Capítulo 09 – Resoluções

O que prometia ser a última neve do ano caía sobre a mansão Malfoy de forma suave, deixando os jardins de um tom de branco profundo e imenso e a casa, que em geral inspirava respeito, de longe parecia agora um grande bolo de glacê.

Harry queria rir da visão que teve, mas sentia frio demais para conseguir parar de tremer e bater os dentes. Só descobriu onde estava pelo nome entalhado no grande portão de ferro que se abriu com sua aproximação, e ele correu até a porta da mansão sem se preocupar com mais nada além de uma forma de se aquecer.

O elfo que abriu a porta se assustou com a figura de Harry Potter parada encolhida com os lábios azulados do lado de fora e chamou imediatamente seu mestre.

- Por Merlin, Potter, entre! Tragam um cobertor e água quente! – Draco parou e pensou por um momento no que significava Harry estar ali, daquela forma, de maneira tão repentina – E uma dose de firewhisky.

Enquanto os elfos acomodavam e cuidavam de Harry, ele foi até o escritório, acessando a lareira para a casa dos Potter. Ao colocar a cabeça nas chamas, vislumbrou a sala vazia em meia luz e Ginevra sentada encolhida sobre o sofá com um copo de bebida na mão, o rosto escondido entre os braços.

- Weasley? – ele chamou por força do hábito. Uma risada amarga o respondeu e ela ergueu o rosto para encará-lo.

- Eu acho que sim. – os olhos inchados e o tom bêbado da voz alertaram Draco.

- Eu queria avisar que Potter está comigo.

- Foda-se.

- Hum. Ok. – ele saiu da lareira, apagando o fogo que mantinha a conexão entre as duas casas.

E riu sem conseguir acreditar naquela situação.

- Potter. – ele voltou para sala, encontrando o moreno já mais corado, o cobertor caído sobre as costas e uma xícara de chocolate quente entre as mãos – Você brigou com sua esposa?

- Acho que sim. – Harry deu de ombros.

- E veio para cá? – perguntou ainda incrédulo.

Harry o olhou por alguns instantes, terminando de beber e se levantando.

- Desculpe. Está tarde. Eu já vou indo.

- Não, tudo bem. Eu só... estou surpreso. – ele se sentou em uma poltrona e, ao perceber que Harry ainda estava de pé, em dúvida se era bem vindo ou não, riu e insistiu – Sério, tudo bem, você pode ficar o quanto quiser.

- Eu suponho que nunca fiz isso antes. – ele voltou a sentar, mais confortável.

- Brigar com sua esposa ou vir aqui?

- Ambos. – o moreno respondeu depois de pensar um pouco.

- Acertou. – Draco riu e pediu uma bebida do elfo, que serviu os dois homens – Mas acho melhor você ao menos dormir aqui hoje.

- Eu... eu não sei o que fazer. – Harry confessou em um tom mais baixo.

Draco o olhou, atento, e concluiu que não era a melhor pessoa para dar orientações matrimoniais para Harry Potter e Ginny Weasley. Talvez chamasse Hermione pela manhã.

- Você pode ficar o quanto quiser. – ele repetiu e Harry sorriu em agradecimento.

Os dois beberam em silêncio. Harry fez uma careta ao primeiro gole e tossiu disfarçadamente, mas voltou a provar da bebida mais devagar em seguida.

- Eu não te vi na plataforma hoje. – o moreno comentou depois de um tempo.

- Scorpius não voltou para o colégio. – Draco comentou, pousando o copo de lado, uma sombra passando pelo seu rosto em forma de cansaço – Ele já está dormindo ou viria cumprimentá-lo.

- Vocês estão bem?

Draco encarou o outro homem. Havia preocupação sincera na pergunta que se refletia nos olhos verdes de forma intensa. Ele suspirou, talvez estivesse precisando daquela conversa.

- Não muito. Ele ainda sente a morte da mãe.

Harry concordou com a cabeça, se lembrando que Draco havia comentado sobre a morte da esposa.

- E você? – Draco o encarou, questionador, e Harry completou a pergunta – Você sente falta dela?

Draco riu de forma amarga e tomou mais um gole da bebida, encarando o copo vazio por alguns segundos de silêncio.

