Capítulo 08 – Harry Potter

Quando Hermione sentou-se ao seu lado para explicar o que fariam enquanto o homem ruivo que não gostava de Draco ia ao seu apartamento buscar uma bacia, Harry concluiu que penseira era uma coisa muito legal. Agora, depois horas de passeios monitorados por memórias dispersas dos seus dois grandes amigos, o moreno não tinha mais tanta certeza. Sua cabeça latejava de dor e ele se sentia mais confuso do que antes de começarem com aquilo.

Ok, agora ele sabia mais detalhes de sua história, era verdade. E ele conseguiu apreender melhor o que pareciam somente palavras estranhas na voz de Draco, como "dementador" ou "basilisco" ou "Hogwarts". Essas coisas deixaram de ser "uma cobra gigante" ou "um castelo" para ganhar forma, cor e impacto. Mas ainda faltava... significado. Um exemplo era que Hermione lhe dizia que Hogwarts era como sua casa, e ele entendia que qualquer lugar seria melhor do que a casa dos Dursleys, mas um castelo de pedras era qualquer coisa, menos parecido com uma casa.

Muitas das cenas que Harry assistira na penseira tiveram que ser seguidas por longas explicações e argumentações, principalmente de Hermione, em que ela tentava lhe transmitir o que ele pensava naquele momento para que agisse de determinada forma. E isso mais o confundia que esclarecia, pois algumas coisas ele conseguia aceitar, mas muitas não tinham muita lógica, como o fato de ele ter terminado com Ginny sendo que eles obviamente se gostavam, ou ele simplesmente ter deixado Voldemort pegar a varinha poderosa sendo que ele estava vendo acontecer e parecia ser algo que complicara muito sua vida.

Quando Hermione acomodou a todos no pequeno apartamento, assumindo que nem Ginny nem Harry estavam em condições de voltar para casa e cuidar das crianças, Harry se deitou no sofá transfigurado em uma cama confortável e fechou os olhos, tentando simplesmente não repassar tudo o que havia visto naqueles últimos dois dias. Era informação demais e ele se sentia cansado de tudo aquilo.

Mas era a sua vida e ele precisava entender. Ele queria entender, porque ali, deitados no colchão arrumado no chão daquela sala ao lado dele, estavam Albus, James e Lily, e eles eram lindos como Harry nunca imaginaria que seus filhos seriam. Mesmo porque, ele não se lembrava de ter um dia se imaginado com filhos. E, no momento em que ele conseguiu entender aquilo, que eles eram seus, ele soube que não podia desistir.

Albus sorriu para ele e disse um "boa noite" somente movendo os lábios para não acordar o irmão que já estava adormecido ao seu lado. Harry sorriu, piscou como em réplica e ficou olhando o filho se acomodar e adormecer.

- Harry. – a voz de Ginny interrompeu sua observação – Hermione pediu para que Hugo e Rose dormissem juntos hoje e arrumou um quarto para nós. Você não quer vir?

O moreno observou os filhos mais uma vez, sentindo o corpo cansado demais, e respondeu, baixo.

- Acho que prefiro ficar aqui. Eu estou bem, obrigado.

Um olhar de apreensão e certo desapontamento passou pelo rosto da esposa, mas ela concordou com a cabeça e seguiu para o quarto, fechando a porta.

Harry não queria dormir. Não conseguiria, mesmo com todo o cansaço. Hermione o oferecera uma poção para dormir sem sonhos ou mesmo que despejasse todos os pensamentos na penseira para conseguir dormir, mas essa última oferta soou absurda quando ele já se sentia vazio demais exatamente por ter deixado seus pensamentos por aí. E se ele os perdesse? E se eles não voltassem da bacia depois? Era melhor não arriscar, já estava sendo bem difícil do jeito que estava.

E mesmo todas aquelas possibilidades o assustavam. Magia o assustava. A facilidade, por tudo o que já havia visto e pelo que lhe fora relatado, que era lidar com corpos que se desintegram ao saltar distâncias "apratando", ou mesmo com a morte como ele fizera, ou com coisas cotidianas como "esticar" a sala para que coubessem todos ali.

Ou vender lembranças em troca de remédios.

Agora ele entendia porque fez aquilo. Olhando para Albus, sentindo aquilo que ele ainda não conseguia definir direito, mas que não estava ali até efetivamente vê-lo e Draco lhe dizer que era seu filho, ele sabia que seria capaz de fazer tudo por ele.

Será que ele foi sempre assim e nunca notou? Ele se atirou no fogo para salvar Draco, havia morrido para salvar... bem, todo mundo, e agora vendia suas memórias para salvar o filho. Ele não conseguia se ver fazendo qualquer coisa desse tipo pelos Dursley, mas não conseguia sentir culpa real por isso. E mesmo assim Hermione lhe contara que ele havia cuidado para que os tios ficassem em segurança durante a guerra. No fim, ele fez algo por eles.

Ele se arriscava por todos, mas ainda não havia visto nada que ele fizera por ele durante todos aqueles anos de que se esquecera. Pelo que se lembrava, tudo o que ele mais queria era encontrar alguém de sua família, que o tirasse da casa dos Dursleys, e ele teve um padrinho e uma escola com amigos para ir. Mas que tipo de sonhos ele criou depois disso? Pelo que, exatamente, ele lutou tanto?

