Capítulo 07 – Amigos?

- Eu não sei por onde começar. – Draco afirmou, sério, pensando.

- Comece por você. Eu nem sei seu nome.

- Draco Malfoy. – e havia um orgulho e uma rispidez no ato de dizer seu nome que fizeram Harry erguer as sobrancelhas e rir em seguida.

- Ok, senhor Malfoy, de onde nos conhecemos?

- Estudamos juntos na escola de magia por sete anos, de 1991 a 1998, e, como eu disse, dezenove anos depois nossos filhos decidiram ser amigos. O nome da escola é Hogwarts, e era isso que as cartas eram: um convite para que você estudasse magia na mesma escola em que seus pais estudaram. Nós nos conhecemos aos onze anos e... é complicado explicar o que éramos.

- Pensei que éramos amigos. – Harry o encarou confuso.

Draco retornou seu olhar, sério, e analisou os olhos verdes durante um longo tempo.

- Nós somos amigos. – afirmou com convicção. De repente, perder aquela confiança que havia ganhado dos olhos verdes usando meias palavras lhe soou como um desperdício – Mas não foi sempre tão claro assim.

- Por quê? – Harry parecia confuso, vendo o loiro desconfortável.

- Havia uma guerra. Mas eu não quero falar dela ainda. Eu quero... quero que você entenda... – e era complicado explicar porque ele mesmo parecia ter entendido somente naquele momento – Eu acho, depois que eu vi suas memórias, que, na primeira vez que você me viu, você me relacionou muito ao seu primo, e seu primo não era legal. E, isso, unido à visão de outras pessoas sobre a minha família e os fatores da guerra, fez com que você achasse que me odiava e que eu odiava você, mas isso não era verdade. – ele engoliu em seco, não queria que as coisas fossem daquele jeito, mas não sabia como colocar os fatos de outra forma. Tentou sorrir e fazer aquilo mais leve – Mas um dia você descobriu que eu era um cara legal, senão não teria salvado minha vida no fim de tudo.

Harry o olhava quase intrigado, e Draco precisava de uma resposta dele, esperando por qualquer reação com uma angústia que não esperava sentir.

- Eu acredito. – foi sua sentença.

E então Draco entendeu que era somente isso: uma questão de acreditar ou não nas suas palavras. Não havia mais rancor ou desconfiança ou mesmo medo daquela história. Era quase como se ele estivesse falando de outras pessoas, personagens de um livro que ele relatava para Harry sob o seu ponto de vista.

- Você tinha dois grandes amigos, Ronald Weasley e Hermione Granger. Hoje eles são casados e você ainda é muito próximo deles, sendo que se casou com a irmã do Weasley, Ginevra. Quando você quiser ir, é para a casa deles que eu vou levar você, e aí eles podem te dar mais detalhes sobre a sua história, nós dois não tínhamos muita proximidade por conta da guerra.

- Por que eles não vieram me buscar, então? – Harry perguntou, e havia algo de mágoa em sua voz.

- Eu acho... - Draco começou, escolhendo as palavras. Quando voltassem, ele teria que refazer sua vida e cuidar de Scorpius, e Harry precisaria do apoio dos amigos, não seria uma boa idéia falar certas verdades – Que eles pensaram que você estava trabalhando. Foi o que sua esposa disse, e Hermione estava preocupada, mas ninguém sabia sobre a poção. A não ser eu.

Harry simplesmente confirmou com a cabeça.

- Me fale da guerra. Por que eu era tão importante?

- Porque você venceu. – Draco riu com a expressão de assombro do outro.

- Eu não posso ter vencido uma guerra sozinho. – Harry acenou com as mãos aleatoriamente.

- Não digo que sozinho, mas eu acho que em grande parte, aquela era uma guerra sua, e você tinha o direito de fazer o que fez e destruir o Lord das trevas.

- Lord das trevas? – Harry perguntou confuso. O nome era impactante, e a voz do loiro parecia mais baixa naquele ponto.

- Sim. Voldemort. – Draco disse com alguma dificuldade – O cara que matou seus pais. E transformou nossas vidas em um inferno. – Draco respondeu muito sério.

Harry pensou durante um tempo em silêncio com a testa franzida. Draco se perguntou vagamente o que o Harry de 11 anos sabia sobre a morte dos pais, mas seus pensamentos foram cortados pelo olhar verde de desconfiança.

- Você disse que estava do outro lado da guerra, então por que o cara que matou meus pais transformou a sua vida em inferno?

Draco sorriu com aquela perspicácia. Ainda era Harry Potter ali.

