaria de verificar sua mente para ver se você ainda possui suas memórias, se elas somente estão bloqueadas por algum outro trauma. – a voz de Draco tremeu com esse pedido. Ele não era ingênuo, sabia grande parte do que Harry havia passado durante os anos de guerra e tinha coisas ali que ele nunca gostaria de reviver, mas era um exame necessário no momento.

- Isso é possível? – Harry perguntou, descrente, fazendo Draco rir e concordar com a cabeça – Vai doer?

A pergunta infantil assustou o loiro, e ele respondeu sério ao outro.

- Não, não é para doer, fisicamente falando. Mas você vai reviver muitas de suas memórias, e algumas podem te deixar triste ou doer de outra forma.

Harry pensou por alguns segundos e concordou com a cabeça. Draco puxou sua cadeira para mais perto, sentando-se diretamente em frente ao outro, e encarou os olhos verdes profundamente.

- Eu preciso que você olhe nos meus olhos, Harry, mantenha esse contato... e relaxe.

Harry fixou as orbes cinzentas com atenção e respirou fundo, em seguida era como se assistisse a milhões de imagens ao mesmo tempo. Ele viu a luz verde e o som de moto de seus sonhos. Ele viu o céu. Viu seu tio o empurrando violentamente para dentro do armário e o trancando, gritando que ficaria sem comer por três dias se falasse em magia novamente. Se viu correndo de seu primo até tropeçar nas roupas grandes demais e ser preso por um garoto muito maior do que ele, sentindo a dor do primeiro golpe. Viu sua tia reclamando de como era imprestável e os fazia gastar desnecessariamente enquanto se equilibrava sobre um banco à beira do fogão e tentava não se queimar cozinhando. Viu os cachorros de tia Guida rosnando para ele e a ordem dela para alimentá-los seguida pelo velho discurso de que seu pai era um bêbado imprestável e ao menos para ração ele serviria. Viu as cartas descendo em enxurrada da lareira e seu tio o empurrando para longe. Sentiu o frio da chuva e a ansiedade pelo momento de seu aniversário deitado no chão do casebre precário, olhando para o relógio do primo que dormia confortável ao seu lado. E então viu o espelho com o rosto velho demais, o homem pegando o seu ouro e o bicho papão o acusando de ser assassino.

E então havia somente olhos cinzentos novamente, e o toque quente em seu rosto.

- Está tudo bem, Harry. – a voz era suave e Draco secava suas lágrimas. Harry não estava acostumado a chorar, mas era muito, e confuso demais. Era como sentir tudo ao mesmo tempo.

- Desculpe. – sussurrou.

- Está tudo bem. – o loiro repetiu.

- E então? – Harry perguntou, se recuperando, incomodado com aquele contato. Ele não estava acostumado com toques.

- Elas não estão aí. – Draco afirmou, angustiado.

- Tem como, sei lá, pegar de volta?

- Podemos procurar o mestre de poções. Para algo tão grande como pegar as memórias de alguém deve haver um contrato, e você pode desfazê-lo. As memórias voltariam para você, mas...

- Mas? – Harry perguntou, temendo a resposta frente à hesitação do loiro.

- Albus provavelmente morreria.

- Meu filho? – Harry perguntou, incerto.

- Sim. – Draco o observou pensativo, sem saber o que dizer.

- Então não tem volta. – Harry sentenciou segundos depois.

- Você tem certeza? Não quer nem tentar conversar com o mestre de poções? Nós podemos procurá-lo.

- Se eu fiz isso sabendo o que ia acontecer, é porque eu não me arrependeria. Acho que meu filho vale isso, no fim das contas. – Draco o olhava de uma forma estranha, e Harry se sentiu incomodado, adicionando, na tentativa de mudar de assunto – Mas eu ainda quero saber quem eu sou.

- Ah, claro. Mas coma antes, ok? – o loiro desconversou, servindo-se também. Seria uma longa noite.

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NA: Olá, pessoas.

Desculpem a demora, o feriado me distraiu. Mas aqui está. Espero que gostem!

Obrigada a todos pelas reviews no capítulo passado! Fiquei tri feliz!

E até semana que vem!

Beijos