- É engraçado. Não era para eu ter me casado com ela. Havia tantas outras mais ricas, mais bonitas, mais interessantes. – ele falava como se não importasse se fosse Harry ali ou qualquer outra pessoa – Mas então a guerra acabou e eu já não era interessante para nenhuma das outras famílias. Durante muitos anos eu desisti da idéia de casar. Embora gerar um herdeiro para a minha família fosse importante, meus pais estavam presos, nossa situação era instável e eu tinha outras prioridades. Então veio o convite. Ela se interessou por mim.

Ele olhou para Harry, embaraçado, e se levantou, se servindo de mais bebida, sua voz adquirindo um tom mais prático.

- Isso é comum entre famílias bruxas, os casamentos envolvem laços profundos e, entre as mais tradicionais, transferência de muita riqueza e poder, então não é difícil que os casamentos sejam arranjados.

- Foi o que aconteceu entre eu e Ginny?

Draco o olhou surpreso.

- Não. Eu acredito que não. Em primeiro lugar, porque você não tinha uma família que negociasse por você, e eu não te vejo fazendo esse tipo de coisa. E, por outro lado, embora os Weasley tenham ganhado muito, desde projeção social até dinheiro, com o casamento de vocês dois, eles não são uma família tradicional, então eu acho que vocês fizeram isso por iniciativa própria. – e ele riu ao ver Harry piscar quase desapontado e beber um pouco.

- Bem, explicaria muita coisa, mas tudo bem. Então Astoria te escolheu. – ele incentivou Draco a continuar.

- Sim. – Draco voltou a ficar sério – Eu aceitei rápido, era uma chance que eu não imaginava que teria novamente. Mas, sabe, é diferente estar casado e ser casado. Eu só fui me ver totalmente em um casamento, sabe, com o compromisso e o envolvimento e até o sentimento necessários, já quando Scorpius era pequeno.

- Ele foi importante para unir vocês? – Harry perguntou, surpreso.

- Muito. Ele se tornou o que tínhamos de mais importante de forma comum. E muitas vezes ver o quanto o outro se preocupa com algo que é precioso para nós se reflete em carinho e lealdade. Cria-se um elo. – ele olhou para Harry e o moreno concordou com um gesto de cabeça, indicando que entendia – Eu ainda estava distante do que meus pais tinham. Eu gostava de Astoria, ela era inteligente, agradável, carinhosa e uma boa companhia, além de boa mãe, mas eu não mataria e morreria por ela como sei que meu pai faria pela minha mãe. – Draco suspirou, voltando à pergunta que Harry havia feito – Sinto falta dela, me culpo em parte pela sua morte, sinto muito por isso de diversas formas. Mas sei que isso vai se aplacar com o tempo e talvez eu até encontre outra pessoa. Minha maior preocupação agora é com Scorpius, porque ela era a mãe dele.

Harry tornou a assentir com a cabeça e voltou a beber em silêncio. Draco o observava com atenção. Nunca havia conversando sobre aquilo com ninguém e esperava por alguma reação, mesmo sabendo que Harry não sabia o que aquilo significava para ele. Mas aquela falta de respostas o estava incomodando.

- No que você está pensando? – perguntou, bebendo displicentemente.

- Nada. – Harry deu de ombros, encarando seu copo vazio – Estou me perguntando se eu já tive algo assim.

E Draco percebeu que aquela indiferença aparente de Harry se estendia a sua própria vida.

- Vem, Harry, vou te mostrar aonde você vai dormir.

o0o

Scorpius não sorria.

Harry não era de sorrir muito também. Sabia disso, embora tivesse mudado com a convivência com os filhos nos últimos dias. Ele gostava de ver seus filhos sorrindo, e por isso passou a sorrir mais também, quase como um reflexo. E talvez por ter isso tão claro em meio a tantas incertezas, Harry notou tão rápido o quanto Scorpius não sorria.

Draco comia mecanicamente na outra ponta da mesa e o silêncio entre os três só era quebrado pelo bater de talheres. A face do loiro estava mais tensa do que na noite anterior e por vezes o moreno percebia um olhar preocupado direcionado ao filho.

- Eu preciso ir ao ministério hoje. – Draco informou, já no fim da refeição – Não devo demorar. Você pode ficar à vontade, Harry.

O moreno concordou com a cabeça e deu um pequeno sorriso de agradecimento.

- E você, Corp, que vai fazer hoje? – Draco perguntou em um tom doce, se voltando ao filho, que somente continuou remexendo o cereal, que quase não comera, sem responder.