E foi com essa pergunta em sua mente que ele acabou, por fim, adormecendo.

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Hermione aparatou em frente à casa dos Potter e segurou os livros que trazia nos braços para que não caíssem com o impacto quando seus pés atingiram o chão. Sabia que não era saudável levar tanta coisa para fazer em casa, e que isso irritava Ron, mas ela estava simplesmente com trabalho demais nas últimas semanas para que pudesse ignorar e dormir tranquila.

Não era só o seu trabalho, mas todo o esforço em impedir que o acontecido com o Harry chegasse à imprensa, o processo de afastamento dele do cargo e um pedido especial a Hogwats para que James, Lily e Albus pudessem se afastar das aulas por mais alguns dias para ficarem com o pai.

E ela ainda insistia em pesquisar formas de reverter o processo de perda das memórias, mas não obtivera sucesso até agora.

Com tudo isso, quase se esquecera de ver como Harry de fato estava. Bateu na porta e aguardou, tentando baixar a própria frequência, e sorriu quando Ginny abriu e se afastou para que ela entrasse.

- Oi, Ginny. Desculpe vir sem avisar, mas estou correndo um pouco. Passei rapidinho só para ver como você estavam... – Hermione interrompeu o fluxo de pensamentos ao notar o estado de sua interlocutora.

Ginny estava... irritada. Era quase possível tocar sua irritação, ela estava clara na forma como ela bateu a porta depois que Mione entrara, na forma como deu as costas para a amiga bufando e voltou para o fogão, fazendo gestos agressivos com a varinha até retomar o preparo do jantar de forma automática, até que essa combinação perigosa resultou em uma panela virada ao chão e tudo desapareceu com um gesto de varinha e um palavrão baixo e a figura da ruiva se apoiando, tensa, contra a pia.

- O que aconteceu? – Hermione perguntou, preocupada.

- Nada. – Ginny respondeu, tentando manter a voz firme.

- Onde está o Harry? – a morena estreitou os olhos, buscando por uma razão para aquele estado da amiga.

- Na sala, brincando com as crianças.

Com alguns poucos passos, Hermione conseguiu divisar a sala do corredor, e viu a figura de Harry sentado no chão, as costas apoiadas no sofá, trajando vestes simples. Lily estava sentada em seu colo e parecia o "ajudar" nas jogadas de xadrez contra Albus enquanto James estava deitado ao lado lendo um livro.

Tudo parecia normal e coerente para Hermione.

- Ele sabe que eles vão voltar para o colégio amanhã? – perguntou para Ginny.

- Sim. E eu espero que as coisas mudem com isso. – a ruiva sentou-se à mesa, apoiando o queixo na mão parecendo cansada.

- Mudar? – Hermione perguntou, intrigada, sentando-se a sua frente.

- Ele. – ela suspirou e finalmente veio o desabafo que Hermione esperava – Eu já tenho três filhos, Hermione, não preciso de mais uma criança para cuidar.

- Oh. Eu... Eu não pensei que isso fosse acontecer, mas na verdade é previsível. Ele anda agindo como criança, então?

- Não. Bem, na verdade, não exatamente. Ele não faz birra ou tem atitudes infantis em si, até ajuda com o serviço da casa, manualmente, é claro, porque a maior parte dos feitiços ele ainda não voltou a dominar, mas não é disso que eu estou falando. É só que... ele fica o tempo todo com as crianças. O tempo TODO. Dia e noite, Mione. E ele não voltou a falar sobre voltar ao trabalho ou fazer qualquer coisa. Não é ruim, eles até estão ajudando com ele reaprender muita coisa que eu não tenho muita paciência. Mas...

- Mas ele não está olhando para você e você sente falta do seu marido. – Hermione colocou em palavras aquilo que Ginny não queria falar, mas estava nas entrelinhas – Ginny, eu sei que é difícil, mas ele está passando por um processo complicado. Provavelmente ele nem tem noção do que é ser um casal...

- Eu sei. – ela respondeu, a irritação voltando à tona em sua voz – Eu sei, Mione, e eu estou tentando entender e ser paciente. Mas eu tenho me esforçado e ele simplesmente não me olha. Como eu posso mostrar para ele do que eu preciso ou o que eu espero dele se ele não está aqui para mim? Como eu posso voltar a ver ele como meu marido se ele não age como tal?

Hermione mordeu os lábios, buscando uma resposta para isso. Era uma situação difícil e ela não conseguia culpar Ginny por se sentir daquela forma, mas também não havia como culpar Harry ou esperar dele um outro comportamento considerando que o conhecimento de mundo dele estava limitado naquele momento.

- Olha, Ginny... – ela começou, escolhendo as palavras, sem saber exatamente o que dizer, mas foi poupada de um discurso vago pela entrada de Harry.

- Ah, oi, Mione. Não percebi que você estava aqui. – ele era todo sorrisos e parecia mais jovem e mais bonito abraçado a Lily, andando leve daquela forma – Viemos saber se o jantar já está pronto, minha princesa está ficando com fome.

