Capítulo 12 – Intimidade

O sol brilhava escaldante sobre Londres.

Harry ficou um tempo encarando o reflexo que brincava na curva do copo vazio em suas mãos. Era o que restara do seu café da manhã, tomado sozinho e em silêncio de pé em frente à grande janela que dava para a avenida movimentada. Era uma vista legal. Ele gostava dali, de ver as pessoas passando, de ver o sol batendo no assoalho e a luz da noite se espalhando pelo loft quando deixava a janela aberta.

Se voltou, deixando o copo sobre o balcão, e olhou à volta. Sua cama estava arrumada, assim como a mesa em que costumava trabalhar com Draco. Haviam conseguido deixar seus negócios em ordem, agora era só administrar, algo que, no julgamento de Draco, Harry já poderia fazer sozinho. Lógico que ele se ofereceu como suporte caso algo desse errado. Ele sempre estaria ali.

Os olhos verdes correram o grande espaço que poderia chamar de sua casa. Um espaço grande, quase impessoal e vazio. Ele sempre estaria ali.

Ele não estava ali. Há mais de duas semanas não se viam. Férias, ele havia dito, as crianças chegariam para as férias de verão naquela tarde e cada um tinha sua família para cuidar. Eles não tinham mais nada em comum para tratar.

E aquilo estava causando uma sensação estranha em Harry. Ele engoliu em seco, os olhos correndo de móvel em móvel, como se procurando a palavra certa para definir aquilo, mas tudo o que ele conseguia encontrar era... nada.

Ele estava sozinho. Literalmente sozinho. Absolutamente sozinho. Ele nunca estivera tão sozinho em toda a sua vida, fosse na parte em que se lembrava, fosse no que haviam lhe mostrado do que havia esquecido.

E aquela sensação de estar sozinho não lhe dava medo ou mesmo a solidão em si. Ele sentia falta. Sentia falta de alguma coisa muito específica que ele não conseguia traduzir. E sentia a necessidade iminente de fazer algo, algo urgente de que precisava muito, como se fosse sufocar se ele não tomasse uma atitude a respeito daquilo que não estava ali.

E de repente ele sabia exatamente o que estava faltando.

Pegou sua capa de cima da poltrona e aparatou. Seus pés tocaram o chão e ele sentiu o enjoo que normalmente acompanhava a magia quando se deslocava. Fez uma anotação mental de perguntar para Hermione se ia conseguir se livrar disso algum dia e procurou se orientar, para ter certeza de que ao menos havia ido aonde queria. O grande relógio no alto da torre à sua frente lhe dizia que estava adiantado, tinha tempo até o trem chegar. Mas ele já deveria estar lá.

As pessoas na estação de King Cross corriam em seu cotidiano sem notar o homem que andava apressado, tentando disfarçar sua pressa com as mãos nos bolsos sob a capa e a atitude displicente ao se encostar à parede entre as plataformas nove e dez.

A sensação da magia envolvendo seu corpo fez Harry sorrir, fechando os olhos para reabri-los já na plataforma nove e meia. O trem de Hogwarts ainda não havia chegado, mas alguns pais ansiosos já pontuavam rodinhas aqui e ali no espaço destinado ao desembarque. Os olhos verdes examinaram vagamente as pessoas, sorrindo quando alguém lhe acenava. Ele ainda não se acostumara ao fato de ser reconhecido por estranhos.

- Chegou cedo, Potter. – a voz soou grave às suas costas e Harry voltou a sorrir antes de se virar. Se ele o encontrou primeiro significava que o estava procurando também, não é mesmo?

- Estava com medo de me perder na estação. É a primeira vez que venho sozinho aqui. No dia em que trouxemos Scorpius, eu estava ansioso demais com ele para prestar atenção no caminho.

- Ele ainda escreve para você mais do que para mim? – Draco perguntou, sorrindo, apertando a mão de Harry em cumprimento.