O homem se levantou, ficando de pé atrás da cadeira que o filho ocupava, e deu um beijo demorado em seus cabelos, acariciando seu rosto. Pelo pouco que havia convivido com Draco e o sentimento expresso naquela cena, Harry tinha a certeza que aquele tipo de demonstração de afeto em público não era algo frequente, e isso só aumentava o seu significado.

- Você poderia me fazer companhia, Scorpius? – perguntou para o menino, sorrindo – Sua casa é muito grande, acho que eu vou me perder se ficar sozinho por aqui.

O garoto confirmou com um gesto de cabeça educado e Harry captou o sorriso fraco que Draco dera para ele antes de se despedir e deixar a sala.

Ora, se tudo o que ele sabia se limitava ao que uma criança de 11 anos sabia, e ele conseguira lidar bem com seus filhos, talvez pudesse fazer algo por Scorpius também.

o0o

O som da bota batendo contra o mármore do chão do ministério parecia estar no mesmo compasso do coração de Draco.

Merlin, como odiava burocracia. Queria voltar rápido para casa, seu filho precisava dele naquele momento e, no entanto, já havia perdido praticamente o dia todo saltando de departamento em departamento atrás de assinaturas e formas de burlar a longa espera estipulada para se conseguir coisas simples demais.

O segundo período de afastamento de Scopius do colégio fora negado com a alegação de que uma criança no terceiro ano ficar tanto tempo longe das salas de aula era prejudicial ao seu desenvolvimento o suficiente para que fosse preferível que perdesse o ano. Draco não concordava com isso, Scorpius saíra de férias para o natal e não havia voltado, mesmo já estando em fins de janeiro. O prazo conseguido para ele e os filhos de Potter fora de um mês, e as três crianças voltaram no dia anterior, mas a perda de Scorpius fora maior, ele ainda não estava em condições de simplesmente esquecer o que acontecera naqueles dias e pensar em poções ou runas.

Draco já havia gritado com três secretárias e conseguido uma chave de portal para Hogwarts quando descobriu que a decisão não viera de McGonnagal. Ela havia autorizado o afastamento prolongado, mas o conselho ministerial barrara. Então Draco teve que ameaçar mais algumas pessoas, conseguir a documentação que comprovava o óbito de Astoria, duas testemunhas bruxas que conviviam com Scorpius e mais uma papelada para enfim ter a autorização.

Ele estava cansado e nem ao menos havia almoçado com seu filho, mas ao menos conseguira que ficasse mais uma semana em casa. Não que fosse o suficiente, mas era o bastante para que falasse com as pessoas certas dessa vez, caso Scorpius ainda não estivesse pronto.

E essa perspectiva fez Draco encostar a testa contra a parede do elevador e suspirar. Não sabia mais o que fazer. O tempo era curto para que suprisse toda a falta de Astoria na vida de Scorpius, mas se ele conseguisse entender isso, que ele sempre estaria ali para ele, não importa o que acontecesse, já seria uma vitória.

Eles não eram distantes, eram pai e filho, como o que ele tinha com Lucius e Lucius com Abraxas. Talvez até mais próximo, sem a necessidade de tantas formalidades quanto havia em sua infância. Mas ele sabia que não poderia simplesmente substituir o que Astoria representava. Ela era mãe, afinal.

O elevador parou, abrindo as portas com um rangido, e Draco ouviu a voz feminina anunciar o andar que ele precisava ir. Saiu, sentindo o cansaço cada vez maior. Além de seus próprios problemas, agora havia isso também: Potter.

O som da bota voltou a ecoar enquanto buscava a porta com o nome conhecido em letras trabalhadas em metal: Hermione Weasley. Riu quando parou em frente à porta aberta, observando inúmeros papéis voarem de um lado a outro da sala em uma dança pré-orquestrada, a pena correndo rápido sobre o pergaminho seguindo a voz que falava em francês fluente pela lareira e mesmo a colher girando na xícara que esfumaçava o chá recém servido indicavam que ali estava uma bruxa mais do que talentosa, e Draco finalmente admitira isso, mesmo que somente em silêncio.

- Weasley? – chamou, baixo, vendo a mulher sentada à escrivaninha erguer a cabeça do livro que lia – Posso conversar um minuto com você?

- Sobre o quê? – ela perguntou, confusa com a presença do homem, mas sem soar rude.

- Potter.

Ela concordou com a cabeça, fechando o livro e pegando a xícara de chá.

- Podemos ir na cafeteria? Preciso de um pouco de ar.