- Para você entender isso, você precisa entender porque houve uma época que eu e minha família apoiamos o Lord e porque nós deixamos de apoiar. E, para isso, você precisa entender como nós pensávamos e o que o Lord propunha. E isso tudo começa muito antes. Quando trouxas e bruxos se separaram, na Idade Média, e tem muito a ver com a fundação de Hogwarts.

Harry se acomodou melhor no sofá, encostando a cabeça no encosto e virando o corpo de lado, de frente para Draco.

- Nunca ninguém contou histórias para mim. Estou ouvindo. – e Draco aceitou o pedido para continuar, o olhando quase fascinado com aquela delicadeza a que ele simplesmente não estava habituado.

Sorriu para si mesmo. Fazer Harry Potter concordar com ele seria interessante.

- Hogwarts teve quatro fundadores, Rowena Ravenclaw, Helga Hufflepuff, Godric Gryffindor e Salazar Slytherin. Cada um deles fundou uma casa para a qual selecionava aqueles que julgava que mereciam seus ensinamentos. Godric e Salazar eram grandes amigos, mas chegou um tempo em que eles brigaram, e Salazar deixou a escola porque os outros não concordavam quanto a não aceitação de nascidos trouxas, como a sua mãe, Harry. Mas, pense comigo: você ficou quase em choque ao descobrir que era bruxo, imagine mergulhar em uma sociedade totalmente mágica. É uma cultura muito diferente. E, além disso, ela é fundamentada em tradições...

o0o

Harry olhava Draco dormindo em sua cama. Ou melhor, na cama que dormira enquanto morava ali. Haviam limpado somente seu antigo quarto dos três da casa, então combinaram que Draco descansaria ali e Harry no sofá da sala, mas o moreno não conseguia dormir, diferentemente do loiro, que parecia desmaiado.

Ele estava ali porque descobrira que era o único lugar da casa onde se sentia à vontade. Estava feliz e aliviado de saber que tinha outra casa, um lar com uma família de verdade, que tinha amigos de verdade e que, mesmo enquanto ainda morava ali, tinha um lugar mais seu, o seu colégio.

Ele gostaria de se lembrar, saber como se sentia enquanto estudava lá, qual era a sensação de voltar para a casa dos tios para passar férias. Devia ser sufocante. Especialmente sabendo que tinha um padrinho, que havia pessoas que realmente se importavam com ele, mais do que os Dursleys nunca se importaram.

Draco não sabia o que havia acontecido com eles, mas tendo as lembranças de sua infância tão claras e a consciência de como tudo o que eles lhe fizeram se refletiu na sua vida, suas mentiras e sua repressão, Harry não conseguia se importar tanto assim. E duvidava que em qualquer momento eles temeram por ele estar lutando em uma guerra que chegou a lhe matar.

Ele havia morrido. Harry escutou quase tremendo o relato que a mãe de Draco havia contado para ele. Ela presenciara a sua morte. Nesse momento, ele ficou realmente feliz de não se lembrar. Mesmo que houvesse coisas maravilhosas que Draco havia dito que ele havia feito, e ele chegava quase a duvidar de ser capaz de driblar dragões em uma vassoura ou matar cobras gigantes com uma espada. Mas, assim como sabia que podia falar com cobras, talvez fossem coisas que ele simplesmente ainda não havia descoberto que podia fazer.

E nunca mais descobriria, porque não queria enfrentar outra guerra só para isso.

Mas Draco prometeu que jogariam aquela coisa com vassouras e bolas, e ele realmente sentia vontade de voar. Era uma sensação de curiosidade aliada a uma saudade que não se consegue definir do quê exatamente, e isso era estranho. Assim como sentia vontade de ter conhecido seu padrinho e o amigo de seu pai que haviam morrido na guerra. E saber que ele era padrinho do filho dele o fazia sorrir.

Era estranho também saber que o afilhado e os filhos dele eram mais velhos do que... do que ele se lembrava ser. E isso lhe dava um pouco de medo, porque se ele mal conseguia lembrar os tantos nomes que Draco havia lhe dito naquela noite, quanto tempo ele ia demorar para reaprender o que eles gostam e como lidar com eles? Como ser pai aos 11 anos?

Trabalhar era outro ponto que o preocupava, porque ele trabalhava com magia, pelo que entendera, e... ele esquecera como faz magia. Teria que reaprender tudo, e isso ia dificultar muito as coisas. Mesmo Draco dizendo para que não se preocupasse, que ele tinha dinheiro guardado o suficiente para ele e sua família viverem bem por um longo tempo, ele ainda tinha medo que as pessoas que o chamavam de herói iriam dizer que ele nem ao menos sabia pegar direito na varinha – ou ao menos não com aquela classe e naturalidade que Draco pegava.