- Sim. - ele respondeu com uma leve malícia – Na última me disse que queria me ver antes de irem viajar. Você não me disse que ia viajar. – ele olhou o loiro mais atentamente.

- Acho que vamos. – o homem suspirou – Espero que sim.

Os olhos verdes examinaram o rosto pálido. Draco não parecia mais permanentemente cansado como nos primeiros dias em que se conheceram – de novo -, mas ainda havia um traço de preocupação permanente em seu semblante. Harry poderia se questionar se por acaso ele sempre estivera ali, antes de perder a memória, como um traço da guerra ou algo assim, mas o fato de que ele se atenuava quando o loiro estava junto ao filho indicava que aquilo era recente e tinha motivo concreto.

- Ele está bem, Draco. - o moreno reafirmou, percebendo a insegurança do outro.

Draco concordou com a cabeça e retomou o raciocínio.

- Acho que vou propor a ele morarmos por algum tempo em uma propriedade no campo. Não é muito distante de Londres, mas mais aconchegante. Pertence à família há séculos e deve ter ficado abandonada durante a segunda guerra, vai precisar de uma reforma, mas acho que pode atender às nossas necessidades. – sua voz baixou um tom, como se pensando consigo mesmo – E tem menos lembranças. A mansão tem me parecido vazia demais.

- Astoria? – Harry perguntou baixo também, se aproximando do outro.

- Para mim nem tanto. Talvez para Scorpius. Eu sinto falta de companhia, mas já consegui aceitar. – ele sorriu amargo – Eu tenho lembranças demais daquela mansão, Harry. Astoria foi uma das partes boas da minha vida. Eu preciso buscar outras. - ele fez uma pausa - E você, já conseguiu uma casa de verdade?

- Consegui mais três camas. – ele riu e desviou o olhar quando o loiro o encarou em evidente reprovação – Mas eu sei que as crianças não podem ficar lá. Uma casa no campo, você diz? Talvez possamos ser vizinhos. Eu gosto do campo.

- Você nunca viveu no campo, Potter.

Harry ficou repentinamente sério, olhando os trilhos vazios mais à frente.

– Eu sinto falta de estar perto. Sabe, de você e Scorpius. Voar, comer com companhia, conversar mais, saber que tem alguém dormindo no quarto ao lado. Hermione é ocupada demais, Ron é... parece que ele nunca está realmente comigo. E as crianças não vão ficar para sempre, seja para voltarem para o colégio, seja quando terminarem o colégio. - ele olhou de relance para o loiro - Você tem sido ótimo, mas é trabalho, e tem razão quando diz que o loft não é uma casa. - ele hesitou por um momento, desviando o olhar para os trilhos novamente - Os dias que eu passei na sua casa são o que eu tenho de mais concreto desde que tudo aconteceu.

Draco olhou a face do homem ao seu lado. Ele parecia mais velho do que na última vez que se viram, há algumas semanas, quando fecharam o último balanço e decidiram tirar férias, cada um com os respectivos filhos que chegavam para o verão. Mas não que essa mudança de expressão fosse ruim. Seu rosto se revelava mais sério e mais certo, mais forte e menos perdido do que se acostumara a ver.

Ele parecia mais homem.

- Por que você não leva seus filhos para lá? Podemos passar as férias todos juntos. Tenho certeza de que eles gostariam. – sugeriu, meio incerto – E você pode conhecer o lugar e ver se te interessa.

O moreno concordou com um gesto de cabeça e ficou em silêncio. Ele parecia angustiado. Draco não sabia o que dizer, de onde vinha essa angústia repentina? Parecia que Harry tinha algo a dizer, mas... se proibia. As imagens dos tios gritando com a figura diminuta do menino prestes a ser castigado voltava à mente de Draco. Ele se aproximou, pousando uma mão no ombro do moreno, dizendo em um tom mais confidente.

- Você pode conversar sobre o que quiser comigo, Harry. O que foi? Você está tenso...