- E eu de um café. – Draco concordou, voltando ao seu lado para o elevador.

- Dia difícil? – ela perguntou, rindo e olhando para o loiro enquanto bebericava seu chá.

- Scorpius. – ele disse, sério.

- Ah. Sinto muito. Eu pensei que...

Sua fala foi interrompida pelos sons do elevador chegando ao andar aonde iam, e Draco se apressou em sair, se dirigindo ao balcão e fazendo o pedido.

- Potter está na minha casa. – ele informou, direto – Acho que ele e a esposinha tiveram algum tipo de atrito matrimonial ontem à noite e ele achou que eu era a pessoa mais indicada para dar apoio.

A mulher engasgou com a bebida, tossindo e tentando respirar.

- Eu já tive minha dose de gargalhadas com a situação. – Draco sorriu e continuou – Mas embora eu entenda a atitude dele, você há de convir que qualquer um, até o imprestável do seu marido, pode ajudar mais do que eu nesse caso.

Ele aceitou o café que a garçonete pousara na mesa em que ocuparam e bebeu devagar, apreciando o efeito imediato da cafeína em seu organismo, deixando-o mais alerta.

Alerta o suficiente para perceber o silêncio da sua companhia.

- E então? – ele encarou Hermione, esperando por qualquer atitude da mulher. Era o melhor amigo dela, não era?

- Eu... Bem, eu preciso conversar com Ginny primeiro e saber o que aconteceu, não acho que Harry vá ter uma percepção global da situação, especialmente se for quanto ao que eu acho que foi.

- Sim. E o que você acha que é? – Draco perguntou, parcamente interessado, prevendo que aquilo não se resolveria tão cedo.

- Bem... Acho que isso diz respeito aos dois, mas se ele te procurou talvez você possa ajudar de alguma forma...

- Não é essa minha intenção, Granger. – Draco respondeu, irritado – Por mim, tanto faz se estão juntos ou separados.

- Ele está na sua casa, não está? Então acho melhor começar a se preocupar com pelo menos ele ter um lugar para voltar. – ela disse com desprezo – Foi você que ofereceu ajuda e fez com que um homem sem memória acreditasse que podia contar com você.

- Oh, ótimo. – Draco respondeu entre dentes, voltando a beber seu café – E o que me diz de levar ele para a sua casa e cuidar disso colocando os dois frente à frente? Seria prático e rápido, talvez até indolor.

- Hum. Não. Acho que não. Deixe-me conversar com a Ginny primeiro, pelo menos. – havia seriedade na voz da mulher e ela parecia não saber exatamente o que fazer, e isso preocupou o loiro.

- O que você acha que aconteceu? – se ele pudesse realmente ajudar, talvez faria só para que Potter arrumasse sua vida de uma vez por todas e o deixasse em paz.

- Bem, ela vinha se queixando... – a mulher encarou o outro avaliativa, e ele fez um sinal impaciente para que ela continuasse – Que ele não se portava mais como... homem. Bem, convenhamos, Draco, Harry está com a memória de uma criança de onze anos, não é como se ele fosse corresponder ao comportamento esperado de um marido.

- E a Weasley é burra demais para pensar nessa possibilidade sozinha?

- Ela sabia, já havíamos conversado sobre o assunto, mas você sabe como a Ginny é impulsiva e impaciente. Acho que ela pode ter feito alguma coisa que assustou o Harry.

Draco mordeu os lábios e encarou a mesa, tentando por tudo não rir. Merlin, ele estava cansado, havia perdido sua esposa há poucos dias, estava com uma criança traumatizada e um homem com amnésia o esperando em sua casa, mas pensar em Harry Potter naquela situação era cômico demais para sua sanidade. E Hermione também estava rindo quando ele já não segurava mais o riso e os dois finalmente haviam se entendido.

Ok, ele esperaria que ela se certificasse do que aconteceu. Enquanto isso, teria uma conversa de homens com seu ex-inimigo de escola. Só para ter motivos para rir.

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NA: Olá, crianças.

Desculpem a demora para atualizar de novo. Meu computador quebrou, fiquei um tempo em reclusão digital desesperadora. Mas passou.

Acredito que de agora até o fim do ano poderemos engrenar até o fim da fic. Que está próximo. Próximo demais. Oh, meu deus o.o

Enfim, espero que estejam gostando. Agradeço a todos que estão lendo. E um beijo especial àqueles que deixaram comentários. Amo vocês.

Beijos e até sábado que vem o/