Ele era bruxo, era pai, era adulto. Mas não se sentia nada disso. E agora, olhando Draco adormecido ali do lado, e vendo nele a figura configurada do que ele deveria ser – bruxo, pai, adulto -, Harry se perguntava se simplesmente não era melhor esquecer essa história toda e ficar ali.

Ele não estava pronto para voltar a ser quem ele era, e isso era o mais estranho de tudo, porque era ele, e não tinha como não ser.

o0o

Draco deixou a casa, parando em frente à porta e suspirando pesadamente ao ver o céu escuro. Viria mais neve naquele dia, era melhor partirem logo, queria estar em casa, com Scorpius, antes disso. Voltou-se, vendo o moreno descer as escadas e lançar um último olhar para o armário trancado e a sala empoeirada antes de se juntar a ele, pondo a porta no lugar com um gesto de varinha ainda meio sem jeito.

- Podemos ir? – perguntou com um ar de tédio, não esperando realmente pela aprovação dele para partirem. Harry sorriu de leve e concordou com a cabeça.

Draco se permitiu observá-lo por alguns segundos. Era estranho ver aquele novo Potter. Novo, porque ele era diferente: diferente do Harry adulto com quem ele havia conversado há alguns dias no hospital, diferente do heroizinho patético que convivera com ele por anos, diferente do menino de 11 anos para quem ele oferecera sua mão e sua amizade no passado.

Ele era... submisso. Ou quase. Estava sempre bem disposto e era receptivo a tudo o que falara e tentara ensiná-lo de uma forma quase perigosa para alguém que seria tão visado a partir daquele momento. Talvez tenha sido isso que o mudou tanto a partir do momento em que entrou no mundo bruxo: ele precisava estar sempre pronto para toda ameaça e toda exigência que despencaram sobre a cabeça dele.

Ele tinha um sorriso doce e leve, quase não-sorriso, que correspondia às suas tentativas de ajudar, e só. Pois, perdida nos olhos verdes, havia uma enorme tristeza que Draco não se lembrava de existir antes, e isso o assustava. Porque, ao ver as memórias da infância de Harry, ele entendia aquela tristeza em uma criança. E, somando tudo isso ao que ele já sabia que ele havia passado no resto da sua vida, era quase difícil de entender como Harry conseguiu chegar a ser aquele adulto simplesmente feliz e conformado com aquela vida de pai, marido e auror que ele levava nos últimos tempos.

Uma vida de paz relativa que, agora Draco sabia, ele nunca tinha sequer noção do que significava antes de conseguir conquistar o direito de viver.

- Você sabe que não vai ser fácil, não sabe? – ele reafirmou. Potter era inteligente, e ele tinha absorvido bem toda a informação que jogara sobre ele nas últimas horas, mas não tinha certeza de que ele havia entendido o que o esperava do lado de fora daquela casa. Pessoas que tinham expectativas com relação a ele. Expectativas talvez grandes demais para alguém cujas experiências se limitavam às de uma criança de 11 anos que cresceu trancada em um armário.

Mas o moreno confirmou com a cabeça, se aproximando mais dele, e havia uma determinação familiar em seus olhos. Draco sorriu, segurando sua mão, e aparatou com ele para o hall do prédio mágico onde Granger e Weasley viviam em um apartamento. Confiava mais nela que em Ginevra para conduzir aquela situação, e Scorpius deveria estar ali, ele queria desesperadamente estar com seu filho.

Tocou a campainha e aguardou, notando como Harry batia o pé no chão camuflando muito mal sua ansiedade.

- Entre, Malfoy. – a voz soou abafada do lado de dentro e a porta se destrancou sozinha, entreabrindo-se para dar passagem para o homem.

A cena que o aguardava do lado de dentro era alarmante. Ginevra estava lá, sentada no sofá com os olhos avermelhados e o irmão ao seu lado, conversando baixo com ela. Hermione surgiu de um corredor, conduzindo Scorpius. Aparentemente fora buscá-lo ao identificar a chegada de Draco, mas com ele vinham também os filhos dela e os filhos de Potter, que pareciam ansiosos pela chegada de qualquer pessoa.

- Ah, Merlin, Harry! – Ginevra foi a primeira a perceber o homem parado a alguns passos atrás do loiro, e se lançou imediatamente para ele, de forma quase desesperada. Harry, por sua vez, recuou quase assustado para mais perto de Draco quando ela indicou que o abraçaria.