- Ficar perto de você me interessa. – Harry respondeu com firmeza e Draco se assustou com a seriedade daquela afirmação. O moreno o encarou, os olhos verdes perto demais – Não é a casa ou o lugar ou ter ou não uma ocupação. Isso eu já consegui. Eu estou sentindo falta da forma como você me olha, das coisas que você me fala. Você me diz que se sente sozinho, mas não é falta da Astoria. Eu me sinto sozinho e, sim, é falta de você.

- Harry, eu acho que você está confuso. – Draco piscou, tentando colocar as ideias no lugar. Aquilo era repentino demais. Mas, mesmo assim, se afastar sequer passou pela sua mente – Eu estive muito próximo de você e certamente fui um apoio, talvez você esteja confundindo...

Mas sua fala foi interrompida quando o moreno o puxou pela frente das vestes unindo seus lábios em um beijo casto que durou segundos o suficiente para sentir a respiração de Harry se agitar com o toque e seu próprio corpo ficar quente demais. Era um beijo infantil, de quem precisa daquilo e não sabe como fazer ou o quanto fazer. Era a tradução do que Harry estava sentindo.

Por um segundo, Draco pensou na imagem de Harry criança e sentiu alguma culpa por aquele beijo. Mas o cheiro de Harry não era infantil, as mãos fortes que o seguravam não eram infantis, aquela ideia e aquela decisão não tinham nada de infantis. E aquele beijo era, mais do que tudo, uma expressão. Harry não tinha medo de proximidade com Draco como teve com Ginny. Ele queria aquilo. E romper aquela barreira, naquela situação, significava muito. E Draco entendia perfeitamente o que Harry estava sentindo e não via porquê negar aquilo.

Ele apoiou a mão na nuca do moreno, escorregando seus dedos entre os cabelos de forma suave, como que para garantir que ele não saísse dali, e então entreabriu os lábios sentindo Harry estremecer com aquele toque novo. Os olhos verdes se abriram e encararam os seus em um momento de dúvida, mas Harry não precisava se lembrar de nada para viver aquilo. Fechou os olhos, correndo as mãos pelas costas de Draco, puxando-o para mais perto e se adaptando à posição quando as bocas se encaixaram em um toque íntimo demais, e era exatamente daquilo que eles precisavam.

E o loiro reconhecia a força de um homem e sabia quem estava ali com ele. Aquele beijo era segurança e necessidade de ambos, e era a vontade de, talvez, começarem algo.

Juntos.

FIM

NA: Olá, queridos.

Ma memórie sale acabou, enfim. Foi uma fic longa, mais pelo seu tempo de postagem do que pela quantidade de texto, mas eu gostei muito desse tempo que passamos juntos, nesse pequeno universo que a fic abriu, de lembranças e um quê de infantilidade.

Espero que tenham gostado, não somente do fim, mas da fic como um todo.

Espero comentários sobre o que acharam e gostaria de agradecer a todos que leram e deram apoio para que essa fic se concretizasse.

Muito obrigada.

Agora, recados e perspectivas para o futuro:

- Hoje eu estou atualizando Ma memórie sale e, mais tarde, devo postar drabbles que fiz para projetos do Fórum 6v também, além de atualizar meu profile.

- Semana que vem eu vou postar capítulos de duas fics: Aarde, uma DG com um pouco de pinhão, que já está na metade. Convido todos que estavam lendo Ma memórie Sale para lê-la, garanto que vão gostar.

- A outra fic será Moonlit, uma long Fenrir/Harry, e eu sei que esse ship tem um público muito menor e diferente do público de pinhão, mas gostaria de deixar aqui meu convite para experimentarem esse ship de que eu gosto tanto.

- Para aqueles que lêem pinhão e só pinhão: tenho uma outra long no forno, Trapped, que deve demorar um pouquinho, mas está entre minhas prioridades para terminar. Fiquem atentos que em breve terá fic nova.

Beijos, pessoas! A gente se vê!