- Acho que não vai ter jantar hoje. – Ginny resmungou, encarando a mesa para não olhar para o marido.

Ele a observou, atento, durante alguns segundos, e Hermione sabia que ele percebia que havia algo errado.

- Você quer que eu faça alguma coisa? – ele perguntou, sério, olhando pela cozinha, e nessa seriedade estava escrito para Mione algo que podia esclarecer tudo: Ginny era uma estranha para Harry.

- Você quem sabe. – a ruiva respondeu, encarando-o com certo rancor.

Ele pareceu não notar. Ou, se notou, talvez aquele olhar não fosse o mais hostil que já recebeu na vida, então ele simplesmente sorriu para a filha, que ainda estava ao seu lado.

- Pizza? – sugeriu, os olhos verdes brilhando ao vê-la sorrindo de volta e correr para a sala gritando a notícia para os irmãos, que passaram a disputar quem faria o pedido através da lareira.

Harry sentou-se à mesa entre as duas e sorriu para Hermione, que retribuiu o sorriso como um cumprimento. Ela gostava desse Harry que não economizava sorrisos, que conseguia sorrir espontaneamente, de forma natural, com o brilho do sorriso se espalhando doce pelos olhos verdes.

- Tudo bem? – ele cumprimentou, suave, pousando as mãos sobre a mesa, e ela concordou com a cabeça – Como está seu marido? O... Tom? Desculpe, eu esqueço o nome...

- Ron. Está bem. Trabalhando. – ela respondeu vagamente, um pouco triste por aquilo, mas ela sabia que não era só Ginny que precisava de paciência com Harry – Ele sente sua falta, você pode ir à nossa casa quando quiser.

Os dedos de Ginny tamborilavam sobre a madeira muito próximos às mãos de Harry e, devagar, se aproximaram o suficiente para envolver as mãos rústicas do rapaz nas suas. Os olhos verdes deixaram o rosto de Mione para pousar nas mãos da esposa, e ele afastou as suas, se levantando.

- Claro. Vou ver se as crianças já escolheram. A gente se vê.

E ele saiu, sem perceber a lágrima que corria pelo rosto da esposa.

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- Harry? – a voz de Ginny soou suave na sala, testando para ver se o homem pensativo sentado no sofá estava acordado ainda.

Ele a olhou como que saindo de um devaneio e sorriu como um sinal para que ela se aproximasse.

- Oi.

- Você não vem deitar? – ela perguntou, deixando o robe de seda que usava deslizasse propositalmente por um ombro, ficando desalinhado em seu corpo.

- Eu... daqui a pouco. Estava pensando. Vou sentir falta das crianças.

- Sim. – ela se encostou ao batente da porta, o observando, e os olhos verdes a encararam como quem esperava uma continuidade para aquilo. Ótimo, ele queria conversar – Eu imagino se... se você não sentiu, sei lá, vontade de ir para o colégio também.

- Um pouco. – ele deu de ombros – Mas eu me sentiria mal em meio a tanto adolescente sendo um adulto. Acho que gostaria de ir ainda, para conhecer, sentir o lugar, sabe? Mas não para ficar e estudar, essas coisas. Afinal, eu já fiz tudo isso, não é mesmo?

- Sim. – ela pontuou a conversa, se aproximando dele e sentando-se de frente em seu colo, devagar, falando de forma insinuante – Você cresceu.

Os olhos verdes a olhavam, confusos, e ele ficou imediatamente ofegante conforme as mãos de dedos delicados começaram a desabotoar suas vestes e tocar seu peito. Ela tirou os óculos do seu rosto com delicadeza, pousando-os sobre a mesinha ao lado, e se debruçou contra ele, beijando-o. Mas não conseguiu nenhuma reação além das mãos fortes a afastando bruscamente.

- O que você está fazendo? – ele perguntou, assustado.

- O que adultos fazem, Harry. – ela respondeu em um início de irritação – Como você acha que tivemos três filhos? Cegonha?

Ele a afastou em um movimento violento, fazendo com que caísse deitada no sofá e se levantou, visivelmente nervoso, olhando o corpo nu da esposa que ficara aparente sob o robe entre surpresa, confusão e medo.

- Você pode não se lembrar, Harry, mas é tão adulto quanto eu. E você me ama. Eu só queria entender porque você está fazendo isso. – as palavras eram carregadas de raiva e as lágrimas corriam pelo rosto da mulher.

E Harry não sabia o fazer.

Deu as costas para a esposa, saindo da casa, saindo de qualquer lugar onde ela pudesse tocá-lo, olhá-lo. Ele sentia coisas demais para definir e precisava de ajuda.

Segurando com força sua varinha, ele fechou os olhos no meio da rua, desejando com todas as suas forças estar em algum outro lugar, com alguém que pudesse ajudar.

Aparatou.

-:=:-

NA: Oi, pessoas.

Me desculpem não ter atualizado semana passada. A viagem que eu precisava fazer foi corrida e não deu tempo.

Mas aqui está o capítulo. Espero que gostem ^ ^

Beijos e obrigada.

Até sábado que vem o/