- Essa é Ginevra, sua esposa, Harry. E esses são Ronald e Hermione, seus amigos. As crianças são Scorpius, o loiro, meu filho. O moreno é Albus, seu filho que estava doente, e James e Lily, seus filhos também. Os outros ruivos são Hugo e Rose, filhos de Ron e Mione. – ele falou mecanicamente, indicando as pessoas que os olhavam, surpresos, e então acrescentou para todos – Harry está bem, eu o encontrei ontem à noite, o único problema é que ele perdeu a memória. E acho que ele vai precisar da ajuda de vocês.

Ele esperava alguma reação, mas quando tudo o que conseguiu foi a manutenção das expressões de surpresa, decidiu sentar-se no lugar que Ginevra desocupara, chamando Scorpius para perto. Aquilo ia demorar.

o0o

- Não tem como reverter, então? – Ginny ainda soluçava, mas já parecia conseguir entender razoavelmente a situação. Pelo que Hermione e Ron contaram, ela estava com os filhos ali justamente porque o desaparecimento de Harry a estava desesperando a tal ponto que finalmente admitira que ele havia desaparecido e viera pedir ajuda, falando sobre a cigana.

Nesse ponto da conversa, Draco esclarecera como achava que tudo havia acontecido, buscando ao máximo não envolver o nome de Astoria, devido à presença do filho ali, e suas suspeitas se confirmaram com o relato de Ginny sobre a última conversa que tivera com Harry antes de ele sumir.

- A menos que esteja disposta a arriscar a vida de Albus novamente, não. – respondeu, cansado, vendo o menino moreno sentado mais além encarar o pai de forma tensa.

- Ei. – Harry percebeu seu olhar e sorriu para ele – Está tudo bem. – ele chamou o garoto para sentar ao seu lado e beijou-lhe a testa, acariciando os cabelos negros como os seus – Céus, você parece tanto com o que eu acho que eu devia parecer que chega a me assustar.

Hermione riu nervosamente com aquela afirmação, mas foi o suficiente para aliviar a tensão na sala e finalmente alguém voltou ao ponto essencial: Harry.

- Harry, qual a última coisa de que se lembra?

- A noite em que eu completei 11 anos.

- Você nos contou que foi nessa noite que Hagrid apareceu e lhe contou que era bruxo. Você se lembra disso?

Harry franziu a testa, como quem se esforça para lembrar, durante alguns segundos, até negar com a cabeça.

- Não conheço nenhum Hagrid. Quem me contou que eu sou bruxo foi o Draco, ontem. E me falou sobre meus pais e a guerra e tudo o que aconteceu nesses anos. Eu não conheço Hagrid e não sei o que mais aconteceu naquela noite.

- Ele não tem nenhuma lembrança como bruxo, Granger. – Draco se pronunciou – Eu examinei a mente dele, está limpa desse ponto até ele acordar sem memória.

- Você revirou a mente dele? – Ron perguntou, indignado, olhando Draco como costumava olhar quando eram rivais, e Harry ergueu as sobrancelhas surpreso quando o ruivo recebeu um olhar de desprezo do loiro.

- Eu estava tentando ajudar. – Draco argumentou – Mas, pelo visto, vocês podem fazer muito melhor. Estou indo, meu filho precisa descansar. – ele esticou a mão para o garoto, se levantando, e os dois caminharam para a porta seguidos pelo silêncio dos demais.

Mas Harry se levantou, parando-o.

- Eu... Muito obrigado, Draco.

Essa declaração surpreendeu o loiro mais do que tudo. Por mais que não se lembrasse, era Potter, e nunca havia recebido qualquer agradecimento da boca de Potter, quanto mais um tão sincero, mesmo que o moreno parecesse sem graça. Confirmou com a cabeça, deixando o apartamento, mas se voltou antes de aparatar.

- Qualquer coisa, pode me mandar uma coruja, Potter. – disse, ríspido, mas sentia que, mesmo que não tivesse nada mais a ver com aquilo, Harry ainda contava com ele de alguma forma.

- Coruja? – Harry perguntou, confuso, vendo o loiro simplesmente sumir com o filho.

Sentiu a mão de Hermione sobre o seu ombro e se voltou para ela.

- Entre, Harry, nós temos muito o que conversar.

-:=:-

NA: Olá, pessoas.

Desculpem não ter postado ontem, mas estou terminando um trabalho que está me sugando um pouco nesse fim de semana.

Espero que tenham curtido esse capítulo. Eu tenho todo um xodó por esse Harry que começa a se configurar nele []

Obrigada pelas reviews no capítulo passado. Nos vemos sexta feira que vem, porque vou viajar no feriado. E estou atualizando meu profile com a fic da semana no projeto Fawkes, Hallelujah, da Vick Weasley. Dêem uma olhada! o/

Beijos, queridos.